Uma coisa misteriosa debaixo da coberta

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Tudo aconteceu no 4º andar, na Pediatria do Hospital Universitário. Dr. Sandoval e Dr. Valdisney entram em um quarto onde está apenas um pequeno menino acompanhado de sua mãe. 

A mãe estava sentada ao lado da cama de seu filho, que estava deitado junto ao seu cobertor marrom, com apenas com uma perna engessada pra fora da coberta. Os besteirologistas se apresentam e dão início à consulta. Sandoval nota que o cobertor está se mexendo sozinho – era o pé do menino debaixo da coberta – e comenta alto com Valdisney. 

debaixo da coberta

Logo os dois besteirologistas começam a ficar intrigados com o movimento do cobertor e chegam à conclusão de que existe algo a mais embaixo da coberta, além do simpático menino. Assim arquitetam um plano: Sandoval pega seu instrumento musical para bater na tal coisa que se mexia na coberta e Valdisney fica na retaguarda. Não deu muito certo… Todas as tentativas de pegar a tal coisa misteriosa sempre terminavam com uma batida na cabeça do Valdisney. E Sandoval sempre errava a mira. 

Uma coisa debaixo da coberta - luciana serra

Muitas tentativas depois e árduas cacetadas em suas cabeças, os besteirologistas desistem:

- Acho que essa coisa debaixo da coberta só vai parar de mexer depois de um belo pum! 

E não é que o menino levou a sério e soltou um belo de um pum alto e estrondoso debaixo da coberta? Todos caíram num ataque de risadas: criança, palhaços e a mãe com as bochechas vermelhas de vergonha. 

O problema foi resolvido! A coberta se aquietou e só sobraram risos e gargalhadas. Alguns segundos depois os besteirologistas foram saindo de fininho, pois o cheiro não estava muito agradável…

Dr. Sandoval e Dr. Valdisney (Sandro Fontes e Val Pires)
Hospital Universitário – São Paulo

Obrigado, até o próximo Encontro!

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Depois de quatro dias de imersão no Encontro Nacional de Palhaços que Atuam em Hospital, é hora de voltar pra casa. 

adeus encontrao

O evento trouxe muita reflexão, debates e oficinas de orientação para participantes que vieram de todos os cantos do país. A ideia era discutir o trabalho dentro do hospital e a qualidade do que é levado para os pacientes. Raul Figueiredo (dr. Lambada), tutor do programa Palhaços em Rede e um dos idealizadores do Encontro, conta um pouco do que aconteceu por lá:

- veja o resumo do primeiro dia
- veja o resumo do segundo dia
- veja o resumo do terceiro dia

“É com muita alegria que escrevo para agradecer a todos que participaram do 3º Encontro Nacional de Palhaços que Atuam em Hospital e contar um pouco o que aconteceu nos quatro dias de evento, no meio do feriado da consciência negra! Creio que esse encontro abriu a consciência de muita gente para uma nova realidade, do que se espera e se exige para continuarmos atuando nos hospitais com potência e qualidade. 

Parabéns a toda equipe de profissionais dos Doutores da Alegria, das diversas áreas, que atuou na produção; aos artistas formadores que deram as oficinas de habilidades – música, jogo, improviso e mágica, assim como a oficina institucional – e aos palhaços que atuaram na Roda Besteirológica. Um agradecimento especial à Mirna e à toda a equipe do Liceu Santa Cruz, que abriu as portas, janelas, armários, geladeiras e ainda estendeu um tapete vermelho para nos receber com carinho e respeito durante todo o evento. 

Uma alegria receber mais de 100 participantes vindos de 13 estados brasileiros: Acre, Alagoas, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Paraíba, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo representados por 40 grupos: Anjos da Alegria, Arte Cura, Atos & Palhaços, Cia ETC & Clown, Circulo do Riso, Cirurgiões da Alegria, Compartilhando Riso, Clown Fusão, Doutores + Palhaços, Doutores da Pá Virada, Doutores do Coração, Doutores Sorriso, Doutorzinhos, Dr. Vascão, Esparatrapo, Esquadrão da Alegria, Expresso Riso, Fisioterapia com Alegria, G-Palhaços, Gema da Alegria, Hospitalhaços, Instituto Ha Ha Ha, Medicômicos, Narizes de Plantão, Núcleo Artístico GEMA, O olhar do Palhaço, Operação Alegrarte, Operação Arco Íris, Palhaços de Plantão, Palhamédicos, Plantão Sorriso, Presente da Alegria, Projeto Sorrir, Raros da Alegria, Sopradores da Alegria, Sorriso de  Plantão, SOS Alegria, Terapeutas do Sorriso, Trupe da Saúde, Trupe d"Alegria e Viver de Rir.

Agradeço aos nossos convidados médicos: Dra Maria Aparecida Basile e Dr. Luiz Fernando Lopes, e ao filósofo Emílio Terron por abrilhantarem nossas discussões com reflexões sobre o cuidar. Como eu me cuido para entrar no hospital, como cuidar do meu paciente, dos seus acompanhantes e dos profissionais que atuam conosco lado a lado nos corredores, salas de espera e nos quartos… 

Ao Wellington Nogueira e à Morgana Masetti por nos colocarem na linha do tempo e mostrar a importância do que estamos construindo; de qual palhaço somos representantes, temos uma linhagem e em que modelo de hospital atuamos? Como inserir o palhaço no movimento de humanização sem banalizar suas atribuições questionadoras e reflexivas? Como responder artisticamente às provocações que passamos e enfrentamos em nossos atendimentos hospitalares? 

Por fim, aos apoiadores, patrocinadores e aos ouvintes que acompanharam as mesas de discussão, palestras e cabarés! 

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Na abertura do evento tivemos a Roda Besteirológica dos Doutores da Alegria com cenas que saíram dos quartos de hospital e chegaram ao palco. Participaram Marcelo Marcon e Nilson Rodrigues (Dr. Mingal e Dr. Chicô) com Aula de Besteirologia, Layla Ruiz e Raul Figueiredo (Dra. Pororoca e Dr. Lambada) com Firuliru e Asa Branca, Val de Carvalho e Sueli Andrade (Dra. Xaveco e Dra. Greta) com Boneca Tayná, Wellington Nogueira (Dr. Zinho) com Ora, Bolhas!, Márcio Douglas e Du Circo (Dr. Mané e Dr. Pinheiro) com Atendimento – Encontro da Criança e novamente Raul Figueiredo e Val de Carvalho com Trilhares, relembrando uma cena criada em 2006 pela dupla. 

Na segunda noite de cabaré recebemos cenas de diversos grupos que participaram do evento: Eliseu Pereira (Dr. Gaguelho, Cirurgiões da Alegria) com Leôncio, o Gato Louco, Dênis Menezes e Annelise Caneo (Délcio Garapa e Arlinda Pestana, Cirurgiões da Alegria) com Música Havaiana, Sem Nome da dupla Bruno e Micheli Madalozo (Esparadrapo e Tibúrcia, Doutores Palhaços), Bruno Mancuso (Pelúcia, Trupe da Saúde) com Carlinhos Ganha um Ferrorama e várias cenas do Espetáculo Vitamina com os palhaços da Trupe da Saúde. Também nos divertimos com uma dublagem de Alex Mazzanti (Xurumi, Operação Arco Íris) e Renato Garcia (Dr. Gracinha, Gema da Alegria) nos apresentou a canção da bailarina.

Na terceira noite recebemos os artistas do documentário Circo Paraki e sua diretora Priscila Jácomo, que apresentou brilhantemente seus convidados: Pepin e Florzita, Loren e Marília de Dirceu. Que noite incrível tivemos, não? Quem ficou até o final e participou da conversa com certeza entendeu que o palhaço é a alma do circo e fez com que assumíssemos um forte compromisso com esse ofício… Emocionantes os depoimentos do quarteto e o respeito com a plateia. Tiramos o chapéu e aplaudimos de pé!

O Encontro só aconteceu nesse formato por que a rede de palhaços que atuam em hospitais atendeu à nossa provocação para discutir este ofício e contribuiu com questões que os impedem de realizar um trabalho melhor. Juntos pudemos trazer profissionais que nos ajudaram a pensar numa forma de construir um modelo de atuação visando a criação de uma nova profissão, para que em breve ouçamos nossos filhos e netos nos comunicarem que irão prestar vestibular para a faculdade de Besteirologia! 

A Escola dos Doutores da Alegria preparou as oficinas e o conteúdo tendo em vista as necessidades apresentadas na enquete realizada no grupo do Facebook do programa Palhaços em Rede. O que vimos foi um amadurecimento nas discussões e a compreensão do que nos propomos a fazer. A questão sobre quem começou primeiro – Michael Christensen ou Patch Adams – foi esclarecedora para que os participantes entendessem a real diferença entre um palhaço que faz a paródia do médico e o médico que se veste de palhaço. Para um, o palhaço é um fim, uma meta, um objetivo na vida; para o outro, um meio, uma ferramenta para acessar seu paciente. Não basta o amor ao próximo, é necessário estudar… Patch estudou por vários anos a Medicina antes de vestir-se de palhaço… Ele conhece o lugar onde vai atuar… 

O hospital não é um lugar qualquer. Precisamos estar preparados para enfrentar os desafios propostos lá dentro tanto nas questões da saúde como nas questões artísticas, quando nos propomos a vestir a máscara do palhaço, pois ela também requer estudo, assim como vestir a máscara do médico. Parece que isso ficou claro para os participantes! A importância em estudar e aprimorar o conhecimento: “Quem somos, o que fazemos e onde atuamos?”

Vamos fortalecer essa rede com nossas discussões, apontamentos de filósofos, artistas, profissionais da saúde e da nossa sociedade! Foi lindo, tocante, reflexivo, divertido, exaustivo, conflitante, confiante, empolgante, emocionante, relaxante e elegante! Enfim, foi o que deveria ser!

E tudo isso foi filmado pelo Sérgio Nogueira, da Bamboo, acompanhado da sua fiel escudeira Pietra, e o registro fotográfico ficou a cargo da querida Nina Jacobi.

Saímos satisfeitos desse terceiro encontro e deixamos uma provocação para os participantes:

Inspirados em tudo o que vivemos e desfrutamos nesses quatro dias, o que vocês acreditam que possam fazer de imediato já na próxima visita ao hospital? 

No meio do caminho tinha um palhaço…
Tinha um palhaço no meio do caminho
E agora José? Para onde ele vai?
Qual será seu fim?
Qual o meio para chegar a esse fim? 

Daqui a dois anos tem mais! Que em 2015 possam acontecer fóruns regionais conduzidos pelos grupos da rede para que em 2016 as discussões sejam ainda mais esclarecedoras. Que o comprometimento com o trabalho seja um valor alcançado por todos.”

E a gente dorme sorrindo?

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No primeiro encontro com a I., ainda na UTI, ela não deu muita conversa para os besteirologistas e foi logo fechando os olhos, fingindo que dormia.

Mantivemos certa distância e, embora conectados com ela, foi assim que percebemos que tudo não passava de um disfarce, na verdade ela apenas queria nos contemplar. Entre as brechinhas de seus dedos, ela nos espiava e acompanhava toda a movimentação que fazíamos dentro da UTI.

e a gente dorme

Em outra visita, encontramos a menina em uma das enfermarias. Apesar de ser outro ambiente, ela continuou mantendo o jogo, e como no nosso caso quem comanda é a criança, respeitamos o jogo estabelecido por elaContinuamos a encontrá-la e ela continuou a “dormir”, mesmo que quase sempre tenha um sorriso no canto da boca.

- Ué, e a gente dorme sorrindo?

Como médicos são sempre desconfiados, e no caso de besteirologistas ainda somos também curiosos, resolvemos nos certificar e perguntar à própria I. se ela estava dormindo, no que prontamente ela respondeu:

- Tô dormindo, sim! 

Uma pergunta foi pouco, era preciso checar a informação.

- Então não está acordada? 

E veio a preciosa resposta que selou o diagnóstico:

- Tô acordada, não! 

Estava então tudo esclarecido! A I., ao nos ver, prefere dormir e sonhar com os besteirologistas. Pelo menos foi o diagnóstico mais simpático a que chegamos. Para nós! No encontro entre um palhaço e uma criança é isso que importa, o respeito mútuo, a confiança e a certeza de que podemos ir até onde o jogo permitir. O “não” de uma criança muitas vezes significa um “sim” e de não em não, de sim em sim, vamos atendendo cada uma delas conforme as regras do jogo. 

Já com as mães, o “fingir” que está dormindo ou dançar e até rebolar quando tocamos uma música faz com que se abra um portal de alegria nas enfermarias. Para a criança, se a mãe se diverte ela também se diverte, e se uma enfermeira se diverte, nossa!, a criança rola de rir na cama. E imaginem quando um médico se diverte! Para a criança isso tudo é muito incrível, e para nós, tirar partido disso é mais do que uma simples diversão, é estreitar as relações dentro do hospital e falar de igual pra igual, todos em prol da mesma causa, que é tornar aqueles dias de internamento da criança mais leves e até divertidos.

Dra Mary En e Dr. Micolino (Enne Marx e Marcelino Dias)
Hospital da Restauração – Recife

Nós fomos: Congreso de Payasos Hospitalarios

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Dia desses chegou um convite para que participássemos do 2º Congreso de Payasos Hospitalarios em Cali, na Colômbia, organizado pela CaliClown. Quem representou a gente foi o Raul Figueiredo, ator, palhaço e tutor do programa Palhaços em Rede.

Congreso de Payasos Hospitalarios

Além de participar das palestras, ele ministrou uma oficina para mais de vinte pessoas – e tudo em espanhol! Acompanhe o diário de viagem do Raul:

“Assim que cheguei ao congresso, acompanhei as apresentações de Tsour Shriqui, do Dream Doctors de Israel, e de Wendy Ramos, do Bolaroja do Peru. Johana Barreneche, ex-aluna da Escola dos Doutores da Alegria, fez uma tese sobre o nosso trabalho e a apresentou no primeiro dia do congresso. Também tive boas conversas com Moshe Cohen (EUA), Luis Silva (Clown em Vie – Suíça), Magdalena Dragicevic (Clown Celula Roja – Chile e Equador), Juan Carlos Salazar (Titiriclaun Fundación Com-tacto – Colômbia) e com Ilana Levy (CaliClown – Colômbia).

No sábado e no domingo ministrei a oficina de palhaço para hospital. O lugar era uma antiga casa reformada. Um espaço cultural onde à noite estava acontecendo um festival de cinema. Muito bacana!

Na oficina haviam 24 pessoas, sendo cinco alunos de Medicina, dos quais quatro nunca tinham tido nenhum contato com teatro ou palhaço! Por outro lado havia palhaços com muitos anos de atuação em hospital. Assim, optei por exercícios que dialogassem com esse público tão diversificado. Mesclei as dinâmicas com os comentários sobre o palhaço e a atuação em hospital, criando os links para que pudessem entender a transposição do que fazemos em sala de aula para o atendimento.

Após um exercício, um aluno desabafou:

- Eu sempre entrei para ganhar, todas as outras oficinas falavam isso. Essa é a primeira vez que eu perco o jogo, mas entendi que a plateia ganhou com isso, se divertiam quando eu me equivocava.

Tivemos uma boa conversa após o improviso com objetos: o que precisamos de fato para a nossa atuação no hospital?Apresentei a música “Chapéu tem 3 pontas” e perguntei se eles tinham algo parecido. Uma das alunas cantou “Mi barba tiene 3 pelos” e criei na hora uma coreografia para brincar com ela trabalhando: memória, escuta, percepção e constrangimento.

No segundo dia estavam mais atentos, mais rápidos e precisos, com o corpo dilatado, tônus e olhar aceso. Falamos sobre maquiagem e figurino para hospital, sobre a autoridade, as competências, como o palhaço trabalha as suas habilidades, citei alguns palhaços que se esforçavam em fazer direito e como isso era engraçado, gostamos de torcer pelos mais fracos.

Todos foram muito generosos nos comentários e agradecimentos. Esperam que voltemos no próximo encontro. Muitos disseram que o conteúdo da oficina serve para além do palhaço, que utilizarão no seu trabalho e na vida!

Congreso de Payasos Hospitalarios

Obrigado pela oportunidade e nos vemos em uma próxima! HASTA LUEGO!!

O Raul também ministra oficinas na Escola dos Doutores da Alegria, em São Paulo. Quer saber mais? Escreva nos comentários do Blog ou envie um e-mail para doutores@doutoresdaalegria.org.br.

Mateus, o artista

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No final do ano passado, as besteirologistas Xaveco e Juca Pinduca foram eternizadas em um quadro pintado pelo nosso amiguinho Mateus, que reside no Hospital do Mandaqui.

Juca e Xaveco por Mateus

Agora, com a minha permanência (Dr. Dus"Cuais) e da Dra Greta no hospital, todos os besteirologistas virarão obras de arte. Já foram oito e os quadros estão ficando um mais bonito que o outro! Estão de dar inveja em Michelangelo, Donatello, Rafael, Leonardo e Mestre Splinter. Abaixo, veja a versão da dupla pelos olhos e pincéis do Mateus:

Greta e DusCuais por Matheus

Acredite se quiser: ele faz essas obras pintando com a boca. Para isso, ele tem aulas com profissionais no próprio hospital.

E aguardem que vem mais por aí…. Agora ele está empenhado em desenhar a Dra. Lola:

Mateus pinta Lola

 Parabéns, Mateus! 

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A gente se modifica a partir do outro

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Saio do hospital com muitas histórias na cabeça e no coração. Recrio minha história a partir destas histórias. Histórias de crianças, de mães, de pais, de famílias, de médicos, enfermeiros, funcionários, palhaços e frequentadores do hospital. 

Imagino histórias a partir dos momentos vividos, das imagens vistas, das emoções sentidas. Por exemplo…

Imagino a história do “príncipe Karabom, herdeiro do trono de uma grande tribo no Sudão. Nasceu no Brasil, pois sua mãe, a Rainha, estava grávida quando se iniciaram as guerras internas entre norte e sul do país. Seus pais vieram fugidos deixando para trás casa, pertences e amigos. O príncipe estava predestinado a voltar para sua terra de origem assim que completasse 18 anos, para recuperar a dignidade dos pais…” E por aí vai… 

Na verdade Karabom (nome fictício) é um menino lindo que chegou ao Itaci e me conquistou logo de cara. Ele, sua mãe e seu pai. Os pais realmente vieram do Sudão. Ele nasceu no Brasil. Mas é só isso que sei, o resto inventei. Gostaria de poder inventar finais felizes para as histórias de todas essas crianças e que eles se realizassem assim, plim!, como mágica. Torço muito para que a história de Karabom e de sua família tenha um final feliz. Muito mesmo. 

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Algumas histórias não ouso imaginar, pois me parecem muito doloridas até na imaginação…

Estávamos eu e dr. Pistolinha, já sem os trajes de besteirologistas, porém com a alma ainda brincante, olhar aguçado, antenas ligadas, descendo o elevador para irmos embora, depois do dia de trabalho. De repente a porta se abre. Entra um adolescente. Ou uma adolescente? Não consegui descobrir se era menino ou menina, o que vi era uma pessoa muito magra, com ossos proeminentes, cabeça quase pelada, crânio saliente. 

Ao seu lado, oferecendo o braço como apoio, uma mulher com ares de assistente social. Em seguida uma enfermeira acompanhando a dupla. Até aí uma paisagem bastante conhecida para nós. Até que entra no mesmo elevador, acompanhando o trio, um policial armado, em estado de alerta, a mão apoiada na arma como se pudesse ter que usá-la a qualquer momento. 

Chegamos ao térreo, saída. Todos desceram. Quando passamos pela porta de saída estavam o adolescente de um lado e o policial do outro. Passamos entre os dois e demos de cara com um carro da Fundação Casa, ex-Febem. Uau! Que forte! Minha cabeça não ousou sequer imaginar respostas para tantas perguntas… O que teria feito esse adolescente para ir parar na Fundação Casa? Como foi sua infância? Quem são seus pais? Como adoeceu? Como se chama? O que gosta de fazer? O que gosta de comer? Como está se sentindo agora? Não consigo responder. 

Isso tudo me fez lembrar uma experiência que tive: outro dia fui ver a palestra-espetáculo de um colega, Nando Bolognesi, o palhaço Comendador Nelson (ex-Doutor da Alegria) e fiquei muito tocada com o que vi e ouvi. Neste espetáculo, de forma divertida e emocionante, ele conta sua história e fala sobre como tem convivido há anos com uma esclerose múltipla. 

A certa altura, entre filosofias existenciais e coisas e tais, ele começou a falar sobre a importância ou desimportância do “eu”. Pelo menos foi assim que entendi, acompanhe comigo: “Eu sou eu e estou aqui na terra. A terra tem não sei quantos bilhões de habitantes (seres humanos, sem falar nos outros seres). A terra é apenas um planeta dentro de uma galáxia chamada Via Láctea que tem mais muitos planetas que podem ser habitados. A Via Láctea é apenas uma galáxia, entre muitas galáxias que tem muitos planetas que podem ser habitados… Concluindo: eu sou eu apenas para mim mesmo. Para todas as outras pessoas do universo eu sou o outro. Sendo assim, a gente é muito mais o outro do que a gente mesmo.”  

Adorei! Esse pensamento acaba mudando os pesos e valores das coisas. Tira de nossas costas o peso de ser aquele eu com meus problemas, minhas questões e nos abre para uma bela possibilidade: a de experimentar o mundo através do outro.

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E isso é o que acontece com a gente no hospital, a gente se modifica a partir do outro.

Através das histórias dos outros. O Itaci é um hospital onde encontramos sempre as mesmas crianças, às vezes durante anos, onde temos a oportunidade de conhecer mais profundamente suas histórias, suas famílias, seus amigos, seus gostos e desgostos. Conhecemos os funcionários, os voluntários, os médicos, enfermeiros, faxineiros, seguranças… Uma grande equipe que trabalha unida, cada um cumprindo seu papel com a maior dignidade! Inclusive nós, palhaços, temos a nossa função bem determinada e respeitada lá dentro…                                                               

E com todas essas histórias me sinto mais forte e mais humana. Obrigada.

Dra Lola Brígida (Luciana Viacava)
Instituto de Tratamento do Câncer Infantil – São Paulo

Economize no banho ou…

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Tem coisas que acontecem sempre em nosso trabalho, e uma delas é ter pacientes que nos acompanham durante todo o percurso das visitas besteirológicas, muitas vezes observando de longe e comentando cada bobeira observação que fazemos. 

Em um dia de visita aparentemente normal, os doutores Mingal e Chicô conheceram F., um menino de aproximadamente seis anos que de cara chamou a atenção pela disposição. Era só ouvir um barulho diferente que ele corria para ver se eram os besteirologistas. O garoto fazia questão de recebê-los na entrada da Pediatria, pois não queria perder nenhum segundo ao lado deles. 

Foi então que Mingal teve uma brilhante ideia: vesti-lo de besteirologista para poder ter um dia de descanso! Colocou seu chapéu, o jaleco e um belo nariz vermelho no garoto!

economia de agua

Quando Chicô viu o menino vestido de Mingal, nem notou a diferença (como já era esperado), a não ser pelo tamanho. 

- Mingal, você ficou muito tempo no banho? É impressão minha ou você encolheu?! 

O garoto, sem parar de rir, fez um “sim” com a cabeça. Indignado, Chicô foi mostrar para as pessoas o perigo de um banho demorado e do desperdício de água… Ao final do dia todos do hospital já haviam recebido as recomendações besteirológicas:

Economize água e não demore no banho, caso contrário, você encolhe!

Dr. Mingal e Dr. Chicô (Marcelo Marcon e Nilson Domingues)
Hospital Santa Marcelina – São Paulo