Careca cabeludo

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Mingal foi surpreendido com um pedido de ajuda no Hospital Santa Marcelina.

Uma médica da área pediátrica precisava que L., uma paciente de 8 anos, raspasse seus cabelos para que fosse engessada da cintura até a cabeça por causa de um trauma que sofreu no pescoço. Dado o desafio, os besteirologistas Mingal e Sandoval foram para o quarto da garota. 

careca cabeludo

L. não conhecia Sandoval, que cobria a ausência do residente dr. Chicô no hospital. Mingal resolveu apresentar os dois, mas Sandoval foi mais rápido e começou a se exibir, fazendo bobisses atendimentos para provar o quanto era bom besteirologista! Puxa vida!

Esse comportamento começou a causar ciúmes em Mingal, que imediatamente tomou a frente para mostrar suas habilidades. É claro que a competição de habilidades terminou em briga de palhaço. Em meio à confusão, Mingal pegou nos cabelos de Sandoval e, surpreendentemente, todas as madeixas loiras do doutor saíram em suas mãos, causando espanto geral!

careca cabeludo

L. prontamente gritou:

- Nossa, ele é careca!

Surpreso, Mingal o elogiou, dizendo o quanto ele ficava lindo careca… E todos no quarto concordaram. Sandoval, cheio de si, começou a falar de algumas vantagens de ser careca: não pegar piolhos, não embaraçar os fios e não gastar dinheiro com xampu.

Diante de todas essas vantagens, não haveria como L. não querer raspar careca!

Dr. Mingal (Marcelo Marcon)
Hospital Santa Marcelina – São Paulo

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O vírus rebola e a bronquite braba

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A palavra recordar tem a seguinte origem: re quer dizer “de novo” e cordar vem da palavra “coração” em latim (cor, cordis), então, recordar significa “passar de novo pelo coração”. Dos mais variados diagnósticos que fizemos (pum preso, riso frouxo, caspa no joelho, etc), dois se destacaram em 2014: o vírus rebola e a bronquite braba

O vírus rebola

O primeiro trata-se de um vírus que nós, besteirologistas, acreditamos ser originário da África. Mas, seria de se esperar! Imagine só aquele povo dançando toda aquela dança envolvente e contagiante! Lindo, né? Pois é, é contágio na certa!

virus rebola e a bronquite braba

virus rebola e a bronquite braba

E foi o que a gente viu aqui no hospital! O mais surpreendente era que os contagiados pelo vírus rebola não eram só os nossos pequenos pacientes – a penca de funcionários, entre enfermeiras, técnicos de enfermagem e médicos era grande.

O procedimento para diagnosticar era um pouco delicado, mas bastante eficaz. A gente tocava uma música que dizia:

“Joga pra direita, joga pra esquerda
Joga pra direita, joga pra esquerda!
Rebola! Rebola! Rebola! Rebola!”

Tinham uns que já manifestavam o vírus rapidamente, porém, como a destreza era grande e a sem-vergonhice maior ainda, eles já tinham desenvolvido anticorpos para o vírus, pois estavam com jogo de cintura. 

virus rebola e a bronquite braba

A bronquite braba

Agora, a bronquite braba é coisa séria! Tão séria que de tão séria a pessoa fica numa brabeza tão grande, que quando vê um besteirologista em sua frente dá logo aquela bronca. É grito pra um lado, é grito pro outro, susto também. Durante todo o ano, analisamos muitos casos.

Teve até um dia em que a gente foi vítima de uma senhora que transitava pelos corredores. Bastou que ela visse a gente e ela já foi soltando tudo – só não soltou os cachorros porque ela não estava com eles.

virus rebola e a bronquite braba

É, a gente tem uma coleção de casos. E quando eles terminam em risada, vale bem a pena recordar.

Dra Baju (Juliana de Almeida)
Hospital Oswaldo Cruz/Procape – Recife

A menina que roubava…?

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T.K. é uma menina muito inteligente que fala com dificuldade o português, pois é chinesa. Os pais, sempre simpáticos e solícitos, falam menos ainda a nossa língua. 

Um dia, a encontramos lendo A menina que roubava livros, fato que fez o besteirologista Pinheiro, que não lê nem gibi, achar que a garota estava roubando livros dos outros, que aquilo não era certo, etc e etc.

a menina que roubava filmes - luciana serra

Depois de tentarmos explicar pra ele que não se tratava de um assalto à mão armada e que T.K. não estava roubando livros de ninguém, saímos do quarto com um trunfo em nosso trabalho com ela: agora sabíamos que ela gostava de ler e podíamos abrir aí um caminho de comunicação, tão difícil por causa da questão do entendimento do português por parte dela e da nossa absoluta ignorância se tratando da língua chinesa… 

Por pura coincidência, naquele mesmo dia, a dra Juca chegou em casa, ligou a tevê e coincidentemente estava passando o filme A menina que roubava livros! Fantástico, inacreditável, espetacular!

a-menina-que-roubava-livros2

Depois de apenas duas horas, a Juca já sabia toda a história do livro. No outro dia de trabalho, assim que chegamos ao quarto da garotinha, Juca começou a falar que tinha passado o dia anterior lendo o livro e sabia tudo que ia acontecer… Graças ao Pinheiro, a T.K. não ficou sabendo do final do livro ali mesmo.

a menina que roubava filmes - luciana serra

A Juca ficou se vangloriando de ter lido um livro daquele tamanho em poucas horas e menina, desconfiada de tal feito, olhava pro Pinheiro não acreditando muito que aquela palhaça pudesse fazer isso, pois havia dias que ela estava debruçada sobre aquele livro e ainda não estava nem na metade.. Até que o Pinheiro resolveu revelar que a Juca não tinha lido o livro da menina que roubava livros, mas assistido o filme da menina que roubava filmes.

E com isso teve que sair correndo do quarto, pois a Juca partiu pra cima dele determinada a roubar a vida do Pinheiro com chutes em sua bunda!

Dra Dona Juca Pinduca (Juliana Gontijo)
Instituto da Criança – São Paulo

Porque sim

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Quanto mais procuro um sentido ou explicação lógica para as coisas da vida, menos encontro. Embora não queiramos aceitar, a resposta para as questões ilógicas da vida, muitas vezes, é simples: Porque sim! 

Mas “porque sim” não é resposta! Porque sim é resposta, sim! 

Por exemplo, perguntem para a dra Manela:
- Manela, por que sua bunda é amarela?

E com certeza ela irá responder:
- Porque sim! 

porque sim

Outro dia eu, dra Lola, e a dra Sakura nos deparamos com uma mãe: bem na nossa frente, de costas para nós, chorando profundamente, o corredor todo a percorrer. Ela foi andando sem nos notar, solitária em suas lágrimas. Nós duas atrás, em silêncio flutuante, seguíamos seus passos sem saber onde iam dar. 

Ela vestiu o avental e entrou na UTI, sem olhar para trás. Demos um tempo, nos olhamos, respiramos e abrimos delicadamente uma fresta da porta para tentar descobrir se éramos ou não bem vindas naquele momento. Nós mal começamos a abrir a porta e uma médica veio ao nosso encontro. Então tive a certeza de que ela viria nos dar a notícia da partida de algum de nossos amigos e que seria melhor não entrarmos naquele momento. 

Mas, pelo contrário, ela veio nos dizer:

- Entrem! Vão visitar a “K”, que gosta muito de vocês e teve uma recaída. A mãe está muito chorosa! 

Entramos. Vimos nossa amiguinha deitada, com uma mãe de um lado e uma tia ou avó do outro, ambas se debulhando em lágrimas sobre o corpo desacordado da menina. Nos sentimos na obrigação de fazer algo que pudesse reverter aquela situação, afinal fomos recrutadas para isso. Mas o quê?  

A vontade era ser Deus e mudar tudo. Mas quanta responsabilidade para duas simples palhaças! Que situação delicada! Qualquer gracinha a mais seria fatal para que a mãe nos odiasse para sempre, qualquer atitude de menos seria frustrante e embaraçosa para todos! 

“Mas por que você escolheu ser palhaça e ir trabalhar no hospital?” “Porque sim, ora!” 

Trocamos algumas palavras com a mãe e começamos a cantar. Uma música que veio assim, lentamente e bem baixinho como que buscando lugar para existir… 

“Des yeux qui font baisser les miens…” Em francês, por que não? 

porque sim

E a música foi encontrando lugar de existir, pouco a pouco ganhando corpo com os olhares cúmplices das mulheres… 

“Quand il me prend dans ses bras, il me parle tout bas, je vois la vie en rose… lá lá rá….” 

Cantamos a música toda com direito a solo e tudo. Nossa amiguinha não pôde expressar nenhuma reação. Nem temos como saber se ela ouviu a música, se percebeu que éramos nós ali a cantar, apesar dos sussurros da mãe:

São as Doutoras da Alegria, filha…

Os olhares das mulheres nos atravessaram a alma. Saímos cantando, nos despedindo, com uma sensação tremenda de impotência diante do mistério da vida. Por que uma criança tão pequena passar por tudo isso?

E tivemos que nos conformar com a resposta inquietante: Porque sim!

Dra Lola Brígida (Luciana Viacava)
Instituto de Tratamento do Câncer Infantil – São Paulo

Saudade de uma internação?

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Hoje decidi falar sobre a saudade. A saudade que temos sentido de alguns pacientes que por motivo de alta, transplante e melhoras de todo tipo não estão mais no nosso roteiro de encontro diário. 

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No Instituto da Criança, quase sempre encontramos as mesmas crianças, pois são alas de tratamento contínuo, que se estende por muitos anos. E nas internações, costumamos acompanhar uma mesma família por longos períodos. Assim, quando começamos o dia de trabalho, já temos uma ideia das crianças que vamos encontrar pelo caminho e, de certa maneira, já esperamos por esse encontro. Com cada paciente desenvolvemos uma profunda relação de intimidade e contamos encontrá-las para saber como estão naquele dia e continuar as histórias que iniciamos há dias, semanas ou meses atrás. 

Parece até que nos esquecemos de que estamos em um hospital, que às vezes pode ser um lugar de permanência, mas que nunca deixa de ser um local de transição, de movimento

Temos muita saudade dos nossos encontros, mas como sentir saudade de uma internação hospitalar? Sabemos que essa barra não é fácil de aguentar, então só ficamos mesmo com as boas lembranças dos nossos encontros e desejando que, pelo menos no hospital, eles não precisem mais repetir. 

É o caso do pequenino L., que encontrávamos toda segunda e quarta-feira no Hospital Dia. Um verdadeiro caso de amor. Começávamos a tocar e cantar no começo do corredor para que o som chegasse antes do corpo, anunciando nossa presença. As enfermeiras sempre comentavam:

- O L. escutou o pandeiro e já começou a dançar no berço, olhando através da porta, chamando por vocês com a mãozinha…

F

Todos os encontros com ele eram assim, de muita alegria, muito remelexo. A equipe parou várias vezes para acompanhar o evento, para filmar, fotografar a até dançar junto! 

Mas um dia, quando chegamos, o menino e a mãe não estavam no leito de sempre. Quando perguntamos por ele, o médico disse que ele estava de alta, fazendo uma experiência com o tratamento em casa.

- Ah, que bom! Tomara que dê certo!

E assim semanas se seguiram.

- Como está o L.?
- Está bem! Continua em casa!

E não encontramos mais nosso amorzinho. Com toda certeza desejamos que ele permaneça em casa, com cada vez mais saúde!

E aqui fica uma saudade grande. Muito grande!

Tereza Gontijo (dra Guadalupe)
Instituto da Criança – São Paulo

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Oficina Palhaços em Rede no Rio Grande do Sul

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Em setembro do ano passado, o grupo Esquadrão da Alegria participou de uma oficina de orientação dos Doutores da Alegria com o objetivo de aprimorar sua presença no hospital. O grupo atua nas cidades de Santa Maria, Canoas, Porto Alegre e São Borja, todas no Rio Grande do Sul.

Encontrei um grupo bastante disponível, que comprava as propostas e as provocações. Trouxeram na bagagem muitos jogos para trabalhar e fortalecer a relação entre eles.”, conta Raul Figueiredo, tutor do programa Palhaços em Rede, que viajou até a região Sul para ministrar o curso.

O formador trabalhou conceitos que a Escola dos Doutores da Alegria desenvolve, como o olhar, o jogo, a escuta, o trabalho em dupla. Havia palhaços com diferentes níveis de formação. “A mistura foi bacana, uns puxavam cenas na estruturação e outros surpreendiam pelo frescor da primeira vez, da descoberta…”, conta Raul.

Para o Esquadrão, a experiência foi muito rica também. “O Raul nos mostrou que a descoberta do nosso palhaço pode ser doce, emocionante e suave. Que a simplicidade, a sensibilidade e o carinho empregado naqueles minutos interagindo com algum paciente, acompanhante ou profissional da saúde marcam para sempre a vida daquelas pessoas e por isso devemos estar sempre de coração aberto para dar nosso melhor.”, disse Sendi Spiazzi, integrante do grupo.

O grupo, que atua desde 2007 na região, é composto por 70 integrantes e acredita na formação constante na máscara do palhaço, tendo participado de diversos cursos de capacitação e também do 3º Encontro Nacional de Palhaços que Atuam em Hospital, em 2014.

A oficina veio coroar esse momento que o Esquadrão da Alegria está vivendo. Foi um sonho trazer nossos inspiradores pra nos dar um curso.”, contou Luciano Mai, presidente do grupo.

A função do Palhaços em Rede é justamente incentivar e apoiar grupos pelo Brasil. Compartilhar para aprimorar! Saiba mais sobre o programa e sobre oficinas pelo e-mail rede@doutoresdaalegria.org.br.