Ouvidos atentos

Tempo de leitura: 1 minuto(s)

Conhecemos o J. na UTI. Percebemos logo de cara que era um caso gravidíssimo, uma mistura de grave e seríssimo.

Passaram-se semanas e nos encontramos há alguns dias numa das enfermarias. Chegamos bem perto dele e perguntei:
- Sabe quem está falando? 

Ele, que não está enxergando, disse com uma articulação impecável e quase inaudível:
- D- o- u- t- o- r-E-u!  

ouvidos atentos - dr eu

Para em seguida articular:
- C-a-d-e-o-D-o-u-t-o-r-M-a-r-m-e-l-o-? no mesmo tom entrecortado pela traqueostomia. 

Marmelo, meu parceiro de plantões besteirológicos, estava sendo substituído pela Dra. Tan Tan, outra tonta.

Passadas duas semanas, sua mãe veio nos contar uma história.

Quem nunca viu a TV ligada sem ninguém prestar atenção nunca entrou numa enfermaria do Hospital da Restauração. Pois foi justamente num momento de vuco-vuco que uma única pessoa de ouvidos atentos conseguiu identificar – e ele ouviu uma única vez – a voz da Dra. Tan Tan numa entrevista na televisão.

ouvidos atentos - dra tan tan

Foi o J. Ele chamou a atenção de sua mãe, que avisou a todo mundo e, graças aos seus apurados ouvidos, todos na enfermaria puderam assistir à tonta na TV. 

Dr. Eu_zébio (Fábio Caio)
Hospital da Restauração – Recife

Você também pode gostar:

Amigo Sangue Bom!

Tempo de leitura: 1 minuto(s)

Uma bolsa de sangue pode salvar até sete vidas.

Hoje, 25 de novembro, é o Dia Nacional do Doador Voluntário de Sangue. Você já doou alguma vez? Tem vontade?

Os alunos da Faculdade de Medicina da USP, por meio da Associação Atlética Acadêmica Oswaldo Cruz, lançaram o Desafio Amigo Sangue Bom com a intenção de intensificar a prática da doação de sangue em parceria com a Fundação Pró-Sangue.

veja aqui os pontos de coleta de sangue (hemocentros)
sa

O desafio Amigo Sangue Bom

O desafio é simples: doe seu sangue e desafie 3 amigos a doarem também. Grave um vídeo e publique nas redes sociais. Não precisa ser nada elaborado! Faça com os seguintes hashtags: #amigosanguebom e #AAAOCsanguebom. Assim, todos podem acompanhar a evolução das doações da campanha.

Quando for doar, não se esqueça de identificar-se como Amigo Sangue Bom. A equipe da Pró-Sangue está orientada a recebê-los. Se você já é doador e doou há menos de três meses (no caso das mulheres) ou há menos de dois meses (no caso dos homens), não tem problema! Ou, se você for magrinho ou magrinha ou não preencher os outros critérios para doação de sangue, não tem problema também. Desafie 3 amigos a doarem no seu lugar! 

Sangue? De onde vem? Pra onde vai?

fonte: site da Fundação Pró-Sangue

O sangue é um tecido vivo que circula pelo corpo, levando oxigênio e nutrientes a todos os órgãos. É produzido na medula óssea localizada nos ossos chatos: vértebras, costelas, quadril, crânio e esterno. Ele é composto por células sanguíneas: glóbulos vermelhos ou hemácias, glóbulos brancos ou leucócitos, plaquetas ou trombócitos.

Após a coleta, a bolsa de sangue é encaminhada ao fracionamento, onde será separada em até quatro hemocomponentes.

As hemácias (glóbulos vermelhos) são utilizadas em casos de anemia (acidentes, cirurgias, transplantes, doenças crônicas etc). O concentrado de plaquetas é utilizado em pacientes com tratamento anticâncer e transplante de órgãos para evitar e tratar hemorragias. O crioprecipitado e o plasma são destinados a pacientes com alteração de coagulação e trombose e podem ser transformados em hemoderivados. O concentrado de leucócitos (glóbulos brancos) é utilizado no tratamento de infecções na deficiência de glóbulos brancos. 

Após esses procedimentos, as bolsas são armazenadas em local especial e em temperatura adequada para conservação por até 42 dias.

O prazo é curto, por isso as doações precisam ser constantes e se tornarem uma prática. Doe sangue e ajude a salvar vidas!

Você também pode gostar:

Essa nossa dúvida

Tempo de leitura: 1 minuto(s)

Quando decidimos explorar o hospital como palhaços, miramos na figura do médico.

Foi o médico, lá em 1991, que inspirou o personagem “besteirologista”. Nosso figurino recebeu mais uma peça – o suntuoso jaleco, manto da profissão – e itens que parodiavam estetoscópios, termômetros e receituários. Cada artista incorporou o seu besteirologista: Dr. Zinho, Dra. Emily, Dra. Sirena, Dr. Lui e tantos outros.

Palhaços e médicos se colocam a serviço do outro e nutrem-se dos mesmos elementos para suas atuações: olhar, ouvir, compreender necessidades, interagir. O contraste talvez esteja na disposição de cada um – o médico se prepara para o acerto; o palhaço, para o erro.

DRs_Imip_Foto RogerioAlves__104

Enquanto um erro do médico pode ser fatal, o besteirologista treina para o tropeço, para bater com a cara na porta. É no erro que se constrói graça e cumplicidade. Como pacientes ou meros espectadores, amparamos a sua fragilidade e rimos de suas trapalhadas.

No hospital a perfeição é exigida em cada detalhe. O palhaço ajuda a lidar com a vulnerabilidade da condição humana, com nossos conflitos e dificuldades, atuando para expandir os limites do comportamento.

Fotografia da Dupla Du Circo e Ju Gontijo no Instituto da Criança no Hospital das Clínicas.

O palhaço nos leva a aceitar a dúvida e a hesitação; enquanto esperamos respostas rápidas e salvadoras da figura médica. Dá pra imaginar o peso da profissão, de cada palavra ou esperança dada!

Hoje o nosso trabalho nos hospitais ainda segue a paródia do médico, mesmo que superficialmente. As visitas leito a leito e o jaleco espelham a profissão. Mas dia a dia questionamos que outros elementos – no campo objetivo ou no campo dos afetos – merecem a intervenção artística. Que função social o palhaço cumpre hoje nos hospitais públicos?

o inevitavel

Talvez cada hospital tenha as suas questões. O Instituto da Criança, referência em São Paulo, é diferente do Hospital do Campo Limpo, que é diferente do grande Hospital Barão de Lucena, no Recife, ou do Hospital Santa Maria, que trata pessoas com tuberculose no Rio de Janeiro.

A busca por essa resposta também é motor de diálogos e pesquisas hoje no Doutores da Alegria. Artistas e corpo administrativo pensam juntos. E a reflexão com a sociedade, com quem habita esses lugares públicos, é um passo importante nesta jornada.

Assim como o palhaço, deixemos que a dúvida faça sempre parte do trajeto.

Existir para…

Tempo de leitura: 2 minuto(s)

O dia a dia de uma organização está pautado por constantes e sucessivas indagações.

Por um lado estamos sempre nos perguntando se o propósito lá do início, em 1991, de levar a alegria do palhaço profissional para os hospitais públicos ainda é a estratégia mais contundente que podemos oferecer para transformar uma situação tão delicada que é a internação hospitalar.

E por outro lado, estamos sempre atentos se estamos conseguindo traduzir os fundamentos da organização – sua missão e estratégias – para a sociedade de maneira clara e possibilitando sua participação.  

Este aval da sociedade para uma organização como Doutores da Alegria é fundamental tanto quanto o impacto em nossos pequenos pacientes. Ela representa também o porquê de nossa existência. Essa dinâmica é o motor de uma associação viva, com finalidade pública, que atua inteiramente financiada por recursos da sociedade: verificar constantemente o impacto social das nossas ações e possibilitar que nossas estratégias sejam entendidas e adotadas pelas pessoas. O que era somente nosso por um instante passa a ter muitos donos. 

1410_CAMPOLIMPO_047

Depois de 24 anos temos muito a celebrar pelos resultados alcançados e muito a exigir de nossa atuação adiante para contribuir por mudanças consistentes de que tanto nosso Brasil precisa. Os feitos estão relacionados ao que temos hoje no país de boas ações e políticas para mudar os hospitais, tendo em vista melhorar a experiência da internação pela ótica do paciente e de como o palhaço contribui para isso. E se no início o palhaço gerava estranhamento e indagação de sua pertinência, tempos depois seu exemplo trouxe diversas atividades para dentro hospital com o objetivo de “humanizar” o ambiente.

Parece muito, mas parece ser muito pouco. 

_MG_3086

Ainda muito falta a fazer pela saúde pública no país. Brasil afora, mesmo nos grandes centros, vemos hospitais estagnados, estruturas de serviço totalmente dissociadas dos valores mínimos de cidadania e direitos básicos. Profissionais desvalorizados, mal remunerados e insuficientes. Espaços físicos de atendimento que não poderiam estar em uso em várias funções públicas, muito menos para cuidar de humanos. 

Mesmo com tanto a comemorar, estamos sentindo um gosto amargo de que nosso país avança a passos muito lentos e isso nos persegue nas reflexões e na busca por soluções que gostaríamos de gerar para todos os hospitais brasileiros. 

DRs_HR_Foto RogerioAlves__71

Doutores da Alegria atua no campo subjetivo, quer existir para melhorar as relações entre as pessoas. A ficção e a paródia possibilitam um novo significado ao real. O palhaço, ridículo, nada heroico, procura pela sua existência que não se impõe, que não se faz necessária ou importante, traz esta dimensão do humano que parece que está se esvaindo.

A organização transita pela saúde, pela cultura, pela assistência social. Como o ser, que não pode ser fracionado, também não estamos em um único campo de atuação; da mesma forma que não nos associamos à cura dos sintomas, mas deixamos que o organismo manifeste como está funcionando. 

A arte afeta as relações, nos ensina a pensar e a sentir o que não foi dito ou traduzido. Depois de 24 anos, sabemos que nosso existir não é mais o mesmo. Estamos inquietos, sempre buscando. 

 “A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte…

A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer…”

“Comida” (Titãs – Arnaldo Antunes/Sérgio Brito/Marcelo Fromer –  1987)

Luis Vieira da Rocha

Um dia a cada dia

Tempo de leitura: 2 minuto(s)

A enfermaria está lotada de criança. Umas têm faixa na cabeça, outras estão amarradas no fio do soro. Tem criança com gesso no braço e tem criança dormindo no colo da mãe.

um dia a cada dia (4)

Tem pequenino que está careca, com dor de barriga, e aquela que caiu da árvore. Tem criança que fala palavras carinhosas e tem aquelas que xingam. E agora, com essa moda de celular, tem criança que nem olha no nosso olho.

Encontramos com R., de aproximadamente 12 anos. Ele é esticado, toma quase toda a cama. Logo no primeiro encontro, mandou a gente calar a boca.

1º encontro

O menino disse que estava querendo silêncio e que não era pra gente tocar violão. Foi uma confusão. 

um dia a cada dia (1)

– R., a gente promete que nunca vai tocar uma música na sua presença. Mas a gente quer mostrar uma música que a gente fez pra você. Podemos?
– Não!, respondeu o garoto, não quero vocês tocando nenhuma música. Vão embora e não cheguem perto de mim.
– Mas é uma música tão bonita. Fala de flor. Mas, como você não quer ouvir, a gente promete que nunca vai cantar essa música pra você.

Aí, cantávamos a música.

– Porque a gente tem noção das coisas e não vai tocar. Mas, se a gente não tivesse bom senso, com certeza tocaria essa música.

Então, tocávamos novamente. E saímos da enfermaria tocando a música só pra mostrar pra ele que nunca a gente vai tocar aquela música ali.

– Ei, mas vocês estão tocando!gritou o menino. 

2º encontro

Percebemos que seu travesseiro tinha uma estampa florida.

– Nossa, R.! Quantas flores na sua cama. Podemos levar uma pra gente?
– Não.
– Mas, olha pra essa flor, está caindo. Olha! Peguei... A flor é sua. Cuida dela! É só colocar meia gota de água três vezes ao dia. 

O menino segurou a flor e a jogou no chão. 

3º encontro

Quando o R. nos avistou de longe cobriu o rosto com o cobertor. Paramos ao seu lado e vimos que a flor estava ao lado da cama. Sua mãe tinha apanhado do chão e guardado.

um dia a cada dia (3)

– R., por que você virou todo o seu corpo pra gente? 

Ele devia estar aprontando alguma coisa. Sem esperarmos ele solta um pum muito forte!

– NOSSA! SOCORRO!e saímos correndo da enfermaria. O garoto só ria!

4º encontro

Ele dormia. Deixamos um recadinho:

Querido R.,
Passamos aqui hoje e vimos que você estava dormindo.
O seu pum foi quase como uma bomba nuclear. Mas sobrevivemos.
 

um dia a cada dia (2)

5º encontro

Um belo dia, atendendo na UTI, vimos que um dos leitos estava sendo por um garoto grande, que tomava quase todo o espaço. Quando chegamos perto vimos que era o R.

Tinha feito uma cirurgia. Estava dormindo.

– Oi, R.! Aqui é Dr. Marmelo e Dr. Euzébio - e cantarolamos uma música pra ele. Quando acordou, olhou bem fixo pra gente.
– Cadê minha mãe? Eu quero minha mãe - disse com sua voz calma e baixa.
– Sua mãe está ali fora. Ela vai entrar já, já. 

6º encontro

Em um dos plantões besteirológicos, andando pela enfermaria, vimos que o garoto tinha saído da UTI. Estava deitado na cama, com sua mãe ao lado.

O garoto sorriu quando acenamos e nos cumprimentou. Ficamos em silêncio. Esperávamos uma bronca!

A mãe dele sorria. Ela sempre se divertia vendo a gente correndo com medo do R. Talvez já estivesse esperando a saída maluca dos besteirologistas pela porta da enfermaria, mas dessa vez foi diferente.

Diferente dos dias que se passaram. Assim como é na vida. Todo dia um dia. Nos olhamos. O menino olhou pra o Dr. Euzébio:
– O senhor trocou de roupa. Cadê sua camisa amarela?

… 

Dr. Eu_zébio (Fábio Caio) e Dr. Marmelo (Marcelo Oliveira)
Hospital da Restauração – Recife

Você também pode gostar:

A Besteirologia é essencial

Tempo de leitura: 1 minuto(s)

Os besteirologistas já fazem parte do quadro profissional de muitos hospitais pelo mundo. 

O seu trabalho é essencial para qualificar as relações ali e para manter a energia sempre em alta. As fotos abaixo mostram dez momentos em que a Besteirologia se provou fundamental na rotina hospitalar.

1. A Besteirologia faz o tempo passar mais rápido nas salas de espera

sala de espera 2 

2. Os recém-nascidos aquecem os ouvidinhos com canções especiais

recem nascidos 

3. A cadeira de rodas sai buzinando e rodopiando pelos corredores com pacientes e palhaços 

passeio de cadeira 

 

4. A injeção dói menos com a técnica besteirológica de segurar a mão de um amigo

ajuda injecao

 

5. Corredores se transformam em salões de dança para aliviar as tensões

salao de danca 

6. Os palhaços aplicam o selfie para guardar recordações de seus pacientes queridos

selfie 

7. A Besteirologia facilita o trabalho dos demais profissionais do hospital

profissional 

8. O carnaval também é comemorado por quem está hospitalizado

bloco 

9. Amizades longas e duradouras podem nascer no hospital

longa amizade

 

10. A alegria pode extrapolar o hospital e invadir as ruas, provando que não tem contraindicação!

bobociclismo 2015 - Lana Pinho-8

Transplante de… Cabelo!

Tempo de leitura: 1 minuto(s)

No dia 7 de setembro de não me lembro quando, D. Pedro I gritou: “Independência ou morte!” às margens plácidas do Ipiranga. 

No dia 7 de setembro de 2015, Dr. Charlito gritou: “Ganhei na loteria! Hoje não vou trabalhar!” às margens fétidas do Tietê. 

transplante

Dito e feito! Charlito ficou milionário, resolveu viver de renda. Chegou exibindo um calhamaço de dinheiro, se abanando feito leque, contando vantagem, dizendo que ia sair com a Gisele Bucha, com a Grazi Amassaferro e com a Angelina Joinha, todas de uma vez… 

Claro que a Dra. Lola não gostou nada desse discurso, afinal quem é a companheira fiel de toda segunda e quarta, toda quarta e segunda? Então Charlito resolveu se embelezar para sair com as moçoilas e disse que iria fazer um transplante de cabelo. 

transplante

Pra quem não conhece, Dr. Charlito é um daqueles modelos aeroporto de mosquito, sabe? Tobogã de piolho, já ouviu falar? Mente brilhante? É que ele foi ao cabeleireiro fazer luzes e deu apagão! HAHAHA! Olha o bullying

E Lola, despeitada e de olho na fortuna do colega, na mesma hora ofereceu seus serviços cabeleirísticos pela singela quantia de alguns mil reais. Charlito topou e em poucos minutos estava transplantado com uma franjinha de causar inveja a Justin Bieber! 

Ele ficou todo feliz, mas logo começou a sentir um cheiro estranho. 

Charlito: Lola, esse cabelo está com um cheirinho estranho…
Lola: É que esse é mix!
Charlito: Mix?
Lola: Meia perna, virilha e axila! 

transplante

Irado, Charlito arrancou os cabelos transplantados e correu pra cima de Lola, que mal teve tempo de fugir! Vixe! O feitiço virou contra o feiticeiro! Num passe de mágica, Lola estava como Charlito: carequinha-da-silva! 

Mas não é que eles ficaram bonitos? Em poucos minutos estavam dançando e cantando junto com o coro de mães e crianças: “É dos carecas que elas gostam mais!”

Dra. Lola Brígida (Luciana Viacava)
Instituto da Criança – São Paulo

Você também pode gostar:

Nada de novo

Tempo de leitura: 1 minuto(s)

Quetamina & Midazolan, nome de dois medicamentos. Foi assim que fomos tratados pela equipe da UTI depois de termos acalmado, ao som de canto e violão, a pequenina e irritadíssima M. 

Não é para menos: ela estava toda furada e conectada com fios ao longo do seu pequeno corpo. Médicos e enfermeiras tentavam concluir um procedimento enquanto a criança se debatia (ou se defendia, se preferirmos) diante de tamanho incômodo e dor.

baila comigo

Nós não fizemos nada de novo. Apenas tocamos e, com isso, talvez tenhamos oferecido um contraste ou uma alternativa dissonante do que reinava no ambiente naquele momento. Como disse, nada de novo.

Mas a cada vez que esse contraste resulta em uma reação positiva, voltamos a concluir que há realmente algo de potente nessa manifestação super antiga do ser humano chamada arte

Em outro quarto, o contraste foi oferecido de uma paciente a outra. G., com seus 11 anos, vendo sua pequena colega de quarto abatida e ressabiada diante da dupla de palhaços, regeu a interação de cabo a rabo.

– Toquem uma música aí, por favor.
(tocamos)
– Não, uma mais animada.
(tocamos outra)
– Mais suave, palhaços.
(mudamos o ritmo)
– Essa tá ótima! 

baila comigo

Então G. puxou a colega de quarto, que tinha a metade de sua altura, e delicadamente fez uma sequência de passos de dança, aos quais a coleguinha respondeu e embarcou com total engajamento. Foram vários minutos de giros, piruetas, abraços, conduções de um extremo bom gosto e cuidado. 

Novamente não fizemos nada de novo… Ou talvez sim.

Reaprendemos a observar, a servir, a simplesmente acompanhar musicalmente o protagonismo de duas crianças que, em profunda solidariedade, transformaram, por alguns instantes, o corredor do hospital em salão de baile sincero, amoroso e comovente para os pais e demais presentes.

Dr. Zequim Bonito (Nereu Afonso)
Hospital Geral do Grajaú – São Paulo

Você também pode gostar: