Uma fonte d’água dentro da gente

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Chorar é para poucos. 

Com tanta falta de água e racionamento, elas brotam do olho d’água dentro da gente abastecidas pela dor, pela emoção, pelo afeto. Neste mês vimos elas escorrerem, se derramando vestidas de muitas emoções.

Eu sempre acreditei que dentro da gente tem uma fonte incessante de onde brotam águas. E às vezes é preciso deixar vazar, deixar escorrer e alagar nossa alma. Às vezes, ela brinca de querer sair quando a gente menos espera, e o olho espremido segue represando para deixar não perceber. 

Mas não teve como, ela estava segurando o rosto com as mãos, por trás do balcão da Hemodiálise. E como achávamos que era mais uma das brincadeiras tantas que as técnicas e enfermeiras pregam também na gente, tentamos brincar com a situação tirando partido da proposta, e essa é a base da improvisação.

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Mas a revelação veio e vimos as lágrimas escorrerem sem medo. Como quem tenta remediar o irremediável, perguntamos se fomos nós que fizemos algo para ela chorar. Ela nos disse:

- Hoje é o dia de aniversário de sua morte. É uma saudade tão grande do meu veinho que, às vezes, não sei… 

E naquele momento raro e delicado também soubemos aceitar a nossa inteireza. Não choramos juntos, mas acalentamos num abraço acolhedor as lembranças que vieram reanimando o rosto no dia de trabalho.

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Cada um tem tatuagens desenhadas dentro de si. Elas nunca saem, e nem precisa. Apenas é saber lidar, levando, sentindo e deixando a fonte transbordar, afinal as plantas crescem quando aguadas!

Deixem brotar essa fonte… Sem medo de parecer humano.

Luciano Pontes (Dr. Lui)
IMIP – Recife

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Emergência noturna

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Fizemos uma intervenção noturna no Instituto da Criança neste mês. O hospital tem outro clima.

Parece, em geral, mais tranquilo, com as pessoas preparando o espírito para se recolher. Pegamos o horário de visita e conhecemos outros familiares e amigos dos pacientes. E assim, ampliamos nosso ciclo de amizades, afinal, amigo de amigo, amigo é! 

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Estávamos na área de inalação fazendo uma cirurgia complicadíssima de extração de miolo mole. Eis que percebemos que, mesmo depois de nossa intervenção, o problema do miolo mole persistia e era grave! Saímos correndo em direção ao corredor, chamando um médico. E o Dr. Chicô delicadamente gritou pelos corredores:

- Eeeeeeeemergênciaaaaaaaa!!!! 

Todos os médicos saíram correndo desesperados, com o coração na boca, para ver o que tinha acontecido. Quando deram de cara conosco não sabiam se riam ou se batiam em nós. Não era comum lidarem com problemas besteirológicos à noite. Um médico ficou realmente assustado e Chicô pediu desculpas.

Ficamos sem graça com o acontecido… Isso é que dá ser bom ator, não é, Chicô? 

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E uma mãe, que morria de medo de palhaço, nos surpreendeu. Passamos meses trabalhando com seu filho, que adorava música, sempre tentando nos aproximar dela com muito tato. O garoto teve alta e eles voltaram para casa.

Ao sair, ela deixou por escrito suas impressões, críticas, elogios e reclamações sobre a estadia no hospital e… Também guardou um espacinho pra falar dos besteirologistas:

“Aos palhaços, gratidão, pois por mais que eu tenha medo da imagem dos palhaços, eles, com todo cuidado e atenção, conseguiram trazer alegria para meu filho, sem me assustar.” 

Nós é que agradecemos! Quero agradecer também a todos os profissionais de saúde e funcionários do hospital, parceiros nessa nossa aventura. E ao Dr. Chicô, meu querido parceiro! É nozes! 

Dra Lola Brígida (Luciana Viacava)
Instituto da Criança – São Paulo

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Uma área mágica dentro do hospital

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Há nos hospitais um espaço situado entre a fantasia e a realidade, onde tudo pode acontecer. Fica para além dos corredores, longe das portas, um tanto escondido. Corre o boato, nas bocas pequenas, de que só as crianças e os palhaços sabem onde fica…

Estamos falando da “área mágica segura”. Parece fantasia ou brincadeira de besteirologista, mas é um conceito sério, criado pela professora e pesquisadora sueca Lotta Linge (foto), já aplicado em muitas pesquisas mundo afora sobre a intervenção de palhaços em hospitais.

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A área mágica segura é um lugar simbólico estabelecido durante o encontro entre palhaços e crianças. Assim que o artista, munido de técnica, entra em um quarto e tem a permissão da criança para continuar, abre-se uma brecha na relação tempo-espaço e as fronteiras entre o que está doente e o que está saudável se dissolvem, tornando possível o impossível.

É sabido que o tratamento hospitalar afasta a criança de seus principais contextos de vida, como a família, a escola, os amigos; e sua nova rotina pode trazer a percepção de ameaça perante o desconhecido. Essa realidade se impõe de forma dura. Em alguns casos, pode representar obstáculos ao tratamento e até mesmo experiências traumáticas.

Segundo Linge, as possibilidades inesperadas dentro da área mágica segura ajudam as crianças a se distanciar dos problemas, principalmente pela alternância entre diferentes estados emocionais. Quando elas podem brincar e testam suas alternativas, em um lugar onde tudo pode acontecer, em vez de sentir as suas limitações, elas têm a oportunidade de confiar nas possibilidades de seu corpo, o que aumenta a autoconfiança.

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É próprio da linguagem clown inverter os papeis de uma relação de autoridade. A criança dá o tom da relação, é sábia e experiente, e os palhaços são ignorantes e desajeitados, na necessidade de orientação e ajuda. Para Linge, a sensação de ser capaz de assumir o controle sobre o incompreensível dá um efeito duradouro de bem-estar que pode extrapolar dias e circunstâncias difíceis no hospital.

“Uma menina descreveu claramente a área mágica; ela sentiu os palhaços construindo um mundo junto com as crianças, um mundo que não era o real, mas um lugar em que as crianças eram vistas e reconhecidas, em uma atmosfera de alegria. Esta adolescente não se verá como doente, mas como uma pessoa que simplesmente estaria buscando sua forma mais saudável”, conta a pesquisadora.

Mesmo que a realidade da internação não possa ser afastada, ela certamente pode ser enfrentada e superada. Melhor ainda se for em um espaço em que a criança se sinta segura e autoconfiante.

Os palhaços do Doutores da Alegria estão toda semana nos hospitais, se empenhando para que as áreas mágicas criadas com as crianças estejam sempre em movimento. E, por que não, possíveis de serem acessadas aqui e acolá por profissionais de saúde?

(fonte: Magical attachment: Children in magical relations with hospital clowns)

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Memórias de um hospital português

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Durante a Conferência de Palhaços em Portugal, já falada por aqui, eu tive a oportunidade, junto ao artista Marcelo Marcon, de esticar um pouco mais a estadia e fazer um intercâmbio com integrantes do grupo local Operação Nariz Vermelho.

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João Paulo Reis e Joel Oliveira nos receberam na entrada do Instituto Português de Oncologia, em Lisboa.

De lá seguimos para a sala de apoio e conversamos sobre o evento recém-terminado. Enquanto eles se preparavam, relembramos as particularidades entre os grupos pelo mundo e a enorme diversidade de tipos de palhaços que atuam em hospitais.

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Acompanhamos Dr. Bambu e Dr. Fusilli nas alas pediatriátricas. Foi importante observar, pois esse olhar de fora nos ajuda a compreender e entender o jogo da dupla de palhaços, assim como a relação estabelecida por eles e seu grupo dentro do hospital. Esse formato de observar antes de atuar junto faz parte da metodologia da Escola dos Doutores da Alegria. 

A manhã acabou e durante o almoço conversarmos sobre o que vimos: a atuação, o repertório da dupla, a relação com os profissionais de saúde e pacientes. Notamos muita familiaridade com o nosso jeito de atuar! Até porque a fundadora do Operação Nariz Vermelho, Beatriz Quintella, era brasileira e fez várias visitas ao Doutores da Alegria durante a consolidação do grupo. 

Após o almoço, eu já era Dr. Lambada e Marcelo era Dr. Mingal. 

Formaram-se as duplas luso-brasileiras. Mingal e Bambu foram atender os pacientes que aguardavam numa sala de espera com vários consultórios médicos e depois passaram pela brinquedoteca, enquanto Lambada e Fusilli passaram visita na ala de quimioterapia. 

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De cara, Dr. Lambada foi cantar para um garoto internado a música sobre um sapo e uma perereca nadando na beira do rio, e aprendeu que “cueca”, em Portugal, é uma peça íntima do vestuário feminino, e não masculino… Muitas risadas da irmã do paciente com essa gafe… 

Na sequência, Dr. Mingal resolveu dar uma pirueta no estacionamento do hospital e enroscou sua calça numa haste de metal, rasgando os fundilhos de sua calça e deixando sua “cueca” à mostra. Fomos ao balcão da Enfermagem pedir linha para suturar o rasgo e ouvimos mais gargalhadas da equipe médica! 

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Na sequência, todos juntos, seguimos pelos corredores fazendo um cortejo musical até o ambulatório adulto, onde tocamos La cucaracha em um portunhol escalafobético! Nessa caminhada, descobrimos que Dr. Fusilli era o chefe, mas que quem mandava eram os outros três palhaços…

Essa história rendeu boas risadas, o coitadinho do Fusilli quase se esgarçou ao se dividir em três para conter a confusão que se estabeleceu com os três patetas, quer dizer, obstetras… Enfim… Aqueles besteirologistas incansáveis em parir bestices! 

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Foi uma grande farra! Ficamos quase uma hora além do expediente, nem vimos o tempo passar… Mas como escreveu o dramaturgo Samuel Beckett ao esperar Godot, como o tempo passa quando a gente se diverte… 

Voltamos para o Brasil, e quem viu… Viu! Quem não viu… Não riu! 

 

- texto escrito em parceria com Marcelo Marcon -

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Uma conclusão quase médica

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Já faz algum tempo, anos, pra ser mais impreciso, que percebo que, às vezes, numa enfermaria de hospital, algumas camas estão vazias. Sempre pensei que a criança tivesse saído para ir ao banheiro ou à brinquedoteca. Pois pasmem, não é nada disso.

Era uma manhã de segunda-feira e andávamos no lado esquerdo da enfermaria pediátrica, onde há quartos com seis leitos. Foi lá que nos deparamos com uma cama vazia. Havia apenas o cobertor e um brinquedo.

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Ficamos intrigados como o fato e perguntamos para as outras crianças do quarto:
- Tem alguém nesta cama?

As crianças responderam:
- Tem um menino aí! 

A cama estava vazia. Será que o paciente tinha fugido? Seria um truque da mente? Um sonho? Nós, Dr. Mané Pereira e Dr. Pinheiro, estávamos pensando em volta da cama quando surgiu o doutor Tito, médico do Hospital Santa Marcelina.
- O que os senhores acham?, perguntou ele.

Para não parecer mais ignorante, respondi à pergunta dele com outra:
- O que o senhor acha, Dr. Pinheiro?
- Prefiro não comentar!
, respondeu o besteirologista, cauteloso.

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Então nós três observamos a cama, refletimos, nos olhamos e concluímos:
- Acho que o filho do Homem Invisível está bem!
- Sim, vamos dar alta pra ele, prontamente disse o Dr. Tito.
- Só se for imediatamente ou já!, acompanhou Pinheiro.
- Que bom podermos discutir este tipo de caso raro na Medicina…, finalizou o médico. 

Então pensei em algo inteligente para concluir:
- Colegas, a Besteirologia é baseada em evidências. 

Quando olhei para o lado, eles tinham ido embora. Inclusive o menino invisível. 

Dr. Mané Pereira (Márcio Douglas)
Hospital Santa Marcelina – São Paulo

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