Sentidos e sentimentos

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Comecei a ficar mais atento aos meus sentimentos. Observei que, numa mesma enfermaria, eu passava por vários afetos.

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Certa vez, dentro da UTI, eu e Dr. Dud Grud ficamos felizes ao ver as enfermeiras charmosas, com medo ao lembrar que eram casadas e tristes por continuarmos encalhados. Quando saímos da UTI, olhei para o leito que era de um paciente querido e daí bateu a saudade. Mas logo desejei que o ele estivesse bem. Só isso. Isso é amor.

Olha só quantos sentimentos vivenciamos em poucos minutos. Fui afetado e fui afetando! Isso é a gasolina do palhaço, o que faz o palhaço mover. 

Parece que os adultos acreditam que é perigoso sentir. A criança não tem medo de sentir. Fui tentar entender na prática e na teoria o que significam alguns sentimentos e outras palavras que o tempo todo batem aqui no meu coração.

Busquei entender algumas questões no livro PALAVRA DE CRIANÇA, de Patrícia Gebrim:

Fracasso 

É uma coisa que a gente sente quando só quer fazer coisas certas. Não é verdade que a gente fracassa. Às vezes a gente erra, mas aí é que a gente aprende a fazer uma coisa ainda melhor.

Saudade 

É quando a gente sente uma pessoa dentro da gente; aí lembra que gosta dessa pessoa e fica querendo dizer isso pra ela, mas às vezes ela está longe e a gente só pode dizer em pensamento, mas a gente diz, e ela escuta mesmo assim.

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Medo 

É um bicho peludo de cara feia que faz a gente querer fechar os olhos e se esconder, mas quando a gente arrisca e conversa com ele, a gente descobre que a cara dele não é tão feia assim. Converse com seu medo. 

Cura 

É quando a gente pega a doença no colo e pergunta o que ela tem. A gente deixa ela falar e presta muita atenção, e quando ela termina, já não tem mais nada pra curar.

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Vergonha 

É quando a gente não aceita a gente mesmo e acha que ninguém mais vai aceitar. Se a gente pudesse ser mais carinhoso com a gente mesmo, ia respeitar mais as escolhas que fez, e não ia ter vergonha de ser quem a gente é.

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Doença 

É uma sirene bem barulhenta que a gente tem dentro da gente. Toda vez que nosso coração fica apertado ele grita bem alto, mas ás vezes a gente está distraído e nem ouve, aí ele toca a sirene pra gente saber que ele está precisando de nós.

Vida 

É que nem um presente embrulhado em um papel colorido. Tem gente que guarda o presente pra abrir depois, mas isso é muito sem graça. Legal mesmo é fazer aquela festa, rasgar o papel e abrir o presente… no presente.

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Morte

É quando a lagarta já aprendeu tudo sobre a vida das lagartas, aí ela se fecha numa casinha apertada chamada casulo, nascem asinhas nas suas costas e ela vira uma borboleta bem bonita e sai voando por aí, aprendendo um monte de coisas diferentes. Se entrega com confiança às transformações.

Bom humor

É quando a gente descobre que a vida é uma grande brincadeira. Aí a gente sabe que as coisas que acontecem são de mentirinha, que nem nos filmes, então a gente começa a brincar de viver e tudo fica muito mais divertido. Ser menos sério.

Curador 

É uma pessoa que sabe que não pode curar ninguém. Ela sabe que cada um é seu próprio curador e ajuda você a descobrir isso. O curador é uma pessoa que tem muito amor.

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Dr. Marmelo (Marcelo Oliveira)
Hospital da Restauração – Recife

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Foi aqui, em São Paulo, que tudo começou…

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A cidade de São Paulo foi berço do trabalho dos Doutores da Alegria.

Nos anos 90, Wellington Nogueira trabalhava nos Estados Unidos com uma trupe de palhaços que realizava intervenções em hospitais de Nova Iorque. Era algo muito inusitado.

Em 1990, retornou a São Paulo para visitar seu pai na UTI do Instituto do Coração. Foi ali que resolveu se apresentar como palhaço para crianças.

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“Fui e foi muito legal. Quando terminei, meu pai tinha saído do coma. Depois, ele saiu do hospital –e eu tinha vindo para acompanhar sua morte. Estava com um sentimento de gratidão. No ano seguinte, voltei para o Brasil e comecei o trabalho”, conta ele. Foi em setembro de 1991 que surgiu Doutores da Alegria.

O primeiro hospital que aceitou ter um besteirologista em sua equipe foi o Hospital e Maternidade Nossa Senhora de Lourdes, hoje Hospital da Criança, no bairro do Jabaquara, em São Paulo. E a iniciativa foi crescendo.

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No início, sem sede fixa, a ONG se estabeleceu na casa da Dona Benvinda, mãe de Wellington. “Não havia e-mail. Usávamos papel carbono e máquina de escrever“, conta Vera Abbud, a primeira palhaça a atuar no Doutores.

Outros hospitais da cidade foram recebendo o projeto e a sede foi estabelecida em Pinheiros, grande bairro paulistano. E Doutores da Alegria abriu unidades em outras cidades, como Recife, Rio de Janeiro e Belo Horizonte (esta última com atividades encerradas).

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E hoje, 25 anos depois, ocupamos um casarão na Rua Alves Guimarães, no mesmo bairro, e atuamos em hospitais do Campo Limpo à Itaquera. Também já atuamos em diversos espaços culturais, ruas e empresas desta enorme cidade. E com uma certeza: ainda há muito a fazer!

Obrigado, São Paulo, por ser berço do nosso trabalho! Feliz aniversário!

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7 dicas de como passar o tempo no hospital

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Se tem uma coisa que acontece muito dentro de um hospital é a espera. Todo mundo já passou por isso. 

Esperar pelo atendimento, pelo médico, pelo diagnóstico. Esperar até o soro passar por todas as veias, esperar para o remédio fazer efeito. Pelo resultado do exame, pela visita que não chega, pela dor que não passa. Esperar é dar tempo ao tempo. 

Pra te ajudar a manter a sanidade, os besteirologistas Dra Lola Brígida e Dr. Chicô indicam sete coisas que você pode fazer para passar o tempo no hospital.

1. Tire um cochilo. Onde achar melhor.

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Pode ser no porta soro ou nas cadeiras da recepção. Mas lembre-se de dividir espaço com os coleguinhas que também estão esperando.

2. Espione algum lugar. 

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Só não vale entrar em lugar restrito. E você pode fingir ser médico, como a Lola e o Chicô… Opa, quer dizer, eles são médicos! Besteirologistas! 

3. Abrace alguém de repente.

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Não mais que de repente! E dê aqueles abraços de urso. Cuidado pra não esmagar ninguém com tanto carinho.

4. Diga que vai dar um pulo logo ali.

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Chame alguém pra dar um pulo com você nos arredores do hospital. E daí dê um pulo, faça uma careta e tire uma foto. Vai ficar assim, um pouco estranha…

5. Peça uma senha para atravessar a porta.

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Lembre-se de dar dicas para a pessoa acertar a senha, afinal não queremos mais filas e esperas no hospital. E troque a senha com certa frequência.

6. Toque um pagodinho.

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O pagode anda tão esquecido… Mas é só começar a cantar que todo mundo lembra a letra. Que tal inovar com o Samba do Inala?

7. Distribua cócegas.

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Porque rir é contagioso, né não? 

A Lola e o Chicô querem saber: qual das dicas você vai usar na sua próxima espera?

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Desapego: quem consegue, afinal?

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Pensa em uma palavrinha difícil de se colocar em prática: DESAPEGO.

Quando um de nossos pequenos pacientes tem alta e vai embora, deixa as boas lembranças dos encontros. Do que brincamos, dos risos trocados. Mas tem partidas que são definitivas e, às vezes, percebemos que nem sempre estamos tão preparados como pensamos, mesmo que seja uma partida previamente sinalizada. 

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Os sinais, diga-se de passagem, surgem o tempo todo, basta prestar atenção. Há mais ou menos três meses, o pequeno D. começou a dar os primeiros sinais da sua despedida. Sincero e autêntico, como sempre, D. expressava seus interesses e emoções através das suas famosas piscadinhas: uma para “não” e duas para “sim”.

Outras vezes, bastava uma cara bem enjoada para percebermos que a música não estava agradando naquele dia. Noutra ocasião, perguntamos se ele gostaria de se casar comigo, Dra Baju. Duas piscadinhas! Ai, meu coração! Aí, já perguntei se o Dr. Micolino poderia ser o nosso padrinho: duas piscadinhas! Micolino ficou tão empolgado que perguntou se D. o achava bonito: uma piscadinha… É, forçou a barra. 

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Foi com essa mesma franqueza que D. começou a pedir mais reserva, mais recolhimento. Queria ficar quietinho, com um paninho em seu rosto. Nada mais justo e honesto da parte dele. A equipe carinhosa cuidou muito bem disso e foi aí que todos nós começamos a nos preparar – ele estava indo.

O desapego está ao nosso alcance se deixarmos que ele nos alcance. Na escrita isso deve ficar bem bonito, mas contrário ao que acontece na “vida real”. Mas a existência é exatamente assim: bonita. A gente, aqui na Terra, não entende nada. Acho que, nessas horas, é melhor sentir que pensar.

Eu tô muito feliz por tê-lo conhecido desde seus dois anos de idade. Micolino o conheceu ainda menor. Estamos felizes pelos encontros! O nosso mestre nasceu, nos ensinou e se especializou na grandiosidade que é essa vida.

Dr. Micolino e Dra Baju
Hospital Barão de Lucena – Recife

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Bom humor: nos hospitais e além deles

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Alegria e bom humor são geralmente associados ao trabalho de um palhaço. Ou ao que ele deveria deixar após um dia de trabalho com crianças hospitalizadas.

Mas nem sempre essa associação é absoluta – tudo depende da relação que o palhaço estabelece com a criança. Wellington Nogueira e Vera Abbud, os primeiros artistas do Doutores da Alegria a encararem esta rotina hospitalar, falam sobre esta experiência. A entrevista completa está no site da Revista Trip.

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“Acho que no hospital deparamos com situações que nos fazem ver muitas coisas simples do dia a dia como uma dádiva. Nos faz relativizar as dificuldades. Mas o mal humor faz parte da vida também, pois senão seria uma vida anestesiada, irreal”, conta Vera, que ingressou na organização em 1991 e até hoje atua em hospitais paulistanos como Dra Emily.

Um bom antídoto contra o mal humor e, consequentemente, para ter alegria é você aprender a respirar e tentar rir de si mesmo. Já conheci muita gente tão mal-humorada que chegava a ser engraçada, não para elas mesmas, claro. É preciso ver como você fica ridículo quando escolhe o caminho do mal humor, uma maneira de não olhar para si mesmo. É aí que começa a doença”, completa Wellington Nogueira, fundador do Doutores da Alegria.

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Ele conta uma história que transcorreu em uma UTI: “A gente estava tocando uma música para a criança, aí o médico chegou e falou “Olha, um violão! Empresta ele aí”. Ele pegou o violão e começou a tocar um rock para a criança. Ela adorou, nunca tinha visto o médico fazendo isso, nem sabia que ele gostava de rock. Aquela criança e aquele médico estavam se relacionando como pessoas, não mais como médico e paciente…”

Segundo Vera, o bom humor traz leveza, mostra outras possibilidades. O humor é uma reação à uma situação de desequilíbrio, é um jeito de falar de um assunto muitas vezes espinhoso mas sem aniquilar as partes envolvidas. É uma forma inclusiva de abordar uma situação. O riso contagiante é para todos, se não for assim temos alguma forma de constrangimento.”

A entrevista completa está aqui. E você, como mantém o bom humor diante das dificuldades do dia a dia?

Entre a ciência e o coração

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Em um artigo da Revista Brasileiros, o médico patologista Paulo Saldiva traçou um histórico de como a figura do médico foi retratada pelo olhar das artes visuais e do cinema.

Rockwell ou Kildare representavam médicos humanos, desprovidos de ambição, com total comprometimento aos seus pacientes. Segui com o Dr. Frankenstein, de James Whale, que em 1931 retratou o temor do poder da medicina (coincidindo com as primeiras cirurgias torácicas e cardíacas), onde o médico era punido pela sua própria criatura, ao tentar ousar interferir com a vida e a morte.

Nos anos 1970 e 1980, os médicos descem mais um degrau. Ou fazem parte de corporações inescrupulosas que, ao lançar substâncias tóxicas no esgoto, fazem surgir um jacaré gigante a aterrorizar Nova Iorque (imprudência) ou médicos cínicos, como os que Roger Altman descreveu em Mash, incapazes de se compadecer dos pacientes mesmo em meio a uma guerra pavorosa. Terminei finalmente com o Dr. House, exemplo de médico tecnicamente brilhante, mas incapaz de enxergar o doente que sofre e sim valoriza apenas a doença.” (trecho do artigo)

Pois bem: o médico também foi a nossa inspiração quando iniciamos a atuação nos hospitais, em 1991. Os palhaços faziam uma paródia, vestindo-se com um jaleco cheio de cacarecos e distribuindo exames fictícios pelas alas infantis, sempre sob um pseudônimo engraçado – Dr. Zinho, Dr. Ado, Dra Juca Pinduca… Até uma especialidade foi criada: a Besteirologia.

+ saiba mais sobre a paródia do palhaço

“Entre os profissionais hospitalares, o médico é visto como personagem revestido de muito poder, crítica e racionalidade. Seu poder – consolidado ao longo da história e de difícil revisão – emana justamente das decisões cruciais que toma. O palhaço, por sua vez, é visto como alguém que desafia as evidências dos fatos, a ordem médica instituída e instiga a repensar atitudes”, conta a psicóloga Morgana Masetti no livro “Boas Misturas, A Ética da Alegria no Contexto Hospitalar”.

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É fato que a atuação dos palhaços ganhou outros contornos no hospital, indo além da paródia e se moldando à realidade do novo século.

Nas escolas de Medicina, onde Doutores da Alegria também atua formando estudantes para uma nova atitude, é comum o questionamento apresentado pelo próprio Saldiva: os médicos, ao ganharem em ciência, perdem em coração? E também é evidente a busca por uma combinação entre ambos, ou seja, a formação de médicos altamente capacitados e sensíveis à condição humana.

Hoje, 25 anos depois da primeira intervenção de um besteirologista, nos perguntamos se a paródia ainda é válida e que outras ordens instaladas o palhaço pode subverter nos hospitais.

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O tempo que para e o tempo que voa

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O hospital é um lugar onde a relatividade do tempo tem nuances que o próprio tempo duvida!

O tempo definitivamente para quando aquele corte tem que fechar, a febre tem que sumir, a glicose tem que equilibrar… Em outros momentos ele voa, como nessa experiência que Dr. Dadúvida e Dra Dona Juca dividiram com uma paciente do Instituto da Criança. 

R. é uma menina muito inteligente e habilidosa. Ela sabe fazer origamis e seus preferidos são os tsurus. Quer ser médica quando crescer. Mas R. está há muito tempo no hospital. Não vê sua irmã há meses.

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Na porta do centro cirúrgico, R. aguardava, junto a muitos profissionais de saúde, para dar um abraço em sua irmã antes de ir para sua quinta ou sexta cirurgia. A equipe insistia para que ela entrasse logo. A avó ligava sem parar para a mãe subir logo, até que resolveu sair atrás da mãe da R. para tentar apressar sua chegada. 

Eu (Dadúvida) e minha parceira Juca ficamos na porta, com R.e a equipe médica, tentando convencer todos de esperar mais um pouco, porque a irmã, segundo a mãe, já estava no elevador. Mas não estava… Uns cinco ou dez minutos se passaram, mas para nós era como se estivéssemos ali há horas! Tempo, tempo, tempo!

Do outro lado do corredor, várias crianças sentadas na mesa central esperavam pelos palhaços que avistavam de longe. Decidimos ir ao encontro dos olhares e fazer um rápido exame besteirológico coletivo. Depois, voltamos à porta.

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E só encontramos a mãe, a avó e a tão esperada irmã. Do lado de fora do centro cirúrgico.

A mãe, com lágrimas nos olhos; a avó, tentando falar que estava tudo bem; e a irmã, com uma carinha decepcionada, mas sem entender exatamente o que estava acontecendo ali. 

Depois de tudo isso, aquela sensação… Será que se tivéssemos ficado ali, teríamos conseguido segurar a entrada da R. mais um pouco e ela teria encontrado sua irmã? Será que só irritaríamos mais a equipe médica? Será que as coisas aconteceram exatamente como teriam que ter acontecido? 

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Sem o que fazer para mudar aquela realidade, seguimos atrás do nosso tempo: tempo do encontro verdadeiro, tempo de uma boa cena, tempo cômico… E com alguma dificuldade, reconhecendo a preciosidade de se ter o tempo como aliado, mesmo quando ele parece estar contra nós.

Tempo, tempo, tempo, tempo é um dos deuses mais lindos… 

Dr. Dadúvida (David Tayiu)
Instituto da Criança – São Paulo

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Porque hospital também é lugar de arte

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A aproximação entre o universo hospitalar e o campo artístico caminha a passos largos. Parte da ideia de que o corpo humano busca saúde absorvendo diversos estímulos sensoriais.

O palhaço, com sua linguagem própria, é nossa primeira referência. Há 25 anos sabemos que sua atuação reflete na saúde das crianças e na qualidade das relações dentro do hospital.

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Mas também já falamos aqui sobre o Chelsea and Westminster Hospital (o hospital museu, com diversas obras de arte) e sobre a organização Vital Arts, que reúne artistas para pintarem hospitais.

Listamos abaixo algumas outras experiências que aconteceram recentemente e ilustram essa aproximação:

Novos ares

O Instituto da Criança, em São Paulo, recebeu mais de cem reproduções de obras do artista plástico Gustavo Rosa. A ala de diálise do hospital ficou repleta de quadros, em tamanhos grandes, que enchem o olhar de crianças, acompanhantes e profissionais de saúde.

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Todos os dias as crianças comentam algo novo que descobriram nas paredes do hospital! Agora temos um andar colorido e divertido, de onde não param de sair piadas e brincadeiras. E nem preciso dizer que adoramos isso!”, conta Juliana Gontijo, atriz do Doutores da Alegria.

Dou-lhe três…

O Hospital do Mandaqui, em São Paulo, recebeu um leilão de quadros de Mateus Alves, paciente da UTI. Ele pintou, com a boca, os palhaços do Doutores da Alegria. Ele vem aprimorando sua técnica com aulas de pintura oferecidas voluntariamente pelo professor Paulo Ferrari.

Nem só bebês nascem nos hospitais

No Rio de Janeiro, espetáculos nascem nos hospitais. E só depois vão para os palcos – com os artistas e companhias que atuam no projeto Plateias Hospitalares.

Um belo exemplo é “GameShow”, criado pelo grupo Conexão do Bem especialmente para o Hospital Santa Maria, onde pessoas que tratam de tuberculose ficam afastadas em alas de um prédio alto. O espetáculo tem a estrutura de um programa de auditório, no qual a plateia é convidada a participar ativamente, e o desenrolar das cenas e seus desfechos dependem da participação dos pacientes.

Veja outros espetáculos que nasceram nos hospitais.

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Ala cultural

As alas do antigo hospital Vila Anglo Brasileira (1955-90), em São Paulo, deram vida a um espaço cultural. Comprado e reformado recentemente, o local virou sala de ensaio, de criação e palco para apresentações diversas.

“A reforma, porém, não escondeu o histórico do prédio. Os cômodos, alguns com parte dos tijolos aparentes, guardam a cara do antigo hospital, com luzes da sala de cirurgia e alguns objetos antigos (como jarras de medicamentos) expostos”, traz a reportagem do jornal Folha de S.Paulo.

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Sem títulofonte: Folha de S.Paulo 

Que outras aproximações entre arte e saúde seriam possíveis? Seguimos descobrindo.

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Alojamento conjunto – mães e bebês juntos até a alta

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Mãe e bebê devem permanecer juntos desde o nascimento até a alta. Essa é a recomendação do Ministério da Saúde, que reforça a importância do alojamento conjunto nos hospitais.

O alojamento conjunto é o local para onde mãe e bebê são direcionados após o parto. No local devem estar profissionais de enfermagem, pediatria e obstetrícia. A medida vale para bebês e mães que não precisam de atendimentos mais específicos ou atenção especial.

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Na portaria publicada em outubro do ano passado, o Ministério define as diretrizes para atenção integral e humanizada à mulher e ao recém-nascido. Nas regras anteriores, de 1993, faltavam especificações. Entre os benefícios do alojamento conjunto estão o estreitamento do vínculo afetivo, o estímulo à amamentação, o autocuidado e a diminuição do risco de infecções. Clique aqui para ver toda a publicação.

Os palhaços também passam por lá

Nos hospitais atendidos por Doutores da Alegria, os palhaços interagem com as mães e seus bebês, atuando para fortalecer o vínculo entre eles, mesmo nas UTIs. É neste período, segundo profissionais e pesquisadores, que os laços afetivos se formam – uma ligação carinhosa traduzida sob a forma de segurar, olhar, beijar e acariciar o bebê.

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Como era antes do alojamento conjunto?

Há pouco mais de 200 anos, os hospitais tinham uma importância insignificante para a sociedade. A maioria das enfermidades era tratada em casa e estar em um hospital era sinônimo de insanidade, epidemia ou acidente.

Alguns poucos hospitais ofereciam leitos para gestantes, mas não dispunham de lugar especial para os recém-nascidos. As mulheres davam à luz em casa, com ajuda de parteiras, geralmente rodeadas de parentes e amigos. Assim que nasciam, os bebês recebiam o calor do corpo da mãe, assim como o leite materno.

Nos anos 1900, aqueles hospitais que recebiam gestantes passaram a ser dotados de enfermarias próprias para recém-nascidos – os berçários – que seguiam normas rígidas de isolamento em função das altas taxas de mortalidade infantil, principalmente por epidemias de diarreia, doenças respiratórias e infecções.

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A ideia de manter mãe e bebê juntos nos hospitais e estimular o aleitamento materno nasceu na década de 50, quando a psiquiatra infantil Edith Jackson criou o “projeto alojamento conjunto” no Grace New Haven Hospital, Estados Unidos. Ela conseguiu demonstrar, entre outras coisas, que os recém-nascidos que estavam com suas mães choravam menos e que a presença de outras mães no mesmo ambiente estimulava a troca de informação.

Aqui no Brasil, até o início dos anos 70, ninguém pensava em manter mães e bebês juntos no mesmo ambiente. No início dos anos 80, surgiram recomendações da Organização Mundial da Saúde, do Ministério da Saúde e do UNICEF sobre o tema e houve uma extensa campanha de incentivo ao aleitamento materno.

Em 82, aconteceu o I Encontro sobre Alojamento Conjunto, reunindo especialistas, obstetras, pediatras e administradores de maternidades de todo o Brasil. O Ministério da Saúde finalmente estabeleceu a obrigatoriedade do sistema de alojamento conjunto em todo o país e, desde então, a maioria dos hospitais brasileiros vem se adaptando à lei.

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Saiba mais sobre a história do alojamento conjunto clicando aqui.

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