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Desembarque por aqui

Dois palhaços tiraram umas férias e resolveram desembarcar no Brasil. Vieram lá do estrangeiro diretamente para o hospital!

Ah, e nós adoramos um intercâmbio! Quem lembra da visita do Le Rire Médecin? E do Cirurgiões da Alegria? E da paspalha da doutora Tomate?

Desta vez, os bobointercambistas importados são o Doctor YAY, que trabalha no pioneiro Clown Care Unit de Nova Iorque (Estados Unidos) e a Anna de Lirium, que faz parte do Red Noses Clowndoctors de Viena (Áustria). Ah, eles são mais conhecidos como os brilhantes artistas John Leo e Tanja Simma.

Anna de Lirium espertamente desembarcou no Recife. Ao invés de se jogar nas lindas praias, foi acompanhar os besteirologistas Baju e Lui pelos corredores do Hospital Oswaldo Cruz. E depois ainda participou do Festival PalhaçAria! A Baju bradou aos quatro cantos:

- Mais uma tonta pra gente administrar!

intercambio

Já Yay foi fazer visitas com seis palhaços diferentes (haja paciência!) no Instituto da Criança, em São Paulo. Foi tudo na base da mímica e do palhacês. Em um dos quartos, encontraram um paciente que deu um baile de imitações de todos os bichos possíveis e imaginários. Gastaram todo o seu repertórios de imitações e o pequeno paciente era o melhor – imitava cachorro melhor que muito cachorro por aí… Os palhaços não tiveram nem a chance de contar que o terceiro elemento era um americano!

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O dr. Pinheiro conta mais:

- Quando YAY se apresenta para as pessoas, ele tem um tique. Diz que é o DOCTOR YAAAAAAY e levanta os dois braços juntos! É muito divertido!

Cada passo, uma diversão, cada encontro, uma surpresa. Cada um falando uma língua pelos corredores. E eles deixaram saudade, como contou o Pinheiro:

- Quem sabe um dia cruzamos o oceano e voltamos com histórias do outro mundo…

Seguimos sonhando com novos intercâmbios!

Riso poderoso!

Estudando sobre os efeitos do riso, descobri que sorrir, dar risada e gargalhar nos coloca em um estado de “atividade”; o riso tem o poder de nos tirar da passividade e de abrir possibilidade de estarmos em ação. Assim, procuramos com o riso não somente garantir o resultado de um bom trabalho, mas garantir um riso que venha trazendo também a vontade de brincar, de interagir e de trocar!

riso poderoso

Algumas crianças querem “dar comida ao peixe da Mary En”. Enquanto o dr. Micolino toca uma música no violão, eu solto as bolhas (a comida) e a criança, com o peixinho na mão, faz com que ele coma as bolhas, alimentando o peixe. Os adultos riem e todos nós ficamos envolvidos no jogo. Essa simples ação coloca a criança como sujeito ativo, dá a ela a escolha de agir sobre a realidade. Alimentar o peixe é uma ação que, por mais simples que seja, provoca esse estado de atividade que o riso proporciona.  

Muitas crianças mal tomam uma injeção e, com os olhos ainda marejados, já piscam o olho pra mim quando, de repente, saco a seringa do bolso! Imediatamente eles apontam pro dr. Micolino e me pedem pra aplicar nele! Já a reação do Micolino é de chorar de rir… Ele pula, gira, perde a voz, grita, faz tudo que tem direito pra protestar a dor de quem leva uma injeção. Bom demais poder subverter a natureza das coisas, e nisso o palhaço é privilegiado. Como pode tanta risada numa enfermaria porque um aplica uma injeção e o outro grita de dor? Sim, sorrir da nossa própria condição humana também faz bem, afinal rir é melhor do que chorar!  

riso poderoso

riso poderoso

E não tem contraindicação!

Outro dia, quando paramos na porta da enfermaria, a confusão estava armada: a mãe brigando com uma técnica, clima hostil e nada promissor. Bem, tem momentos que é melhor tomar uma boa dose de “simancol”, e foi justamente o que fizemos. Passamos para a enfermaria seguinte até que os ânimos apaziguassem.

Quando voltamos, a mesma mãe que há alguns minutos estava completamente “alterada”, nos olhou com uma tremenda cara de cumplicidade e bastaram alguns segundos para o clima mudar completamente. 

riso poderoso

E olha que nem fizemos tantas bobagens pra que isso acontecesse… Podemos concluir que na hora do “aperreio” uma boa bobagem seguida de uma boa risada pode resolver melhor que uma discussão acalorada. Ainda apareceu um vigilante na porta, mas quando nos viu lá dentro e ouviu as risadas, deu um tempo e ficou sem ter o que fazer. Mais tarde encontrei com a técnica, e ela me disse que falou para o vigilante que não precisava mais dele, pois os “palhaços” já tinham acalmado a situação. 

Conclusão: Palhaço é bom, não engorda e não tem contraindicação!

Dra Mary En (Enne Marx)
Hospital da Restauração – Recife

Doutores recomenda: Mi Corazón Sufre

Ah, nada como ir ao teatro! 

Até 28 de setembro a Cia Vai Antonio! de Teatro apresenta o espetáculo Mi Corazón Sufre em São Paulo, sob direção de Nereu Afonso (também conhecido aqui como dr. Zequim Bonito).

É uma oportunidade muito bacana pra ver alguns artistas dos Doutores da Alegria no palco. O melodrama narra a trajetória de duas jovens, Clara e Eva, que, em épocas distintas, avançam entre os amores e ódios que as circundam.

Mi Corazón Sufre

Até 28 de setembro
Sábados às 19h30 e domingo às 18h
Funarte São Paulo – Sala Carlos Miranda
Al. Nothmann, 1058 – próximo ao metrô Santa Cecília

Mi Corazon Sufre
Classificação: 14 anos
Duração: 70 minutos

Ingressos

R$ 10 reais – Inteiro
R$ 5 reais – Meia (estudantes, idosos, professores da rede pública e deficientes)

Mais informações em www.facebook.com/Família-Campari.

Um raio luminoso no céu da humanidade

Nós, que vivemos em grandes cidades, estamos acostumados a esperar por tudo na vida. Esperamos parados no trânsito, em filas nos bancos ou até mesmo o resultado de um teste. Mas nenhuma espera se assemelha à espera pela morte. 

No Instituto de Tratamento do Câncer Infantil, em São Paulo, há muitos pacientes nos cuidados paliativos. Para quem não sabe, os cuidados paliativos são exercidos para dar qualidade no final da vida a pacientes que nada mais têm a fazer a não ser esperar pela morte. Não há mais solução para o caso deles. 

Já diria o velho dito popular:

“A única certeza que temos nessa vida é a de que vamos morrer um dia.”

Esses pacientes sabem que seus dias estão contados.  

um raio luminoso

Eu fiquei impressionado com a força desses “meninos” que mesmo diante da morte conseguem tirar alegria dos pequenos encontros que temos. Vi que para eles, e consequentemente para nós, besteirologistas, os encontros tornam-se extremamente importantes, pois não sabemos se esse encontro se repetirá no outro dia. É praticamente impossível para nós falarmos “até segunda!” já que pode ser que ele não esteja mais lá nesse dia. 

Esses encontros com esses “meninos” se refletem em nossa vida particular, pois passamos a potencializar os encontros que a vida nos oferece

um raio luminoso

Lembrei do que disse o renomado samurai Musashi

“… amar a vida não era o mesmo que satisfazer a fome sem nada fazer, ou viver longamente sem nenhum objetivo. Significava, isto sim, esforçar-se para dar sentido a essa inestimável vida no momento em que se via obrigado a dela se despedir, dar-lhe o devido valor, riscar no céu da humanidade, até o último suspiro, o luminoso traço de uma vida plena de significado. 

Ali estava o âmago da questão. Comparados às centenas de milhares de anos da humanidade, os setenta ou oitenta anos de duração da vida de um homem não eram mais que um piscar de olhos. Nessas circunstâncias, mesmo que um homem morresse antes de completar vinte anos, sua vida teria sido longa se fosse brilhante. Esse seria também o retrato do homem que verdadeiramente amava a vida. 

Dizem que o período mais importante e difícil, em todos os empreendimentos, é o inicial. No caso da vida, porém, o mais difícil é o final, o da despedida. Pois é a partir daí que se estabelece o valor ou a duração de uma existência, daí se sabe se ela havia sido fugaz, como espuma na areia, ou um raio luminoso no céu da humanidade.” 

Esses “meninos”, sem sombra de dúvida, nos ensinam como se tornar um raio luminoso no céu da humanidade.

um raio luminoso no ceu

Duico Vasconcelos (dr. Pistolinha)
Instituto de Tratamento do Câncer Infantil – São Paulo

Doutores recomenda: Festival PalhaçAria (PE)

De 13 a 20 de setembro os teatros do Recife recebem a segunda edição do Festival Internacional de Palhaças do Recife, o PalhaçAria, promovido pela Cia Animée. O evento reúne uma mostra de trabalhos solo e em grupo e promove a formação através de oficinas e fórum.

PalhacAriaO Festival

Enne Marx, que faz parte da companhia e integra o elenco pernambucano dos Doutores da Alegria, conta mais sobre o evento:

“Festival está em sua segunda edição e a exemplo de outros festivais de mulheres palhaças, realça o humor feminino e suas nuances, atualiza a pesquisa de linguagem e apoia a cultura do riso com base na profissionalização das palhaças.

Importante ferramenta de discussão nacional e internacional através do intercâmbio de palhaças que ficam na cidade durante todo o evento, o Festival PalhaçAria trata do assunto em grande estilo e provoca o espaço feminino na arte -  para fazer rir e pensar.

Serão 13 apresentações: 11 espetáculos, seis brasileiros (Pernambuco, São Paulo, Distrito Federal, Minas Gerais e Santa Catarina) sendo 2 para o público infantil e cinco internacionais (França, Áustria, Suíça, Argentina, Espanha), além de dois cabarés recheados de números cômicos, com palhaças locais e palhaças vindas de São Paulo, Rio de Janeiro e até do Japão!”

Programe-se

Confira abaixo a programação completa do Festival ou acesse aqui para mais informações.

PalhacAria

O Festival tem o Incentivo do Funcultura e Apoio Cultural da Prefeitura do Recife, Centro de Formação e Pesquisa das Artes Cênicas Apolo Hermilo e Sesc Pernambuco.

Ninguém acreditou

Rafael, Natan, Guilherme, Gustavo, Vitoria, Alice, Jonathan, David, David, Vitoria, Lauro, Samuel, Gabriel, Miguel, Rafaela, Rafaella, Luiza, Vitoria, Isabela, Isabella, Carlos, Emanuela, Benício, Miguel, Miguel, Miguel, Davi, David, Vitoria, Bruna, Mateus, Matheus, Jonas, nomes, nomes, nomes que às vezes têm apelido de leito 13, 19, 2, nomes solitários, nomes compostos, nomes simples, nomes comuns, nomes criativos, nomes únicos, nomes que se repetem, nomes de criança, nomes de adultos, nomes de velho, nomes de criança adulta, nome de adulto criança, nome de criança criança.

De Derson é filho de Derson, o piolho do Daduvida é Epaminondas, a pulga do De Derson é Mijardina.

A dra Chang é Cheung, a Bia é Beatriz, a diretora Merry Christmas é Cris Mary.

Nome de pressa é emergência, nome de necessidade é urgência.

Nome de atenção é cuidado, nome de cuidado é gentileza, nome de gentileza é carinho, nome de carinho é amor. Todo nome quer amor!

Esta semana o Paulo me disse: nós temos que apreciar o momento! Mesmo que o momento seja difícil de apreciar! E eu acendi! Acender é verbo, verbo não é nome. Eu percebi que a alegria está no estar e também na Esther, no Marcos na Clara, na Melissa.

Nome de besteirologista do Hospital do Campo Limpo é Nina Rosa, Dus’Cuais, Pororoca, Mané, Daduvida e De Derson.

Nome de médico é Roberto, Aparecida, Sheila, Andrea, Polyana, Rochele, Regiane, Marcelo, Monica…

Nesse mês a Andrea trouxe seus filhos que há tempos mandamos vídeos e músicas gravados exclusivamente para eles, seus nomes são Gabriela e Gustavo. A Gabriela nos mandou um recado essa semana: Mãe, fala pros palhaços que já sei ler!

Nome de enfermeira é Shizuko, Mariléia, Luzinete, Deleuza, Cléo….

O Gabriel fez buh! O palhaço se assusta, bate a cara na parede e se esquece do próprio nome.

Nome de delegado é José da lei, Danley, José Darnley.

Descobrimos que todas as bundas, ops, retaguardas, forébis, traseiras, são partidas! E mais: possuem um pequeno orifício com o nome de fiofó! Todos os fiofós soltam pum! Esse leva o nome de pum porque peido é muito feio, por isso nunca digo, o De Derson fala peido, às vezes fico em dúvida se prefiro peido ou pum! Às vezes me escapa. Me escapa a palavra e o próprio pumpeido e temos que sair correndo do quarto!

Bicho também tem nome, descobrimos que as crianças com roupa de bicho não são crianças, são criOnças.

Médico adora perguntar se criança faz cocô, acho que médico não faz, nunca foi visto um médico fazendo cocô, não fazem e têm um pouquinho de inveja das crianças por isso! Besteirologista faz!

Nesse mês, nossas intimidades foram reveladas. Fizemos uma visita de cara limpa, sem maquiagem, sem figurino, sem nariz… O nariz vermelho! Ninguém acreditou que o David era o Daduvida e o Anderson o De Derson.

ninguem acreditou

ninguem acreditou

ninguem acreditou

Dr. Daduvida (David Taiyu)
Hospital do Campo Limpo – São Paulo

Alegria é isso!

A fotógrafa e artista plástica Holly Springs criou uma série fotográfica especial para sua filha, que nasceu sem a mão esquerda e com uma síndrome que causa obstrução intestinal e aumento do cólon. Seu objetivo é mostrar para a filha que, apesar das restrições de saúde, a vida pode ser maravilhosa e que com certo esforço é possível conquistar o que você quiser. 

Para nós, isso é alegria. Isso é conectar-se com o lado saudável da vida e dele extrair nossa potência. É em busca disso que trabalhamos todos os dias.

Quem lembrou do discurso do Wellington Nogueira, fundador dos Doutores da Alegria?

“Alegria é uma comunicação bem estabelecida, com base em entender a necessidade do outro e agir para suprir, ou seja, servir. Servir uma causa, uma equipe, uma organização, tudo isso significa sair do ambiente conhecido, no qual transitamos confortavelmente, para tornar melhor a vida de alguém, ou seja, abraçar o desafio. Segundo o filósofo Espinoza, a alegria encontra-se na conexão com a nossa potência. É essa conexão com o nosso lado mais saudável que nos ajuda a vencer desafios e obstáculos, a pensar criativamente e a olhar a vida como um jogo infinito, em que mais importante do que ganhar ou perder, o objetivo é continuar o jogo.”

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As melhores gargalhadas

Depois do dia para ser riscado do calendário, em julho tivemos o dia das melhores gargalhadas do ano!

Aconteceu lá no Instituto da Criança. Encontramos nosso parceirinho, o L., de menos de dois anos, que sempre que nos vê já começa a chamar com a mão, fazendo movimentos como quem diz “vem cá!”. Ele ainda não aprendeu a falar, mas já estabelece uma comunicação e tanto.

Nesse dia uma das enfermeiras do setor, percebendo nossa interação, se aproximou para mostrar um vídeo em seu celular que ele adora. Quando começou a música, eu (dra. Guadalupe) e dra. Pororoca começamos a dançar despretensiosamente. O L. nos observava de boca aberta, entendendo a junção daqueles dois elementos e, de repente, caiu na gargalhada. Ele ria sonoramente vendo nossos movimentos descoordenados, inclinava-se para frente e para trás, as veias do seu pequenino pescoço ficavam saltadas, tamanho era o volume de sua risada.

Fazíamos algumas pausas seguindo a cadência da música e então retomávamos a estranha dança. Ele parava, olhava para a mãe e voltava a gargalhar com força. Nenhuma de nós, nem mesmo sua mãe, havíamos presenciado uma reação dele como essa! Não me aquentei e comecei a gargalhar também, embala pelas risadas do menino. A mãe, vendo que eu ria de verdade, gargalhava junto e nossos olhos foram se enchendo de lágrimas! 

É muito interessante porque mesmo sem dizer uma palavra, o garotinho gargalhava plenamente. Foi algo despertado em sua compreensão que atiçou o senso de humor do garoto e provocou essa maravilhosa reação! 

O mesmo aconteceu logo depois com I., na Diálise. Ele também é bem pequeno e ainda não fala palavras completas. Quando chegamos perto do berço, ele brincava com algumas peças de encaixar. Começamos a participar da ação, tateando para ver como conseguiríamos interagir com ele. De repente, no meio de nosso desajeito com as peças, topamos com as grades do berço produzindo um som de batida. Reagimos e I. começou a rir. Repetimos a ação aumentando sua intensidade e o garoto ria cada vez mais forte! 

A ação foi se tornando maior até começarmos a trombar em tudo, para além do berço. Ele simplesmente gargalhava! E gargalhávamos junto, trombando, batendo, até ir saindo do quarto em meio aos tropicões. 

Ah, esse dia foi mesmo de lavar a alma. Eu nunca tinha percebido como o nosso senso de humor existe muito antes de existir a comunicação verbal. A sensibilidade do ser humano é algo potente, latente, desde seus primeiros momentos de vida, ou mesmo antes, muito antes.

E há quem acredite que as crianças são seres desprovidos de inteligência e incapazes de compreender o mundo. Pois não sabem que o riso é produto de um senso e de uma inteligência crítica? Ah, se nossas crianças fossem estimuladas a rir e gargalhar desde seus primeiros meses e anos de vida, que adultos não se tornariam, não é? E que mundo não compartilharíamos…

Dra Guadalupe (Tereza Gontijo) e Dra Pororoca (Layla Ruiz)
Instituto da Criança – São Paulo

Brincar como adultos

Lembra do último post aqui, em que falamos que o estímulo à brincadeira faz bem pra saúde?

Wellington-Nogueira-por-Luciana-SerraWellington Nogueira, fundador dos Doutores da Alegria, escreveu nesta semana um artigo para o UOL sobre o assunto.

Fazendo um paralelo com o cenário sério e tenso que encontramos nos hospitais, ele fala sobre problemas de saúde oriundos de locais e relações doentes de trabalho, como estresse, depressão, pânico e outros males decorrentes da somatização de emoções e sentimentos. Como diria a nobre besteirologista dra. Ferrara, “os adultos estão sendo internados em algumas empresas”.

No artigo, Wellington lança a questão: Quando é que exercitamos todas as qualidades que o trabalho pede, como senso de equipe, novas possibilidades, ousadia, engajamento?

Ora, é simples: quando estamos jogando cooperativamente! Poderíamos falar em “brincar como adultos”.

Leia aqui o artigo completo de Wellington Nogueira para o UOL Opinião.

O nosso caldeirão de emoções

“Ninguém no hospital espera a visita de um palhaço, ninguém está lá para isso. Uma pessoa hospitalizada está distanciada de seu cotidiano e de tudo que a cerca – objetos, cheiros, hábitos, bichos de estimação, familiares. Intimidade, identidade, controle sobre a vida, quase tudo vai pro espaço.”
 

A frase acima, de Soraya Saide para o livro Boca Larga, ilustra o sentimento que muitas crianças vivenciam quando estão internadas ou passam um longo período hospitalizadas. O brincar fica de lado e exames, avaliações, injeções e conversas sérias tomam seu cotidiano. Dependendo do tempo de internação, as visitas se tornam raras e os acompanhantes, cansados e preocupados com a situação, não têm paciência – ou cabeça – para dar a atenção devida à criança. 

Lugar de urgências, emergências, contingências, o hospital quase que exige que a imaginação seja deixada de lado. Os profissionais precisam dar conta da demanda como podem; as pessoas, fragilizadas e desacreditadas do sistema de saúde público, exigem esforços da equipe. Apesar de parecer um ambiente frio e sisudo, o hospital é um caldeirão de emoções.

E daí surge o palhaço, montado no semblante de médico besteirologista, e ocupa espaços absolutamente esquecidos: o espaço do erro, o espaço do humanidade, o espaço da imaginação, o espaço da dúvida. Ele desperta na criança, que ali recebe a outorga de paciente (e não de agente!), o desejo genuíno de brincar, sempre apoiado na sua permissão para seguir adiante. Sim, é ela quem decide!

Apesar de comprovar empiricamente ali, no dia a dia de trabalho, descobrimos por meio de pesquisas que as visitas influenciam muito na relação das crianças com o próprio tratamento. Dá uma olhada:

Pesquisa Instituto Fonte | 2008

Brincar e sair das nossas zonas de conforto – de atitude e de pensamento! – modificam não só o nosso comportamento como também todo o ambiente. Não é preciso ser sisudo pra ser sério, não é mesmo?

Durante as visitas, acompanhantes, médicos, enfermeiros, seguranças também entram no jogo. Esses encontros dão potência para seguir o dia com mais leveza, com mais alegria, e provam que apesar da situação, é preciso encontrar o lado saudável da vida, o lado que nos conecta com o outro, que nos potencializa para fazer melhores escolhas. E essas escolhas podem ser um sorriso, uma escuta mais presente, uma decisão em conjunto.