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Se não somos doutoras, somos o quê?

No final do corredor do hospital, avistamos um menino brincando sozinho. Claro que fomos até ele.

- O que vocês estão fazendo aqui?, ele perguntou.
- Ué, viemos te atender, nós somos doutoras!, responderam prontamente as besteirologistas Mary En e Svenza.
- Mas e esse nariz aí?
- Ué, já nascemos assim. Você também não tem nariz?
- Mas não é um nariz de verdade. E vocês não são médicas!

- Então, se não somos médicas, somos o quê?

Elas esperavam a resposta clássica – “palhaças!” – quando ele surpreendeu:
- Bonecas! 

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As duas se olharam com a maior vontade de rir. Sabendo da sua condição de “não médica”, e agora “não palhaça”, mas “boneca”, Mary En pegou seu apito.
- Bonecas apitam?, perguntou ao menino. 

Ele balançou com a cabeça que sim. Mary En começou a apitar em todo lugar.
- Bonecas dançam?
- Sim!

E as duas se puseram a dançar. O garotinho ficou olhando as duas irem embora pelo corredor; presos, os três, pelo olhar e pela imaginação: as palhaças dançando e apitando, e ele observando de longe.

Quando elas já estavam sumindo de sua vista, ouviram ele dizer à enfermeira:
- Elas são bonecas!

Dra Mary En e Dra Svenza (Enne Marx e Luciana Pontual)
Hospital Universitário Oswaldo Cruz/Procape – Recife

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Rapidinhas do Hospital do Mandaqui

Dr. Valdisney conversava e cantava com o paciente na UTI quando ouviu a pérola:
- Valdisney, atualiza! Só canta coisa velha…

Agora o menino está introduzindo o palhaço no universo da música sertaneja. É só modão! É nóis no arrocha!

Proposta para harmonizar o ambiente hospitalar

Os seguranças ficam nos andares vigiando. Ficam ali parados. Propomos que, durante a vigília, eles possam tocar um instrumento ou pintar um quadro, trabalhos artísticos que ajudariam a passar o tempo e, ao mesmo tempo, manter o ambiente agradável. 

Nossa próxima meta será implantar esse sistema no hospital. A gente sabe que é coisa de palhaço!

Desenvolvimento da ciência besteirológica

Os cientistas besteirológicos do Hospital do Mandaqui, Dr. Valdisney  e Dra Greta, depois de muito tempo passando pelas salas de inalação e ouvindo aquele barulhinho de panela de pressão, desenvolveram uma inalação com cheiro de feijão. Assim a criança vai se sentir em casa. 

E já está sendo considerada uma das maiores e melhores invenções besteirológicas do ano de 2016. Parabéns para a equipe! 

Não me sai da cabeça

Estávamos com Mateus na UTI. Valdisney pegou seu pequeno pente e começou a pentear o cabelo. 

- Esse seu pincel é muito pequeno! – disse o menino, gargalhando.
- Não é pincel, é pente, prontamente retrucou a Dra Greta.
- É que eu tô tão “coisado” com a pintura que eu vejo pincel em tudo! 

Em tempo: pra quem não sabe, Mateus pinta quadros muito bonitos

Lindões

Atendemos durante muitos dias uma paciente que fazia qualquer coisa para que não fôssemos embora do quarto dela. Até nos chamava de “bonitos… só que não!” e ria muito. E claro, a gente sempre ficava um tempo a mais.

 

Dr. Valdisney (Val Pires)
Hospital do Mandaqui – São Paulo

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Quando o besteirologista virou paciente

Já fazia um tempo que eu, Dr. Cavaco, estava de férias, na prateleira, empoeirado, esperando um chamado. Eis que surgiu a oportunidade.                 

Cheguei junto com Dr. Marmelo na enfermaria do IMIP e encontramos uma garotinha de seus quatro anos chorando bem alto, sentadinha no colo da mãe. Ela olhou para nós, parou de chorar, respirou fundo, e voltou a chorar bem alto! As outras sete crianças, com seus respectivos acompanhantes e enfermeiras, pareciam não aguentar mais aquele chororô.

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Dr. Marmelo começou examiná-la, procurando a causa daquele vazamento de lágrimas, e a mãe dela ria da situação dizendo que também não sabia do que se tratava. Comecei então a fazer um exame sovacal na garota e logo encontrei a causa: bexiga solta em seu sovaco. 

Começamos a examinar a bexiga e vimos que ela estava murcha. Resolvemos esticá-la pra ver se melhorava. Marmelo segurou uma ponta, eu segurei na outra ponta e fomos esticando, esticando, até que o tonto soltou a bexiga, dando uma estilingada na minha mão, me fazendo chorar mais que a menina! Foi aí que ela parou de chorar e começou uma risada muito boa de ouvir!

Mas não parou por aí. Fui dar uma bronca no Marmelo por sua trapalhada e, quando levantei meu braço para apontar o dedo naquele nariz vermelho, meu ombro saiu do lugar. Isso mesmo, um deslocamento real, sem brincadeira. Acho que estava meio enferrujado de tanto tempo parado… Logo que percebi, disfarcei a dor, me despedi das pessoas e Marmelo me ajudou a entrar na sala das enfermeiras. 

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Cheguei com muita dor e elas continuavam a rir, pensando que era palhaçada, que eu estava fingindo. Somente quando tiramos o nariz – isso mesmo, gente, é um hábito nosso tirar o nariz quando precisamos falar sério – foi que elas acreditaram e rápido vieram me ajudar. Sentei na cadeira e, depois de uns minutos, consegui colocar o ombro no lugar. É que já tenho experiência com isso, sou quase um super-herói como o homem elástico, o problema é que não consigo controlar estes “poderes”. 

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Minha pressão começou a baixar por conta da dor, minha visão foi escurecendo, pensei que eu ia desmaiar! As enfermeiras me levaram para a maca, ficaram abanando com lençóis (me senti a Cleópatra no Egito), mediram a pressão e até furaram meu dedo pra fazer testes. Viram que a minha glicose estava baixa e logo me trouxeram um chocolate para ajudar a subi-la. Adorei esse remédio! A tangerina também! Depois chamaram a Dra Flávia e ela pediu que eu ficasse deitado em observação. Marmelo ficou observando com os olhos tão abertos que até encontrou um ovo na minha maca.

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O corredor estava cheio de crianças batendo na porta, querendo saber o que aconteceu com o Cavaco. Dr. Marmelo foi até lá e explicou que tudo aconteceu porque eu estava grávido, mas depois de botar o ovo, eu estava bem melhor e teria que ir para casa, conforme orientação médica.

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Mas fiquem tranquilos! Eu já estou ótimo! Passei na oficina para apertar os parafusos. Gostei muito de como fui atendido pela equipe de plantão e deixo um agradecimento especial a todos que estão no hospital trabalhando com carinho e prontos para ajudar até um besteirologista necessitado!

Dr. Cavaco (Anderson Machado)
Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira – IMIP (Recife)

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Tranca a porta e segura!

Com o tempo seco e a chegada do frio, as internações aumentaram na Pediatria Infantil do Hospital do Grajaú. 

Os problemas respiratórios e os casos de gripes complicadas foram os principais responsáveis pela lotação das alas infantis. A Rose, que trabalha na ouvidoria do hospital e fica sempre de olho nas doutoras Emily e Xaveco, avisou que os profissionais que ali trabalham com as crianças deveriam tomar a vacina que protege contra a gripe H1N1.

E para garantir que as duas não fugissem da agulhada, Rose as acompanhou até o local da vacinação.

- É vacina de gotinhas? Bem docinhas?, quis se certificar Dra Xaveco.

A enfermeira, mais esperta que as duas juntas, se esquivou da pergunta e Xaveco, meio tonta como sempre, não entendeu e entrou na salinha. Ao perceber que receberia uma agulhada, fez aquele escândalo.

- Tranca a porta e segura!, todos gritaram.

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Dra Emily ajudou na missão de fazer a parceira ser vacinada e, quando chegou sua vez, explicou com muita propriedade:

- Eu não preciso.
- Por quê?, perguntou a enfermeira.
- Porque eu já tomei.
- Ahh… Então tá certo. Quando você tomou?
- Ano passado!, respondeu Emily.

Todos na salinha perceberam o truque e, enfim, tiveram que recorrer à mesma técnica usada com Xaveco.

- TRANCA A PORTA E SEGURA!

É, vida de besteirologista não é fácil.

Dra Xaveco Fritza (Val de Carvalho)
Hospital Geral do Grajaú – São Paulo 

Doutores recomenda: Seu Rei Mandou, no Recife

Histórias de reis são sempre grandiosas, envolvem bravura, esperteza e uma boa dose de tirania.

O espetáculo Seu Rei Mandou, da Cia Meias Palavras, traz para o palco histórias que tratam do universo fabuloso dos reis através de releituras cômicas e poéticas, ora críticas, mas sempre lúdicas.

Seu Rei Mandou _Foto Lana Pinho

Em cartaz no Recife, a montagem tem texto, direção, figurinos e atuação de Luciano Pontes – conhecido nos hospitais como Dr. Lui –, acompanhado no palco pela flauta e tambor do músico Gustavo Vilar.


Teaser Seu Rei Mandou por cia-meias-palavras

Ela fica até 28 de maio no Teatro Marco Camarotti, no Sesc Santo Amaro, aos sábados e domingos, sempre às 16h, com ingressos a R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada).

O espetáculo promove um diálogo entre a contação de histórias, a música e o teatro de formas animadas em três contos: A Lavadeira Real, O Rato que roeu a Roupa do Rei de Roma e O Rei chinês Reinaldo Reis.

Bora ler

Durante a temporada, o público ainda poderá adquirir o livro “Seu Rei Mandou” ao preço popular de R$ 20. O título traz os contos que deram origem à peça e foi escrito e ilustrado por Luciano Pontes.

Luciano Pontes - livro Seu Rei Mandou - foto Lana Pinho

Além disso, antes de cada sessão, a companhia instala um espaço para leitura partilhada de livros que serviram de inspiração para suas criações ou que tenham uma ligação temática com o enredo apresentado nos espetáculos da companhia.

Imperdível e uma boa oportunidade para ver o Dr. Lui nos palcos! Doutores recomenda!

Serviço

Sei Rei Mandou / Cia Meias Palavras
Teatro Marco Camarotti (Sesc Santo Amaro)
Rua Treze de Maio, 455 – Santo Amaro, Recife
Sábados e domingos, 16h, até 28/05
Ingressos a R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada)

O que aprendemos na Conferência de Portugal?

Participar do Healthcare Clowning International Meeting foi muito significativo. Voltamos com nossa bagagem mais pesada, pois ela trouxe aprendizados e muitas histórias.

Mais de 300 pessoas de organizações que atuam com palhaços em hospitais trocaram conhecimento durante três dias de evento, organizado pela Operação Nariz Vermelho em Portugal. Na programação, grandes debates, oficinas, estudos de casos e pesquisas e apresentações artísticas.

Healthcare Clowning International Meeting

Healthcare Clowning International Meeting

Partimos do Brasil com uma comissão composta por artistas e parte do corpo diretivo da associação. E voltamos convictos de que Doutores da Alegria é uma organização forte e referenciada mundialmente, com uma enorme responsabilidade em função disso.

“Doutores da Alegria nasceu como associação em um momento de democratização do país, nos anos 90, com um propósito social e em diálogo com uma sociedade que abraçou essa causa. Isso foi muito especial.”, conta Luis Vieira da Rocha, diretor presidente.

“Em sua trajetória, Doutores atendeu a demandas da sociedade e extrapolou as fronteiras do hospital, transformando essa experiência em uma pedagogia de formação, em criações artísticas, em ações para empresas. Essa dinâmica é única e nos diferencia de outras organizações pelo mundo.”, finaliza.

O encontro reuniu diversas organizações que atuam em países mais desenvolvidos e, consequentemente, dentro de um sistema de saúde melhor, como na Holanda. No Brasil, os encontros entre crianças e palhaços muitas vezes têm um pano de fundo dramático. Aqui, a realidade dos hospitais públicos traz questões sociais muito latentes, que envolvem desde a estrutura familiar das crianças e a escassez de direitos básicos até as condições de trabalho dos profissionais de saúde.

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Assim, uma organização que não tenha uma intenção social não é relevante em termos de impacto para a sociedade.

Outro aspecto que torna Doutores da Alegria única é o programa Palhaços em Rede, que integra e orienta grupos de todo o Brasil. Hoje, já são 980 iniciativas mapeadas e cadastradas na rede. São muitos grupos pelo país – dado nosso extenso território, claro – mas também a vontade de muitas pessoas que têm compaixão por aqueles que estão internados.

Healthcare Clowning International Meeting

Durante o evento também tivemos a oportunidade de mostrar alguns resultados deste programa – que traremos aqui em breve – e um estudo de caso do projeto de extensão MadAlegria, que faz parte da nossa Escola. Wellington Nogueira, fundador do Doutores da Alegria, fez uma aplaudidíssima apresentação sobre a história do palhaço, e ainda pudemos dar uma palinha do Bloco do Miolinho Mole em terras estrangeiras. Emocionante!

Healthcare Clowning International Meeting

Após o evento, palhaços brasileiros e portugueses trocaram experiências visitando juntos o Instituto Português de Oncologia de Lisboa. “Participar do encontro trouxe uma nova dimensão para o nosso trabalho e reflexos no dia a dia do hospital”, conta Nereu Afonso, artista.

Healthcare International Meeting

Healthcare Clowning International Meeting

Por fim, a conferência reafirmou a existência de uma comunidade internacional disposta a manter diálogo constante e a continuar trocando suas experiências. Os próximos passos ainda engatinham, mas têm um potencial enorme. Ainda há muito a ser feito, e com certeza teremos outras boas histórias pra contar na próxima conferência – isso mesmo! – em Viena, na Áustria, em 2018.

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Eu vi o rei

Hoje em dia tem sido cada vez mais difícil ver reis por onde andamos.

A realeza perdeu a monarquia desde que passamos para o presidencialismo, mas a nobreza é de berço: tem gente que nem precisa de coroa ou título para ser rei. Basta ser. 

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É o caso do pequeno D. Ele reinava no seu quarto ao lado do seu pai e da sua mãe. Seu trono não era uma cadeira imponente, mas uma cama elegantemente forrada. No centro, ele era soberano. Sem falar uma só palavra, tocamos para sua realeza se alegrar, como assim faziam os antigos bobos da corte.

Barão de Lucena -  Lana Pinho_

Ele olhou para um lado, depois para o outro como se dissesse o que não se diz. E quase pensamos em sair de fininho com medo do berro, mas ele nos surpreendeu e balançou seu corpo sentado para frente e para trás, acompanhando o ritmo do momento, e um olhar aliviado nos tranquilizou. Suas altezas, a mãe e o pai, ficaram encantados com a reação do rei, pois eles não sabiam que tinham no seu castelo os bobos da corte

Para arrematar com um grand finale, D. retira sua coroa (um boné de frio) como se agradecesse e ainda bate palmas! Saímos dali orgulhosos do que somos, afinal nem todo bobo tem o rei que merece.

Mas aquele dia fez uma sequência de ritmados encontros bailantes, até que o rei trocou de quarto real e passou a ocupar um reservado no alto da torre – uma enfermaria da UTI. Lá, ele já não reagia como antes e só olhava como quem diz um adeus aos poucos.

Soubemos em um dia inesperado que o rei D. foi para outro reinado, além das fronteiras da imaginação. Não teve bilhete, nem aceno, nem um boato fofocado. Soubemos porque procuramos saber das coisas amadas e, diante da notícia, ficou a lembrança do primeiro grande encontro.

Ele disse tudo ali. E agradecemos a ele por não ter nos avisado, pois para todo bobo nem tudo se revela. Esse encontro foi real. E agora sabemos que existem reis de verdade.

Barão de Lucena -  Lana Pinho_-12

Somos da sua realeza e por eles vale muito a pena ser o bobo. Eis a corte. 

Dr. Lui (Luciano Pontes)
IMIP – Recife

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Observações

O garoto tinha vindo com o pai do Amapá para tratar o câncer do garoto. Conversávamos trivialidades enquanto o garotinho nos observava seriamente.

- Quer dizer que o senhor é do Amapá?, perguntou o Dr. Mané Pereira.
- Sim!, respondeu o garoto.
- E em que cidade o sr. mora?
- Na capital.

Dr. Pinheiro entrou na conversa.
- São Paulo?
- Não! Na capital do Amapá!

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A resposta botou os palhaços pra pensar. 

- Dr. Pinheiro, o senhor sabe qual é a capital do Amapá?, indagou Mané.
- Sei.
- Então?
- Então o quê?

- Qual é a capital do Amapá?
– Vatapá.
- Não!
, gritaram Mané e o garotinho.

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Ele continuou:

– É Macapá!
– Vai capá?, perguntou Pinheiro.
– Não, Pinheiro! É Macapá, você não estudou, não?
– Estudei, mas eu era ruim em Geometria.

- É Geografia! Que burro! – e deu uma boa gargalhada. 

Outro encontro bonito não se deu com a gente, mas perto da gente. Estávamos na Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer (Tucca), que fica dentro da área do hospital, e falávamos com a equipe de Enfermagem quando vimos uma garotinha de uns seis anos indo até outra da mesma idade que recebia quimioterapia. 

A primeira explicava para a segunda, que era recém chegada ao hospital, os efeitos da quimio, onde doía, o que iria acontecer com o cabelo e, por último e não menos importante, onde brincar e como ela brincava. E nós só observávamos. 

Dr. Mané Pereira e Dr. Pinheiro (Márcio Douglas e Du Circo)
Hospital Santa Marcelina – São Paulo

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Do seu coraçãozinho

Há algum tempo, Ezequiel fez uma cirurgia no seu coraçãozinho. Foi no Procape, em Pernambuco.

Este desenho, feito por ele, me emocionou muito. Lembrei-me da artista Frida Kahlo, da qual sou fã, e do quanto ele deve ter sublimado seus medos, esperanças e emoções em seu desenho, assim como ela o fazia.

Desenho Ezequiel

Achei os detalhes primorosos: o dedinho com o oxímetro, o cateter, os fios do soro… Os dois corações vermelhos ligados pelo fio parecem representar o seu desejo de que o coração fraco ficasse bom, mas sem esquecer de que ele ama o fraco coração mesmo assim.

Ah, são tantas interpretações que podemos tirar! Por isso acho o nosso trabalho tão extraordinário, pois ele não parte tanto de nós, mas das crianças, que oferecem suas histórias para que nelas possamos entrar, interagir e tirar interpretações.

Ezequiel teve alta e já faz algum tempo que foi pra casa, onde imagino que esteja muito bem e vivendo uma vida feliz.

Enne Marx (Dra Mary En)

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Tempo de retornar

A gente visitava Emily toda semana, às segundas e quartas, desde que ela tinha dois anos. 

Ano passado, aos cinco anos, muita coisa mudou na vida dela. Ela esticou, começou a falar, seus dentes de leite tomaram toda a boca, mudou de leito e ganhou um carrão com motorista particular – uma cadeira de rodas pra se locomover pelo Hospital da Restauração, em Recife, onde ela morava. 

Emily não gostava que ninguém chorasse perto dela, e logo saía da sua boca o comando:
- Engole o choro! – por sinal, nunca vimos uma lágrima sua. 

Apesar de ter nascido com uma doença que impede grande parte dos movimentos, Emily brilhou como a balizinha do Bloco do Miolinho Mole neste ano.

Doutores HR  - Lana Pinho-19

No final de março, a gente se despediu.

Através de uma cartinha daquela campanha dos Correios, Emily conseguiu os aparelhos de que precisava para poder ir para casa; e a sua cidade, Brejo da Madre de Deus, em Pernambuco, foi só festa para receber a pequena. O vídeo abaixo mostra um pouco dessa história:

Emily, sentiremos sua falta às segundas e quartas, mas estamos certos de que encontrará alegria em sua casa, junto à família! Saúde e muita bobisse!

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