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Um sentido chamado sensibilidade

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Já faz um tempo que conhecemos a L. Ela tem a visão bem fraca, só enxerga muito de perto. Mas tem uma sensibilidade muito forte.

Em nossos primeiros encontros, já percebemos o quanto ela gosta de palhaço. Ela tocou nossos narizes, nossos sapatos, tudo o que tínhamos nos bolsos. Um fantoche de dedo, cartas de baralho mágica, bolas de cristal e até minha cartola de malabarismo voadora. Ela soube exatamente quem éramos: Dr. Pinheiro e Dra Greta.

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De um tempo para cá, ela esteve internada e temos nos encontrado direto. Sempre que chegamos o pai ou a mãe perguntam se ela sabe quem chegou.

- DOUTORES DA ALEGRIA!, ela grita.

Perto de completar seis anos, L. é uma criança encantadora, conversa melhor que muito adulto. Dia desses chegamos ao seu quarto e a encontramos brincando com uma residente do hospital. Entramos na brincadeira: L. pegava o fogãozinho de brinquedo, a cama e os móveis e me passava, dizendo:

- Pega para você sentir como é!

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Ao final do dia, passamos pelo corredor e lá estavam elas, juntas novamente. E dessa vez dançando valsa… Isso nos emocionou! Na última semana, quando chegamos ao quarto, L. estava saindo com outra criança em direção ao andar da Quimioterapia.

- Vamos juntos!, disse ela, pegando em minha mão.

E eu fui como seu guia, um sentimento de parceria e confiança que ganhamos com o tempo, a cada visita, a cada encontro.

Dr. Pinheiro,
mais conhecido como Du Circo,
direto do Instituto de Tratamento do Câncer Infantil, em São Paulo.

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Doutores recomenda: mostra Mão Molenga Teatro de Bonecos

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Embora seja conhecido nos hospitais de Recife como Dr. Eu Zébio, o ator Fábio Caio também é famoso por seus trabalhos no Mão Molenga de Teatro de Bonecos.

Desde 1986, o coletivo – formado por Fábio Caio, Carla Denise, Marcondes Lima, Fátima Caio – resgata e preserva a tradição dos mamulengos na história do teatro em Pernambuco. O estado é considerado um dos berços do mamulengo, fantoche típico do nordeste brasileiro.

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E para celebrar o legado de 30 anos e aproximar o público do trabalho, a mostra “Mão Molenga – Cenas de uma história” está em cartaz em Recife, na Galeria Corbiniano Lins (Sesc Santo Amaro).

Durante seis anos, o Mão Molenga se dedicou a filmar uma série sobre passagens importantes dos 500 anos do Brasil. Cerca de 50 bonecos foram restaurados, entre eles personagens da família real, como Dom Pedro I, Dom Pedro II em várias fases, a princesa Leopoldina, dona Maria I, além de nomes como José Bonifácio, Zumbi dos Palmares, José do Patrocínio e Joaquim Nabuco.

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A exposição é gratuita e conta com trechos acessíveis a espectadores surdos ou com baixa audição, e cegos, ou com baixa visão, e poderá ter visitas guiadas sob agendamento para esses públicos específicos. E a comemoração inclui ainda oficinas, debates e apresentações de três espetáculos do repertório do grupo (Babau, O fio mágico e Algodão doce), além de exposição virtual.

Clique aqui para fazer o download do flyer da programação completa ou veja abaixo.

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Exposição “Mão Molenga – Cenas de uma história”

Segunda a sexta, das 9h às 17h, até 28 de julho
Galeria Corbiniano Lins (Sesc Santo Amaro – Rua Treze de Maio, 455, Santo Amaro)
Entrada gratuita
Informações e agendamento: (81) 3216-1728

Oficina Construção de bonecos

20 de maio a 17 de junho, aos sábados, das 9h às 12h
Sesc Santo Amaro
R$ 40 e R$ 20 (comerciários e dependentes)
Inscrições: Sesc Santo Amaro ou pelo telefone (81) 3216-1728

Roda de conversa: 500 anos, a série – Os bonecos no audiovisual pernambucano

23 de maio às 19h
Teatro Marco Camarotti (Sesc Santo Amaro)
Entrada gratuita 

Debate sobre teatro de animação em Pernambuco

31 de maio às 19h
Teatro Marco Camarotti (Sesc Santo Amaro)
Entrada gratuita

Lançamento da exposição virtual

30 de junho às 17h
Galeria Corbiniano Lins (Sesc Santo Amaro)

Espetáculo “Babau”

27 de maio às 16h
Teatro Marco Camarotti (Sesc Santo Amaro)
R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada)

Espetáculo “O fio mágico”

28 de maio às 16h
Teatro Marco Camarotti (Sesc Santo Amaro)
R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada)

Espetáculo “Algodão doce”

28 de julho às 10h
Teatro Marco Camarotti
R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada)

Uma sabiá no isolamento

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Antes de entrar na UTI pediátrica, perguntamos a duas técnicas de Enfermagem se havia algo que precisávamos saber antes de começar as visitas. É uma prática habitual em nossa rotina de trabalho. 

- Sim, isolamento na enfermaria 4.
- Não podem entrar.
- Mas podem ficar na porta.
- Usem máscara, avental e luva se quiserem entrar.
- Por que tudo isso?, perguntei.
- É uma superbactéria, Dr. Euzébio!

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Fiquei assustado e quase comecei a chorar, dizendo que não iria lá por nada nesse mundo. Dr. Micolino, meu parceiro, me convenceu a fazer o contrário, me empurrando até a porta da tal enfermaria onde reinava a superbactéria que impedia a entrada dos médicos.

A porta estava fechada e não se ouvia um ruído sequer. Havia um monte de papel toalha na pia, logo na entrada da enfermaria. Peguei algumas folhas, usando-as como escudo, e bati na porta. Instantes depois um homem muito simpático abriu a porta. Era o pai da F., que ria das nossas caras inquisidoras. 

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Ficamos na porta do quarto e olhamos por todos os cantos, de cima a baixo, procurando a tal vilã. A superbactéria estava muito bem escondida, quem sabe até já havia fugido. Depois de nos apresentarmos, cantamos uma canção para a menina, que nos olhava com seriedade. 

Até cheguei a achar que não estava gostando. Só que ao final da canção, ela balbuciou algo tão baixinho que o pai teve que traduzir.

- Entra!
- Eles não podem, respondeu o pai.
– Então canta outra!

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Dessa vez foi Micolino quem pegou a viola e puxou a canção do sabiá, enquanto eu puxei um pedaço de papel colorido e comecei a construir, ali mesmo, um pássaro que bate asas.

- Pai, não deixa eles irem embora!, o pai traduziu para nós.

Terminada a canção, tinha em minhas mãos uma sabiá de papel, que pegou carona nas mãos do pai da F. e saiu batendo asas para dar-lhe um beijinho na testa. A última frase nem precisou de tradução. De onde estava, ela sorriu e nos mandou um beijo dizendo: Volta, viu?.

Dr. Eu_zébio, mais conhecido como Fábio Caio,
direto do IMIP, em Recife.

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A cidade e o feminino, por uma jovem artista

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Todos os dias, pouco mais de 20 jovens circulam pela nossa sede, em São Paulo.

Pela manhã, têm aulas de palhaço: aprendem, praticam, refletem, trocam experiências. De tarde, alguns se vão. Outros permanecem e continuam o treino: arriscam um instrumento musical ou um devoram um livro

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Cidade e Feminino

“Olha lá. Sentada no banco da praça, perdeu a dignidade, coitada. Olha lá, se despindo na praça do centro, colocando pra fora peito, bunda, sujeira, calor, grito de quem tá calada faz tempo. Olha lá, olho perdido olhando pra nada, olhando pra tudo. Olha a angústia, olha. Vê? Deixo a minha dor, deixo a voz, deixo história interrompida. Deu tudo que tinha, se deu e deu alma, deu corpo, deu pro tempo, deu pra esse, deu pra aquele, deu pra rua, deu pra nunca mais se ter. Mulher perdida na praça sem roupa, esse olhar você não aguenta. Agora tá dançando, olha lá. Bota a mordaça.

Na esquina, amontoada com saco, bolsa, roupa, pombo, passado, fome e caderno e caneta na mão desenhando o labirinto perdido há tempo. Desenhando passado, desenhando história desenhando luta e grito e dor, de quem foi, mas não é mais. Concentração na ponta da caneta, concentração no toque do papel, ignora a multidão que passa, e passa. E ela? Ela fica. Ela tá aqui esperando o outro dia chegar. Não. Ela tá aqui desenhando labirinto, ela tá aqui agora, só agora. Mulher na rua, fedida, perdida, desenhando labirinto, a se organizar. Êta.

Jogada em qualquer canto da cidade, jogada no papelão da carne, da carne que come, da carne que deita no papelão da carne, que se aquece no papelão da carne, que mija no papelão da carne. Sentada com a criança no colo, peito de fora, peito que amamenta e que homem não tem. Homem não alimenta. Cabelo desgrenhado, corpo suado, sujo. Mão estendida, olhar selvagem. Criança pequena, moleque que vai crescer moleque já tá no mundo, moleque com fome. Olha lá, se desenhando os muros bem na frente do moleque.

A cidade é amontoado, é amontoado de coisa e acúmulo, acúmulo de coisas, de capital, de sujeira, de lágrima seca, de palavra não dita. Então diz pra mim, diz pra mim no meio disso tudo, diz que você me respeita, diz que você me vê, que me reconhece. Diz que vai me deixar andar, diz que vai me deixar falar, diz que não vai ser escroto, diz que não vai pisar na cabeça dela quando ela estender a mão. A cidade engole e abriga, ao mesmo tempo. Protege e expõe, mas não defende.”

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Espaços de intervenção

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Sempre olhamos para o hospital como um espaço de intervenção. Bem, “intervir”, no âmbito da Medicina, pode ser um procedimento cirúrgico para tratar uma doença. No contexto da arte, entretanto, uma intervenção pode ressignificar uma situação cotidiana, trazer um novo olhar para algo já estabelecido.

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Foi assim que, há 25 anos, Doutores da Alegria escolheu o palhaço como forma de intervenção no hospital. Sua essência questionadora e subversiva quebrou paradigmas em um ambiente pautado pela hierarquia, pela seriedade, pelas regras. E se no início o palhaço gerava estranhamento e indagação sobre sua pertinência, tempos depois inspirou diversas atividades dentro do hospital e foi abraçado pela sociedade, tornando-se ícone do movimento de humanização.

Optamos por estar em locais fronteiriços em que o poder público quase se ausenta. Convivemos diariamente com a doença, a violência em pequenas atitudes, o descaso e o abandono, entre outras tragédias cotidianas – mas também com a cura, com profissionais dedicados, com a superação, com a alegria dos encontros.

Intervir junto a crianças, adolescentes e outros públicos em situação de vulnerabilidade e risco social em hospitais públicos nos fez transitar, como organização, pelos campos da saúde, da cultura e da assistência social. Do lado de fora dos hospitais, ampliamos canais de diálogos reflexivos com a sociedade e investimos em formação e pesquisa.

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Neste caminho, em 2016 Doutores da Alegria trouxe uma nova governança, composta por um diretor presidente e quatro diretores eleitos pelos associados. E uma nova tarefa institucional, que substituiu a nossa missão, propondo a arte como mínimo social, ou seja, como uma das necessidades básicas essenciais para o desenvolvimento digno do ser humano, assim como alimentação, saúde, moradia e educação.

O conceito de mínimo social ainda está sendo digerido pela organização, contudo ele já aponta para um novo espaço de intervenção muito além do ambiente hospitalar: a atuação com políticas públicas em uma perspectiva de construção e garantia de direitos. Assim como há 25 anos, talvez causemos estranhamento e indagações, mas atuar na fronteira também faz parte de nosso ofício.

_texto originalmente publicado no Portal Setor 3

15 de maio: Dia Internacional de Conscientização das Mucopolissacaridoses

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Você sabe o que são mucopolissacaridoses? MU-CO-PO-LIS-SA-CA-RI-DO-SES.

Apesar do nome difícil, a explicação é clara: são doenças genéticas raras que comprometem diversos sistemas e órgãos do corpo humano. Justamente para trazer mais clareza sobre a doença, a Sociedade Brasileira de Genética Médica elegeu 15 de maio como o Dia Internacional de Conscientização das Mucopolissacaridoses.

A campanha #MPSDAY aumenta as possibilidades de acesso ao tratamento por meio do diagnóstico precoce. Neste ano, o símbolo do #MPSDAY é o tsuru, ave sagrada do Japão que representa saúde e longevidade.

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Participe da campanha

Quer participar da campanha? Tire uma selfie com a hashtag #MPSDAY e indique o site www.mpsday.com.br. Além de orientação para quem quer saber mais sobre a doença, lá estarão reunidas todas as informações sobre a campanha e a cobertura das ações que serão realizadas em todo o país.

Entenda melhor as mucopolissacaridoses

As MPSs [mucopolissacaridoses] são multissistêmicas, ou seja, comprometem diversos sistemas como respiratório, esquelético, osteoarticular e nervoso, além de coração, face e sentidos, como a visão, por exemplo, afirma a Dra Carolina Fischinger, presidente da entidade.

Como as MPSs se expressam de maneiras muito distintas, o diagnóstico é difícil e, na maioria das vezes, tardio. Até que a doença seja identificada, é comum que o paciente passe por uma série de especialistas e trate as consequências, não a causa do problema. Outro ponto relevante para o atraso no diagnóstico é a carência de profissionais habilitados para fazê-lo. A grande maioria das doenças raras é de origem genética e, hoje, o Brasil conta com apenas 241 médicos geneticistas.

A falta de diagnóstico e tratamento precoce acarretam sequelas severas e perda na qualidade de vida do paciente, podendo desenvolver dor crônica, cegueira, deformidades e restrição da mobilidade; além da sobrevida diminuída na maior parte dos casos“, completa a doutora.

Os sintomas variam de acordo com a idade do paciente, com o tipo de mucopolissacaridose e com a gravidade da doença de cada paciente. Alguns sintomas são: macrocefalia (crânio maior que o normal), hidrocefalia, deficiência intelectual, alterações da face, aumento do tamanho da língua, má-formação dos dentes, atraso no crescimento (baixa estatura e baixo peso), rigidez das articulações, deformidades ósseas, entre outros.

Para confirmar a mucopolissacaridose, é realizado um exame de sangue para identificar a falta ou diminuição das enzimas. E o tratamento envolve uma equipe com diversos profissionais, de acordo com os sintomas que podem ser apresentados.

Que saber mais? Acesse www.mpsday.com.br.

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Música nos hospitais: arte e tecnologia em favor do cuidar

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Falar de música em hospitais não é novidade. Há muita afinidade entre a arte da música e a arte de cuidar.

Como traz Eliseth Leão, estudiosa do assunto, “em culturas diversas, o médico e o músico são representados por uma mesma imagem ou símbolo. O Imperador Amarelo, na antiga China, é considerado o fundador da Medicina e da música. Na mitologia grega, Apolo simboliza a estreita relação que existe entre a música e a Medicina.”

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Uma reportagem recente da Folha de S.Paulo questiona a ausência de música nas UTIs. “Um aspecto que poucas pessoas param para pensar é o som em um ambiente de UTI. Bipes, alarmes sinalizando que um batimento cardíaco ficou muito baixo ou muito alto. Ou que a oxigenação caiu, um elétrodo saiu do lugar. Também é constante o som da televisão, o som de uma respiração artificial, o som de um choro contido. Enfermeiros e médicos passam plantões, celulares apitam, telefones tocam”, escreve a repórter Camila Appel.

Ela também descreve uma experiência no Hospital da University College, em Londres. Foi organizado um show ao lado do hospital, com transmissão ao vivo aos pacientes através de fones de ouvido e ipads esterilizados.

Práticas inovadoras também vêm surgindo por aqui, com a perspectiva de obter um resultado terapêutico através da música. Em abril, o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, se associou ao Spotify (serviço de distribuição de streaming, podcasts e vídeos) para oferecer playlists/seleções musicais especiais para seus pacientes e clientes.

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Há playlists diversas, entre elas para o Serviço de Hemodinâmica, Ressonância Magnética e Banco de Sangue. Os ouvintes são convidados a avaliar a sua experiência ao entrar em contato com a música em momentos determinados, de modo que estudos possam verificar quais aspectos e como a música atua na promoção de bem-estar. A pesquisa é conduzida por Eliseth Leão, com curadoria de pessoas como o Maestro Walter Lourenção, que já regeu a Orquestra Municipal de São Paulo e a OSESP.

Para Doutores da Alegria, a música é facilitadora na construção de relações sensíveis. Ela é base, recheio, fundo, entrelinhas e silêncios. A música faz parte de todos os nossos projetos, desde o ukulelê tocado pelo besteirologista ao lado do leito de uma criança até um cortejo musical com sanfona e bumbo que ressoa pelos corredores da enfermaria. Também está na grade curricular dos nossos cursos e em ações com a Escola de Música do Estado de São Paulo.

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Além das habilidades do palhaço, é fundamental ter bons ouvidos. Não necessariamente ouvidos absolutos, mas ouvidos acurados.

“Pode-se criar algo a partir do som repetitivo que sai de uma máquina que monitora o coração. Claro que a máquina que monitora um coração não é um metrônomo, que pode ser regulado para a música que será tocada, mas podemos ouvir esta pulsação com ouvidos de palhaço, e então cabe preencher a partitura desse monitoramento. Entre um pi e outro, cabe um estalar de língua, uma nota na flauta, um batuque discreto, um acorde de violão ou uma percussão corporal qualquer. Depois dessa experiência, a criança passa a escutar este som ao lado de seu leito, com outros ouvidos, mesmo na ausência dos palhaços”, conta Thais Ferrara, atriz, palhaça e musicista, hoje Diretora de Formação do Doutores da Alegria.

Dentro ou fora dos hospitais, a música conta histórias, emociona, inspira. Ela também serve para abrir canais com a criança que está distante, receosa ou, ainda, deprimida pelas circunstâncias da doença.

“Pode também ser um fundo musical para uma ação que já está acontecendo. Já acompanhamos crianças até o centro cirúrgico, com uma bandinha que abria espaço no “trânsito” pelos corredores do hospital. Já fizemos serenata da janela, para crianças em isolamento, e para enfermeiras no balcão da Enfermagem”, conta Thais. 

Com as novas tecnologias disponíveis, iniciativas como transmissões de música ao vivo e uso de playlists para pacientes certamente alcançarão mais hospitais e farão parte da nossa realidade em um futuro próximo.

Cabe aos profissionais de saúde – e aos besteirologistas, claro – saber como se aproveitar destes recursos para promover algo milenar: a arte de cuidar.

Diário filmado de um palhaço

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Era um final de tarde frio e cinzento do outono de 1996. Eu, Nereu Afonso, tremia. Não pelo frio, mas pelo nervosismo remanescente do teste seletivo que eu acabara de passar.

Wellington Nogueira, fundador e então diretor do Doutores da Alegria, virou-se para mim e disse a frase que marcaria minha trajetória: “Nereu, quero te convidar oficialmente a integrar o nosso elenco”. Eu gaguejei um “muito obrigado” e, até hoje, confesso que esse sentimento de agradecimento ainda paira no ar.

Passaram-se vinte anos.

Naquela época, Doutores da Alegria era uma jovem associação com cinco anos de idade. Hoje, comemoramos 25!

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Muita coisa aconteceu desde então, para Doutores e para mim. Amadurecemos. Ganhamos experiência e também o bônus e o ônus que acompanham a maturidade. Esperamos ter aprendido – e ainda estar aprendendo – com nossos passos certeiros e, sobretudo, com nossos passos em falso.

Hoje, junto com Duico Vasconcelos, sou parte da dupla de palhaços que inaugurou uma nova experiência dentro da organização: a abertura de um programa-modelo, em funcionamento desde 2016, no Hospital do M’boi Mirim.

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O Hospital do M’boi Mirim se situa a uma distância aproximada de 20 quilômetros dos bairros de classe média, onde moramos. Isso equivale a aproximadamente 1h30 de deslocamento em trem, metrô e ônibus. Isso equivale, sobretudo, a uma mudança gradual da paisagem arquitetônica e humana ao longo do trajeto.

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Quanto mais próximo do hospital, menor o número de linhas de ônibus, menor o espaço livre dentro dos ônibus, menor a qualidade das vias, menor a quantidade de áreas verdes, menor a infraestrutura urbana ali presente e, muito visivelmente, menor o poder aquisitivo da população representada por uma mescla de etnias bem mais numerosa – e discriminada – do que a variedade clara e quase monocromática dos que vivem em boa parte dos bairros do centro expandido da cidade.

Trajetos como esse não são novidade para nós. Apenas nos lembram da hecatombe social na qual nosso país insiste em submergir.

Lutando contra esse oceano de desigualdade, há vários anos as intervenções do Doutores da Alegria a hospitais periféricos deixaram de ser uma novidade em nossa associação. Pelo contrário, elas são um um dos eixos centrais de nossa tarefa institucional.

O diário filmado

O filme “Diário de um palhaço de hospital – Dia um” é uma crônica de nosso primeiro dia de trabalho nesse novo ambiente.

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Viu o que você fez?

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O menino assistia a um desenho de super-heróis quando chegamos.

Nos apresentamos como besteirologistas: Dra Greta e Dr. Pinheiro. Nenhuma reação por parte dele. A mãe disse que ele era sério, então ficamos sérios. Ele dividia o olhar entre a TV e os besteirologistas.

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Eis que Greta começa a sentir algo, um tremelique.

Dr. Pinheiro – O que é isso?
Dra Greta – Não sei, tô sentindo uma transformação!

Ela se dirige ao fundo do quarto. O menino acompanha com os olhos.
Pinheiro – Greta, aonde você vai?
Greta – Calma, Pinheiro! Preciso de um lugar secreto. 

Dr. Pinheiro percebe a movimentação. Começa a tocar a trilha sonora do Batman. Mesmo sem entender, mãe e filho acompanham tudo atentamente. Eis que Greta surge! 

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Greta – Eu sou a BateGreta! Estou aqui para mostrar os meus super poderes!

O garoto solta um sorriso. BateGreta, desastrada, bate em todas as coisas do quarto. Dr. Pinheiro tenta contê-la, mas não consegue. E o garoto começa a gargalhar.

BateGreta lança um raio fulminante em Pinheiro! Seu chapéu começa a desobedecê-lo, não para em sua cabeça, dá voltas em seu braço, se equilibra no nariz… Nesse momento o garoto já não controla sua risada e… Ops!

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MãeFilho, você fez xixi nas calças de tanto rir!, diz ela carinhosamente.
Pinheiro – Viu o que você fez, Greta?
Greta – Eu não fiz nada, são os meus superpoderes!
Pinheiro – Já pra fora!

BateGreta ainda dá de cara com a porta ao sair do quarto.

Mãe – Nossa! É a primeira vez que o vejo rir tanto desde que está aqui. Obrigada! Vamos trocar a calça, filho?

Dra Greta Garboreta,
conhecida fora dos hospitais como Sueli Andrade,
direto do Instituto de Tratamento do Câncer Infantil, em São Paulo.

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As subidas e as descidas de cada dia

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A vida da gente segue como uma escada, penso eu. Às vezes sobe, outras desce, mas geralmente sobe e desce.

E foi numa dessas descidas à UTI, no 2ª andar, que conhecemos um garoto de cabelos compridos, parecidos com os do Alceu Valença. Ele quase não se mexia, com tanto equipamento ligado a seu corpo. Mas uma porta abriu, pelo olho vivo, na chegada da nossa voz falando baixinho no seu ouvido.

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E eis que uma escada surgiu no caminho e, para subir, tivemos que descer. 

Como tudo era desconhecido, fomos devagar para não assustar o menino e, aos poucos, descobrimos como eram boas as dificuldades encontradas em cada degrau. Resolvemos, entre tantas visitas, fazer uma música e, para nossa galgada rotina, ele nos surpreendeu quando dançou com os olhos, num mexido bailante onde todo seu corpo estava conectado, denunciando o desejo de se mover.

A alegria estampava nossos rostos e olhos, que também sorriam. 

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O acontecimento virou notícia no setor e era comum fazermos bailes com muita gente ao redor só para ver o menino dançar com a Íris, menina que dizem morar nos olhos. Um dia, depois de descermos alguns degraus, reencontramos ele numa outra cama, com menos equipamentos ligados ao seu corpo.

E para arrepiar os cílios dos olhos, ele ecoou um som com a língua, como se estourasse uma bolha de sabão no ar. A gente parecia criança quando ganha brinquedo novo. E se o garoto tivesse um botão, daríamos play infinitas vezes para ouvir o som de bolha que saía de sua boca. 

Naquele dia, subimos um dos degraus mais bonitos, porque a evolução de um paciente é como a chegada de um presente sem data marcada, uma alegria que não cabe numa caixa e nem precisa de embrulho. Daqueles presentes que todo mundo brinca junto e vai pra casa feliz. 

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Ele já é um dos vocalistas da “Banda Vuó” e o sucesso tem sido tão grande que agora a gente sobe mais degraus do que desce. E com um passo atrás do outro, podemos chegar à Lua. 

Dra Svenza e Dr. Lui,
conhecidos fora dos hospitais como Luciana Pontual e Luciano Pontes,
direto do Hospital da Restauração, em Recife.