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Linguagem quase silenciosa

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Sabe aqueles encontros de última hora? E que acontecem no apagar das luzes, que nos fazem pensar: nossa, ainda bem que encontramos com ele hoje!

Pois foi assim o encontro com o L., menino de uns 6 anos. Estava ele sentado na cadeira ao lado de sua mãe. Abaixamo-nos para falar com ele e nos apresentamos. Ele ficou boquiaberto, com ar surpreso e um brilho nos olhos. 

- Bom dia, eu sou o Dr. Micolino.
- E eu sou a Dra. Monalisa. 
- Diga alguma coisa pra eles!, respondeu a mãe.

Ele apenas balbuciou alguma coisa.

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Mas L. não poderia jamais falar naquela hora, porque o seu tempo era outro. Não era o tempo de dizer o nome, porque quando nomeamos nós delimitamos o que vemos para entender com a mente. E aquele não era o tempo de entender. Aquele era o tempo do espanto, da surpresa, do alumbramento, do não saber.

A boca não falava, mas como seus olhos brilhavam. Olhos que nos inquiriam, nos indagavam, sorriam de volta, perguntavam quem éramos nós, convidavam pra ficarmos! E para fazermos exames, pílulas embaixo do sovaco, fazermos barulhos engraçados, examinarmos seus dedinhos e verificarmos se estavam no ritmo e, no fim, darmos um atestado.

Foi justo aí, no finalzinho, que precisamos perguntar a ele onde ficava a testa.

- Aqui!, e apontou com o dedo. Finalmente falou.

Foi um encontro com uma linguagem quase silenciosa, mas intensa. E um olhar que disse tanto a ponto de nos fazer pensar na beleza e na alegria de estar presente, vivo, junto, pulsando numa mesma bobagem. 

Dr. Micolino (Marcelino Dias) e Dra Monalisa (Greyce Braga)
Hospital Barão de Lucena – Recife

Da realidade que nos invade

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Quem caminha pelo hospital sabe que as besteirologistas Nina Rosa e Juca Pinduca andam com máscaras hospitalares feito chapéu em suas cabeças, com seus jalecos cheios de surpresas, instrumentos musicais para exames de ultrassom, com andar estranho e aquele nariz vermelho que chega sempre antes.

Enfim, coisas de palhaços. São as nossas cartas na manga para criar ficções, modificar a realidade dos espaços, das coisas e das relações. 

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Há nisso certa esquizofrenia, onde caminhamos como se estivéssemos em cima de um muro entre o real e o imaginário, pois em nenhum momento podemos nos desgrudar da realidade que nos cerca, que nos dá o alimento e a inspiração para as cenas que criamos ali na hora, tendo como companheiros de atuação os médicos, as enfermeiras, as crianças; e como cenário as camas e os portas soros. 

Mas nestes meses vivi uma nova experiência: a da realidade que nos invade.

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Creio que não somente eu, como muito dos meus colegas palhaços brincam com suas verdades. Eu, grávida de 5 meses, tenho algo além do nariz vermelho que chega e já é logo notado: a barriga

Essa realidade está ali e é inegável! E por mais que brinquemos, por mais que tragamos para o fato grandes absurdos como “se nascer daqui a um mês é uma calopsita, se demorar mais 3 meses é gente, agora se demorar mais uns 6 meses é uma anta!”, por mais que o irreal brinque com o real, as mães, enfermeiras e médicos sabem que ali há um serzinho que precisa e precisará de cuidados, que mais do que qualquer outro tem precauções para entrar em quartos, pois há riscos maiores. 

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Então em um desses cuidados, um dia, não pude entrar na UTI Infantil, pois havia uma criança com catapora. Dra Juca entrou junto com sua única companheira – a sua sanfona -, enquanto eu fiquei sentada junto a três mães, duas muito jovens e uma terceira talvez poucos anos mais velha que eu… 

- Nossa, você está grávida?, pergunta uma delas. Quer saber o sexo da criança, o nome.
- Estou confusa entre Amoxilina ou Tamiflu, respondi.

Elas riem e contam sobre nomes e suas gestações, numa bagunça típica de salão de manicure. As duas mais novas vão embora, Dra Juca sai da UTI, vamos preparando para ir embora. A outra mamãe, que permanece sentada, me pergunta sorrindo:

- Posso colocar a mão na sua barriga, Nina? 

Sem muita alternativa em casos assim, eu deixo. Então a realidade vem e nos invade. Invade à ela, que abraça minha barriga e chora; invade a mim, que escuta o palhaço pedir licença, meio sem graça acolhendo o abraço, as lágrimas, e aquela conversa sem palavras…

Ainda não sou mãe de fato, apenas uma gestante de primeira viagem entendendo a vida dentro de mim, mas naquele momento nada precisava ser dito, eu sentia de mãe pra mãe toda a gestação dela em mim, toda a alegria dela quando esteve grávida, toda essa espera que passamos, e agora toda a trajetória de sua gestação até aquele momento sentada nas cadeiras de uma UTI voltando à espera… A esperança. 

Apenas consigo dizer que tudo irá ficar bem. Ela devolve dizendo que só deseja saúde ao serzinho que virá… Dra Juca, observando de início sem entender, passa a procurar alguma planta para poder regar com as lágrimas e não desperdiçar as gotinhas de água que caem dos olhos. E a ficção vem e transborda no sorriso da mãe!

Nós, que subvertemos a realidade o tempo todo, não estamos nunca preparados para a realidade que por vezes nos subverte, nos invade; mas ali o palhaço também mora… Ali entra a imaginação e a realidade, entre o que é humano e dói, entre absurdo de lágrimas caindo dos olhos e regando flores. 

Monique Franco (Dra Nina Rosa)
Instituto da Criança – São Paulo

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Um estranho sensor

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Algo de estranho aconteceu em um dos quartos da Pediatria do Hospital do Grajaú. Do lado de fora, os besteirologistas Sandoval e Xaveco tentavam dar um diagnóstico.  

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Assim que Xaveco punha o pé dentro do quarto, um barulho imediatamente aparecia, como um sensor automático de porta.

- BUÁÁÁÁÁÁ!!!

Tirava o pé e o barulho parava. Foi a vez então do Sandoval testar. E o mesmo aconteceu. 

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Havia quatro crianças lá dentro e o som vinha da cama da direita, perto da janela. Resolveram investir em uma tentativa: entrar de costas para aquela cama. Mas o sensor foi acionado imediatamente…

- BUÁÁÁÁÁÁ!!!

Os besteirologistas saíram correndo para fora. Tentaram entrar tocando e cantando, mas o problema continuava. Tiveram uma percepção brilhante: talvez o sensor ligasse porque a cara dos palhaços era muito esquisita. Cobriram as cabeças com um lençol e mais uma vez colocaram os pés para dentro do quarto.

- BUÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ!!!

O sensor tocou ainda mais forte. Xaveco e Sandoval tentaram sair do quarto correndo, mas como suas cabeças estavam cobertas, ficaram batendo a cara na parede até encontrarem a porta certa!

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Foi aí que, estranhamente, o barulho começou a se misturar a outro tipo de som.

- HAHAHA…

Assustados, os besteirologistas avisaram que voltariam outro dia e que pediriam para a manutenção dar uma arrumada naquele sensor. Seguiram para os outros quartos…  

Dra Xaveco Fritza (Val de Carvalho)
Hospital Geral do Grajaú – São Paulo

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Hospital: lugar de sonho ou realidade?

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Dra Greta e Dr. Valdisney começaram a prestar atenção nos sonhos espalhados pelo Hospital do Mandaqui.

A palavra tem muitos significados: um produto da nossa imaginação, um desejo muito forte, uma ilusão e até um pãozinho fofo com creme dentro. Os estudiosos contam que os sonhos, esses que a gente tem quando dorme, servem para recuperar a saúde do organismo e do cérebro

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O J.M., em seus quase dois meses de internação, teve tempo suficiente para montar um time de futebol com os melhores do mundo, e ele fez isso testando um a um, cada jogador, em seu videogame. Seu sonho sempre foi comandar um time dos sonhos… E foi no campo adversário – o hospital – que ele conseguiu.

O R. e o J. sonharam que podiam ser melhores amigos. Passaram um bom tempo juntos no quarto 306. Seus pais contaram que nesse período compartilharam tantas ideias, conversas, partidas de videogame, histórias e que se identificaram tanto, que o sonho se realizou: viraram amigos de fé. No dia em que R. recebeu alta, mal conseguimos atendê-los, porque tanto R. como J. choravam compulsivamente, e ainda que morassem no mesmo bairro, e seus pais houvessem prometido que os levariam para visitar um ao outro, nenhum deles se conformava com a separação. O hospital acabou sendo palco de uma convivência ímpar.

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Para as mães e pais que acompanham suas crianças, o ambiente hospitalar é esgotante… Pouco sono, apreensão, sofrimento, estresse, afastamento da família. Seu maior sonho é voltar para casa, mas isso não depende deles, como também não depende de nós, besteirologistas… Mas como sempre temos um remédio escondido nos bolsos de nossos jalecos; intervimos para minimizar esta tensão. Nos quartos de internação da Pediatria infalivelmente escutamos o barulhinho do inalador… Tchiiii, tchiiii, tchiii… E é igualzinho ao da panela de pressão. Então propusemos à diretoria do hospital que orientem os médicos a prescreverem inalação com cheirinho de feijão, assim as mães podem sonhar que estão em casa e que a comida já está no fogo, o que as deixaria bem relaxadas. A proposta foi aceita por unanimidade e considerada genial.

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No Mandaqui está também o nosso sonhador mor, o Mateus. Ele nunca havia saído da UTI, seu sonho era ver a lua, e viu. Depois sonhou em ir ao cinema, e foi. Aí começou a sonhar em ser um artista, pintou uma série de quadros, e teve seu vernissage. Hoje ele tem até professor particular de pintura. Mateus sonhou também em escrever um livro; juntou o útil ao agradável e, em parceria com seu professor, produziu um gibi, uma ficção científica, cujos personagens são inspirados em pessoas do hospital. Seu mais recente sonho é lançar seu “livro-gibi” e, quem sabe, transformá-lo em desenho animado para TV. Se vamos sonhar, vamos sonhar grande, né?

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E depois de tantos sonhos, qual será o nosso? O dos besteirologistas do Mandaqui? Bom, há vários… Valdisney sonha o tempo todo em ficar rico, em ter cabelo, em emagrecer e em se parecer com o Brad Pitt; já eu, Greta, sonho em arranjar um marido, em arranjar um marido, em arranjar um marido e em arranjar um marido.

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Mas o que sonhamos juntos? Ah! Nisso não discordamos! Sonhamos em um dia chegar ao hospital e o encontrarmos vazio, absolutamente sem nenhuma criança para ser atendida por não haver mais crianças doentes no mundo…

“Agora eu vou sonhar
Eu vou sonhar maior
E cada sonho meu
Há de criar-se ao meu redor”

Dra Greta Garboreta (Sueli Andrade)
Hospital do Mandaqui – São Paulo

Pokemon Go nos hospitais – ou como o virtual constrói novas relações

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Muitos tratamentos exigem que a criança hospitalizada faça caminhadas pelos corredores para se recuperar. Levantar da cama, esforçar-se para mexer o corpo, encontrar outras pessoas e respirar novos ares pode contribuir para deixar o hospital mais rápido.

O jogo para celular Pokemon Go, que recentemente chegou ao Brasil, vem incentivando crianças de hospitais mundo afora a deixarem seus leitos em busca de uma boa aventura. Profissionais de saúde e familiares dos pequenos também entram na brincadeira, caçando os bichinhos e tornando o hospital um lugar um pouco menos frio.

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Com base na realidade virtual, o jogador precisa andar e mover seu celular para caçar os bichinhos. “As crianças estão explorando um lugar que, há cinco minutos, talvez elas tivessem medo. Agora elas querem ver cada canto do hospital e aprender sobre ele”, conta J.J Bouchard, profissional da administração do C.S. Mott Children’s Hospital, nos Estados Unidos.

Além do benefício da caminhada, o jogo tem promovido encontros. Segundo o jornal Huffington Post, o pequeno Ralphie, de seis anos, tem transtorno do espectro autista e sente dificuldade em situações sociais. Mas jogar Pokemon Go ajudou-o a conhecer crianças de sua idade pelos corredores.

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Aqui no Brasil, as crianças hospitalizadas vêm fazendo uso do celular há muitos anos para se distrair dos longos momentos de internação. Os palhaços, que traduzem o mundo a partir de uma linguagem própria, entram no jogo, criando uma relação que transita entre o virtual e o real com cada criança. Pokemon Go certamente trará uma nova experiência para as intervenções artísticas.

Até quando o jogo será interessante a ponto de manter os pequenos caminhando não sabemos. E que outras inovações baseadas na realidade virtual surgirão… Também não. O fato é que o mundo virtual não tem fronteiras e pode desassossegar relações humanas, alterando a rotina de locais bastante intocáveis como os hospitais.

O que nos resta é continuar apostando na força dos encontros que dão um empurrãozinho para a recuperação da saúde.

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O mistério da calçola perdida

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Uma calçola no hospital! De quem será tamanho infortúnio? Deixaram a peça de roupa íntima jogada no balcão da UTI. A notícia nadou feito vento e circulou mais que liquidificador.

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Decidimos provar em todas as pessoas que passavam. Na Dra Ana Helena ficou muito folgada. No Dr. Joselito parecia um maiô. A Dra Clarice nem provou, disse que desconhecia a origem e o sotaque dessa peça de roupa.

Provamos a calçola em todas as crianças. No bebê dormindo parecia um cobertor de lã. Não achamos o dono. Pensamos em levar pra casa e transformá-la em toalha de mesa, em uma cortina, ou até mesmo um paraquedas. 

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Mas depois lembramos que faltava uma pessoa provar: DONA MARIA! 

A raiz do seu cabelo era branca, tinha 65 anos, um metro e meio de altura, negra e sempre estava a organizar uma mochila. Enquanto o seu neto, de aproximadamente quatro anos, soltava tímidos sorrisos de canto de boca com a nossa presença, ela gargalhava que espantava os pombos que pousavam na janela. Parados na porta, dissemos:

- Aqui está a calçola. A senhora é a única que não provou.

O neto esperava a reação da avó. Dona Maria foi logo dizendo:
- Não, não vou provar!
- Vai, vó!, disse o neto.

Vendo toda aquela súplica, Dona Maria vestiu a calçola. TAM TAM TAM TAAAAAAAAAAAAAAAAM!! Analisamos, olhamos, tiramos foto dela vestida de frente e verso e fizemos até selfie, é claro. Dr. Marmelo fez um pronunciamento:

– HUM!!! Bem, como o presente, devemos analisar, em decorrência dos relatos dos achados e perdidos, das circunstâncias dadas, do curto-circuito interno de TV e, em detrimento dos fatos estabelecidos com o ocorrente caso que se avariou sobre os latifúndios, as trocas de plantões subversivas e o capitalismo selvagem… A CALÇOLA É DA DONA MARIA!

Ouviu-se um levante geral: ÔÔÔÔÔÔEEEEEEEEEEEE!!! 

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Dona Maria desfilou pela enfermaria com a calçola como se fosse um vestido de noiva! E depois de tudo, já na salinha depois do trabalho, concatenando com os nossos botões, víamos claramente uma criança que se mostrava um adulto sério e Dona Maria uma criança sorridente, disponível para o encontro e a brincadeira.

É normal uma criança confiar no adulto. O adulto tem mais experiência, é seu espelho. Mas bom mesmo é o adulto confiar na criança também e se permitir momentos lúdicos e de transformação. Então, se a criança pede… 

Dr. Dud Grud e Dr. Marmelo (Eduardo Filho e Marcelo Oliveira)
Hospital da Restauração – Recife

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Tan Tan, que saudade!

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“Tan Tan, que saaaudades.

Eu de cabelo. Não sei se vai lembrar de mim, mas eu te reconheceria em qualquer lugar, mesmo sem maquiagem. Só passei pra dizer que quando vou ao hospital só me lembro de você e do Dr. Micolino.

Vocês mudaram toda a minha semana, minhas terças e quintas não eram mais as mesmas. Ficava olhando o relógio esperando vocês pra poder darem risadas junto comigo. Vocês foram essências na minha cura. Saudades das risadas, das brincadeiras, dos sorrisos sem filtro.

Parabéns pela profissional que és e não me assusta conhecer você sem o personagem. Só precisava agradecer por tudo. Hoje tô na minha casa curada e feliz de estar escrevendo pra você.

Beeeijos e deixo aqui minha admiração e meu amor pela pessoa que és. E pode dizer ao Micolino que já esqueci o cantor Saulo e tô com saudades dele kkkkkkk. Beeeeijos eterna Tan Tan de ralo na cabeça!

Assinado: Larissa”

Larissa, obrigado pelo carinho. Amoleceu nossos corações <3 

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Um trapalhão no hospital

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Dedé não é um dos trapalhões, mas gosta de aprontar umas atrapalhadas divertidas conosco.

Sua mãe, sempre ao lado, ria de tudo. Era só a gente abrir a porta que ela nos recebia com riso largo, mesmo vendo a evolução do quadro clínico do Dedé. Isso nos falava sobre confiança, sobre acreditar, perseverar na crença de que uma reviravolta fizesse a mudança certa. Não tinha cara feia. Para a dor que agravava, a cara era sempre boa, para não dar gosto à tristeza.

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A cada encontro nossa intimidade aumentava. E teve até dia que o Dedé inventou que estava dormindo só para não falar conosco. A sua mãe ria, pois ele levava a sério a brincadeira de nos enganar. O Dedé revelava também que além de um grande trapalhão era um grande ator, capaz de nos convencer e gerar dúvidas.

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Até que encontramos com ele na UTI. O caso era “grávido”, mas parecia que a gente agora não tinha mais segredos e ele até ria com as nossas tentativas de fazê-lo rir um pouco. Acho que também teve aquela insistência na dose certa de querer ganhar sua atenção e poder mostrar por que existimos e estamos ali. 

Com ele tivemos que lidar com outra verdade, não o faz de conta, mas a conta que faz. Suamos, erramos e por isso acertamos. Dedé teve alta e não soubemos de mais notícias. Quem sabe um dia desses ele chega de surpresa e dá um susto na gente! Enquanto esse dia não chega, continuamos nossa atrapalhada. 

Dr. Lui (Luciano Pontes)
Instituto Materno Infantil Professor Fernando Figueira (IMIP) – Recife

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Amor líquido

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A morte nos ensina a amar. Quem vai tem que ir e quem fica tem que deixar ir.

Muitas pessoas perguntam como é conviver com a morte de crianças na nossa rotina de trabalho. É uma resposta bem pessoal, cada besteirologista vê de uma forma. O que é comum entre a gente é a ressignificação que damos à morte: a criança vira flor, borboleta, estrela, ar, fogo, água, terra, pássaro… 

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C. tem 10 anos, seus olhos engolem tudo o que vê. Também, quanta novidade! Tinha acabado de chegar à UTI e seu pai esperava do lado de fora.

- Tem algum recado para ela?, perguntamos. Ele deu uma lágrima, amor líquido.

Contamos para ela todas as fofocas do hospital, até a paquera do Dr. Dud Grud com o porta soro… A prosa na beira do leito rolava solta. Ela morava na mesma cidade em que passei toda minha infância e estudava no mesmo colégio que estudei quando criança! Puxa, trocamos várias figurinhas!

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Disse pra ela que adorava a hora do recreio, tinha cheiro de coxinha frita no ar. Disse que mudaria a cor da batina do padre e que colocaria mais água dentro da piscina do pátio. C. nos engolia com seus olhos… 

Certa manhã, encontramos com sua mãe e seu pai em frente à UTI.

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Não tinha muita gente transitando no local e estavam os dois em silêncio. Na metade do corredor eles nos perceberam. A mãe olhou pra gente e começou a chorar. Na mesma hora tiramos uma flor, de plástico mesmo, do jaleco e entregamos a ela. Falamos que ela poderia regar a flor com sua lágrima. 

Nesse mesmo dia, fomos até o leito de C., que estava dormindo. Embalamos seu sono com uma canção. Durante o final de semana, recebemos a notícia da sua morte. A vida deu oportunidade a quem rodeia C. de aprender a amar. Aprender a deixar ir, soltar.

Dr. Marmelo (Marcelo Oliveira)
Hospital da Restauração – Recife

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Lembrança de uma ala adulta

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Aconteceu mês passado, durante o São Joãozinho. Passávamos pelas alas do Hospital do Campo Limpo em um cortejo musical. Nove palhaços-cangaceiros, instrumentos musicais, forró no pé.

Fomos abordados por uma médica com um pedido: que fôssemos à ala adultaTratava-se de um adolescente que estava com muita dor, em cuidados paliativos. Topamos.

E passamos por áreas nunca antes adentradas, como o PS adulto. O que de início era só uma visita a uma ala desconhecida virou um belo encontro com pessoas diversas!

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Desbravamos grandes enfermarias com muitos leitos e procura daqui, entra ali, chegamos ao leito do adolescente. Estava separado em um quarto pequeno, bem estreito. Eu, Dra Manela, entrei primeiro. Com dificuldade para chegar ao outro lado da cama, me virei de lado e cheguei até a cabeceira da cama.

Lá estava ele. Cheguei até seus olhos. Cumprimentei, me apresentei e disse que estava muito feliz de poder conhecê-lo. Percebi que ele não falava, pois estava com traqueostomia e a mobilidade não era a usual. O menino foi se comunicando à sua maneira, arregalava os olhos.

Fui chamando palhaço por palhaço e aquele quarto minúsculo de repente estava tomado por besteirologistas! E mais sanfona, violino, zabumba, triângulo, viola… Perguntei se ele gostaria de escutar uma música e ele mostrou que sim. Estávamos prontos para começar a cantar quando fui interrompida:

- Cuidado! A Manela pode soltar um pum aqui dentro!

Ele sorriu. Disse a ele que era invenção dos colegas e que não ligasse para o que falavam. Mantendo contato visual, reiniciei a música. E lá veio outro se aproximando do campo de visão do garoto.

- É verdade, a Manela sempre faz isso antes de cantar!

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E foi assim: cada palhaço entrava no campo de visão do rapaz e falava que era a mais pura verdade… E cada vez que outro entrava, piorava a minha situação, dizendo coisas horríveis a meu respeito! Acabou que difamaram a minha vida, e então me despedi dizendo que não era mais possível ficar mais ali. Ele gostou, era nítido.

Ao sairmos do quarto mantive contato sonoro com ele, pois sabia que ele não conseguiria se virar para nos ver, e disse ao grupo que agora estava aliviada pois acabara de soltar meu pum e, ufa, poderíamos cantar! E lá de fora cantamos e saímos ao som do Xodó do mestre Gonzagão. Coisa boa!

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Foi emocionante ver do lado de for a equipe nos agradecendo por mais essa! Coisas que vêm de dentro emocionam mesmo. Não sabia que meu pum emocionava tanto assim!

Dra Manela (Paola Musatti)
Hospital Municipal do Campo Limpo – São Paulo

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