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Uma causa, muitas vozes

Como uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos, Doutores da Alegria tem, além da equipe de palhaços, um time de profissionais que trabalha todos os dias pela causa da alegria.

Na gestão, além do novo conselho administrativo, atua Luis Vieira da Rocha, nosso Diretor Executivo. Ele escreveu o texto abaixo sobre a ONG no Balanço de Atividades de 2013 e achamos essencial compartilhar aqui também, pois ele tem mensagens importantes. Boa leitura!

Luis Vieira da Rocha - Luciana Serra

“Na biografia de nossas vidas, na maioridade, aos 21 anos, queremos “fincar” o pé no mundo, fazer a diferença e lutar pelos nossos ideais com mais força. Fazendo um paralelo com Doutores da Alegria, ao chegarmos nesse marco, há quase dois anos, resolvemos buscar os ideais que permearam toda a história da organização, desde 1993, e decidimos focar nas visões que nos motivam e pelas quais lutamos.

Passamos este último ano em trabalho intenso com toda a equipe para articular as bases de uma organização orientada pelos pilares: ampliação de público e aumento do impacto social do trabalho, articulação junto aos poderes públicos e à sociedade e formação de artistas e outros públicos conscientes de seu papel, como cidadãos.

Como uma organização que vive desse reconhecimento da sociedade – esta que se identifica e se mobiliza em prol da causa da alegria –, temos a obrigação de atuar, cada vez mais, com excelência, transparência e ampliar os resultados. Além da sociedade civil, contamos com a parceria dos órgãos públicos, que certificam Doutores da Alegria em várias esferas e atestam a qualidade das atividades prestadas pela instituição. Exemplos disso são as certificações de utilidade pública municipal, estadual e federal e a do Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS), conquistadas recentemente.

Por outro lado, continuamos com o grande desafio da sustentabilidade, de manter rodando os projetos que fazem a diferença. Tivemos, em 2013, um resultado abaixo do esperado na captação dos recursos que mantêm a organização, via recursos próprios ou leis de incentivo.

Por isso, parte das atividades precisou se readequar para continuar a atender à população com o mesmo padrão de excelência. Ainda assim conseguimos manter o número de visitas e de público atendido em projetos, como o Plateias Hospitalares e Formação de Palhaço para Jovens e investir em novos projetos, como o Clown Doctor Summit, um intercâmbio com outras organizações internacionais que atuam com a arte do palhaço em hospitais.

Esperamos reverter o quadro em 2014 e convocamos você a ser nosso porta-voz. Mobilize amigos, parentes, colegas para que colaborem com a causa da alegria!”

Você quer ser nosso porta-voz? Faça uma doação! É fácil, rápido e não dói nada!
Clique AQUI e seja porta-voz dos Doutores da Alegria

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Você sabia? IDH mede expectativa de vida

A Organização das Nações Unidas divulgou ontem o novo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) que engloba 187 países. O Brasil subiu uma posição no ranking, ficando em 79º lugar, próximo a países como Jordânia, Sérvia, Georgia e Granada.

Um dos pilares que medem o desenvolvimento de um país é a saúde. Segundo a organização, uma vida longa e saudável é medida pela expectativa de vida ao nascer, cuja média brasileira é de 73,9 anos. Em comparação, a média latino-americana é de 74,9 anos, a da Noruega (melhor) é de 81,5 anos e a de Serra Leoa (pior) é de 45,6 anos.

Plateias Hospitalares no Hospital Geral de Pedreira

Em geral, a expectativa de vida mundial cresceu, graças à queda na mortalidade infantil, um número menor de mortes causados pelo HIV/Aids e melhora da nutrição.

Segundo a Rádio ONU, “de acordo com o relatório, os esforços do Brasil para reduzir a desigualdade, promovendo a distribuição de renda e acesso universal à educação e saúde, entre outros, tem melhorado a nutrição infantil, resultando na maior redução do nanismo entre os 20% mais pobres da população.”

Primeiras abordagens

Entre as inúmeras perguntas que chegam pra gente diariamente, elencamos algumas básicas pra quem pensa em fazer visitas a crianças hospitalizadas. As dicas abaixo não substituem uma formação, são apenas um pontapé inicial do que acreditamos para que seja feito um trabalho ético e com qualidade, sempre respeitando quem está do outro lado.

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De todas, sem dúvida a mais importante é: não esqueça nunca de que você lidará com jovens. Uma parte está doente, mas a outra está saudável! Olhe sempre de igual para igual, e não com piedade ou dó, isso faz mal.

Se você tem dúvidas sobre maquiagem, consulte este link. E entre em contato conosco, se quiser: rede@doutoresdaalegria.org.br.

PRIMEIRA ABORDAGEM

Perguntas como “Tudo bem?” devem ser trocadas por “Como vocês estão hoje?”. Muitas crianças não estão bem em meio a um tratamento no hospital, e uma pergunta mal entendida pode dificultar o primeiro encontro.

DIAGNÓSTICO

Converse com a equipe de Enfermagem para saber se tem alguma situação em que o paciente esteja com uma aparência que possa assustar um leigo – por exemplo, um tumor muito grande no rosto. Isso é fundamental para que não fiquem sem saber o que fazer. Se não souberem lidar, não entrem no quarto.

JOVENS ACIMA DE TUDO

Não podemos, antes de qualquer coisa, nos esquecer de que eles são jovens! Uma parte está doente, mas a outra está saudável! Olhe sempre de igual para igual, e não com piedade ou dó, isso faz mal.

TROCA DE INFORMAÇÕES

As crianças de longa internação passam grande parte do tempo na brinquedoteca e aprendem muitas atividades manuais. Vocês podem trocar informações. O que eles podem ensinar para vocês?

CUIDADOS COM HIGIENE – ISOLAMENTO

Muitas crianças podem estar usando máscara, outras podem estar fracas e não podem ter contato com nenhum vírus ou bactéria. Por isso é muito importante respeitar os avisos nas portas, lavar as mãos antes e depois de sair de um quarto (sempre leve e use álcool gel).

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MÚSICAS, BRINCADEIRAS E HISTÓRIAS

É interessante levar um violão para cantar músicas que eles gostem de ouvir. Vocês podem fazer uma pesquisa antes, com a equipe do hospital e os acompanhantes, para saber o que as crianças gostam. Atenção sempre para o volume em determinados locais.

Outra ferramenta são livros para contar histórias. Proponha jogos que não exigem movimentação, caso as crianças estejam tomando medicação intravenosa ou não possam sair da cama. Um bom exemplo é jogo “Stop”.

TOMOU NOTA? :o)

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Manela não é só mais besteirologista

Em junho a Manela andou sumida. Entre um corredor e outro no hospital, correram boatos de que ela tinha ido arranjar dinheiro para comprar um vestido de noiva. Desencalhou?

Procura daqui, procura de lá, encontramos algumas fotos reveladoras e atestamos: Manela não é mais só besteirologista.

Primeiro tentou vender suco de laranja, mas se deu mal quando um cliente reclamou do suco que só tinha o bagaço e o caroço.

Manela vende suco

Depois tentou a sorte em uma banquinha, vendendo produtos apenas da cor amarela. Mas faliu por causa dos clientes que queriam outras cores nos produtos. 

Manela vende roupa

Então comprou uma máquina de fazer café. Foi denunciada por um cliente que a viu passando o café na meia. Alegou fazer isso por se tratar de fazer um café mais tradicional e com aroma.

Manela vende cafe

Agora ela está negociando no Detran para liberar a ambulância que usou fazendo transporte escolar. Segundo dizem, Manela fez isso a fim de facilitar a vida dos pequenos que ficam por horas no trânsito para irem para suas escolas. 

manela dirige

Inconformada com todos estes acontecimentos, conta-se que Manela se sente muito mal compreendida. E, por fim, resolveu abrir uma copiadora de xerox. Com o slogan “Aqui seu dinheiro vira um dinheirão”, foi pega e entrou pelo cano, pois a viram com notas e mais notas de cem reais no tamanho XXG.

Manela faz copias

Para desafogar a saudade de todos – e fugir do xilindró – Manela voltou para o hospital. Pode ser encontrada toda semana no Instituto de Tratamento do Câncer Infantil. E os pacientes afirmam em alto e bom som: 

O lugar da Manela é na Besteirologia!

Dr. Zinho responde

Dr. ZinhoVocê conhece o doutor Zinho? Este simpático besteirologista, especialista em descruzar palavras cruzadas, também é conhecido como Wellington Nogueira, fundador da ONG Doutores da Alegria.

Mais procurado que dente em boca de banguela, recentemente foi entrevistado pela Isabel Clemente, da revista Época, que quis saber sobre inspirações e episódios marcantes em sua carreira besteirológica nos hospitais.

Separamos três momentos especiais da entrevista, que refletem muito este trabalho e o nosso principal habitat: o hospital.

Isabel: É preciso estudar muito ou bagunçar mais? Que pessoas inspiram o senhor?
Precisamos encontrar o meio termo porque um complementa o outro. Estudar desenvolve o intelecto, e bagunçar, a habilidade prática. Tenho muitas inspirações. A maior inspiração, que está em primeiro lugar, são as crianças que encontro nos hospitais. Há 23 anos atuo nisso e até hoje elas me surpreendem com sua sabedoria. Não sei como cabe tanta sabedoria em pessoas tão pequenas. Nunca mais vou me esquecer da menina que disse “olha só, esta noite choveu flor!”, diante de flores caídas na calçada. Certa  vez, um menino de sete anos elaborou a perda de uma perna assim: “eu fiquei muito bravo, mas o médico conversou comigo e disse que eu vou ter uma prótese de plástico. Vou andar e fazer quase tudo que eu fazia com essa nova perna e, o mais legal, é que nem todo mundo vai ver. Já pensou se fosse a cabeça?”. A hora que ele falou isso, pensei “eu tenho muito o que aprender ainda”. Mas os grandes palhaços que abriram caminho pra nós também são importantes inspirações, como o Carequinha, o Manoel da Nóbrega, o Ronald Golias, o Renato Aragão. São tantos.

O senhor pode contar um episódio que tenha feito você rir?
O da cabeça de plástico me fez rir de me emocionar. Primeiro porque o menino com essa fala acalmou todo mundo à volta dele que estava pensando como ele enfrentaria a perda de uma perna. A sala inteira irrompeu numa gargalhada de alívio. Havia uma sensação de gratidão por ele ter falado aquilo, algo emanado diretamente do coração de um menino de 7 anos de idade. Eu nunca vou me esquecer desse moleque. Ele transformou o sentimento e o sofrimento com um discurso sincero.

Dr. Zinho no hospital

E outro que tenha feito o senhor chorar?
Uma vez, vi uma criança chegar de um atropelamento muito debilitada. Ela ficou um mês e meio dentro do hospital, que era um pavilhão de ortopedia. Um dia, a mãe disse “que bom que você está tendo alta pra voltarmos pra nossa casa”. A casa ficava embaixo de um viaduto, e a menina não queria ir embora porque no hospital ela comia cinco vezes por dia e ainda brincava. Mais do que me fazer chorar, me revoltou. Infelizmente, a gente vê histórias assim. E quando deparo com crianças que vão parar no hospital por um acidente doméstico que podia ter sido evitado. Tem muita criança que cai da laje empinando pipa ou brincando. Certa vez, vi esse menino forte, bonito, que ficou neurologicamente avariado pra sempre. Nunca mais seria normal por causa do golpe na cabeça. Por uma bobagem… Esses casos me fizeram levantar essa bandeira pra alertar pais, mães e escolas sobre as possibilidades de acidente, porque às vezes é uma bobisse que ceifa a vida de uma criança de forma irreversível. Isso sempre me entristece.

A entrevista completa você encontra aqui.

É saudade que fica

A vida de fora se mistura com a vida de dentro e a vida de dentro se mistura com a vida de fora.

Essa frase pode soar cheia de outros sentidos e atrapalhar o entendimento, mas o que queremos dizer é que, nessa época do mês de junho, o fogo acende a lenha dos corações e os tetos do hospital se enfeitam de bandeirinhas multicoloridas, se misturando com as danças, comidas e canções. E, assim, vamos trazendo para dentro do hospital o que está fora dele ou o que pensamos estar fora porque, no fundo, tudo está dentro, inteiro e completo como o gosto do milho e das palhaçadas.

Como é de costume e da tradição junina, mês passado percorremos os hospitais parceiros fazendo nosso cortejo do São Joãozinho para embalar a vida de dentro do hospital. As surpresas são sempre bem vindas, como os casamentos desistidos. As quadrilhas improvisadas, as roupas cheias de babados com xadrez e flores colorem os pacientes. O arraial se monta fora das enfermarias e a vida não tem o amargoso do remédio, tem gosto do milho assado e do cozido, do pé de moleque.

é saudade que fica

E enquanto a palha não assa, vamos fazendo graça com o que temos de melhor, sempre! E, dessa vez, até Santo Antônio apareceu! Dr Eu_Zébio veio a caráter, para sorte das solteiras e das encalhadas de plantão! Os pedidos foram feitos e desfeitos até os festejos acabarem, mas desejo é desejo e a vida vira queijo com remelexo. Tá tudo no balão, nas mãos de São João!

é saudade que fica

No Hospital Barão de Lucena, no Recife, o menino R. invadiu o forró, pulou, dançou e bateu palma no ritmo da música. Corria pra um lado, corria pro outro, parava, olhava e soltava beijo. A noiva, a besteirologista Mary En, ficou animada pensando que o garoto poderia ser o noivo da festa. Mas o garoto disse “não” com a cabeça. Então a caça ao noivo continuou.

é saudade que fica

Para o lamento da noiva, todos os médicos estavam casados, namorando ou com tico-tico no fubá. E agora? Um boato correu solto que as “mães do canguru” estavam pra chegar ao arrasta pé (mãe canguru: tipo de assistência neonatal que implica em contato pele a pele entre a mãe e o precoce recém nascido). E o escolhido foi o G., com apenas 1 ano. Eita, mas a Mary En já tá crescida para se casar com o bebê! Resultado: tivemos a brilhante ideia de congelar a dra. Mary En e esperar o G. crescer.

A zabumba foi sumindo, o triângulo foi baixando, a poeira foi assentando. As crianças olhavam todas atentas da porta do salão. É engano meu ou nós, besteirologistas, estamos indo embora? É isso mesmo, chegou a hora da despedida. Mas despedida é algo que está no nosso caderno de lição da Besteirologia. Vamos sentir saudade, mas como disse uma paciente nossa em um momento de pura poesia: Saudade é amor que fica!.

Eita, sô! E num é que ficou!

Dra. Tan Tan (Tamara Lima)
Dra Baju (Juliana de Almeida)

Pequenos dançarinos

Quando a dra Tan Tan e o dr. Marmelo atendem recém-nascidos no Hospital Barão de Lucena, sempre perguntam aos pais:

- O neném é de brinquedo?
- Ele tem botão de fazer cocô e xixi? Ele toca o alarme?
- Vocês compraram no atacadão dos bebês? Em quantas parcelas?

Esse é o pré-questionário besteirológico pra saber se o bebê é de brinquedo ou não.

Perguntas feitas, o próximo passo é fazer o “pré-natal” – quer dizer, pós-natal, porque o natal já passou! – pra saber se o neném está mexendo bem. É assim ó: 

 ♫♪ O neném mexe as mãos e as lavam com sabão
O neném mexe os pés para soltar os chulés
O neném mexe a barriga para agitar as lombrigas! ♪♫
 

Para a nossa surpresa, os nenéns mexem o corpo todo quando ouvem a música! É o pezinho para o alto, a cabeça que vira de um lado para o outro, a pequena língua que mexe ou os dedinhos que balançam. Pós-natal feito, logo detectamos que esses nenéns são dançarinos de valsa, xote, baião e até música eletrônica!

Ah, tem também os dançarinos de chorinho… Chorinho quando se mexe e chorinho quando se acalma, mas desses a gente fala depois… 

Manifestando

Nos últimos meses as ruas foram tomadas por manifestantes reivindicando seus mais diversos direitos: moradia, aumento de salário, educação, saúde, segurança pública… Enfim, direitos que a gente não vê direito! 

Isso todo mundo sabe… O que ninguém sabe é que dentro do Instituto da Criança isso também está acontecendo: leitos e corredores estão cheios de manifestações.

O E. se manifestou (quando a dra. Greta Garboreta, louca pela barriguinha dele, tentou se aproximar):
- Pode me visitar, mas deixa a minha barriga em paz! 

A A. se manifestou (assim que abrimos a porta do seu quarto):
- Tô com diarreia! – e isso com um grande sorriso! 

Os funcionários se manifestaram (numa passeata que nós assistimos pela janela do Pronto Socorro). 

O M. se manifestou (ele faz isso toda vez que entramos no quarto):
- Atchim! – esse é o jeito que ele achou para nos tirar do quarto quando ele cansa de brincar com a gente. 

O U. se manifestou (quando a Greta pediu para ele se casar com ela):
- Ei, eu tô doente , mas não tô louco! 

As mães são as que mais se manifestam. 
- Dormir nessas poltronas é um horror…
- Que dia é hoje?
- Tô com saudade de casa…
- Acho que amanhã a gente sai!
- Posso tirar uma foto? 

Há também as manifestações contra a Copa do Mundo nesse nosso Brasil brasileiro… E agora quem vai se manifestar sou eu… EU SOU TOTALMENTE A FAVOR DA COPA! 

Se não fosse a copa, onde é que tomaríamos aquele café gostoso?
Se não fosse a copa, onde é que fofocaríamos com as enfermeiras?
Se não fosse a copa, onde é que levaríamos aquele nosso papo cabeça?
Se não fosse a copa, onde daríamos umas boas risadas?

Dra. Greta Garboreta (Sueli Andrade)
Instituto da Criança – São Paulo

O palhaço observa

Ele toca logo cedo. O palhaço acorda, olha, vê a hora, aperta função “soneca” e dorme mais um pouco, se alongando. Ele toca novamente. Não tem jeito: o palhaço levanta, toma banho, café, se prepara e sai. Não esquece nunca de levá-lo no bolso. 

No ponto de ônibus, ninguém se olha, estão todos conectados. Só tiram os olhos dele pra ver se é o ônibus certo. Entram no coletivo, passam o Bilhete Único, não olham pra cara do cobrador que está ali – muitas vezes também conectado no seu mundo. O palhaço observa: ninguém se olha, ninguém conversa. 

O palhaço observafonte: YouPIx

O palhaço desce do ônibus e pega o trem lotado de gente; e cada pessoa está com um aparelho, ligado, ouvindo música, jogando, rede social ou qualquer outra opção que o aparelho e o plano fornecem, é só baixar. É e tanto aparelho… Ai Pad, Ai Fone, Tablete, G3… Ai Pim. Ai, conversa comigo, ai, me escuta, ai, que doideira! 

E assim o trem segue. Hebraica-Rebouças, Cidade Jardim, Vila Olímpia, Berrini, Morumbi, Granja Violeta, Santo Amaro, Socorro, Jurubatuba, Autódromo, Primavera-Interlagos. Durante todo o trajeto, um rio – sujo – que mesmo assim tem muita beleza pra se ver. Capivaras, quero-quero, garças e uma infinidade de animais e aves que ninguém vê. O palhaço observa. 

Chega ao Grajaú. Palhaço desce, sobe a ladeira, se prepara e vai trabalhar. No corredor e nos quartos, muitas crianças e mães, todos com seus aparelhos. Quando não estão no mundo virtual, filmam, fotografam seus filhos com os palhaços. Vamos nessas fotos para o Brasil inteiro. 

O palhaço observa

Dia desses, uma criança deitada com seu aparelho nem olhou para os palhaços que estavam na porta do quarto, perguntando se podiam entrar. Silêncio. A criança não olhou.

O palhaço observa

E o palhaço não perdeu tempo e com a boca soltou um poderoso e barulhento PUM. Todos olharam para a porta, inclusive o menino, e riram muito. Os palhaços, que nem sempre são bobos, aproveitaram a oportunidade, entraram no quarto e fizeram seu trabalho. 

Esse foi um dia em que um PUM venceu o mundo virtual, mesmo que por alguns minutos. SALVE OS PUNS.

Dr. Valdisney (Val Pires)
Hospital do Grajaú – São Paulo

Não, ele não perdeu a lua…

Dia desses estávamos no corredor, eu (dra. Mary En) e a dra. Baju, e nos deparamos com um menino de mais ou menos seis anos, o T.

Ele estava saindo da sala de curativos e indo para uma enfermaria, estava bem machucado no olho e no rosto e nos olhou meio de soslaio. Olhei pra ele bem no fundo do olho e ele me olhou como se nunca tivesse visto uma palhaça. Ali já senti que era um encontro pra lá de especial.

Não, ele não perdeu a lua...
Já na enfermaria, quando o atendemos, fizemos algumas bolhas e delas tiramos uma lua de cristal. Pedi pra ele segurar a lua. Mas é claro que como todo besteirologista, a lua na verdade tinha ficado no meu bolso e na mão dele apenas uma lua imaginária.

Meia hora depois estávamos lavando as mãos quando ele e mais dois meninos se aproximaram e um deles falou:

- Mary En, ele perdeu a lua!

Nesse momento ele olhou pra mim e me mostrou a mãozinha fechada, como se estivesse ainda com a lua na mão. Imediatamente peguei a lua de cristal do bolso, sem que eles vissem, e pedi ao T. que me entregasse a lua. Ele abriu sua mão dentro da minha e a lua de cristal estava lá. Então eu falei:

- Não, ele não perdeu a lua, olha ela aqui!

Não, ele não perdeu a lua...

Os outros meninos olharam admirados, de boca aberta. Dei uma piscadela pro T. e fui embora, bem feliz com este encontro. Nesta vida há a urgência de sermos cúmplices nas coisas boas e que fazem bem. O garoto me mostrou isso. 

Dra. Mary En (Enne Marx)
Hospital da Restauração – Recife