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Aline Nogueira, 20 anos, é pernambucana e atualmente estuda medicina na Universidad Nacional de Rosario, de Rosário, na Argentina.

Aos 15 anos, conheceu os Doutores da Alegria quando esteve internada no Hospital Oswaldo Cruz, em Recife, para iniciar o tratamento contra um tipo de câncer ósseo, chamado Sarcoma de Ewing. Ela conta um pouco da sua história, como conheceu a equipe dos Doutores da Alegria durante sua estada, e de como superou os piores momentos:

“Descobri que tinha câncer aos 15 anos. Já passava por um momento difícil, com depressão e poucos meses antes havia começado um tratamento com psicóloga. Começava a me sentir um pouco melhor quando veio o baque. Foi muito duro deixar de estudar, ver pouco os amigos e muitas vezes nem os ver, pois a quimioterapia deixa o paciente sem forças nem imunidade para isso.

Tive um diagnóstico muito rápido, não deu tempo de ir digerindo. Depois de 4 meses com crises, dores insuportáveis e edema no braço, fiz um raio x e o médico me disse: é um tumor. Me assustei, mas não quis entender e me desliguei, enquanto o ortopedista, que é da minha família, começou a agir muito rapidamente pra que eu fizesse mais exames para já investigar a metástase. Fiz tudo em mais ou menos 20 dias e o resultado foi: era maligno. Tive sorte, pois é raro ver um diagnóstico de câncer tão rápido. Como sempre me dizia o primeiro médico: Aline, agora vamos correr contra o tempo.

Cheguei na oncologia pediátrica e me vi num filme de terror. Me doía, me assustava, tantas crianças sem cabelo, mutiladas. Já na primeira quimioterapia meu cabelo caiu. Com o passar dos dias, fui me acostumando com tudo e me aproximando dos profissionais que me tratavam, inclusive os Doutores da Alegria.

Fiquei surpresa por ver palhaços no hospital, não conhecia o trabalho, mas de cara me cativou! Me agradava a forma de interagirem, eram diferentes de todos os palhaços que eu já tinha visto. Me fizeram ver que mesmo nas situações complicadas da vida é possível, sim, desfrutar! Isso faz com que “se quebre o gelo” que existe nas adversidades e assim encontrar algo que seja saudável e divertido.

Certa vez os besteirologistas não me encontraram sorrindo, nem com raiva ou dando voltas como era de costume. Estava há quase um ano em tratamento e meu corpo estava fraco, já não podia dar muitos passos sem parar para descansar. Havia feito uma sessão de quimioterapia no dia anterior e apenas três horas após acordar, tive uma crise de vômitos, e fui medicada com remédios na veia. Pouco tempo depois, quando os Doutores chegaram, o remédio já estava fazendo efeito. Tentaram várias vezes brincar comigo, eu abria os olhos e não conseguia permanecer acordada por muito tempo. Lembro que na vontade de corresponder, dizia “mãe, eu quero acordar” e todos riam das minhas tentativas frustradas de despertar. Percebi especialmente nesse dia que, atrás do palhaço e da brincadeira, existia uma pessoa que estava focada no meu bem-estar, que buscava ao máximo fazer com que o sofrer fosse amenizado, não mascarado, mas que eu pudesse passá-lo melhor. Cantaram a música “Dona” de Roupa Nova (sempre cantavam pra mim) e disseram que era pra embalar meu sonho. Dormi tranquila.

Já não era ruim estar ali, porque eu gostava tanto de todos os profissionais que cuidavam tanto de mim. Sou eternamente grata a todos que fizeram esses dias escuros mais harmoniosos, felizes e com menos dor, foi essencial para minha cura, talvez sem isso eu não pudesse levar adiante. E as crianças! Desde o primeiro dia lembro que tentava alegrá-las, dar carinho e na verdade elas que fizeram isso por mim!

O caminho a percorrer era longo e a luta, diária. Às vezes o cansaço me vencia, eu batia o pé e dizia que não ia mais me tratar. Aí, vinham todos esses anjos que salvaram minha vida e me convenciam a resistir.

Mas enfim, terminei o tratamento apaixonada pela oncopediatria! Sentia muita saudade quando comecei a ir mensalmente. Tive problemas na reinserção social, uns poucos momentos em que me sentia bem era quando voltava ao hospital. Comecei a ir ao psiquiatra e tomar antidepressivos por um ano, sem melhoras.

Iria começar a fazer faculdade, eu queria fazer medicina, mas nem cheguei a tentar, pois achava que não ia passar. Fui aprovada em psicologia no vestibular, mas antes de me matricular, resolvi tentar e seguir o que havia escolhido, a medicina. Depois de muito insistir, meu pai concordou e agora estou estudando na faculdade, em Rosário, na Argentina.

Sinto muita falta da minha família, mas amo esse lugar. Hoje renovei muitas coisas, me sinto melhor. Estou cuidando mais de mim, lavando as raivas, as mágoas, e tentando esquecer o que não posso mudar e que escapa do entendimento.

Vou ser uma pessoa realizada se eu conseguir um dia cuidar das crianças com câncer como cuidaram de mim, é a minha meta. Levarei para minha vida pessoal e profissional o que pude absorver enquanto estive na oncologia pediátrica, inclusive porque é nessa linha que quero seguir. Fazer parte do reflexo desse trabalho me deixou contente.”