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Imagine um hospital que…

Muitas conversas sobre o futuro dos hospitais vêm se dando ao redor do mundo. Aqui no Brasil, fóruns e congressos discutem novas maneiras de acolher pacientes, abordagens além-médicas para tratar doenças e formas de abrigar a crescente população idosa na sociedade. Mas talvez as conversas ainda aconteçam muito a portas fechadas, sem envolver vozes da comunidade, como os profissionais de saúde, os pacientes e ONGs que atuam no setor.

Uma organização quis virar a mesa, inverter os papéis. Em 2013, conduziu um experimento com pessoas de todo o mundo, abrindo um diálogo global sobre o papel dos hospitais no século 21. O Institute For The Future, localizado no Vale do Silício (Califórnia), atua com a missão de ajudar empresas e organizações a construir os futuros que desejam, prevendo tendências e comportamentos.

No experimento com hospitais, desenvolveram um jogo dinâmico e envolveram 637 pessoas de diferentes nacionalidades para, juntas, reinventarem um sistema de saúde que atenda às necessidades contemporâneas, com novas forças sociais, econômicas, tecnológicas e epidemiológicas.

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Como foi esse jogo?

Com duração total de 24 horas, o jogo consistia em um vídeo inicial com a proposta e três desafios partindo do pressuposto de que o modelo atual de hospital é insustentável e precisa de reinvenção. Os participantes precisavam repensar e discutir três problemáticas (abaixo) utilizando respostas curtas, de no máximo 140 caracteres.

 Os desafios…

+ dificuldades enfrentadas por departamentos de emergência
+ hospital como centro de bem-estar da comunidade, não apenas lugar para tratar doenças
+ papel que o hospital pode desempenhar para diminuir a lacuna entre as descobertas científicas e melhores resultados na saúde

E os resultados, quais foram?

Foram geradas 4.528 ideias! O Institute For The Future reuniu as mais expressivas e inspiradoras em um documento, disponibilizado em inglês em seu site (aqui, ó).

Eles destacam a ideia comum de ter hospitais menores que ofereçam serviços de cuidados atrelados a ferramentas digitais. Seria preciso reaproveitar os espaços físicos existentes, pensar as qualificações da sua força de trabalho e as estratégias para, de fato, conectar-se às comunidades locais. Muito inspirador! Outras percepções surgiram, como essas:

“Hospitais devem ser o epicentro de atendimento de urgências, mas não o único foco de um sistema de cuidados de saúde.”

“Poderiam tornar-se lugares que recolhem histórias de saúde, em vez de apenas coletar relatos de doença. Um lugar para falar, um lugar para ouvir.”

Depois do relatório inicial, a organização analisa mais profundamente todas as ideias, ameaças e oportunidades que surgiram do jogo. Um trabalho denso!

Imagine esse exercício sendo proposto em cada hospital pelo país. Uma construção coletiva com ideias de pacientes, médicos, um fórum aberto”, idealiza um dos jogadores. E nós também!

Doutores da Alegria bate na tecla de que o hospital precisa ser enxergado como um local em se respire vida e saúde; e que, portanto, pode ser habitado pela arte em suas mais diversas formas. O palhaço, a música, o teatro, a dança, a poesia… Todas essas manifestações artísticas afetam as relações, nos ensinam a pensar e a sentir o que não é dito ou traduzido de outra forma.

Diversos hospitais pelo mundo estão mudando seus interiores com este pensamento. Seria esse o primeiro pequeno passo para o hospital do futuro? 

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“A música me salvou”

No sudeste asiático tem um país que enfrenta problemas parecidos com os nossos. Lá, organizações sociais atuam em conjunto com o governo na tentativa de prover os direitos humanos mais básicos, como acesso à saúde e saneamento básico. O país foi classificado, ano passado, como um dos mais corruptos do mundo, e o índice de desenvolvimento humano o apresenta como mediano, ocupando a 136º posição (o Brasil fica em 79º).

O Camboja tem hoje pouco mais de 15 milhões de habitantes. Em sua história traz um regime autoritário e uma guerra devastadora que dizimaram grande parte de sua população, incluindo-se aí mais de 80% dos seus artistas e músicos. Arn Chorn-Pond, que era apenas uma criança quando a guerra bateu à sua porta, sobreviveu a ela através da música. Ele tocava flauta, entre outros instrumentos típicos, para manter soldados entretidos. “A música é a razão pela qual estou vivo hoje“, diz ele. Sua história é contada (em inglês) no jornal The Guardian de hoje. 

Arn Chorn Pond

Hoje, aos quase 50 anos, Arn Chorn-Pond é um ativista e dedica sua vida para preservar a herança cultural do Camboja. Ele criou, em 1998, a organização Cambodian Living Arts (CLA) que atua para transformar o país por meio da arte, reconectando artistas sobreviventes, oferecendo formação e programas para a comunidade. A CLA também promove um salário justo para os artistas do país. 

O ativista tem certeza de que a arte tem um poder transformador e o governo atual vem abrindo portas para a implementação de políticas culturais. “Hospitais são importantes para curar as pessoas fisicamente“, acredita Pond, “mas acho que a arte restaura a identidade, restaura a dignidade. Podemos unir as pessoas em harmonia, em paz.”

Semelhanças e diferenças à parte entre Camboja e Brasil, a arte é universal, seu entendimento ultrapassa fronteiras. A música salvou a vida de Pond e teceu sua bela trajetória. Doutores da Alegria busca melhorar a qualidade da saúde por meio de intervenções artísticas, fincando a bandeira de que o acesso à arte também precisa ser encarado como um direito básico e universal, inclusive para as populações mais vulneráveis, como dissidentes de guerras e pacientes em hospitais públicos.

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Você conhece uma história de alguém cuja vida foi transformada pela arte?  

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O nosso caldeirão de emoções

“Ninguém no hospital espera a visita de um palhaço, ninguém está lá para isso. Uma pessoa hospitalizada está distanciada de seu cotidiano e de tudo que a cerca – objetos, cheiros, hábitos, bichos de estimação, familiares. Intimidade, identidade, controle sobre a vida, quase tudo vai pro espaço.”
 

A frase acima, de Soraya Saide para o livro Boca Larga, ilustra o sentimento que muitas crianças vivenciam quando estão internadas ou passam um longo período hospitalizadas. O brincar fica de lado e exames, avaliações, injeções e conversas sérias tomam seu cotidiano. Dependendo do tempo de internação, as visitas se tornam raras e os acompanhantes, cansados e preocupados com a situação, não têm paciência – ou cabeça – para dar a atenção devida à criança. 

Lugar de urgências, emergências, contingências, o hospital quase que exige que a imaginação seja deixada de lado. Os profissionais precisam dar conta da demanda como podem; as pessoas, fragilizadas e desacreditadas do sistema de saúde público, exigem esforços da equipe. Apesar de parecer um ambiente frio e sisudo, o hospital é um caldeirão de emoções.

E daí surge o palhaço, montado no semblante de médico besteirologista, e ocupa espaços absolutamente esquecidos: o espaço do erro, o espaço do humanidade, o espaço da imaginação, o espaço da dúvida. Ele desperta na criança, que ali recebe a outorga de paciente (e não de agente!), o desejo genuíno de brincar, sempre apoiado na sua permissão para seguir adiante. Sim, é ela quem decide!

Apesar de comprovar empiricamente ali, no dia a dia de trabalho, descobrimos por meio de pesquisas que as visitas influenciam muito na relação das crianças com o próprio tratamento. Dá uma olhada:

Pesquisa Instituto Fonte | 2008

Brincar e sair das nossas zonas de conforto – de atitude e de pensamento! – modificam não só o nosso comportamento como também todo o ambiente. Não é preciso ser sisudo pra ser sério, não é mesmo?

Durante as visitas, acompanhantes, médicos, enfermeiros, seguranças também entram no jogo. Esses encontros dão potência para seguir o dia com mais leveza, com mais alegria, e provam que apesar da situação, é preciso encontrar o lado saudável da vida, o lado que nos conecta com o outro, que nos potencializa para fazer melhores escolhas. E essas escolhas podem ser um sorriso, uma escuta mais presente, uma decisão em conjunto.

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Dr. Zinho responde

Dr. ZinhoVocê conhece o doutor Zinho? Este simpático besteirologista, especialista em descruzar palavras cruzadas, também é conhecido como Wellington Nogueira, fundador da ONG Doutores da Alegria.

Mais procurado que dente em boca de banguela, recentemente foi entrevistado pela Isabel Clemente, da revista Época, que quis saber sobre inspirações e episódios marcantes em sua carreira besteirológica nos hospitais.

Separamos três momentos especiais da entrevista, que refletem muito este trabalho e o nosso principal habitat: o hospital.

Isabel: É preciso estudar muito ou bagunçar mais? Que pessoas inspiram o senhor?
Precisamos encontrar o meio termo porque um complementa o outro. Estudar desenvolve o intelecto, e bagunçar, a habilidade prática. Tenho muitas inspirações. A maior inspiração, que está em primeiro lugar, são as crianças que encontro nos hospitais. Há 23 anos atuo nisso e até hoje elas me surpreendem com sua sabedoria. Não sei como cabe tanta sabedoria em pessoas tão pequenas. Nunca mais vou me esquecer da menina que disse “olha só, esta noite choveu flor!”, diante de flores caídas na calçada. Certa  vez, um menino de sete anos elaborou a perda de uma perna assim: “eu fiquei muito bravo, mas o médico conversou comigo e disse que eu vou ter uma prótese de plástico. Vou andar e fazer quase tudo que eu fazia com essa nova perna e, o mais legal, é que nem todo mundo vai ver. Já pensou se fosse a cabeça?”. A hora que ele falou isso, pensei “eu tenho muito o que aprender ainda”. Mas os grandes palhaços que abriram caminho pra nós também são importantes inspirações, como o Carequinha, o Manoel da Nóbrega, o Ronald Golias, o Renato Aragão. São tantos.

O senhor pode contar um episódio que tenha feito você rir?
O da cabeça de plástico me fez rir de me emocionar. Primeiro porque o menino com essa fala acalmou todo mundo à volta dele que estava pensando como ele enfrentaria a perda de uma perna. A sala inteira irrompeu numa gargalhada de alívio. Havia uma sensação de gratidão por ele ter falado aquilo, algo emanado diretamente do coração de um menino de 7 anos de idade. Eu nunca vou me esquecer desse moleque. Ele transformou o sentimento e o sofrimento com um discurso sincero.

Dr. Zinho no hospital

E outro que tenha feito o senhor chorar?
Uma vez, vi uma criança chegar de um atropelamento muito debilitada. Ela ficou um mês e meio dentro do hospital, que era um pavilhão de ortopedia. Um dia, a mãe disse “que bom que você está tendo alta pra voltarmos pra nossa casa”. A casa ficava embaixo de um viaduto, e a menina não queria ir embora porque no hospital ela comia cinco vezes por dia e ainda brincava. Mais do que me fazer chorar, me revoltou. Infelizmente, a gente vê histórias assim. E quando deparo com crianças que vão parar no hospital por um acidente doméstico que podia ter sido evitado. Tem muita criança que cai da laje empinando pipa ou brincando. Certa vez, vi esse menino forte, bonito, que ficou neurologicamente avariado pra sempre. Nunca mais seria normal por causa do golpe na cabeça. Por uma bobagem… Esses casos me fizeram levantar essa bandeira pra alertar pais, mães e escolas sobre as possibilidades de acidente, porque às vezes é uma bobisse que ceifa a vida de uma criança de forma irreversível. Isso sempre me entristece.

A entrevista completa você encontra aqui.

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Não tem graça nenhuma

É nos corredores do Hospital da Restauração que a emergência pediátrica está instalada há algum tempo, com macas e crianças em cima delas. Este é mais um local de atuação pra nós, besteirologistas. É difícil imaginar as pessoas ali à noite, sem nenhum conforto…

Esperamos que o poder público reveja sua atuação diante da saúde pública do nosso país e aproveitamos para informar que existe um site onde todos nós podemos registrar como andam as coisas nos hospitais do Brasil: www.caixapretadasaude.org.br.

Atuar ali é um prazer, mas para aquelas pessoas uma emergência desconfortável e sem estrutura não tem graça nenhuma.

Outro dia

Outro dia estávamos realizando um momento solene para a entrega da tão almejada “alta” besteirológica ao garoto que iria embora no dia seguinte e a L., uma impaciente de sete anos, nos disse: 
- Eu também vou embora, viu? 

Com essa notícia, nós dois, dr. Cavaco e dra. Mary En, começamos a chorar e espernear dizendo: 
- Mas é muito cedo! Nem nos conhecemos direito! Não vai, não! Por favor! 

Mesmo contrariados, demos a alta e dissemos a solene fase: 
- Até mais nunca, não volte mais para o hospital! Só se for para trazer um presentinho pra mim! 

E fomos embora pensando que nunca mais iriamos vê-la. 

No outro dia, chegamos à enfermaria e quem estava lá? A garota! Disse que não tinha ido embora, mas que com certeza iria no dia seguinte. Fizemos novamente aquele chororô e no final demos alta. Na outra visita, lá estava ela, sorridente que só! Disse que iria no dia seguinte com certeza absoluta. Choramos mais uma vez, tudo de novo, e isso aconteceu novamente várias vezes.

Quando chegou o dia em que a alta médica oficial seria dada, uma médica residente nos disse que escutou L. falando no telefone com sua mãe de Serra Talhada, sertão pernambucano: 

- Ô mãe, tem ovo de Páscoa aí pra mim? Por que se não tiver eu vou ficar aqui no hospital, prefiro aqui do que em casa. Aqui eu brinco, tem palhaço, aqui é mais legal. 

Nesse dia a nossa despedida foi a mais verdadeira, e até hoje sentimos saudade de seu sorriso de orelha a orelha, que víamos quando ela nos avistava chegando na porta da enfermaria…

Dr. Cavaco (Anderson Machado) e dra. Mary En (Enne Marx)
Hospital da Restauração – Recife

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Ajuda, Doutores!

- Doutores, gostaria de começar um projeto parecido com o de vocês aqui na minha cidade! Como fazer?

Ah, essa é uma das perguntas que mais ouvimos! Como cada cidade tem suas características e cada grupo elege os seus significados para a atuação, não existe uma fórmula mágica. Com a experiência que adquirimos em 22 de anos de atividades, podemos listar algumas premissas básicas que podem nortear as pessoas em um primeiro momento.

Aqui no Doutores…

Aqui no Doutores da Alegria somos palhaços profissionais, com formação nesta linguagem e muitos anos de formação e prática dentro e fora dos hospitais. Mas a grande realidade do Brasil – certamente o país em que a ideia de levar o palhaço para o ambiente hospitalar mais se espalhou – é a de grupos voluntários que visitam hospitais, asilos e orfanatos. São engenheiros, professores, pedagogos, estudantes que dedicam uma parte de seu cotidiano a atividades que beneficiam o próximo. 

Pra tentar orientar e agregar todo mundo, criamos em 2007 o programa Palhaços em Redeque visa, por meio de oficinas de orientação e formação e encontros pontuais – reais e virtuais – compartilhar o conhecimento com grupos e indivíduos que queiram atuar em hospitais. (Guarda esse link pra você ver como funciona – e, quem sabe participar da nossa rede!)

Vamos a algumas premissas básicas!

Relação com o hospital

É importante que o hospital como um todo – o corpo clínico, administrativo e hotelaria – saiba de antemão sobre as visitas, que de comum acordo se estabeleçam as áreas a serem visitadas, quais os dias e horários, e que o hospital designe algum profissional para ser o interlocutor com o grupo.

O interlocutor no hospital

Façam um exercício de responder às perguntas:
Quem dialoga com o grupo? Quem fez o convite? Quem selou o acordo?
Quais os dias, itinerários e os horários acertados com o meu interlocutor?
Como se estabelece esta parceria: direitos e deveres de cada parte? Eventualmente: vaga no estacionamento, espaço para o grupo se reunir e se vestir…

O interlocutor deverá apresentar ao grupo os responsáveis por cada ala a ser visitada. Estes responsáveis (enfermeiros, auxiliares, médicos, psicólogos) precisam passar as recomendações e restrições de cada dia.

Todos os integrantes do grupo têm estas informações (estes nomes)?

O hospital precisa receber uma lista com o nome de todos os integrantes do grupo. Façam uma lista de presença no dia com o itinerário, para evitar confusões caso hajam outros grupos de voluntários.

Sugestão do tutor

Raul Figueiredo, palhaço e tutor do Palhaços em Rede, lembra ainda:

Estabeleçam com o hospital um tempo de experiência, algo entre dois e três meses de trabalho, e depois avaliem a continuidade junto ao hospital. Levantem se há outras intervenções no hospital e organizem a agenda para que não haja sobrecarga num dia. É importante evitar o excesso de atividades para as crianças internadas, pois muitas vezes elas precisam de repouso e o silêncio é a melhor pedida.

 

Seu grupo está nessa fase? Conta aqui pra gente como está sendo todo o processo! Até a próxima!

Hospital tem história!

Desde 1991, Doutores da Alegria já passou por diversos hospitais. Atualmente estamos em dezoito: 7 em São Paulo, 7 no Rio de Janeiro e 4 no Recife (veja todos aqui). E hoje, dia 2 de julho, nós comemoramos o Dia do Hospital. E você sabe por quê? É que foi nesse mesmo dia, em 1945, que a Santa Casa de Misericórdia foi fundada, na cidade de Santos.

Mas a história do hospital começou bem antes….

Na Grécia antiga (1200 – 400 a.C.) havia atendimento individual com o uso de ervas, repouso, purgantes e banhos térmicos. Faziam também rituais religiosos nos templos ou nas chamadas “clínicas”. Os lugares tinham boa ventilação, iluminação e alguns cuidados que evitavam a contaminação. O grego Hipócrates introduziu os princípios de racionalidade médica e ética, que até hoje são referências (lembram do juramento de Hipócrates?).

Hospital da Grécia Antiga

No Império Romano (27 a.C. – 476 d.C.), durante o período de expansão do território, havia uma instituição romana destinada ao tratamento e à recuperação das tropas. Na época, Jesus Cristo foi tido como um curandeiro, o que aumentou a concepção religiosa e espiritual da Medicina. O Cristianismo instaurou um ponto de vista mais humano, imbuindo o ser humano de novas obrigações, como o ideal de socorrer os doentes com ajuda financeira.  

Visita do médico a pacientes

Por volta do ano 700 d.C., foi criado o primeiro hospital no mundo muçulmano. Servia para tratar pacientes com hanseníase e isolá-los do resto da população.

Por volta de 1400, o hospital medieval começou a se separar em duas instituições: o hospital para o cuidado dos pacientes e a instituição de caridade, geralmente associada à recolha de órfãos, abrigos ou casas para os pobres. Cem anos depois, durante as transformações das cidades e de suas instituições de bem-estar, surgiu uma nova arquitetura do hospital, que o distanciou das instituições medievais. 

Foi em 1498 que D. Manuel I decretou em Lisboa a criação da primeira Santa Casa de Misericórdia em Portugal. O modelo serviu de modelo para sua colônia, o Brasil.

Em 1700, os leprosários medievais foram se transformando em hospitais gerais.

Leprosário medieval

Já mais perto, no século XIX, os hospitais passaram a fornecer cuidados de emergência pré-hospitalar para recuperar o maior número possível de combatentes. Foi aí que nasceu o transporte por ambulância e o termo “triagem”. Vieram também as revoluções de assepsia, higiene e anestesia, estimuladas pelos avanços tecnológicos. Neste contexto surgiram os hospitais modernos.

E hoje o Hospital das Clínicas, da faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, é a maior unidade hospitalar do Brasil, tendo sido fundado em abril de 1944. Seis artistas do elenco dos Doutores da Alegria visitam suas alas pediátricas – no Instituto da Criança – há 15 anos.

Vista aérea do Hospital das Clínicas

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Hoje é dia de médico!

O médico é a figura na qual nos espelhamos para criar o besteirologista. E nada mais justo do que fazer uma homenagem a essas pessoas que nos inspiram e que batalham conosco pela humanização nos hospitais (que hoje, minha gente, é política pública!).

Registramos aqui o depoimento do Dr. Carlos Amino, que conheceu o trabalho dos Doutores lá no comecinho. Ele resgatou nossa memória e nos fez ter a certeza de que a alegria é tão importante para os médicos quanto para as crianças.

Obrigado, Dr. Carlos, por esse lindo depoimento, e claro… Feliz Dia do Médico! Vamos comemorar muito nos hospitais hoje!

“Meu nome é Carlos Junichiro Amino. Sou Pediatra em São Paulo.

Tive meu primeiro contato com os Doutores da Alegria, principalmente com o Wellington Nogueira (fundador da ONG), no Instituto da Criança (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

Assisti uma das primeiras palestras, lá de quando o Wellington ainda não era tão conhecido como hoje entre nós médicos. Sempre apreciei tudo o que se propunha a trazer alegria e bem estar para nossos pequenos. Acompanhava a “visita médica” dos Doutores na enfermaria do Instituto da Criança e sentia o clima leve e alegre que eles traziam às crianças. Hoje vejo os Doutores da Alegria se difundirem pelo Brasil inteiro e ainda espero ver em mais cidades de nosso Brasil.

Vez ou outra encontro o Wellington. Ele sempre de bom humor e esbanjando alegria. Não sei lembram-se de mim, mas eu nunca vou esquecê-los porque ensinaram muitas coisas para a minha vida. Obrigado!”

Obrigado e parabéns a todos os médicos!

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O momento da superação


Aline Nogueira, 20 anos, é pernambucana e atualmente estuda medicina na Universidad Nacional de Rosario, de Rosário, na Argentina.

Aos 15 anos, conheceu os Doutores da Alegria quando esteve internada no Hospital Oswaldo Cruz, em Recife, para iniciar o tratamento contra um tipo de câncer ósseo, chamado Sarcoma de Ewing. Ela conta um pouco da sua história, como conheceu a equipe dos Doutores da Alegria durante sua estada, e de como superou os piores momentos:

“Descobri que tinha câncer aos 15 anos. Já passava por um momento difícil, com depressão e poucos meses antes havia começado um tratamento com psicóloga. Começava a me sentir um pouco melhor quando veio o baque. Foi muito duro deixar de estudar, ver pouco os amigos e muitas vezes nem os ver, pois a quimioterapia deixa o paciente sem forças nem imunidade para isso.

Tive um diagnóstico muito rápido, não deu tempo de ir digerindo. Depois de 4 meses com crises, dores insuportáveis e edema no braço, fiz um raio x e o médico me disse: é um tumor. Me assustei, mas não quis entender e me desliguei, enquanto o ortopedista, que é da minha família, começou a agir muito rapidamente pra que eu fizesse mais exames para já investigar a metástase. Fiz tudo em mais ou menos 20 dias e o resultado foi: era maligno. Tive sorte, pois é raro ver um diagnóstico de câncer tão rápido. Como sempre me dizia o primeiro médico: Aline, agora vamos correr contra o tempo.

Cheguei na oncologia pediátrica e me vi num filme de terror. Me doía, me assustava, tantas crianças sem cabelo, mutiladas. Já na primeira quimioterapia meu cabelo caiu. Com o passar dos dias, fui me acostumando com tudo e me aproximando dos profissionais que me tratavam, inclusive os Doutores da Alegria.

Fiquei surpresa por ver palhaços no hospital, não conhecia o trabalho, mas de cara me cativou! Me agradava a forma de interagirem, eram diferentes de todos os palhaços que eu já tinha visto. Me fizeram ver que mesmo nas situações complicadas da vida é possível, sim, desfrutar! Isso faz com que “se quebre o gelo” que existe nas adversidades e assim encontrar algo que seja saudável e divertido.

Certa vez os besteirologistas não me encontraram sorrindo, nem com raiva ou dando voltas como era de costume. Estava há quase um ano em tratamento e meu corpo estava fraco, já não podia dar muitos passos sem parar para descansar. Havia feito uma sessão de quimioterapia no dia anterior e apenas três horas após acordar, tive uma crise de vômitos, e fui medicada com remédios na veia. Pouco tempo depois, quando os Doutores chegaram, o remédio já estava fazendo efeito. Tentaram várias vezes brincar comigo, eu abria os olhos e não conseguia permanecer acordada por muito tempo. Lembro que na vontade de corresponder, dizia “mãe, eu quero acordar” e todos riam das minhas tentativas frustradas de despertar. Percebi especialmente nesse dia que, atrás do palhaço e da brincadeira, existia uma pessoa que estava focada no meu bem-estar, que buscava ao máximo fazer com que o sofrer fosse amenizado, não mascarado, mas que eu pudesse passá-lo melhor. Cantaram a música “Dona” de Roupa Nova (sempre cantavam pra mim) e disseram que era pra embalar meu sonho. Dormi tranquila.

Já não era ruim estar ali, porque eu gostava tanto de todos os profissionais que cuidavam tanto de mim. Sou eternamente grata a todos que fizeram esses dias escuros mais harmoniosos, felizes e com menos dor, foi essencial para minha cura, talvez sem isso eu não pudesse levar adiante. E as crianças! Desde o primeiro dia lembro que tentava alegrá-las, dar carinho e na verdade elas que fizeram isso por mim!

O caminho a percorrer era longo e a luta, diária. Às vezes o cansaço me vencia, eu batia o pé e dizia que não ia mais me tratar. Aí, vinham todos esses anjos que salvaram minha vida e me convenciam a resistir.

Mas enfim, terminei o tratamento apaixonada pela oncopediatria! Sentia muita saudade quando comecei a ir mensalmente. Tive problemas na reinserção social, uns poucos momentos em que me sentia bem era quando voltava ao hospital. Comecei a ir ao psiquiatra e tomar antidepressivos por um ano, sem melhoras.

Iria começar a fazer faculdade, eu queria fazer medicina, mas nem cheguei a tentar, pois achava que não ia passar. Fui aprovada em psicologia no vestibular, mas antes de me matricular, resolvi tentar e seguir o que havia escolhido, a medicina. Depois de muito insistir, meu pai concordou e agora estou estudando na faculdade, em Rosário, na Argentina.

Sinto muita falta da minha família, mas amo esse lugar. Hoje renovei muitas coisas, me sinto melhor. Estou cuidando mais de mim, lavando as raivas, as mágoas, e tentando esquecer o que não posso mudar e que escapa do entendimento.

Vou ser uma pessoa realizada se eu conseguir um dia cuidar das crianças com câncer como cuidaram de mim, é a minha meta. Levarei para minha vida pessoal e profissional o que pude absorver enquanto estive na oncologia pediátrica, inclusive porque é nessa linha que quero seguir. Fazer parte do reflexo desse trabalho me deixou contente.”

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O desassossego da organização

Luis Vieira da Rocha, diretor executivo dos Doutores da Alegria, escreveu sobre o futuro que nos aguarda a partir da nossa maioridade (21 anos). Veja abaixo o depoimento dele que também fez parte do Balanço 2011.

Luis Vieira da Rocha

“Doutores da Alegria assumiu o compromisso de promover a ética da alegria por meio da arte, possibilitando seu acesso à sociedade como um direito social.

Escolhemos levar a experiência da alegria para os ambientes que carecem de uma mudança na qualidade nas relações. Essa missão só teve sentido com o apoio da sociedade, compartilhando esse desafio e se realizando, também como agente, nessa concretização. O engajamento é amplo, inclusive de artistas comprometidos como desenvolvimento da arte e seu impacto social.

Em 21 anos de existência, amadurecemos nossa prática e ampliamos nossas ações para além dos hospitais: compartilhamos o conhecimento por meio de programas de formação, criações artísticas, diálogos com a sociedade; orientamos grupos semelhantes para um movimento artístico mais engajado, com base em nossos valores;  ampliamos o acesso de pacientes à arte de qualidade local; e, a partir da experiência inicial nos hospitais, traduzimos em arte acessível à comunidade, ou seja, ninguém precisa ficar hospitalizado para conhecer os Doutores da Alegria e conhecer a leitura que fazem dos contextos hospitalares.

Mesmo com tantos avanços na vida de uma organização é sempre necessário rever seus compromissos. O tempo e as conquistas nos cobram. Aqui tratamos de uma “outra arte” que é gerir um importante patrimônio social e aplicar cada vez melhor os recursos a nós confiados, escolhendo os caminhos que trarão os melhores resultados nessa tarefa de construção de uma cultura de alegria.

O caminho de maturidade dos 21 anos nos exige isso. Em 2011, durante três dias, reunimos toda a nossa equipe – artistas, técnicos e representantes das áreas da Saúde, Cultura e Educação para um grande encontro que chamamos de Conferência de Busca de Futuro. Nela olhamos dentro e fora. Conferimos, uns com outros, vários pontos de vista. Analisamos tendências, necessidades sociais. Revimos o ponto de partida da instituição. Identificamos mais uma vez nossos desejos e vocação para o debate de novas possibilidades para os próximos anos.

Esse foi um belo e primeiro pontapé que demos no nosso traseiro…

Quando tudo parecia estar organizado – maturidade artística, uma estrutura organizacional com áreas complementares – surge mais uma inquietação:
a de contribuir para um futuro onde a alegria seja um valor na nossa sociedade.

Esse desassossego em que nos encontramos, para a construção de uma nova visão, é da natureza do artista e de uma organização que concluiu uma grande etapa. Agora o desafio parece ser maior do que o começo, mais do que a garantir a presença de uma dupla de palhaços profissionais num hospital,
coisa totalmente estranha à realidade de duas décadas atrás.

Ao olharmos para o início, a possibilidade de ver palhaços profissionais atuando no hospital era como uma visão, um futuro a ser conquistado. Hoje é a nossa realidade. Com a maioridade, temos o desafio de nos reinventar, descobrir o futuro que nos aguarda. E nos aguardem!

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