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Todos os dias, pouco mais de 20 jovens circulam pela nossa sede, em São Paulo.

Pela manhã, têm aulas de palhaço: aprendem, praticam, refletem, trocam experiências. De tarde, alguns se vão. Outros permanecem e continuam o treino: arriscam um instrumento musical ou um devoram um livro

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Cidade e Feminino

“Olha lá. Sentada no banco da praça, perdeu a dignidade, coitada. Olha lá, se despindo na praça do centro, colocando pra fora peito, bunda, sujeira, calor, grito de quem tá calada faz tempo. Olha lá, olho perdido olhando pra nada, olhando pra tudo. Olha a angústia, olha. Vê? Deixo a minha dor, deixo a voz, deixo história interrompida. Deu tudo que tinha, se deu e deu alma, deu corpo, deu pro tempo, deu pra esse, deu pra aquele, deu pra rua, deu pra nunca mais se ter. Mulher perdida na praça sem roupa, esse olhar você não aguenta. Agora tá dançando, olha lá. Bota a mordaça.

Na esquina, amontoada com saco, bolsa, roupa, pombo, passado, fome e caderno e caneta na mão desenhando o labirinto perdido há tempo. Desenhando passado, desenhando história desenhando luta e grito e dor, de quem foi, mas não é mais. Concentração na ponta da caneta, concentração no toque do papel, ignora a multidão que passa, e passa. E ela? Ela fica. Ela tá aqui esperando o outro dia chegar. Não. Ela tá aqui desenhando labirinto, ela tá aqui agora, só agora. Mulher na rua, fedida, perdida, desenhando labirinto, a se organizar. Êta.

Jogada em qualquer canto da cidade, jogada no papelão da carne, da carne que come, da carne que deita no papelão da carne, que se aquece no papelão da carne, que mija no papelão da carne. Sentada com a criança no colo, peito de fora, peito que amamenta e que homem não tem. Homem não alimenta. Cabelo desgrenhado, corpo suado, sujo. Mão estendida, olhar selvagem. Criança pequena, moleque que vai crescer moleque já tá no mundo, moleque com fome. Olha lá, se desenhando os muros bem na frente do moleque.

A cidade é amontoado, é amontoado de coisa e acúmulo, acúmulo de coisas, de capital, de sujeira, de lágrima seca, de palavra não dita. Então diz pra mim, diz pra mim no meio disso tudo, diz que você me respeita, diz que você me vê, que me reconhece. Diz que vai me deixar andar, diz que vai me deixar falar, diz que não vai ser escroto, diz que não vai pisar na cabeça dela quando ela estender a mão. A cidade engole e abriga, ao mesmo tempo. Protege e expõe, mas não defende.”