Tempo de leitura: 1 minuto(s)

O que vou contar aqui é o resultado de uma experiência besteirológica inédita. Eu, Dr. Dadúvida, pedi permissão para trabalhar sozinho um dia no hospital. Sozinho, desamparado, carente, abandonado. Talvez você não saiba, mas a base do trabalho dos Doutores da Alegria é o trabalho em dupla.

Lá fui eu para o Hospital do Campo Limpo. E vou te contar… Foi vertiginoso! Tudo fica numa exposição maior, arriscada, iluminada, total. Acho que palhaço é como os animais que andam em bando: quando estamos juntos somos grandes, corajosos, caras de pau; mas sozinhos, vamos pelas beiradas, escutamos mais o que está acontecendo, pedimos ajuda e, o melhor, somos muito ajudados.

© Nina Jacobi

As mães, sem que eu solicitasse, rapidamente se acercavam e logo tínhamos uma dupla de palhaços: um maquiado, outra não. As crianças, ao ouvirem que eu precisava aprender a cantar, logo queriam me ensinar suas músicas preferidas. Em um dos quartos tive que deixar minha caixinha de música e meu chocalho.

Ensaiamos uma música improviso e a H. aprendeu a rimar rapidíssimo. Ficaram de preparar um show para apresentar para o Dr. Pinheiro, besteirologista residente do Hospital do Campo Limpo. O menino R., aproveitando a ausência do Dr. Pistolinha, insistiu para que eu lhe dissesse porque ele tinha esse nome. Ah, eu lhe expliquei que não poderia dizer pois é um problema pessoal masculino do outro besteirologista e eu sou muito ético, jamais falaria… Ele e a sua mãe estão rindo até agora, por que será?

No Pronto Socorro foi absolutamente desafiador. Assim que me viram, já fui anunciado pelas enfermeiras, crianças nos colos, em pé nos berços, os médicos: Ele veio sozinho hoje!

O que me tocou profundamente foi o berçário, até hoje não entendia porque trabalhar ali. É um lugar “casca de ovo”, todo cuidado é pouco. Os bebês eram todos muito pequenos; uma menininha estava inquieta, chorando, há dois dias em jejum.

Tenho uma música alimentícia!, me prontifiquei.

Cantei pra ela “Conto de fraldas” e ela foi se acalmando. As enfermeiras quiseram me contratar por hora, mas ainda tinha muito hospital pra percorrer! Foi uma experiência sensacional, me senti muito corajoso, trabalhando numa delicadeza que as vezes me esqueço e que é, realmente, muito necessária.

Dedico este texto à todas as mães, enfermeiras, profissionais, crianças que encheram meu dia de imagens, emoções e muita cumplicidade!

Dr. Dadúvida
Hospital do Campo Limpo
Outubro de 2012