Tempo de leitura: 2 minuto(s)

Quando a gente pensa que já encontrou de um tudo no hospital, eis que surge uma nova patologia besteirológica: a síndrome da asa de xícara.

O único paciente a apresentar os sintomas característicos da síndrome foi o G. Uma figurinha que logo no primeiro encontro já mostrou que ia laçar nossos corações. Lembro-me como se fosse hoje. Estávamos eu – Dra. Suca – e o Dr. Marciano andando pelos corredores do Hospital da Restauração quando ele surgiu no quarto, seguido de sua mãe. O menino, do alto dos seus 4 anos,  nos fitou, flexionou os braços, apertou as mãos e as repousou sobre a cintura e falou:

Vem pro meu quarto!

Não tivemos como negar e marchamos até ele. Ao redor da sua cama estavam vários parentes seus e o G., ainda em pose de asa de xícara, falava articulado apresentando a família.

Fomos logo dando a notícia da síndrome da asa de xícara e a mãe, de tão perplexa, se desatava a sorrir. Esse foi nosso primeiro encontro. Os encontros seguintes foram sempre guiados pelo G. Com o passar do tempo fomos curando a síndrome da asa de xícara e o Guga parecia melhor, apesar de ainda ter tremeliques nervosos freqüentes. Contudo, o menino foi ficando “zen” demais e passava muito tempo deitado, dormindo. Quando chegávamos para atendê-lo, sua mãe não o acordava. Quando o G. teve a notícia que tínhamos passado por lá e não tínhamos o atendido, chorava em alto e bom som. A partir de então, sua mãe passou a acordá-lo quando chegávamos.

Foi aí que descobrimos mais uma síndrome besteirológica: a facilidade para a hipnose. Toda vez que a sua mãe o acordava, ele levantava o tronco, sentava na cama de boca aberta e ficava nos olhando com os olhos meio cerrados. Eu pegava minha coxinha de galinha (sou uma médica prevenida!) e o hipnotizava. Foi numa dessas que perguntei se ele queria ser meu filho.

Sim!, ele respondeu.

Tentei logo uma negociação com a mãe, que, em troca, me pediu a coxinha de galinha. Já estava tudo acertado: quando ele recebesse alta de outra médica (infelizmente eu só dou baixa, devido a minha estatura…), a troca seria feita. E daí em diante o G. já me entendia como mãe, a “mãe nº 2”. E eu já o chamava de “filho”.

Quando passávamos no corredor, a sua mãe nº 1 gritava:

Eita! Chegou a tua mãe nº 2!

E o G. acordava daquele jeitinho, pronto para a hipnose. O tempo foi passando e a nossa família ia muito feliz. Sempre saíamos deixando o recado:

A gente vai, mas a gente volta! – e isso acalmava o coração aflito do meu “filhote”.

Até que um dia o seu pai veio lhe fazer uma visita. Sem saber direito quem era, me deparei com o pai do G., super risonho, que tinha vindo buscar a família.

Aceitei o consolo do Dr. Marciano e deixei o G. partir com a sua mãe nº 1 e seu pai. Ainda sinto muitas saudades da minha família, mas enquanto isso, venho tentando ocupar a cabeça com outra coisa: arremesso de catotas! Dizem que faz bem praticar esporte. Corpo são, mente sã! 

Hospital da Restauração
setembro de 2011
Dra. Suca  (Suenne Sotero)
Dr. Marciano (Márcio Carneiro)