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Olá Grajaú, é um grande prazer estar aqui com vocês, apesar de passar duas horas para conseguir chegar, o que, eu sei, é uma realidade cotidiana de uma porcentagem enorme dos paulistanos, mesmo assim a alegria é enorme. Sinto que a besteirologia cada vez mais vai me colocando no lugar certo, no lugar necessário, não sei se mais necessário ao hospital ou a mim mesmo. Cada vez mais as respostas se acercam de mim e fogem desesperadamente.

No final do ano passado eu e um grupo de besteirologistas fomos ao Maranhão e lá nos deparamos com uma realidade muito contraditória, o que nos tocou profundamente, visitamos lugares onde as pessoas ainda não conheciam o palhaço, aliás, médico também é praticamente uma figura mitológica, pessoas muito pobres e com um orgulho fenomenal de suas histórias, povos esquecidos num Brasil tão grande; mais uma vez as respostas davam lugar a um milhão de questionamentos.

Este mês nos deparamos com a situação mais tsunâmica para minhas questões: ao começarmos o trabalho vimos um grande tumulto na porta do hospital, soubemos em seguida que uma pessoa de uma facção criminosa havia morrido e causado com isso uma grande revolta, havia segurança por todas as partes, até que nos disseram: “Vocês têm que tomar muito cuidado, porque são absolutamente visados nestas situações”. Automaticamente passamos a andar de costas e com as pernas em total terremoto! Fomos direto ao elevador, quando uma enfermeira pediu para que segurássemos a porta, ela estava com um bebê, uma menininha que acabava de nascer num carro, nós éramos as primeiras pessoas que ela via, quer dizer pessoas não, palhaços! Dois olhinhos negros lindos e sem nome, olhando uma realidade alternativa, que tenta, no seu novo mundo, dar sentido a coisas sem sentido, e tira sentido de coisas com sentido acumulado… Terá sido bom pra ela?

O mundo está muito confuso e creio que nós nos aproveitamos dessa confusão para piorar a situação, vivemos num momento de violência onde ela é aumentada ao máximo para políticos venceram eleições e depois tudo continuar igual, um momento de crise, que eu, particularmente, acho que foi criada por alguém que não queria pagar suas dívidas e todo mundo acreditou na sua conversa e agora isso virou desculpa pra tudo de ruim, demissões, cortes indignos de salários, fome, violência, e os ricos…. vão indo muito bem obrigado!

Estar num hospital onde tudo isso é sua realidade cotidiana e ver que apesar de tudo, como lá no Maranhão, nos aplaudem como que agradecidos por nossa presença , faz com que eu me sinta pleno mesmo com tantas questões criadas por dois pequenos olhinhos que esperam, tenho certeza, encontrar um mundo mais digno, quem dera mais feliz.

No final do percurso da pediatria uma mãe correu até nós e disse: “- A minha filha acordou, vocês podem voltar?”. Não sei porque, mas quase comecei a chorar!

Davi Taiú, codinome de um certo Dr. Dadúvida que circula pelos corredores do Hospital do Grajaú.

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