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Para fechar o ano de trabalho no Instituto de Tratamento do Câncer Infantil, a Dra. Guadalupe escreveu uma carta para todos que, de uma maneira ou de outra, a ajudaram a construir essa história junto com a Dra. Manela, sua parceira.

“O Itaci é realmente um hospital muito especial. Um ano de trabalho num hospital como esse nos provoca de diversas maneiras, como palhaços e também como seres humanos. Diariamente lidamos com diversas questões relacionadas à vida, morte, saúde, doença, família, relações humanas, valores, etc, etc, etc.

Confesso à vocês que chego nesse fim de ano um tanto cansada. O nosso mestre inspirador que foi quem criou esse trabalho, Michael Christensen, nos disse há pouco tempo: “Vocês sabem por que ficamos tão cansados ao fim de um dia de trabalho como esse? Porque durante todo o dia recebemos uma grande quantidade de informações, das mais variadas, lidamos com todas elas e ainda fazemos com que pareça simples e fácil”.

É, concordo absolutamente com ele.

Dra. Guadalupe

O palhaço é mais ou menos como uma antena parabólica, que capta tudo que acontece à sua volta, tentando perceber todas as situações que estão acontecendo no hospital. E encontra pais, crianças e equipe médica em circunstâncias de dor (física e emocional), de alegria, de tensão, de medo, de alívio, de comemoração, de perda, de raiva, de dúvida, de tranqüilidade, de prostração, de sono, de fome, sob efeitos de medicação, às vezes em alucinação, às vezes em descanso, dormindo, bordando, almoçando, vendo televisão, tomando banho, esperando, brincando, dançando, cantando, chorando, berrando, batendo, puncionando uma veia, indo embora, chegando pela primeira vez, pela última, no começo do tratamento, no fim, no meio… Enfim! Muitas delas num mesmo dia de trabalho e num curto período de tempo.

E o palhaço minha gente, ainda vê tudo isso sob uma lógica diferente, enxergando essas situações por outro ângulo e criando milhões de outras realidades e jogos a partir delas. Exatamente como a criança, que é capaz de se conectar com a realidade e entender o que se passa à sua volta, ao mesmo tempo em que vive e compreende tudo isso segundo a lógica de sua imaginação e fantasia, reino que freqüentemente habita.

Quando digo que o Itaci é um hospital especial é porque por mais que eu esteja fisicamente cansada ao fim deste ano, minha alma está repleta de aprendizados. Coisas que eu pude entender neste ano de trabalho e outros questionamentos que permanecem sem respostas, cuja busca se faz motor para continuar este trabalho.

Estou absolutamente grata à toda equipe do Itaci, que nos recebe diariamente com um sorriso no rosto abrindo as alas para que possamos passar; se disponibilizando para esclarecer nossas dúvidas, para conversar e para entrar no nosso jogo de cabeça, se despojando de julgamentos e travas para se permitir à besteira, e nos proporcionar gargalhadas.

Estou enormemente grata à todas as crianças que encontramos e todos seus pais, parentes, acompanhantes que se disponibilizam para nossa besteira. Que apesar de tudo que estejam vivendo, nos oferecem sua brincadeira, sua imaginação, seu canto, suas molecagens para que a gente viva junto! Estou grata por essas crianças, jovens e adultos que concordam em abandonar a realidade por um momento e imaginar. Que topam viajar conosco pelo nosso insólito universo e que acreditam na gente, e que nos dão a devida importância. É por vocês que existimos!

Essas crianças me ensinaram que cada minuto que passamos dentro do hospital é para ser vivido. Que essas horas são para passar vivendo, e não o contrário. E que viver não é só sorrir, viver é também estar cansado, injuriado, com dor de barriga. Viver envolve fracassar, envolve ficar sem ideia e não ter o que dizer, dizer algo inapropriado. Viver é também errar. Essas crianças me ensinaram o que vou levar de mais precioso: que o palhaço não é um super herói, capaz de mudar o mundo inteiro, ou o mundo de um hospital, o mundo de um quarto de internação. O palhaço é, antes de tudo, e simplesmente, um ser humano.

Um palhaço não mora nas idéias, na razão, no raciocínio.  O palhaço mora no peito, mora na barriga, mora onde a vida flui simplesmente por que flui, e acontece simplesmente por que acontece. Vibra por que vida. Como uma criança em qualquer circunstância.

Dra. Guadalupe e Dra. Manela

E, antes de terminar, é preciso ainda dizer que estou muitíssimo grata à minha parceira, com quem trabalhei todo esse ano, a Manela, a Paola. Se vivi tudo isso, se aprendi algumas coisas, foi ela quem esteve sempre ao meu lado. O parceiro é aquele que sustenta os nossos delírios e embarca neles; e é também o que te põe no chão quando necessário. Seja no triunfo ou no fracasso, é ele quem está ao lado e que te faz companhia. É quem faz os contrapontos às nossas ideias e que ao promover esse debate, que nos faz crescer. A Paola foi para mim como uma caverna onde eu fui o mar. Ela foi a pedra onde eu bati, rebati e me esparramei, que me permitiu esse movimento e que sempre me acolheu.

E o melhor de tudo é que ainda que o dia anterior não tivesse sido de grandes gargalhadas ou grandes ideias, no dia seguinte a equipe, as crianças e minha parceira me recebiam novamente com a mesma disponibilidade. Para seguir em frente. Por que o mais valioso de se descobrir como um palhaço ser humano é compreender a vida como um movimento, onde nós somos parte dele. Onde não há super heróis, onde não há sucesso e nem fracasso permanente. Onde não importa acertar ou errar, importa encontrar mais uma vez para partilhar a vida.

A todos com um enorme abraço,

Guadalupe, Tereza. ”

Paola Musatti e Tereza Gontijo