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por Soraya Saide

Quando se fala em Commedia dell’Arte, tudo parece muito distante e rebuscado. Mas quando ouvimos no Carnaval marchinhas que dizem assim: “Arlequim está chorando pelo amor da Colombina no meio da multidão….” ou quando assistimos ao filme O Auto da Compadecida e rimos das presepadas do João Grilo e Chicó, tudo fica mais familiar.

Pois é, esses nomes – Arlequim, Colombina, Pierrot – vêm de um teatro que se fazia nas ruas e feiras no século XV, que nasceu na Itália e se espalhou pela Europa – A Commedia dell’ Arte ou de Profissionais.

E o João Grilo e o fazendeiro Pantaleão são herdeiros diretos dos personagens daquele tempo e mantêm as mesmas características (um é poderoso e rico, o outro esfaimado e miserável) e os mesmos conflitos (o patrão não paga o servo, que inventa uma história pra conseguir comida e se vingar do patrão ou pra ajudar os filhos do patrão, sempre envolvidos com amores proibidos pelo pai.)

A Commedia dell’ Arte  é o teatro profissional, popular, nascido nas feiras e praças e que influenciou os gêneros que se seguiram, tanto que até aquela coisa que todo mundo tem, de saber já no primeiro capítulo de uma novela como será o último, é herança da Commedia dell’ Arte.

Gianni Ratto, encenador e um dos responsáveis pelo Moderno Teatro Brasileiro, a define como uma das mais importantes faces da cultura italiana,  “nascida na rua, viva de uma vitalidade crua, exuberante de uma comicidade às vezes até escatológica, violentamente antiacadêmica, generosamente contestatória, ataca sem piedade médicos, militares, prelados, nobres e católicos, banqueiros e negociantes, hipócritas e carolas.”

A Commedia dell’Arte é o marco do artista como função social e é também o período em que as mulheres até então proibidas de interpretar, conquistam esse direito.  

Na Commedia, as peças encenadas não têm um texto escrito que possa ser decorado, são roteiros de ações improvisados por artistas profissionais, que interpretam personagens extraídos da sociedade e expõem a eterna luta do homem do campo contra o homem da cidade.

É um trabalho de criação, de composição muito intenso. Há que se ter clareza do que se faz em cena e fora de cena, acompanhar a história, as reações do público, estar atento e pronto para qualquer imprevisto.

Os atores portam mascaras no rosto, para que o público reconheça de imediato cada personagem implicado na história. A máscara é, nesse sentido, o verdadeiro rosto da personagem, “aquela parte de rosto que define, por meio de suas alterações, a personagem, torna-se o seu símbolo, sua exteriorização e a representação sintética do seu caráter”, como define Amleto Sartori, artista plástico que junto com o Piccolo Teatro di Milano, reinventou a Commedia dell’Arte no século XX.  Ele completa: “É do assíduo convívio com a máscara, que nasce da necessidade de um exercício constante voltado à procura de um aperfeiçoamento contínuo da própria técnica, que encontramos a confirmação de que a arte do cômico não é fruto somente de intuições geniais ou de influências esotéricas, mas é determinada por um comportamento equilibrado entre intuição e profundo conhecimento das ‘regras do ofício’, que o cômico herda, juntamente com a máscara, dos seus predecessores”.

A máscara cobre metade do rosto do ator, ele tem que compor o resto do rosto – a boca, a voz e todo o corpo, que deve amplificar a máscara. Há todo um trabalho de composição a partir das linhas, dos traços das máscaras, que contamina o raciocínio, a lógica e a maneira pela qual ela se relaciona com os outros personagens; como cria ou sai de situações.

O encanto da máscara

A experiência da máscara é uma das coisas mais fortes que um ator pode experimentar no teatro, por isso que ela é tão encantadora. Quando se porta uma máscara pela primeira vez, o ar nos afoga,  ouvimos a própria respiração, não sabemos se respiramos pela boca ou pelo nariz, há uma desorganização física. A cabeça perde a mobilidade, perde-se campo de visão e os olhos vêem um vão escuro entre o rosto e o avesso da máscara, muitas vezes aflitivo. É como olhar escondido. A máscara nos provoca um jogo de esconde-esconde, revelador, de uma força criativa intensa. Quando o ator deixa de resistir, através do treino, o vão desaparece, tudo se encaixa, nem se pensa por onde o ar entra, mas o personagem respira, vivo, crível, humano. Delícia de jogo! Passamos a Divertir, função essencial da Arte.