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É bem possível que, nos anos anteriores, outras duplas dos Doutores da Alegria já tenham dedicado um relatório inteiro ao M., nosso velho conhecido da UTI do Hospital do Mandaqui (SP). Nós mesmos, nesse ano, já falamos dele um pouco aqui e um pouco ali. É inevitável. Afinal, ele, assim como a G., sua vizinha de leito na UTI, vivem no hospital dia e noite, 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano, e tudo isso já há alguns anos.

Num dia desses a Dra. Crica Canaleta deu os ares de sua graça por lá. Mal entrou na UTI e o M. já foi gritando:

Oi, Dra. Guadalupe!

A Dra. Crica retrucou dizendo que não era a Guadalupe.

Oi, Dra. Manela!, revidou o menino.

Crica enfureceu-se.

Calma, Dra. Pororoca…

E assim foi: M. desembestou a falar o nome de todas as palhaças dos Doutores da Alegria, exceto o da própria Crica. Foi quando eu, Dr. Zequim Bonito, cheio de boas intenções, resolvi intervir:

Poxa, M., isso não se faz; imagina se eu olho pra você e, em vez de dizer “oi, M.”, digo “oi, G.”?

Ele parou na hora. Esboçou um leve sorriso e sem hesitar nos disse:

Eu não posso ser a G. E sabem por quê? Porque eu não babo!

…………………………………………… . . .

Essas linhas aí em cima são para dar tempo para você reagir.

Todos aqueles a quem contamos a frase do M. reagiram com um sorriso, meio franco, meio amarelo.

E é isso mesmo. Vejam vocês! Ele parecia saber que a ‘crueldade" dele poderia provocar o riso. Se arriscou e foi cruel. E nos revelou o que já é explícito: ele, do ‘alto" de sua condição de tetraplégico, se permite fazer humor com a fragilidade alheia, uma das poucas fragilidades que ele não possui. Isso é humano? Compreensível? Quem afirmará e quem negará?

Ainda esse mês, num desses conversês que às vezes se instala entre os palhaços e o M., falamos que tínhamos assistido a um filme cujo protagonista, tetraplégico, se locomovia, escrevia, pintava, tudo controlando seus equipamentos somente com a boca.

Sabíamos que o tema era ousado, mas como o abordamos de uma maneira tão despretensiosa, e a nosso ver, sincera, não o evitamos.

Que filme é esse? Tem no YouTube? Quero ver!, disse-nos M.imediatamente.

E lá foi ele assistir ao trailer de “Intocáveis”, filme francês baseado em fatos reais sobre a relação entre um tetraplégico e seu assistente. Se você ainda não assistiu, tente assistir. É um filme cheio de humor e delicadeza. M. riu ao ver o assistente, distraído, enfiar a colher de comida no olho do paciente. Riu também ao ver o paciente caindo da cadeira porque o assistente simplesmente esqueceu de colocar-lhe o cinto de segurança. E por aí vai.

Pois é, quem somos nós para saber do que se pode rir e do que não se pode rir?

Dr. Zequim Bonito (Nereu Afonso)
Dra. Emily (Vera Abbud)
Setembro de 2012
Hospital do Mandaqui