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Um mundo de vida sustentável, diverso e criativo em 2042, momento da Rio +50.
Este é o ponto de partida para esta obra de ficção, de Lala Deheinzelin, especialista internacional em Economia Criativa, Sustentabilidade e Futuros, que será lançado durante a Rio+20 para ser distribuído às lideranças do evento.
Todo processo de captação para impressão do livro está baseado no financiamento colaborativo pelo site Catarse. Serão distribuídas 3.000 cópias, das quais metade é em português e a outra metade em inglês. Ao apoiar, a pessoa ganha um exemplar e ainda garante a entrega de uma cópia na Rio+20. São várias as opções para colaborar com a causa.

O livro surgiu da necessidade de mostrar um contraponto ao futuro do estilo de vida atual que parece caminhar para a desesperança e o caos. Com a premissa de que “as escolhas de hoje desenham o mundo de amanhã”, a autora apresenta novas alternativas ao futuro que contemple estilos de vida sustentáveis, oriundos da economia criativa e modelos colaborativos. Os textos foram construídos com base nos futuros criados entre 2008 e 2012 por pessoas de todas as idades e áreas de oito países, por meio da participação do Movimento Crie Futuros.
Há décadas, não era possível conceber a vida com a tecnologia e facilidades com que convivemos hoje. Muito do que hoje é realidade foi fruto de sonhos anteriores, que vislumbravam um futuro com carros, celulares, tecnologias 3D entre outros. O que temos hoje, nos mostram o amanhã. Como diz Peter Drucker: “A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo”.

Veja mais em: www.criefuturos.com

A autora Lala Deheinzelin nos conta um pouco mais sobre este tema: 

Qual foi a inspiração para este livro?

Olhando o passado do futuro fica claro que muito do que existe hoje foi antes sonhado: desde o século XIX encontramos imagens de notebooks vídeo conferência, carros, mega cidades, fast food, tecnologia wireless, aquecimento solar, etc…

É através dos sonhos de futuros de todos nós que poderão se desenvolver os estilos de vida sustentáveis para o futuro que desejamos.

Crie Futuros é um movimento internacional, que existe desde 2008, para criar e semear imagens e idéias de futuros desejáveis, que possam inspirar inovação e orientar escolhas na direção do mundo melhor  que desejamos, e é possível.

Conte um pouco mais sobre o financiamento colaborativo deste livro.

Decidimos fazer um financiamento colaborativo pensando em todo o processo do Movimento Crie Futuros, os futuros criados na plataforma (www.criefuturos.com.br), as oficinas e todas as atividades que já realizamos foram conduzidas sempre de maneira colaborativa. Achamos que é congruente com todo o trabalho já realizado.

Tem sido incrível acompanhar as pessoas apoiando o projeto no Catarse, ver o envolvimento. É um processo bonito de construção.

Mas tivemos também o apoio de algumas instituições, que assim como o financiamento colaborativo, foram essenciais para o desenvolvimento do livro.

Como a economia criativa pode ser a solução para a sustentabilidade de nossos futuros?

Vivemos a passagem de séculos em que sociedade, economia e política se organizaram em torno dos recursos materiais, como terra, ouro ou petróleo, que, por serem tangíveis, são finitos e consumidos com o uso. Esta finitude cria a economia da escassez, baseada em modelos de competição. Porém os recursos intangíveis, como cultura, conhecimento, experiência, são infinitos e se multiplicam com o uso. Podem representar uma economia da abundância, baseada em modelos de colaboração.

De forma simplificada podemos dizer que a economia tradicional se baseou nos recursos tangíveis: capital ambiental/estrutural e capital financeiro, escassos e finitos, resultando em modelos insustentáveis. Já a Economia Criativa se baseia nos recursos intangíveis: capital cultural/ humano e capital social que, aliás, são abundantes nos países “pobres”. Esta economia baseada em diversidade cultural, conhecimento, TICs e criatividade traz a possibilidade de obter resultados não apenas econômicos, mas também ambientais, sociais e culturais. Ou seja: sustentáveis.

A sustentabilidade pode ser possível, pois estamos falando de três infinitos! Um infinito potencializando o outro… O primeiro é este dos recursos intangíveis (cultura, conhecimento, criatividade, experiências), sempre existiu, claro. Mas as novas tecnologias do infinito 2 criaram as associações com outras áreas e parceiros, que permitem que o potencial se concretize, e fizeram com que se tornassem mais visíveis e acessíveis, “tangibilizando os intangíveis” . A combinação dos dois infinitos gera o terceiro, aquele das novas formas de organizar pessoas, relações, empreendimentos, enfim a tal “sociedade em rede”.

Quais são as tendências de futuro, dentro das perspectivas apontadas, que já estão se tornando realidade em breve?

Identificamos alguns princípios norteadores e são eles que nos orientaram na redação deste livro.

  1. Um novo “sistema” operacional: mudar mentalidades para mudar hábitos. Sustentabilidade só será possível com uma mudança cultural, de mentalidade, desejos, visão de mundo e de futuro. Estamos tentando mudar hábitos sem mudar antes as mentalidades?

“Sustentável” não é um mero adjetivo, mas um novo “sistema operacional” que daqui para frente vai orientar ações em todos os âmbitos da vida. Da mesma maneira que hoje a escravidão é impensável, num futuro próximo vai ser impossível não ser sustentável em cada detalhe da vida…

A palavra “sustentabilidade” nos provoca culpa e não, entusiasmo –“sabemos” que sustentabilidade é essencial, mas a “sentimos” como algo restritivo, técnico e chato. Mas sustentabilidade é uma possibilidade de redesenho do mundo, promove a ampliação da qualidade de vida, é interessante e divertida.

2.coordenadas equivalentes: tangível/estrutural e intangível/processual

Exercitar-se em perceber a equivalência e interdependência entre tangível/ hardware/estrutura e intangível/ software / processo, ajuda a entender onde e como podemos ser mais sustentáveis. A maioria das vezes o foco de políticas e investimentos está no hardware/estrutura, como se sua existência já fosse suficiente para gerar softwares/processos. A consequência é sempre um tremendo desperdício, pois hardwares não funcionam sem software… Exemplo: Olimpíadas e Copa do Mundo. Quase tudo o que está sendo feito é “hardware”, estrutura – como os estádios ou estradas. Pouquíssimo está sendo feito de “software”: gestão, empreendedorismo. Fazemos os produtos, mas não criamos o processo para torná-los visíveis e circularem; investimos mais em infraestrutura do que em educação; mudamos prioridades de governo, mas não alteramos as leis e normas para que elas sejam possíveis.

O interessante é que uma mesma estrutura/ hardware pode receber vários processos/softwares, ou seja, uma mesma forma pode ter várias funções diferentes. Esta foi nossa lógica: partir do que já existe hoje e pensar novas funções. Afinal criatividade e inovação é isso.

3.Fases do tempo: passado, presente e futuro

Algo que a economia tradicional parece ignorar é que qualquer produto ou processo sempre existe a partir de recursos recebidos do passado – e isso vale tanto para patrimônios e recursos naturais (como petróleo ou água) quanto para os intangíveis (como os saberes e fazeres). De igual maneira, todo processo ou produto deixa um legado para o futuro, seja ele positivo ou negativo, tangível (como resíduos sólidos) ou intangível (como conhecimento a ser sistematizado). Sustentável é fazer a escolha responsável considerando os recursos recebidos do passado e o legado deixado para o futuro. O que tem acontecido é que nossa visão tem sido imediatista, de curto prazo, com foco apenas no presente.

Visão temporal implica considerar o passado, pois existem produtos e processos que devem ser mantidos simplesmente porque já são suficientemente bons. Neste livro lidamos bastante com “envelhação” e não apenas com inovação…

4. Dimensões da sustentabilidade nos processos e valores

O aspecto tangível de nosso ecossistema engloba a dimensão ambiental – tanto natural quanto a tecnológica – e a dimensão econômica – monetária e solidária. O aspecto intangível traz a dimensão sociopolítica e a simbólico-cultural. Curiosamente esta última ainda está pouco visível, apesar de ser a dimensão em que estão os – abundantes e renováveis – recursos que podem trazer a solução para a sustentabilidade: os patrimônios intangíveis como conhecimento, criatividade, cultura.

Nós propomos Sustentabilidade 4D + considerando que nossos produtos e processos, para serem eficientes e sustentáveis, devem ser sistêmicos e compreender sempre estas quatro dimensões na sua estruturação e formas de avaliar. Isso provavelmente trará a necessidade de desenvolver indicadores e métricas quadridimensionais (4D +) de riqueza, recursos e resultados.

Quem sabe em breve teremos uma Economia 4D+? Para ela, o patrimônio das nações, instituições e pessoas é a soma de seus recursos e resultados nas dimensões tangíveis (ambiental e econômica) e intangíveis (sociopolítica e simbólico-cultural). Futuro desejável, pois isso mudaria os patamares de negociação, a tomada de decisão, a formulação de prioridade e políticas.

5.“comos” da sustentabilidade: cuidar, confiança, potências, fluxo e colaborativo.

O modelo colaborativo é cada vez mais presente, graças à sociedade em rede, e será provavelmente o do futuro (ou não teremos futuro…). Para isso, o cuidar deveria ser a lente que norteia escolhas, prioridades e políticas em todas as áreas. Para cada coisa, projeto, lei, investimento, relação, atitude, fazer a pergunta: isso cuida de quê? Quanto mais cuida, mais merece nossa escolha, já que o cuidar é por natureza sustentável e com visão de longo prazo.

No cuidar estão muitas das atividades do futuro: cuidar não apenas da natureza, mas das pessoas, cidades, saberes e fazeres, tempo, relações, modos de vida, recursos 4D+. O futuro terá menos emprego, mas haverá muito trabalho no “cuidar de”, que deveria ser prioridade nas políticas nacionais[1]. A rápida recuperação da Islândia pós-crise de 2008 é um exemplo do foco no cuidar, sustentabilidade, economia criativa, e não por acaso é uma gestão feita por mulheres.[2]

[1] Uma das propostas de Ladislau Dowbor; Carlos Lopes e Ignacy Sachs no livro http://criseoportunidade.wordpress.com

[2] Uma entre muitas matérias. Note que optaram por não salvar os bancos e sim, por investir nas pessoas. http://internacional.elpais.com/internacional/2012/03/09/actualidad/1331323885_752952.html

Para finalizar, qual é a sua mensagem para quem quer ajudar a construir um futuro sustentável?

Ter clareza do que deseja e ser ousado ao construir sozinho. Confiar – a confiança é a base de um futuro desejável, pois a partir dela podemos desenvolver modelos colaborativos. E dedicar-se a desfrutar o tempo – o único recurso de fato não renovável… E precioso!