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Nosso itinerráio é assim: – Hemodiálise, Diálise, OS, P3, Quarto Andar, Queimados, Plásticas – Raio X, Sexto Andar, UTI, Quarto Andar, Urologia.

A dupla ou o trio inicia o dia em um dos trajetos, nos encontramos no Quarto Andar, caminhamos juntos até o Prédio Central e lá cada qual segue para o seu cada um.

Em um dia desses, ao chegar à UTI, nos dividimos, digo, o trio se dividiu. Entramos na UTI e lá as coisas funcionam diferentemente do restante dos espaços no hospital. Em um local de intensidades fica mais evidente algumas premissas do nosso trabalho. É como se precisássemos ser inventados pelo trabalho e não inventá-lo. Ser determinados pelo trabalho e não determiná-lo. Éramos nós três:  Doutora ZuZu,  Doutor Zequim e Doutor D. Pendy chegando na UTI sempre cheia, tanto de crianças quanto de médicos, residentes e enfermeiros. E nos dividimos por ordem de lavagem de mãos, por prosa com a chefe dos enfermeiros, por requisição da mãe de lá ou da mãe de cá.

Os motivos são muitos e variados neste ambiente, mas seguimos, como o rio que corre para o mar, desejando nos encontrar. Quer dizer, os três juntos criarmos cada encontro com cada criança visitada. Pois foi assim, com força magnética que Zequim chegou junto ao D Pendy e segundos depois chegou ZuZu, todos defronte da cama de uma menina adolescente.  Zequim e D Pendy já haviam começado uma conversa/encontro/interação.  ZuZu parou atrás deles muuuuuito discretamente sem querer interromper e nem ao menos chamar a atenção. A atitude de ZuZu, aceita como proposta pelos parceiros, foi incorporada ao jogo já estabelecido com a adolescente e sua mãe. E então, os três juntos propuseram a ação dramatúrgica da cena/encontro/conversa desenvolvendo-a num jogo de improvisação visando o encaminhar da história criada conjuntamente para um fim que gerasse a despedida daquela cena/encontro/conversa/interação.

Até que, nossa interlocutora adolescente respira e pede:  “Toca uma música para mim, eu quero dormir”. E foi então que, de fato… o encontro começou. Muito se seguiu depois: cantamos uma, duas, três músicas, ela tentou dormir… e também a despedida aconteceu.

Muitas sutilezas deste encontro ficaram conosco e muito discutimos sobre elas. Muitas delas tão íntimas que guardaremos para nós. Mas o fato de três palhaços disporem de seu material artístico para criar uma intervenção artística com seu interlocutor e este interlocutor, que naquele momento só queria dormir, sentir-se tão livre e confiante na relação já estabelecida para verbalizar sua necessidade, foi para nós um presente. Essa adolescente nos presenteou com o presente. Ela nos fez uma vez mais exercer o verbo prescindir.

Nós, palhaços doutores, que não buscamos a eficiência do fazer rir, sempre precisamos de uma linda criança como esta adolescente para nos afirmar do que é feito um potente encontro. Uma vez, em um outro hospital, uma outra criança perguntou: “Pra que você usa esse nariz?” E vocês podem imaginar quantas respostas podem passar pela cabeça de um palhaço em pouquíssimos segundos quando recebe uma pergunta como esta? Mas a criança respondeu primeiro: ” É para desmostrar, né!” E assim vamos seguindo mais um ano de trabalho e parceria aqui no ICr.

Vamos nós cinco visitando todo o hospital em busca de encontros para mostrar, desmostrar, mostrar, desmostrar, mostrar, desmostrar…