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Besteirologista é tudo igual. Somos muito bem intencionados no nosso ofício. Estamos sempre procurando um jeito de encontrar uma besteira, uma bobagem ou uma bobice qualquer, num leito, nas alamedas ou corredores. Olhares ávidos em busca de outro olhar, parabolicamente atentos a tudo, pelo simples prazer de doutorar.

Vez ou outra deparamos com situações que podem parecer simples, mas que requerem muito jogo de cintura. E bota jogo de cintura nisso. Foi o caso do nosso encontro com a Nani. Certo dia, ao entrarmos na enfermaria do CEON encontramos nossa paciente bastante abatida. Olhava pra gente com uma cara que era difícil definir. Fizemos de tudo e ela não se interessava por nenhuma de nossas ações. Foi quando o Dr. Lui entrou no banheiro e saiu transfigurado na forma de uma dançarina indiana, ou melhor, no que ele achava que seria uma dançarina indiana. Nada que alguém pudesse imaginar que sairia por aquela porta se igualaria a tão inesperada visão. A Nani e todos os presentes na enfermaria caíram em interminável gargalhada.

É impossível descrever os gestos coreográficos daquela dança insana, mas valeu a pena o esforço. A partir desse dia, não saíamos do quarto da Nani sem apresentar aquela dança , pois a cada dia havia um novo convidado, e ela sentia o maior prazer em compartilhar as habilidades dos besteirologistas. Sim, porque o Dr. Euzébio entoava um canto pra lá de estranho, jurando tocar uma autêntica música indiana.

O Dr. Lui tomou gosto. Percorreu o caminho das Índias e trouxe todo um novo aparato, um incrível adereço com centenas de medalhas douradas, pra incrementar o visual. Pesava bastante no bolso do jaleco, tanto que o Dr. Lui andava meio penso prum lado só. Mas valeria a pena o esforço. Seria uma grande surpresa para sua maior fã. Seria, é bom frisar. Pois já do corredor ouvíamos que a Nani não estava nada bem. Gritava de dor. Corremos pra lá e tentamos obter sua atenção. Dissemos que tínhamos uma novidade. Ela até respirou fundo percebendo que talvez tivesse algum alívio momentâneo, mas não deu certo. O Dr. Lui correu pro banheiro, era uma emergência e tínhamos que agir rápido. Mas a dor falou mais alto e nesse momento não havia nada que pudéssemos fazer, a não ser desfazer-se de toda produção e aguardar uma outra ocasião.

O peso do jaleco foi transferido pra outro lugar. E todo médico conhece os limites do seu ofício e sai de cena pra que outro especialista assuma a função.

Mas quando o trabalho é bem realizado não é preciso esperar muito pra ver os resultados. Na enfermaria seguinte, o sucesso da dança já tinha conquistado outros admiradores, que aguardavam o Dr. Lui com música indiana baixada pelo celular. Sucesso total! Afinal, o show não pode parar.

Dr. Euzébio (Fábio Caio) e Dr. Lui (Luciano Pontes)