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A equipe da cozinha hospitalar faz uma pausa na preparação do almoço do dia. O pedreiro que rebocava a parede rapidamente pega um balde de sua carriola e o vira de ponta-cabeça, de forma que sirva como instrumento de percussão. As enfermeiras põem a criançada no colo, algumas usam adereços brilhantes por cima do uniforme branco, ou rosa, ou verde. A faxineira improvisa um parceiro de dança com o esfregão. O guarda sisudo abre a guarda por um momento, dá um largo sorriso e marca o ritmo discretamente com o pé. Na fila compriiiida, todos começam a dançar, agitando as mãos no ar. E assim, em meio à rotina do hospital, em que o tempo corre com lógica própria, abre-se uma janela pra ver o bloco passar, cria-se um espaço para a pausa e num instante, todos nos damos realmente conta: é carnaval! E o Bloco do Miolinho Mole dos Doutores da Alegria adverte: se você pensa que o soro é água, o soro não é água não; o soro vem da enfermeira e a água vem do ribeirão!

Estamos no Recife, é março, faz 22o à sombra, não há uma só nuvem no céu e a cidade que recebe quase a metade de toda a sua população em turistas durante as celebrações de carnaval, atraindo foliões de todos os cantos do Brasil e do mundo, está em festa! Logo depois da fundação da sede pernambucana, os Doutores da Alegria deram-se conta de que não poderiam ficar de fora de uma das manifestações culturais mais importantes do pernambuco e criaram o Bloco do Miolo Mole, que há oito anos arrasta multidões pelas ruas do Recife Antigo celebrando a alegria e a saúde. Cabeça dura tem cura!

E como não poderia deixar de ser, tratamos logo de adaptar toda a experiência das ruas do Recife para o ambiente hospitalar, para nosso público número um – crianças internadas, seus pais e profissionais de saúde. E assim nasceu o Bloco do Miolinho Mole, que já está em seu quinto ano de realização.

Durante a semana que antecede o carnaval, os palhaços juntam zabumba, caixa, acordeon, cavaquinho e kazoos e percorrem os hospitais visitados pelos Doutores da Alegria durante todo o ano. Um dia de bloco para cada hospital.

Acompanhar um desses dias do Miolinho é uma experiência surpreendente. Por mais que se imagine o que é levar o carnaval para os corredores de um hospital público, ao se ver no meio daquela folia é preciso de tempos em tempos se beliscar pra lembrar de que estamos no meio de um hospital!

Há cenas inesquecíveis.

“Ô pai, compra uma roupa de paiaço pra eu!” pediu a menina Jordana depois de brincar de baliza do bloco no espaço entre um quarto e outro da enfermaria pediátrica.

Mais à frente, numa sala de espera, uma mulher saía da sala de exames numa cadeira de rodas. Estava séria e preferiu apenas observar os palhaços a uma certa distância. Em seguida, ao ouvir a primeira estrofe de Taí (… eu fiz tudo pra você gostar de mim…), suspirou, chorou um cadinho e por fim acenou sorrindo pros palhaços, mandando beijos pelo ar.

As enfermeiras e mães que caem no frevo com gosto. As crianças que, já sabendo do bloco, preparam suas fantasias, suas máscaras, seus adereços de cabeça, numa generosidade e disponibilidade sem fim. E dançam. Nos corredores ou de cima do leito mesmo!

 

 

 

Há muita música boa.

Marchinhas clássicas, frevos, cantigas de roda. Voltei Recife, Ô Abre Alas, Alá-la-ô, Me Dá Um Dinheiro Aí, A Jardineira, Ciranda Cirandinha, Pai Francisco, Escravos de Jó, Pierrô Apaixonado…

Há uma linguagem própria do bloco, inconfundível.

Quando soa nos kazoos o toque oficial dos clarins, para abrir o desfile, é de arrepiar!

Durante o cortejo, o palhaço que conduz o bloco indica, com sinais previamente combinados, o volume em que a orquestra deve tocar. Um deles é o volume zero, pra surpresa e deleite das pessoas que rapidamente entendem tudo e continuam a dançar, agora ao som do silêncio. Volume bem baixinho na UTI neonatal, cantando Mamãe eu Quero para os bebezinhos e suas mães. Algumas aproveitam para ninar os filhos ao som da trilha sussurrada.

Ontem à noite saiu o bloco do Miolo Mole pelo Recife Antigo. Foram mais de quatro horas de folia das boas. Foi igualmente especial e inesquecível – e ainda falaremos do Miolo Mole aqui – mas temos a impressão de que se existe um sentido para o carnaval – mesmo que haja coisas que não carecem de um sentido – chegamos bem perto de compreendê-lo totalmente lá nos corredores do hospital. Entre as pessoas que, mesmo em meio a uma situação adversa, ainda teimam em celebrar a alegria. “Só assim de repente, na horinha que se quer, de propósito, por coragem”, como escreveu Guimarães Rosa.