“Começava dezembro, quase seis da tarde. Na avenida Faria Lima, fiz sinal para o primeiro ônibus que ia para os lados de Santo Amaro: Jardim Ângela. Estava vazio. Sentei no primeiro banco, próximo ao motorista e ao cobrador, que conversavam como se estivessem numa sala de estar.

Será que só eu ia para aqueles lados? Eu carregava uma capa de violão novinha e confeccionada sob medida. Era só a capa, mas parecia conter o instrumento. Fiquei prestando atenção na conversa dos dois, que competia com o barulho do motor. Vez ou outra o cobrador olhava para mim como que buscando a minha participação na conversa. Para não ser indelicada, eu sorria.

Enfim, o cobrador me perguntou, apontando para a capa do violão:

“Você toca?”

Respondi que só arranhava músicas simples, mas que estava aprendendo. Perguntou-me então o que eu fazia e eu lhe contei sobre o grupo de artistas: palhaços que visitam crianças. Imediatamente o motorista lembrou que havia lido algo sobre o grupo.

“Qual a sua graça?”

A partir daí fui definitivamente integrada àquela salinha de estar. Queriam saber tudo sobre os Doutores da Alegria: se éramos remunerados, se conseguíamos trabalhar quando nos sentíamos tristes ou cansados. Lá pelas tantas, tratei de perguntar em que altura da Avenida Santo Amaro ele ia entrar. A resposta:

“Para onde você vai, Thaís?”

Fiquei com a nítida impressão de que ele seguiria para onde eu indicasse. E, de fato, foi entrando em ruas normalmente não transitadas por ônibus, perguntando se estava bom para mim. Ora, estava ótimo – mais um pé e eu estaria em casa! Agradeci a atenção e disse que desceria no ponto seguinte. O cobrador, a quem eu pagara logo ao entrar, devolveu-me o passe e disse:

“Esta é a nossa contribuição para vocês que fazem um trabalho tão bonito!”

Surpresa – e confesso – emocionada – desci pela porta da frente, o ponto congestionado de gente. Já refletindo sobre aquela curta viagem, vi o ônibus se afastar com o cobrador dizendo:

Tchau, Thaís, feliz Natal!” – um toque de buzina pontuando a frase.

O passe devolvido ocupa lugar de honra na estante de homenagens recebidas pelos Doutores da Alegria.”

Thaís Ferrara
Palhaça dos Doutores da Alegria desde 1.993
Trecho extraído do livro “Doutores da Alegria – O lado invisível da vida”