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A pequena D. entrou na sala da quimioterapia. Passos firmes, cabeça baixa e chorando. Não era choro de mentira, era choro bem chorado, com soluço e tudo. Ela trazia na mãozinha uma folha com uma máscara inca que havia apenas começado a pintar.

O momento mereceu atenção! Então eu, Dra Greta Garboreta, me adiantei:

– D., conta pra mim! O que aconteceu?

– A minha mãe não deixou eu trazer o giz de cera! – mostrou, indignada, o pálido desenho.

– Ela não deixou? – repeti, mostrando minha indignação.

– Não! 

– E ela não disse por quê?

– Não! 

– Então vem cá que eu vou te contar o motivo…

A essa altura as lágrimas e soluços já haviam cessado. O Dr. Mané Pereira, que conhece bem o segredo dos brinquedos e brincadeiras, permaneceu atento ao nosso lado, na expectativa de ver se eu iria dizer mesmo a verdade.

– Sabe o que é. D.? É que teve um tempo em que o pessoal deixava os gizes de cera entrarem aqui, só que eles faziam muita bagunça: eles riscavam o chão, as paredes, as janelas, as portas… Nossa! Eles eram terríveis! Os mais malcriados riscavam até o teto! As enfermeiras davam um duro danado para escrever tudo direitinho nas suas pastinhas e eles iam lá e rabiscavam tudo, coitadas! Eles não obedeciam ninguém! E não adiantava mandar eles se comportarem. O vermelho era o pior deles! Ah, e continuando… Você estava aqui quando fizeram a reforma nesse hospital? Você se lembra dela?

– Lembro! 

– Então, foi uma grande reforma, não foi?

– Foi. 

– Pois é! Foi por causa dos gizes de cera! É por isso que eles não podem mais entrar aqui! Bagunça agora, só lá fora na Brinquedoteca, né, gente? – e me virei para todos que escutavam atentamente a nossa conversa.

– Éééééé!

Depois disso chegou a vez da D. de ser atendida. Ela sentou-se na cadeira para receber sua medicação e não disse uma palavra, apenas continuava a me olhar atenta. Então me despedi dela e para me certificar de que ela havia entendido tudo que lhe havia dito, fiz uma última pergunta:

– D., você me ajuda a controlar essa bagunça?

E fazendo um sinal com a mãozinha espalmada, ela disse: Deixa comigo!

Bom, uma coisa eu aprendi nesse dia: Sempre, e sob qualquer circunstância, é preciso dizer a VERDADE!

Dra Greta Garboreta (Sueli Andrade)
Dr. Mané Pereira (Márcio Douglas)
Instituto de Tratamento do Câncer Infantil – São Paulo
fevereiro de 2013