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NO MUNDO DOS SONHOS

“(…)Que é a vida? Um frenesí.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho
e os sonhos, sonhos são.”

Pedro Calderón de La Barca

Noutro dia, entrando no quarto 407, onde se hospedava a Tay, uma linda bebê nos primeiros meses de vida, encontramos toda a família reunida em volta de sua cama, vigiando o seu sono. Eu (Dr. Ado) e o Dr. Eu_zébio nos aproximamos e nos juntamos ao grupo para também admirarmos aquele momento de delicadeza e paz. E qual foi a nossa surpresa quando de repente, do mundo dos sonhos, surgiu no rosto da Tay um lindo e inesquecível sorriso banguela. Até parece que a menina suspeitou que ao grupo sério e solene do quarto havia se infiltrado uma dupla de corações bobos e narizes encarnados. Poderíamos achar que havia sido uma casualidade se a pequena não tivesse repetido por várias vezes aquele sorriso descompromissado. Todos nos surpreendemos e ficamos a nos perguntar o que se passava na vida da Tay naquele instante. Que sonho a levaria a aquele estado de alegria e graça?

No fim do dia, já em nossa caixa de sapatos, isso mesmo, dormimos em caixas de sapatos (separados, diga-se de passagem, pois o Dr. Eu_zébio solta muitos puns no silêncio de sua caixa), ficamos a refletir sobre o mistério da vida e dos sonhos. Então lembrei dos versos do poeta Pedro Calderón de La Barca que escreveu maravilhosamente bem sobre esse assunto. Não chegamos à conclusão nenhuma, também não queremos concluir nada. Apenas queremos dormir e sonhar e acordar e dormir e… por muitos anos viver dormindo e sonhando e acordando e dormindo e… Ás vezes penso que as horas que passamos no hospital estão dentro de um sonho. O hospital é a nossa “terra do nunca” onde tudo podemos, onde somos eternas crianças em busca do que mais sabemos fazer: brincar. Claro que somos médicos(besteirologistas!), mas não nos custa escapar dos olhos do chefe para aprontarmos umas boas confusões por aqui, como por exemplo, lutar contra nosso arqui-inimigo, o Capitão Gancho, que aqui se veste de branco, traz o gancho na mão em forma de agulha e atende pela alcunha de ENFERMEIRA. O que seria de nós sem as enfermeiras?!!! Às vezes somos acertados pelo “gancho” na bunda, ôps, não pode falar BUNDA. Ai, falei de novo! Enfim, às vezes somos feridos na parte traseira, fofinha, que nós “médicos” chamamos de nádegas ou glúteos; mas aqui esses furinhos são como antídotos mágicos que só aumentam nossos superpoderes e fazem com que levantemos mais rápido de nossas camas e voemos em nossas brincadeiras.

Nesse mês de julho, “garotas superpoderosas” despertaram de seus sonhos, foram brincar em outras terras, conhecer outras nuvens, escorregar em outros arco-íris, puxar a peruca de outro paspalho que não fosse o Dr. Eu. A Raíssa e a Regina por muito tempo dividiram as brincadeiras conosco por aqui. E ai de quem nos chamasse de palhaços perto da Raíssa, que ela, valente que era, gritava logo em nossa defesa: “Eles são médicos!”. Ela nos fazia acreditar que éramos tudo isso mesmo. E somos!? Ora, se no sonho tudo podemos porque na vida não fazemos o mesmo? Como sabemos se quando vivemos não estamos a sonhar? E se sonhamos em vida, será a morte um despertar? Seja como for, esperamos que nossas heroínas-mirins despertem num mundo ainda mais divertido que o nosso e que nesse mundo possam correr, pular, saltar, subir, e principalmente, sonhar. Ai, ai, por um momento quase fomos longe demais em nossas divagações. Melhor acordar e voltar pro presente. Êpa, mas qual o “eu” que é mais presente aqui no hospital, o “eu” que sonha ou o “eu” que acorda? Dr. Eu diz que o “eu” mais presente daqui é ele mesmo. E diz ainda que, às vezes, é bom acordar pra perceber que aqui no hospital lidamos com gente de verdade, de carne e osso, que precisa de respeito, de cuidado, de atenção, de delicadeza. E eu concordo com ele. Aqui ou em qualquer outro lugar estamos para sermos felizes e bem tratados, todos nós. Ora, não se espantem! Para escrever tudo isso nosso mestre foi o sono. E basta entrarmos no hospital para sonharmos tudo de novo.

Quem por aqui não gostaria de sonhar todos os dias com as gargalhadas do Darly. Até parece que ele via palhaço quando chegávamos em seu quarto. Tudo o movia, mesmo que ele não pudesse se mover. Como no dia em que o conhecemos e ele parecia não nos perceber. Bastou tocarmos uma música para que o pé do Darly se pusesse a dançar, devagarinho a princípio, mas não tínhamos pressa nenhuma, até o dia de hoje, quando mesmo sem música todo o seu corpo dança quando nos vê. Ele dá gargalhadas que contagiam a todos dentro de seu quarto. Todos os dias sonhamos com seu sorriso, é para nós um alento, com o Darly dividimos momentos de extrema felicidade. E mesmo que ele tenha ido pra casa (já tava na hora mesmo) sua alegria nos acompanhará ainda por muito tempo. Encontros e despedidas, temos de aprender a lidar com isso todos os dias. Não é fácil, mas nos ensina muito sobre a vida.

Dr. Ado (Arilson Lopes)
Dr. Eu_zébio (Fábio Caio)