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Ao Senhor Carteiro de Pacientes que foram embora.

Foi através do Nicholas, que por indicação da Dra. Téte, pelas palavras do Jordi Sierra i Fabra, pelo artigo de César Aira, pela explicação de Dora Dymant, pela lucidez de Franz Kafka, que descobri que poderia escrever ao senhor.

Quem me deu o seu endereço foi o seu companheiro de trabalho o Senhor Carteiro de Bonecas, aquele que entrega para as crianças as correspondências das bonecas que foram viajar. E o que eu gostaria de pedir ao senhor, é que fique atento à próxima vez que encontrar com o Nicholas para que possa entregar-lhe esta carta.

Emily e eu, Nicholas e seu pai, passamos juntos muitos momentos nestes meses que se passaram. Desde o nosso primeiro encontro sabíamos que havíamos encontrado um parceiro que fazia malabarismo com nossos conhecimentos. Clownescos e intelectuais. Besteirológicos e gerais.
Também peço que quando com ele encontrar, que o senhor mesmo leia esta carta para ele. Que ele possa fechar os olhos e ouvir a sua voz dizendo assim:

Nicholas, você se recorda quando discutíamos sobre o Universo, aquela teoria que a Emily insistia em explicar, melhor dizendo, lembrar. A “teoria” que compara a formação do Universo até os dias atuais com a duração de um dia? Aquela de que se colocarmos os bilhões de anos necessários para chegarmos da formação do universo até 2008 d.C. na escala de 24 horas, o homem apareceu no último minuto? Não, como é que era?

Bem, não dá para lembrar mesmo porque a Emily não havia terminado de acessar seus confusos arquivos mentais, quando você foi convocado a subir na balança naquele mesmo momento.
Desse momento eu sei que você lembra. Você subiu na balança, atrás de você tinha a enfermeira que precisava anotar o seu peso e também a Emily que continuava a falar sobre a teoria. E na sua frente estávamos eu e a enfermeira Lurdes. Você ficou com cara de espanto e explicou que a balança estava quebrada, pois você não poderia estar pesando cento e tantos quilos. A enfermeira ao seu lado concordou. Você desceu e a balança zerou. Você subiu e reclamou novamente. Mais duas tentativas aconteceram. A Emily não parava de falar. Eu e a enfermeira Lurdes ríamos. A enfermeira da anotação parou a chefe Sônia que passava e decretou balança quebrada. Emily não parava de falar. Soninha começou a rir. Eu e a enfermeira Lurdes dobrávamos de rir. Até que você também começou a rir. Bem, você se lembra que a enfermeira das anotações não gostou quando entendeu que a Emily subia na balança toda vez que você subia? Pois é, parece que ela até hoje não superou o trauma de ver tanta gente rindo. Mas em compensação, a Lurdinha, adora aquela balança.

Quer saber qual foi o resultado de toda aquela celeuma que vivemos no seu quarto por causa das regras do Sudoku? Você nos deu, para cada uma de nós, um cartão Sudoku como lição de casa. Sabe o que a Emily descobriu? Que na verdade aquele cartão que precisamos descobrir onde colocar cada número em tantos quadradinhos é , na verdade, um mapa de posições de uma luta marcial antiqüíssima: o Sudoku. Desde então, a Emily tem dado muitos golpes em muitos travesseiros desprotegidos lá na QT. Quanto a mim, me encarreguei de dar os gritinhos tão importantes nas artes marciais.

Diga ao seu pai que ainda não conseguimos nenhum substituto para ele. Não conseguimos ninguém que ficasse dando tantas voltas pelo primeiro andar rodeando a brinquedoteca como ele. Estamos sem ninguém para fazer a ronda no andar.

Ah, diga a ele também que eu e Emily nos empolgamos com as cantorias em diversas línguas e estamos pensando em ampliar o nosso repertório. Depois de termos cantado na língua materna do seu pai, o alemão; depois de termos nos arriscado a cantar em tupi guarani, espanhol, italiano, inglês, francês, achamos que chegou a hora do antibiótiquês.

Isso mesmo. Explico. Montamos uma banda com o Elio, você sabe, ele descobre tudo com as mãos e reconhece qualquer voz. A cada instrumento que colocávamos em suas mãos, ele saía tocando. Nossos olhos cresceram com a oportunidade de tocar com um multi-instrumentista e começamos a ensaiar com freqüência. Até que resolvemos ensaiar em espaço público. No que resultou na entrada na banda do batuqueiro Marcus. Nesse ensaio, o Elio, que tocava pandeiro, soltou um punk-rock-industrial de brinquedoteca que dizia assim: “… é muito antibiótico, antibiótico, antibióticoooooooooo…”
Continuamos também com as tentativas de subornar a nutricionista terrorista e seus intermináveis pratos de arroz com feijão sem brigadeiro.

A sua terapeuta ocupacional parceira de vídeo-game, nos ajudou a criar um incrível lembrete-carta para a responsável pela brinquedoteca de segunda-feira, a Mariana. É que eu não queria que ninguém esquecesse mesmo ninguém sabendo, que o meu aniversário aconteceria na semana que viria. Deu tudo muito certo! Passei o meu aniversário fazendo coletas. Coletei incontáveis abraços. Aliás, deu mais certo do que eu imaginei. Isto porque todas as crianças deixaram a Emily culpadíssima de não ter levado nenhum presente para mim. O que levou a Emily a tomar uma atitude: ela foi até a sala de consulta do Dr. Gabrielle e contou a ele que estava em apuros. Explicou que não tinha levado nenhum presente para mim e pediu que ele a ajudasse. Não é que ele ajudou !!! Ele foi até o primeiro andar e lá a Emily me entregou o Dr. Garielle de presente de aniversário. Pena que não pude usufruir do lindo presente por conta do desmaio de que fui acometida.

Bem, deixo um beijo meu e da Emily para o seu pai, sua mãe e para aquela garota que quando te liga faz a sua voz amolecer.

Estou com saudades de você, mas espero não te ver tão cedo por aqui.

Dra. ZuZu (Claudia Zucheratto que comunga, palavra por palavra, com o escritor:
“Quanto a mim, permiti-me a transgressão: inventar (…), terminar a história, dar-lhe um final imaginário. Pode ter sido este ou qualquer outro, não acho que seja importante. O que aconteceu é tão belo em si mesmo que o resto carece de importância.”)

Nota: Em uma das vezes em que fui ao quarto do Nicholas vi no seu criado-mudo um livro que me gritou aos olhos. Descobri que o livro foi uma indicação da sua médica e se chama Kafka e a Boneca Viajante, escrita por Jordi Sierra i Fabra. O autor deste livro recria a história que a mulher que vivia com Franz Kafka na época contou. Que como resultado de um encontro de Kafka com uma desesperada menina que havia perdido sua boneca, ele se tornou carteiro de bonecas e escreveu para aquela menina a correspondência da boneca que não havia se perdido, mas sim viajado. “Não se sabe por que ele proporcionou à menina chorosa tão incrível invenção. Nem sequer por que manteve tão singular história durante três semanas. Nunca se soube o nome da menina que perdeu a boneca, e as cartas que ele escreveu nunca foram lidas nem encontradas por ninguém. E talvez a mais bela e lúcida de suas incursões literárias foi uma obra exclusiva para uma só pessoa, uma menina.”


Nota 2:
Este é o relatório do trabalho realizado toda segunda e quarta-feira do mês de Maio de 2008 por Claudia Zucheratto e Vera Abbud com 296 crianças. Incursões artísticas vividas no Itaci onde tantas vezes uma intervenção clownesca foi criada exclusivamente para uma só pessoa, a cada leito que nossos pequenos parceiros nos permitiram entrar.