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No dia 28 de março realizamos o Café da Manhã com Hospitais Parceiros na nossa sede. Este é um encontro que acontece anualmente onde podemos colocar a conversa em dia sobre o que está acontecendo nos Doutores da Alegria e nos Hospitais.
Neste ano, tivemos uma manhã bem especial e contamos com a presença da dupla de enfermeiras Olga e Sônia como porta-voz do Itaci.

Caro Leitor,
Neste primeiro relatório do ano, queria dizer-te que esta dupla de médicas besteirologistas iniciaram o seu trabalho propriamente dito neste mês. Trabalharemos neste hospital até o final deste ano, desenvolvendo o nosso projeto artístico dentro dos Doutores da Alegria. Este foi um mês de reconhecimento do trajeto, de conhecimento daqueles que estarão neste trajeto. A espera da coleta e do dentista, a grande espera por vezes espera grande na frente da grande televisão. A quimioterapia e a internação no primeiro andar. Além de nos reconectarmos com a realidade por qual passa um paciente oncológico ou hematológico, já que ambas já trabalharam nesta realidade. O longo tratamento e a dor – seja ela de qualquer instância – presentes nesta realidade, trazem ao palhaço a busca por outras ações e diferentes pensamentos.
Segue o que destaco neste mês.

O poeta Manoel de Barros nos diz que a criança sente para falar, em vez de falar para depois sentir, conforme fazem os adultos.

A criança de chapéu bonito acomodada em uma das doze confortáveis cadeiras da sala-corredor da unidade de Quimioterapia olhava e não olhava as duas palhaças. A história inventada no início deste corredor se desenvolvia percorrendo leito-a-leito. Quer dizer, cadeira-a-cadeira, desenhando esta história no percurso deste corredor. Quando a palhaça Emily, no desenvolver deste percurso-história “aterriza” no leito-cadeira desta criança de chapéu bonito, firme e contundentemente ela pronuncia: Sai daqui. Um pouco mais distante pude enxergar as pequenas sobrancelhas se contorcendo sobre seus pequenos olhos semi-cerrados. O que faz Emily? Sai de lá.
O encontro seguinte foi depois de uma semana. Emily a reconheceu e foi reconhecida. E assim, iniciaram uma disputa de xingamentos. Era um tal de “seu sofá cheio” pra cá, “sua camiseta apertada” pra lá, “ sua comida fria”, e tantos outros desaforos.

Em um outro dia, na mesma sala-corredor da QT que é o apelido da Quimioterapia, transitavam duas palhaças. Neste dia, na ausência de Emily, por lá circulava Du Porto.
A adolescente de roupa rosa vasculhava a comunicação com ZuZu apenas com caras faceiras. Quando ZuZu aprochegava-se desta com mesuradas ações tentando sentar-se ao lado da sua nova parceira de roupa, a de roupa rosa, eis que surgiu triunfante e no momento preciso: a enfermeira e sua cheia bandeja de inox.
ZuZu diz: Depois eu volto.
Ela replica: Acho melhor você ficar.
ZuZu fica. Du Porto se aproxima. Adolescente de rosa observa. Enfermeira paramenta-se.
Tudo entendido, nada decidido.

Realmente nos sentimos impotentes nestes casos, momentos os quais consideramos privados onde só cabe a enfermeira e o paciente, quando muito o acompanhante.
Explicitando esta impotência, ZuZu verbaliza que é injusto só a paciente e a enfermeira terem função naquele momento. E declara um encadeamento de relações: a enfermeira pica, a adolescente é picotada, a ZuZu chora, e a Du Porto acalma.
Chega o adolescente amigo e com ele chega a dúvida: o que ele faz?
Du Porto sugere: ele segura a mão.
A adolescente: de quem?
De quem chora! Decide ZuZu.

Depois de todos os apretechos preparados e enfermeira paramentada, averiguamos se todos estavam prontos e começamos. A enfermeira usou sua agulha, a adolescente avisou o momento para ZuZu que começou a chorar, Du Porto abanou e disse palavras de consolo e o adolescente segurou a mão.
Agora sim, tudo estava justo.

O mesmo poeta revela que as imagens pintadas com palavras são para se ver de ouvir.
Então seria o caso de se ouvir a frase pra se enxergar a mesma potência de encontro em um vai embora e em um fica aqui.

Claudia Zucheratto
(Dra. ZuZu que invejosa de Manoel de Barros, adoraria encontrar o ‘criançamento’ das palavras)