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por Morgana Masetti, coordenadora de pesquisa dos Doutores da Alegria

Morgana Masetti

Em 1998 Doutores da Alegria começou a trabalhar em parceria com profissionais de saúde também em sala de aula. Desde então nos perguntamos: o que temos para compartilhar com esse público?

Ao longo do tempo fomos percebendo que nosso trabalho de formação estava cada vez mais a serviço das coisas sutis, acontecimentos que são descartados no dia a dia ou dados como certos. Fomos descobrindo a importância dos espaços que privam a linguagem verbal e que instalam espaços de silêncio, de ações simples, do prazer de brincar.

Este ano, por meio da Escola dos Doutores da Alegria, estamos entrando formalmente na universidade em conjunto com o MadAlegria,  grupo de estudantes de diversas áreas da Faculdade de Medicina da USP que vão para o hospital de palhaços.

De uma maneira ou de outra, esses e outros vários grupos de estudantes da área da saúde no Brasil estão fincando bandeira em um desejo importante: atravessar a universidade por uma outra experiência de aprendizado, diversa da que encontram, em geral,  em sala de aula: uma experiência de sentidos. Sentidos físicos (olhar, ouvir, tocar) e também sentidos imaginários para a vivência de doença e cura.

A Medicina é, antes de tudo, um espaço através do qual podemos tecer nosso imaginário sobre  experiências ligadas à vida, à morte, ao sofrimento e às perdas. Olhar, escuta e tocar fazem circular este imaginário e também o dom da cura, um processo que envolve técnica e magia, que jamais se revela por mais que a ciência construa modelos para isso.

A estrutura de funcionamento atual da Medicina dificulta a circulação deste imaginário social. A formação médica valoriza prioritariamente a técnica, a relação de sintomas e saberes. Tudo o que não pode ser nomeado dentro desta estrutura de funcionamento não diz respeito à formação deste profissional.

Um curso de palhaço dentro da universidade de Medicina insere a possibilidade de fazer circular afetos e sentidos sobre este universo. É um espaço que trabalha na contramão do que estes jovens irão aprender, recoloca a magia no processo do imaginário médico. Isto não é pouco, pode ser um passo importante para a Medicina do futuro.

Mais belo ainda: parte do desejo destes jovens , talvez um desejo difícil de nomear, que aparece através da máscara do palhaço, mas que fala da possibilidade de colocá-los em contato com um futuro profissional  mais próximo do imaginário deles sobre a arte de cuidar.