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No princípio era o verbo:

“Verbo é uma palavra que indica uma ação, estado ou fenômeno.”

Ação e estado… Chego à conclusão de que o verbo é o próprio palhaço. Depois de tanto filosofar a respeito, não tinha como ser diferente, nós palhaços, somos ensinados a esquecer o verbo e partir para ação, mas e se o verbo é ação? Mais uma vez chego à conclusão de que é difícil chegar a uma conclusão diante de tantas conclusões.

Mas para não deixar de filosofar e criar mais conflitos, se o verbo indica ação, qual o tempo determinado do sujeito, no caso do palhaço, para cada ação? Difícil? Difícil é saber qual a “crista da onda” (para quem não sabe, é a hora certa de sair de uma enfermaria) e a gente acaba descobrindo e jogando a “bola na rede” (olhar para alguém e encontrá-la, simples assim) ou é jogando a rede sem a bola? Bem, com ou sem bola somos multifacetados, pois além de palhaços somos arquitetos e pescadores:

O palhaço “arquiteto” é aquele que transforma o ambiente. O palhaço “pescador” é aquele que joga a rede. Ora colhemos peixes, ora nem sequer um sargaço!

Toda essa “filosofia” é para verbalizar a importância de conversarmos com as pessoas e deixá-las à vontade para que soltem o verbo falando sobre o nosso trabalho. É com esse propósito que fazemos essa visita ao hospital, de “cara limpa” (sem o nariz de palhaço) ao voltarmos das férias.

Passamos o ano todo falando “bobagens”. É chegada a hora de colocar o nariz no armário, ligar o chuveiro e visitar o hospital de corpo e cara limpa para conversar com pessoas que convivemos o ano inteiro e que nem sempre dá para falar sério. Abraços vão, beijos vem, somos sempre muito bem recebidos e bem quistos. Percebo uma enorme admiração, um respeito e uma certa curiosidade, mesmo estando “normais”, digo, sem a máscara, parecemos ser diferentes. Pedimos para que falem. Elogios, críticas e sugestões, tudo é bem vindo, mas deixei claro que só anotaria no caderno os elogios, obviamente. Botaram a boca no trombone para falar coisas que já ouvimos o ano todo: Que o trabalho é maravilhoso, só que deveríamos visitar todos os dias. Falaram que sentiram saudades e que as crianças ficavam perguntando quando a gente ia voltar.

Um comentário comum: “Olha como ela é bonita sem a roupa.” Uma resposta comum e eficaz: “Ué, e estou sem roupa?” A prova de como somos observados é que estávamos na UTI quando uma das enfermeiras falou: “Ôxe, Svenza, isso é uma calcinha ou uma cueca?” Se referindo a minha roupa de baixo, que estava aparecendo, mas, por sorte, era Calvin Klein, vai que elas reparem na grife também… Enfim, é importante voltar das férias e observar o nosso local de trabalho, com um outro olhar, embora tão atento como se estivesse com o nariz de palhaço e ver as pessoas com as quais nos esbarramos e trocamos infinitos bons dias. Dessa vez me veio cores, olhei para o corredor, para alameda e pude recordar de como é diferente quando passamos de palhaço, sinto que muda mesmo, dá um colorido, é uma outra energia, as cores são mais realçadas e as expressões sutilmente vão se transformando em outras, olhares de estranhamento, perplexidade, alegria, desprezo, risos, e outros. Sinto o marasmo sem jeito pedindo licença dos rostos e indo tomar um chá por alguns instantes.

Durante a visita encontrei o Danilo, paciente de longas datas, que ao me ver, me reconheceu e sorriu, não tinha como desprezar aquele encontro mesmo sem estar com o nariz, retribui o sorriso meio sem graça deixando claro que tava “disfarçada”. Mesmo de cara limpa dava vontade de sair mexendo com as pessoas.

“É necessário limpar a vista para poder enxergar outras coisas e aguçar o ouvido para deixar ouvir coisas que normalmente não ouvimos.”

Dra. Svenza (Luciana Pontual) e Dr. Micolino (Marcelino Dias)
Doutores da Alegria Recife