Entre a ciência e o coração

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Em um artigo da Revista Brasileiros, o médico patologista Paulo Saldiva traçou um histórico de como a figura do médico foi retratada pelo olhar das artes visuais e do cinema.

Rockwell ou Kildare representavam médicos humanos, desprovidos de ambição, com total comprometimento aos seus pacientes. Segui com o Dr. Frankenstein, de James Whale, que em 1931 retratou o temor do poder da medicina (coincidindo com as primeiras cirurgias torácicas e cardíacas), onde o médico era punido pela sua própria criatura, ao tentar ousar interferir com a vida e a morte.

Nos anos 1970 e 1980, os médicos descem mais um degrau. Ou fazem parte de corporações inescrupulosas que, ao lançar substâncias tóxicas no esgoto, fazem surgir um jacaré gigante a aterrorizar Nova Iorque (imprudência) ou médicos cínicos, como os que Roger Altman descreveu em Mash, incapazes de se compadecer dos pacientes mesmo em meio a uma guerra pavorosa. Terminei finalmente com o Dr. House, exemplo de médico tecnicamente brilhante, mas incapaz de enxergar o doente que sofre e sim valoriza apenas a doença.” (trecho do artigo)

Pois bem: o médico também foi a nossa inspiração quando iniciamos a atuação nos hospitais, em 1991. Os palhaços faziam uma paródia, vestindo-se com um jaleco cheio de cacarecos e distribuindo exames fictícios pelas alas infantis, sempre sob um pseudônimo engraçado – Dr. Zinho, Dr. Ado, Dra Juca Pinduca… Até uma especialidade foi criada: a Besteirologia.

+ saiba mais sobre a paródia do palhaço

“Entre os profissionais hospitalares, o médico é visto como personagem revestido de muito poder, crítica e racionalidade. Seu poder – consolidado ao longo da história e de difícil revisão – emana justamente das decisões cruciais que toma. O palhaço, por sua vez, é visto como alguém que desafia as evidências dos fatos, a ordem médica instituída e instiga a repensar atitudes”, conta a psicóloga Morgana Masetti no livro “Boas Misturas, A Ética da Alegria no Contexto Hospitalar”.

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É fato que a atuação dos palhaços ganhou outros contornos no hospital, indo além da paródia e se moldando à realidade do novo século.

Nas escolas de Medicina, onde Doutores da Alegria também atua formando estudantes para uma nova atitude, é comum o questionamento apresentado pelo próprio Saldiva: os médicos, ao ganharem em ciência, perdem em coração? E também é evidente a busca por uma combinação entre ambos, ou seja, a formação de médicos altamente capacitados e sensíveis à condição humana.

Hoje, 25 anos depois da primeira intervenção de um besteirologista, nos perguntamos se a paródia ainda é válida e que outras ordens instaladas o palhaço pode subverter nos hospitais.

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Profissionais de saúde e palhaço: formação é fundamental

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A relação com profissionais de saúde foi tema da mesa “Outras formas de atuação” durante o Encontro Nacional de Palhaços. A discussão foi além e abrangeu a formação básica para que um palhaço atue em hospital.

Mauro Fantini, coordenador do grupo Narizes de Plantão, forma estudantes da área da saúde. Ele trouxe uma pesquisa que fez com estes alunos antes e após as intervenções nos hospitais. A ideia era entender se a experiência de palhaço acrescentava algo a quem atuava com saúde.1 - 2016-11-13-PHOTO-00000014

“O que é palhaço pra você?” era a pergunta. Frases como “Eu achava que aprenderíamos a contar piadas, a sermos engraçados e estarmos sorrindo o tempo todo” e “Achei que aprenderíamos truques e números ensaiados para usarmos no hospital” apareceram muito. Entre as palavras, surgiram: alegria, despreocupação, brincar, personagem, inocência, rir, amor, diversão.

Depois de passar pelo processo de formação, os alunos voltavam a responder ao questionamento. Entre as respostas: “Aprendi a lidar comigo mesmo, com as coisas em que sou bom e com as que tenho dificuldade. Aprendi a lidar com meus erros e a aceitar os erros dos outros” e “Eu lido com pessoas o tempo todo, desde pacientes doentes até colegas competitivos. Agora eu consigo aceitar melhor o que a outra pessoa está me propondo”.

E as palavras se ampliaram e se modificaram totalmente: encontro, sentimento, desprendimento, momento, ser, criança, essência, descoberta, escuta.

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Alexandre Penha, do grupo voluntário Terapia da Alegria, oferece formação a estudantes de áreas da saúde em todo o país. Por ser formado em Artes Cênicas, ele traz este olhar para formar os jovens.

Ele iniciou questionando quantas pessoas haviam se formado de forma tradicional. “Não há universidade focada no palhaço no Brasil. O que usar em formação então?”, disse ele. A solução foi avançar com o que chamou de pedagogia da descoberta, que serviria para democratizar o acesso ao palhaço em todo o país – principalmente para pessoas que nunca tiveram contato com Artes Cênicas, como estudantes da área da saúde.

A mesa seguiu com uma ampla discussão sobre diferentes maneiras de formar um palhaço para atuar no hospital. Formadores da Escola dos Doutores da Alegria se juntaram à mesa para discutir o tema e mostrar o que temos oferecido. Muito foi falado sobre a escassez de cursos abrangentes no país, e sobre o oferecimento de oficinas curtas que não aprofundam a linguagem. Os grupos deram seus depoimentos sobre como qualificam o trabalho que é oferecido aos hospitais. 

O que fazer no hospital? Mesa discute diferentes experiências

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O dia amanheceu frio e chuvoso em São Paulo, mas os grupos que vieram ao Encontro Nacional de Palhaços deixaram a preguiça de lado para refletir e trocar suas experiências.

A mesa “Diferentes práticas – O que fazer no hospital” abriu uma discussão sobre formação e estratégias para atuar junto a diferentes públicos nos hospitais. Pessoas de diversos grupos fizeram parte da plenária e compartilharam seu modo de trabalho.

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Alexandre Penha trouxe a prática do Terapia da Alegria (Curitiba, Paraná), grupo voluntário que atua em todas as alas de cinco hospitais. Atualmente o grupo está se profissionalizando e vem oferecendo formação a estudantes de áreas da saúde em todo o país. O grupo também faz visitas pontuais a hospitais psiquiátricos e hospitais com crianças com problemas de motricidade – e tem experimentado ir além destas fronteiras, já tendo atuado em regiões de consumo de drogas e em um prostíbulo.

Alexandre também levou o Terapia da Alegria ao Haiti, onde há muitas crianças órfãs; ao Vale dos Incas, no Peru, a Burkina Fasso, no deserto da África, e a áreas de refugiados sírios. “Temos experimentado o palhaço e ele realmente pode entrar em outros lugares. O trabalho do hospital pode se refletir em outros lugares”, comentou Alexandre.

A mesa seguiu com Débora Kikuti, coordenadora do curso de contadores de histórias do MadAlegria (projeto de extensão da USP). Ela falou sobre a potência que as histórias têm em nos trazer bem estar e a importância de estar preparado, de investir em um repertório, afinal são muitas visitas a pacientes, e às vezes as pessoas passam um tempo longo no hospital.

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É muito bacana quando entramos em um quarto só com o jaleco e não carregamos nada, nenhum adereço ou figurino. Eles ficam tentando entender se somos palhaços ou contadores de histórias”, contou Débora. Ela finalizou a mesa contando uma história que fez todos a aplaudirem de pé.

A experiência do palhaço com adultos foi compartilhada por Fabiana Leitão, do grupo Doutores Palhaços, de São Paulo. “Percebemos que alguns palhaços tratavam os adultos como crianças, e isso trazia uma rejeição ao trabalho”, disse ela, que é historiadora e fez um resgate da história do palhaço para os grupos. “Na Renascença, o palhaço fazia brincadeiras com conteúdo sexual ou fazia críticas ao governo da época. Era um palhaço que tinha adultos como público”, continuou.

Fabiana abordou a formação que ela traz para os integrantes do Doutores Palhaços: “Temos formação continuada e encontros mensais. As pessoas vão se formando e entendendo o palhaço durante as visitas”.

O próximo a partilhar com os grupos foi Olivier Terreault, do Teatro do Sopro (Rio de Janeiro) e do Jovia (Canadá). Ele abordou a metodologia do “empatilhaço”, empatia através do palhaço, uma técnica que utiliza há mais de 15 anos na área da saúde.

Olivier também falou sobre o arquétipo do palhaço que trabalha em suas formações. “Temos uma sombra do que queremos esconder e uma sombra do que queremos pretender. A máscara e a fantasia do palhaço revelam ou escondem o artista?”, questionou ele.

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A partir da experiência com idosos, ele trouxe dados de pesquisas que indicam que, em 50 anos, haverá mais idosos do que crianças no Brasil. Isso exigiria uma readequação do nosso sistema de saúde, desde os ambientes hospitalares até a formação dos profissionais, incluindo o palhaço. No dia 13, Olivier oferece uma oficina sobre o “empatilhaço” para os grupos participantes do Encontro Nacional.

Mauro Fantini seguiu a discussão. Ele é coordenador do Narizes de Plantão, grupo inserido no Centro Universitário São Camilo e formado por estudantes da área da saúde. Ele seguiu a discussão contando uma história por trás da visita ao hospital – uma história de fracasso, como ele chamou.

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“O hospital nos recebeu muito bem, mas houve problemas com alguns profissionais de saúde. Depois de um tempo, fomos suspensos. Isso poderia não ter acontecido se várias camadas do hospital soubessem o papel do grupo antes”, contou ele.

Mauro ressaltou a importância de alinhar expectativas com o hospital. Pode ser que o hospital queira bondade, caridade, doação, entretenimento, show; e o grupo trabalhe para levar arte, trabalhar a humanização, a relação com os estudantes da área da saúde. “É preciso sempre discutir a relação com o hospital”, finalizou.

Irene Sexer e Silvina Sznajder, do grupo argentino Alegria Intensiva, recentemente estiveram na sede do Doutores da Alegria e puderam entender a realidade do trabalho no país.

Na mesa, elas apresentaram o seu trabalho e comentaram a promulgação da lei que recentemente instituiu a presença obrigatória de palhaços atuando nas pediatrias da Argentina. A lei determina que hospitais públicos da província de Buenos Aires serão obrigados a ter artistas especializados na arte do palhaço para a reabilitação de pacientes. 

A mesa finalizou com uma intervenção surpresa de Marcia Strazzacappa, professora da Unicamp e mestre em Educação e Dança. Ela surgiu como uma faxineira que retrata a figura dos profissionais de saúde de um outro ângulo. Depois, ela sentou à mesa para responder a questões dos grupos.

Gosto muito de pensar no estado de arte, mais do que arte como uma linguagem. E nesse estado, não lugar, a gente alcança a subjetividade, e gosto de trabalhar no hospital com essa perspectiva. Não acho que a arte está a serviço de nada, acho que acontece e provoca reflexões, emoções e outros olhares”, disse ela.

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Como se forma uma rede? Inspirações para o Palhaços em Rede

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O primeiro dia do Encontro Nacional seguiu com uma discussão sobre formação de redes.

Fátima Pontes, coordenadora da Escola Pernambucana de Circo e presidente da Rede Circo do Mundo Brasil, trouxe inspirações para aprimorar e aumentar o engajamento da rede de palhaços nos próximos anos.

Ela partiu do histórico da Rede Circo, que surgiu em 2000 com cinco instituições que tinham o desejo de trabalhar com a pedagogia do circo social. “Como faz pra dizer o que é circo social? Quem diz que trabalha com circo social trabalha mesmo? Muitas questões surgem com a constituição de uma rede”, explicou Fátima Pontes.

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Em 2004 aconteceu o primeiro encontro nacional. A visibilidade da Rede Circo do Mundo Brasil aumentou com a exposição de grupos como o Cirque du Soleil e com os resultados obtidos com a rede. Hoje ela é uma federação constituída, com estrutura administrativa, e 20 instituições participantes, além de sócios e educadores.

Toda rede precisa ter uma causa, é o que une os seus membros”, comentou. Segunda ela, uma rede forte e engajada aumenta muito o impacto do trabalho, pois com sua força pode influenciar políticas públicas e ampliar os resultados das ações dos membros envolvidos. Outros benefícios são a troca de experiências, o relacionamento com parceiros e a mobilização de recursos para a causa.

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Fátima terminou a apresentação propondo questionamentos aos grupos do Palhaços em Rede. “Todos os membros têm consciência dos objetivos da rede? Estão na mesma sintonia? Hoje são mais de 1000 grupos na rede, fora os grupos pelo país. Queremos uma rede tão grande?”

A experiência e os desafios propostos por ela foram muito inspiradores para que esta rede de palhaços seja cada vez mais efetiva e focada em levar um trabalho de qualidade aos hospitais.

Memórias de um hospital português

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Durante a Conferência de Palhaços em Portugal, já falada por aqui, eu tive a oportunidade, junto ao artista Marcelo Marcon, de esticar um pouco mais a estadia e fazer um intercâmbio com integrantes do grupo local Operação Nariz Vermelho.

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João Paulo Reis e Joel Oliveira nos receberam na entrada do Instituto Português de Oncologia, em Lisboa.

De lá seguimos para a sala de apoio e conversamos sobre o evento recém-terminado. Enquanto eles se preparavam, relembramos as particularidades entre os grupos pelo mundo e a enorme diversidade de tipos de palhaços que atuam em hospitais.

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Acompanhamos Dr. Bambu e Dr. Fusilli nas alas pediatriátricas. Foi importante observar, pois esse olhar de fora nos ajuda a compreender e entender o jogo da dupla de palhaços, assim como a relação estabelecida por eles e seu grupo dentro do hospital. Esse formato de observar antes de atuar junto faz parte da metodologia da Escola dos Doutores da Alegria. 

A manhã acabou e durante o almoço conversarmos sobre o que vimos: a atuação, o repertório da dupla, a relação com os profissionais de saúde e pacientes. Notamos muita familiaridade com o nosso jeito de atuar! Até porque a fundadora do Operação Nariz Vermelho, Beatriz Quintella, era brasileira e fez várias visitas ao Doutores da Alegria durante a consolidação do grupo. 

Após o almoço, eu já era Dr. Lambada e Marcelo era Dr. Mingal. 

Formaram-se as duplas luso-brasileiras. Mingal e Bambu foram atender os pacientes que aguardavam numa sala de espera com vários consultórios médicos e depois passaram pela brinquedoteca, enquanto Lambada e Fusilli passaram visita na ala de quimioterapia. 

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De cara, Dr. Lambada foi cantar para um garoto internado a música sobre um sapo e uma perereca nadando na beira do rio, e aprendeu que “cueca”, em Portugal, é uma peça íntima do vestuário feminino, e não masculino… Muitas risadas da irmã do paciente com essa gafe… 

Na sequência, Dr. Mingal resolveu dar uma pirueta no estacionamento do hospital e enroscou sua calça numa haste de metal, rasgando os fundilhos de sua calça e deixando sua “cueca” à mostra. Fomos ao balcão da Enfermagem pedir linha para suturar o rasgo e ouvimos mais gargalhadas da equipe médica! 

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Na sequência, todos juntos, seguimos pelos corredores fazendo um cortejo musical até o ambulatório adulto, onde tocamos La cucaracha em um portunhol escalafobético! Nessa caminhada, descobrimos que Dr. Fusilli era o chefe, mas que quem mandava eram os outros três palhaços…

Essa história rendeu boas risadas, o coitadinho do Fusilli quase se esgarçou ao se dividir em três para conter a confusão que se estabeleceu com os três patetas, quer dizer, obstetras… Enfim… Aqueles besteirologistas incansáveis em parir bestices! 

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Foi uma grande farra! Ficamos quase uma hora além do expediente, nem vimos o tempo passar… Mas como escreveu o dramaturgo Samuel Beckett ao esperar Godot, como o tempo passa quando a gente se diverte… 

Voltamos para o Brasil, e quem viu… Viu! Quem não viu… Não riu! 

 

- texto escrito em parceria com Marcelo Marcon -

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Eles chegaram

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A semana começou com a sede dos Doutores da Alegria cheia. Cheia de jovens de vários cantos, de olhares curiosos.

Vinte e cinco pessoas que decidiram que, pelos próximos dois anos, dissecarão a linguagem do palhaço, aprendendo sobre cada peculiaridade dessa figura. Os ingressantes no Programa de Formação de Palhaço para Jovens têm entre 17 e 23 anos e foram selecionados em um longo processo, que envolveu análise de currículo, oficinas práticas e visitas de assistentes sociais (este último por se tratar de um projeto destinado a pessoas em situação de vulnerabilidade social).

Eles foram recebidos por ex-alunos do programa, que fizeram questão de dedicar sua manhã para a recepção dos novatos. E o que aconteceu? Veja só:

Bem-vindos

Os palhaços formados se espalharam pelas ruas, indicando o caminho até a nossa sede.

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Senta que lá vem história

Uma conversa de abertura do curso. De onde viemos? Pra onde vamos? O coordenador do projeto, Heraldo Firmino, explica tudo.

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Aula trote

Os novatos acreditam que estão participando de uma aula séria quando, na verdade, se trata de uma brincadeira. Olhares atentos, desconfiados. Quem comandou tudo foi Edgard Tenório, assistente da Escola.

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Os ex-alunos reaparecem e novamente dão as boas-vindas. 

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E começa uma divertida gincana entre eles, uma oportunidade pra se conhecerem da melhor forma: brincando!

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Apadrinhamento

Cada novato foi apadrinhado por um ex-aluno. Rolaram presentinhos e muitos conselhos.

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Queridos alunos, que estes sejam anos especiais pra vocês! Bora estudar!

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Enfim, formados

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24 jovens são agora artistas com formação na linguagem do palhaço. Palhaços profissionais.  

E eles saem da Escola dos Doutores da Alegria, após dois anos intensos de formação, para ganhar o mundo. Além da técnica, esses jovens trazem uma bagagem crítica e reflexiva essencial para o pensamento artístico. Foram mais de 1.800 horas de aulas diárias na sede da ONG.

Assim como as cinco turmas anteriores, os jovens do Programa de Formação de Palhaço para Jovens continuam conosco em um terceiro ano de acompanhamento. Tão perto, tão longe.

Na última semana, seus familiares foram convidados para uma noite emocionante em nossa sede, celebrando a sua formatura. Os festejos começaram com uma divertida apresentação dos formadores da Escola, que acompanharam toda a trajetória dos alunos.

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Logo após, Wellington Nogueira, fundador da ONG, falou brevemente seguido de Heraldo Firmino e Daiane Barbieri, coordenadores do programa. Todos destacaram a importância de uma profissão como a do palhaço.

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“Hoje temos a alegria de colocar mais uma turma no caminho lindo que é a arte. Lindo e ao mesmo tempo muito sério, porque como diz o filósofo, quanto maior o conhecimento, maior a responsabilidade… Dividimos muitas coisas nestes dias em sala de aula e muitas vezes fora dela e somos hoje, e posso dizer com muito orgulho, colegas de trabalho! Unidos por um pensamento que nos faz seguir adiante! Hoje fechamos um ciclo e olhamos pra frente carregando tudo que foi conquistado até aqui”, iniciou Heraldo Firmino sob os olhares atentos e emocionados da plateia.

“Jovens palhaços, aprendemos muito com vocês, muito mesmo! Dividimos uma vasta beleza de olhares, compartilhamos paixões e mistérios imperfeitos. O palhaço é recheado de tudo o que se possa imaginar, sua lógica desafia a lógica vigente porque questiona o que todo mundo julga estar correto e aponta outro olhar. Quero agradecer aos pais, familiares e amigos por confiar seus filhos ao nosso convívio, por acreditar no sonho deles e, mesmo às vezes não concordando, respeitar, pois no fundo o que qualquer pai e mãe querem para seus filhos é que sejam felizes. Por que nossos filhos não podem querer uma coisa diferente pra sua vida? Podem e devem!”, finalizou.

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O aluno Guilherme Wander fez um belo discurso em nome da sexta turma. O texto foi escrito pela também formanda Fernanda Lopes. Ele relembrou momentos marcantes do curso, agradeceu aos formadores e mostrou ansiedade pelo que vem pela frente.

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Antes da entrega dos canudos, houve a exibição de alguns vídeos feitos pelos próprios alunos, além de um filme especial sobre a circulação do espetáculo “Enfim, sãos” produzido pela formadora Roberta Calza.

A noite terminou com os jovens artistas devidamente diplomados e prontos para encararem o mundo sob a lente do palhaço. Veja as melhores fotos da formatura.

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Viva! E que venha a nova turma!

Payazos en rede

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Em outubro, fui para uma imersão besteirológica de cinco dias em Buenos Aires. 

Junto com a artista formadora Roberta Calza, levamos a metodologia da Escola dos Doutores da Alegria para o grupo Alegria Intensiva, que atua em oito hospitais locais. 

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Além das oficinas artísticas, acompanhamos alguns palhaços e coordenadores do grupo em dois hospitais. Discutimos muito sobre a natureza do trabalho, os programas de formação que temos no Brasil (Formação de Jovens, Palhaços em Rede) e sobre a promulgação da lei que recentemente instituiu a presença obrigatória de palhaços atuando nas pediatrias da Argentina. 

Neste texto quero falar sobre esse último tópico.

A lei determina que hospitais públicos da província de Buenos Aires serão obrigados a ter artistas especializados na arte do palhaço para a reabilitação de pacientes. 

A questão é muito delicada, pois envolve um trabalho que de fato é pouco conhecido com profundidade pela sociedade. Somente após a promulgação da lei, dois grupos foram chamados para pensar o treinamento e a seleção de todos os artistas que atuarão em hospitais. 

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Estão previstos dez meses de formação para o início das atividades e os perfis de intervenção divergem. Assim como no Brasil, há grupos profissionais e grupos voluntários atuando com diferentes abordagens. O Alegria Intensiva seleciona palhaços profissionais com formação (3 a 15 anos de experiência) para seu elenco; o Payamédicos, por exemplo, é composto por voluntários que visitam pacientes internados sem formação artística e sem treinamento contínuo, recebem apenas uma orientação. Há muitas questões a serem discutidas e articuladas. 

Qual o perfil desse palhaço? Qual a sua função artístico-social? Ele faz a paródia do médico (autoridade) ou entra sem jaleco (homem comum)? Qual é o seu roteiro no hospital e que tipo de informação troca com a equipe de plantão? Há uma formação artística e uma orientação básica para a atuação no hospital? 

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O desejo do Alegria Intensiva é o de garantir essa formação para os interessados; sua preocupação é em como regulamentar essa atuação adequada e dentro do conformes previstos na lei. 

Para isso, querem iniciar diálogos com outros grupos que atuam na Argentina e discutir quais as necessidades desse trabalho por lá. Recomendei a eles que participem do Healthcare Clowning International Meeting 2016, um congresso com lideranças internacionais que discutirá, ano que vem em Lisboa, o trabalho do palhaço em hospital.

Um olhar para dentro e outro para fora! E o intercâmbio com Doutores da Alegria certamente foi um passo nesse sentido.

Um pouco sobre bufões

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Como parte do treinamento dos nossos artistas, em agosto rolou um intercâmbio entre as unidades de São Paulo e Recife. A artista Roberta Calza juntou-se aos palhaços pernambucanos pra falar sobre bufões.

Você, caro leitor, deve estar se perguntando do que se trata esse nome esquisito.

Explicamos: nas Artes Cênicas existe uma figura que explora tanto o campo sagrado quanto o campo profano na relação do homem com o universo ou com um grupo social. É o bufão.

O bufão aponta comportamentos grotescos na sociedade através de seu corpo deformado e do trabalho em bando. Tem características muito próprias da máscara que usa, que é também corporal. Ele traz à tona relações absurdas, violentas ou ainda poéticas. Dá um novo sentido ao que se entende como profano (ou que transgride regras consideradas sagradas).

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O elenco pernambucano dos Doutores da Alegria experimentou essa linguagem por uma semana, na criação de figuras e na organização do jogo, de maneira profunda. Foi um trabalho físico muito intenso, que ampliou os olhares sobre a bufonaria. Experimentou-se a criação dos bufões desde a mais pura abstração ao aspecto mais concreto das relações humanas.

O treinamento de diversas linguagens artísticas e o intercâmbio fazem parte da nossa estratégia para qualificar e abrir possibilidades no trabalho feito no hospital.

A artista Juliana de Almeida (doutora Baju) trouxe a citação abaixo, que traduz um pouco do sentimento vivido nesses dias:

 “Ao abraçar a sombra, descobrimos que estamos vivendo em um plano divino tão importante e tão vital para a evolução quanto para a evolução da humanidade. Assim como uma flor de lótus nasce na lama, precisamos honrar as partes mais sombrias de nós mesmos e as nossas experiências de vida mais dolorosas, pois são elas que nos permitem o nascimento do mais belo self. Precisamos do passado turbulento e enlameado, da sujeira da vida humana – da combinação de cada mágoa, ferimento, perda e desejo não realizado, misturada a cada alegria, sucesso e benção para nos dar sabedoria, perspectiva e nos conduzir a ingressar na mais magnífica expressão de nós mesmos. Essa é a dádiva da sombra.”
(trecho do livro “O Efeito Sombra”, Deepak Chopra, Debbie Ford & Marianne Williamson)

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Expectativas comuns

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“Foi sem dúvida um evento extraordinário em minha vida. Obrigado pela oportunidade e pela experiência.” 

Este é o final de um depoimento que chegou pra gente. Parece até de alguém hospitalizado, mas na verdade é do Marcio de Souza, aluno que participou de um curso dos Doutores da Alegria em Recife. O Marcio trabalha no Departamento de Polícia da Criança e do Adolescente da Polícia Civil de Pernambuco e nos tocou muito com suas palavras.

O curso era O palhaço pelo buraco da fechadura, que se propunha a investigar a lógica incomum e a liberdade com que o palhaço se relaciona com a vida. Pra quem  não sabe ainda, Doutores da Alegria ampliou suas atividades e trouxe o olhar e a experiência do hospital para a sala de aula. A ideia não é formar ninguém pra trabalhar com crianças hospitalizadas, e sim aprender sobre a nobre arte do palhaço, além de propor uma nova relação a partir do encontro com o outro.

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Eis o depoimento completo:

“Caros amigos,

Foi uma experiência ímpar vivenciar a construção do palhaço, ou a descoberta do que é ser palhaço. Sempre flertei com as artes em geral, seja como apreciador de obras literárias, cinematográficas, musicais; ou como pretenso criador de poemas, contos, crônicas e até um romance (não publicado).

Mas sempre como hobbies e, na verdade, acabei me afastando um pouco do processo de criação artística por conta de compromissos profissionais, familiares e ações “objetivas” do mundo “real”, que obscureceram um pouco esta minha relação com o imaginário. A vivência no curso representou para mim a possibilidade de um retorno a uma intimidade com o imaginário, da qual, como já disse antes, afastei-me. Abriu para mim possibilidades de mergulhar neste universo libertário da imaginação, da fantasia e da simplicidade do “pastelão” e do nonsense.

Minha realidade de atuação, no Departamento de Polícia da Criança e do Adolescente da Polícia Civil de Pernambuco, é bem parecida com o que se vê em alas hospitalares de Pediatria, pois lidamos também com crianças feridas e machucadas (não só concretamente, mas também subjetivamente), vítimas em geral de crimes de violência doméstica e abuso sexual intra familiar e que necessitam também de conforto e ações que as ajudem a superar tais ferimentos.

Desde já manifesto meu desejo de participar de novas oficinas que por ventura venham acontecer, que me permitam viver e deixar solto o palhaço que, talvez, sempre fui, mas que obscureci por motivos tantos…

Paz e sorrisos,

Marcio de Souza.” 

Em cursos como este, pessoas heterogêneas aparecem com expectativas comuns. Querem ampliar sua percepção, sair de sua zona de conforto, estar disponível para os encontros da vida. Marcio nos surpreendeu pelo olhar que revelou em relação às crianças. Puxa, obrigado! <3 <3 <3