As subidas e as descidas de cada dia

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A vida da gente segue como uma escada, penso eu. Às vezes sobe, outras desce, mas geralmente sobe e desce.

E foi numa dessas descidas à UTI, no 2ª andar, que conhecemos um garoto de cabelos compridos, parecidos com os do Alceu Valença. Ele quase não se mexia, com tanto equipamento ligado a seu corpo. Mas uma porta abriu, pelo olho vivo, na chegada da nossa voz falando baixinho no seu ouvido.

Barão de Lucena - Lana Pinho-59
E eis que uma escada surgiu no caminho e, para subir, tivemos que descer. 

Como tudo era desconhecido, fomos devagar para não assustar o menino e, aos poucos, descobrimos como eram boas as dificuldades encontradas em cada degrau. Resolvemos, entre tantas visitas, fazer uma música e, para nossa galgada rotina, ele nos surpreendeu quando dançou com os olhos, num mexido bailante onde todo seu corpo estava conectado, denunciando o desejo de se mover.

A alegria estampava nossos rostos e olhos, que também sorriam. 

Barão de Lucena -  Lana Pinho_-17

O acontecimento virou notícia no setor e era comum fazermos bailes com muita gente ao redor só para ver o menino dançar com a Íris, menina que dizem morar nos olhos. Um dia, depois de descermos alguns degraus, reencontramos ele numa outra cama, com menos equipamentos ligados ao seu corpo.

E para arrepiar os cílios dos olhos, ele ecoou um som com a língua, como se estourasse uma bolha de sabão no ar. A gente parecia criança quando ganha brinquedo novo. E se o garoto tivesse um botão, daríamos play infinitas vezes para ouvir o som de bolha que saía de sua boca. 

Naquele dia, subimos um dos degraus mais bonitos, porque a evolução de um paciente é como a chegada de um presente sem data marcada, uma alegria que não cabe numa caixa e nem precisa de embrulho. Daqueles presentes que todo mundo brinca junto e vai pra casa feliz. 

Barão de Lucena -  Lana Pinho_-29

Ele já é um dos vocalistas da “Banda Vuó” e o sucesso tem sido tão grande que agora a gente sobe mais degraus do que desce. E com um passo atrás do outro, podemos chegar à Lua. 

Dra Svenza e Dr. Lui,
conhecidos fora dos hospitais como Luciana Pontual e Luciano Pontes,
direto do Hospital da Restauração, em Recife.

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Dançando no escuro

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Muito bom começar o trabalho com o pé direito. Dentre tantos encontros especiais, pedimos licença para falar de M.

É uma paciente de uns 12 anos. Encontramos a menina sentada na cama com sua bengala; ela é deficiente visual. Chegamos perto e nos apresentamos como besteirologistas.

E então pedimos para que ela colocasse a mão em nosso cabelo, em nosso nariz e, de quebra, em nosso “popô”. Quando descobriu, vejam só, disse que ia lavar as mãos!

IMIP - Lana Pinho-19

- Você quer dançar?, perguntamos.
- Se minha mãe deixar…
- Deixa, mãe, deixa! Dançar não é coisa que se negue, que se proíba!
, dissemos formando uma torcida desorganizada. 

Sua mãe sorriu e permitiu que dançasse. Não demorou nada para que M. saltasse da cama e mexesse ao som do carimbó.

Braços pra cima, braços pra baixo
Só falta bater a mão, batendo também o pé ♪♫

Barão de Lucena - Lana Pinho-146

A menina simplesmente arrasou. Sua mãe tentava conter o vazamento que há pouco havia começado em seus olhos. Tão bom ter conhecido M.!

Quando fechar os olhos, vou lembrar da menina que, de olhos abertos no escuro, enxergava o arco-íris.  

Dra Svenza e Dr. Lui,
conhecidos fora dos hospitais como Luciana Pontual e Luciano Pontes,
direto do Hospital da Restauração, em Recife.

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Sentidos e sentimentos

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Comecei a ficar mais atento aos meus sentimentos. Observei que, numa mesma enfermaria, eu passava por vários afetos.

Restauração -  Lana Pinho_-53

Certa vez, dentro da UTI, eu e Dr. Dud Grud ficamos felizes ao ver as enfermeiras charmosas, com medo ao lembrar que eram casadas e tristes por continuarmos encalhados. Quando saímos da UTI, olhei para o leito que era de um paciente querido e daí bateu a saudade. Mas logo desejei que o ele estivesse bem. Só isso. Isso é amor.

Olha só quantos sentimentos vivenciamos em poucos minutos. Fui afetado e fui afetando! Isso é a gasolina do palhaço, o que faz o palhaço mover. 

Parece que os adultos acreditam que é perigoso sentir. A criança não tem medo de sentir. Fui tentar entender na prática e na teoria o que significam alguns sentimentos e outras palavras que o tempo todo batem aqui no meu coração.

Busquei entender algumas questões no livro PALAVRA DE CRIANÇA, de Patrícia Gebrim:

Fracasso 

É uma coisa que a gente sente quando só quer fazer coisas certas. Não é verdade que a gente fracassa. Às vezes a gente erra, mas aí é que a gente aprende a fazer uma coisa ainda melhor.

Saudade 

É quando a gente sente uma pessoa dentro da gente; aí lembra que gosta dessa pessoa e fica querendo dizer isso pra ela, mas às vezes ela está longe e a gente só pode dizer em pensamento, mas a gente diz, e ela escuta mesmo assim.

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Medo 

É um bicho peludo de cara feia que faz a gente querer fechar os olhos e se esconder, mas quando a gente arrisca e conversa com ele, a gente descobre que a cara dele não é tão feia assim. Converse com seu medo. 

Cura 

É quando a gente pega a doença no colo e pergunta o que ela tem. A gente deixa ela falar e presta muita atenção, e quando ela termina, já não tem mais nada pra curar.

Restauração - Lana Pinho-166

Vergonha 

É quando a gente não aceita a gente mesmo e acha que ninguém mais vai aceitar. Se a gente pudesse ser mais carinhoso com a gente mesmo, ia respeitar mais as escolhas que fez, e não ia ter vergonha de ser quem a gente é.

Restauração - Lana Pinho-44

Doença 

É uma sirene bem barulhenta que a gente tem dentro da gente. Toda vez que nosso coração fica apertado ele grita bem alto, mas ás vezes a gente está distraído e nem ouve, aí ele toca a sirene pra gente saber que ele está precisando de nós.

Vida 

É que nem um presente embrulhado em um papel colorido. Tem gente que guarda o presente pra abrir depois, mas isso é muito sem graça. Legal mesmo é fazer aquela festa, rasgar o papel e abrir o presente… no presente.

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Morte

É quando a lagarta já aprendeu tudo sobre a vida das lagartas, aí ela se fecha numa casinha apertada chamada casulo, nascem asinhas nas suas costas e ela vira uma borboleta bem bonita e sai voando por aí, aprendendo um monte de coisas diferentes. Se entrega com confiança às transformações.

Bom humor

É quando a gente descobre que a vida é uma grande brincadeira. Aí a gente sabe que as coisas que acontecem são de mentirinha, que nem nos filmes, então a gente começa a brincar de viver e tudo fica muito mais divertido. Ser menos sério.

Curador 

É uma pessoa que sabe que não pode curar ninguém. Ela sabe que cada um é seu próprio curador e ajuda você a descobrir isso. O curador é uma pessoa que tem muito amor.

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Dr. Marmelo (Marcelo Oliveira)
Hospital da Restauração – Recife

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Um tapa no visual

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- E você entende o que estamos fazendo aqui? Todas as segundas e quartas, faça sol ou faça chuva, feriado ou aniversário, estamos aqui. Cuidamos de besteira, tolice, pum frouxo, pulga atrás da orelha, grilo na cuca, caspa no joelho, chulé encravado, dentre outras mil duzentas e oitenta e três especialidades.

A menina já tinha entendido tudo. Com 12 anos, cabelos ondulados que batiam na metade das costas, sua pele cor de chocolate com muito leite e um sorriso que abria buraquinhos na bochecha, nos acompanhou durante meses. Seguia-nos em quase todas as enfermarias e chegou até a sugerir tipos de procedimentos besteirológicos. 

Tudo pra ela era como se estivesse acontecendo pela primeira vez. A gente não podia mudar um botão da roupa que ela percebia.

Restauração -  Lana Pinho_-55

Em um dia desses, andando pelo corredor, percebemos que ela não estava. Encontramos com sua mãe, um pouco chorosa. Disse que a filha tinha ido fazer uma cirurgia. Não estava muito bem fisicamente. Sabíamos que era uma neurocirurgia, e que não era a primeira.

 – Ela está um pouco sonolenta e debilitada. Não está no andar, está no bloco cirúrgico, contou a mãe. Quando estava a caminho, ela lembrou que era dia da visita dos palhaços. Lá do corredor do bloco cirúrgico, ela ouviu a canção que vocês cantarolavam, e balbuciou “olha eles, mãe, estou ouvindo!”.

Dias depois encontramos com a garota, que voltou com um corte de cabelo radical: metade raspado e metade grande.

O Dr. Dud Grud disse que vai pensar seriamente em aderir à nova tendência da primavera/verão e quer “dar um tapa” no visual. Dr. Marmelo está até agora correndo atrás dele de mão aberta!

Dr. Dud Grud (Eduardo Filho) e Dr. Marmelo (Marcelo Oliveira)
Hospital da Restauração – Recife

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O mistério da calçola perdida

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Uma calçola no hospital! De quem será tamanho infortúnio? Deixaram a peça de roupa íntima jogada no balcão da UTI. A notícia nadou feito vento e circulou mais que liquidificador.

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Decidimos provar em todas as pessoas que passavam. Na Dra Ana Helena ficou muito folgada. No Dr. Joselito parecia um maiô. A Dra Clarice nem provou, disse que desconhecia a origem e o sotaque dessa peça de roupa.

Provamos a calçola em todas as crianças. No bebê dormindo parecia um cobertor de lã. Não achamos o dono. Pensamos em levar pra casa e transformá-la em toalha de mesa, em uma cortina, ou até mesmo um paraquedas. 

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Mas depois lembramos que faltava uma pessoa provar: DONA MARIA! 

A raiz do seu cabelo era branca, tinha 65 anos, um metro e meio de altura, negra e sempre estava a organizar uma mochila. Enquanto o seu neto, de aproximadamente quatro anos, soltava tímidos sorrisos de canto de boca com a nossa presença, ela gargalhava que espantava os pombos que pousavam na janela. Parados na porta, dissemos:

- Aqui está a calçola. A senhora é a única que não provou.

O neto esperava a reação da avó. Dona Maria foi logo dizendo:
- Não, não vou provar!
- Vai, vó!, disse o neto.

Vendo toda aquela súplica, Dona Maria vestiu a calçola. TAM TAM TAM TAAAAAAAAAAAAAAAAM!! Analisamos, olhamos, tiramos foto dela vestida de frente e verso e fizemos até selfie, é claro. Dr. Marmelo fez um pronunciamento:

– HUM!!! Bem, como o presente, devemos analisar, em decorrência dos relatos dos achados e perdidos, das circunstâncias dadas, do curto-circuito interno de TV e, em detrimento dos fatos estabelecidos com o ocorrente caso que se avariou sobre os latifúndios, as trocas de plantões subversivas e o capitalismo selvagem… A CALÇOLA É DA DONA MARIA!

Ouviu-se um levante geral: ÔÔÔÔÔÔEEEEEEEEEEEE!!! 

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Dona Maria desfilou pela enfermaria com a calçola como se fosse um vestido de noiva! E depois de tudo, já na salinha depois do trabalho, concatenando com os nossos botões, víamos claramente uma criança que se mostrava um adulto sério e Dona Maria uma criança sorridente, disponível para o encontro e a brincadeira.

É normal uma criança confiar no adulto. O adulto tem mais experiência, é seu espelho. Mas bom mesmo é o adulto confiar na criança também e se permitir momentos lúdicos e de transformação. Então, se a criança pede… 

Dr. Dud Grud e Dr. Marmelo (Eduardo Filho e Marcelo Oliveira)
Hospital da Restauração – Recife

Amor líquido

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A morte nos ensina a amar. Quem vai tem que ir e quem fica tem que deixar ir.

Muitas pessoas perguntam como é conviver com a morte de crianças na nossa rotina de trabalho. É uma resposta bem pessoal, cada besteirologista vê de uma forma. O que é comum entre a gente é a ressignificação que damos à morte: a criança vira flor, borboleta, estrela, ar, fogo, água, terra, pássaro… 

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C. tem 10 anos, seus olhos engolem tudo o que vê. Também, quanta novidade! Tinha acabado de chegar à UTI e seu pai esperava do lado de fora.

- Tem algum recado para ela?, perguntamos. Ele deu uma lágrima, amor líquido.

Contamos para ela todas as fofocas do hospital, até a paquera do Dr. Dud Grud com o porta soro… A prosa na beira do leito rolava solta. Ela morava na mesma cidade em que passei toda minha infância e estudava no mesmo colégio que estudei quando criança! Puxa, trocamos várias figurinhas!

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Disse pra ela que adorava a hora do recreio, tinha cheiro de coxinha frita no ar. Disse que mudaria a cor da batina do padre e que colocaria mais água dentro da piscina do pátio. C. nos engolia com seus olhos… 

Certa manhã, encontramos com sua mãe e seu pai em frente à UTI.

Restauração -  Lana Pinho_-47

 

Não tinha muita gente transitando no local e estavam os dois em silêncio. Na metade do corredor eles nos perceberam. A mãe olhou pra gente e começou a chorar. Na mesma hora tiramos uma flor, de plástico mesmo, do jaleco e entregamos a ela. Falamos que ela poderia regar a flor com sua lágrima. 

Nesse mesmo dia, fomos até o leito de C., que estava dormindo. Embalamos seu sono com uma canção. Durante o final de semana, recebemos a notícia da sua morte. A vida deu oportunidade a quem rodeia C. de aprender a amar. Aprender a deixar ir, soltar.

Dr. Marmelo (Marcelo Oliveira)
Hospital da Restauração – Recife

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Tempo de retornar

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A gente visitava Emily toda semana, às segundas e quartas, desde que ela tinha dois anos. 

Ano passado, aos cinco anos, muita coisa mudou na vida dela. Ela esticou, começou a falar, seus dentes de leite tomaram toda a boca, mudou de leito e ganhou um carrão com motorista particular – uma cadeira de rodas pra se locomover pelo Hospital da Restauração, em Recife, onde ela morava. 

Emily não gostava que ninguém chorasse perto dela, e logo saía da sua boca o comando:
- Engole o choro! – por sinal, nunca vimos uma lágrima sua. 

Apesar de ter nascido com uma doença que impede grande parte dos movimentos, Emily brilhou como a balizinha do Bloco do Miolinho Mole neste ano.

Doutores HR  - Lana Pinho-19

No final de março, a gente se despediu.

Através de uma cartinha daquela campanha dos Correios, Emily conseguiu os aparelhos de que precisava para poder ir para casa; e a sua cidade, Brejo da Madre de Deus, em Pernambuco, foi só festa para receber a pequena. O vídeo abaixo mostra um pouco dessa história:

Emily, sentiremos sua falta às segundas e quartas, mas estamos certos de que encontrará alegria em sua casa, junto à família! Saúde e muita bobisse!

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Ouvidos atentos

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Conhecemos o J. na UTI. Percebemos logo de cara que era um caso gravidíssimo, uma mistura de grave e seríssimo.

Passaram-se semanas e nos encontramos há alguns dias numa das enfermarias. Chegamos bem perto dele e perguntei:
- Sabe quem está falando? 

Ele, que não está enxergando, disse com uma articulação impecável e quase inaudível:
- D- o- u- t- o- r-E-u!  

ouvidos atentos - dr eu

Para em seguida articular:
- C-a-d-e-o-D-o-u-t-o-r-M-a-r-m-e-l-o-? no mesmo tom entrecortado pela traqueostomia. 

Marmelo, meu parceiro de plantões besteirológicos, estava sendo substituído pela Dra. Tan Tan, outra tonta.

Passadas duas semanas, sua mãe veio nos contar uma história.

Quem nunca viu a TV ligada sem ninguém prestar atenção nunca entrou numa enfermaria do Hospital da Restauração. Pois foi justamente num momento de vuco-vuco que uma única pessoa de ouvidos atentos conseguiu identificar – e ele ouviu uma única vez – a voz da Dra. Tan Tan numa entrevista na televisão.

ouvidos atentos - dra tan tan

Foi o J. Ele chamou a atenção de sua mãe, que avisou a todo mundo e, graças aos seus apurados ouvidos, todos na enfermaria puderam assistir à tonta na TV. 

Dr. Eu_zébio (Fábio Caio)
Hospital da Restauração – Recife

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Um dia a cada dia

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A enfermaria está lotada de criança. Umas têm faixa na cabeça, outras estão amarradas no fio do soro. Tem criança com gesso no braço e tem criança dormindo no colo da mãe.

um dia a cada dia (4)

Tem pequenino que está careca, com dor de barriga, e aquela que caiu da árvore. Tem criança que fala palavras carinhosas e tem aquelas que xingam. E agora, com essa moda de celular, tem criança que nem olha no nosso olho.

Encontramos com R., de aproximadamente 12 anos. Ele é esticado, toma quase toda a cama. Logo no primeiro encontro, mandou a gente calar a boca.

1º encontro

O menino disse que estava querendo silêncio e que não era pra gente tocar violão. Foi uma confusão. 

um dia a cada dia (1)

– R., a gente promete que nunca vai tocar uma música na sua presença. Mas a gente quer mostrar uma música que a gente fez pra você. Podemos?
– Não!, respondeu o garoto, não quero vocês tocando nenhuma música. Vão embora e não cheguem perto de mim.
– Mas é uma música tão bonita. Fala de flor. Mas, como você não quer ouvir, a gente promete que nunca vai cantar essa música pra você.

Aí, cantávamos a música.

– Porque a gente tem noção das coisas e não vai tocar. Mas, se a gente não tivesse bom senso, com certeza tocaria essa música.

Então, tocávamos novamente. E saímos da enfermaria tocando a música só pra mostrar pra ele que nunca a gente vai tocar aquela música ali.

– Ei, mas vocês estão tocando!gritou o menino. 

2º encontro

Percebemos que seu travesseiro tinha uma estampa florida.

– Nossa, R.! Quantas flores na sua cama. Podemos levar uma pra gente?
– Não.
– Mas, olha pra essa flor, está caindo. Olha! Peguei... A flor é sua. Cuida dela! É só colocar meia gota de água três vezes ao dia. 

O menino segurou a flor e a jogou no chão. 

3º encontro

Quando o R. nos avistou de longe cobriu o rosto com o cobertor. Paramos ao seu lado e vimos que a flor estava ao lado da cama. Sua mãe tinha apanhado do chão e guardado.

um dia a cada dia (3)

– R., por que você virou todo o seu corpo pra gente? 

Ele devia estar aprontando alguma coisa. Sem esperarmos ele solta um pum muito forte!

– NOSSA! SOCORRO!e saímos correndo da enfermaria. O garoto só ria!

4º encontro

Ele dormia. Deixamos um recadinho:

Querido R.,
Passamos aqui hoje e vimos que você estava dormindo.
O seu pum foi quase como uma bomba nuclear. Mas sobrevivemos.
 

um dia a cada dia (2)

5º encontro

Um belo dia, atendendo na UTI, vimos que um dos leitos estava sendo por um garoto grande, que tomava quase todo o espaço. Quando chegamos perto vimos que era o R.

Tinha feito uma cirurgia. Estava dormindo.

– Oi, R.! Aqui é Dr. Marmelo e Dr. Euzébio - e cantarolamos uma música pra ele. Quando acordou, olhou bem fixo pra gente.
– Cadê minha mãe? Eu quero minha mãe - disse com sua voz calma e baixa.
– Sua mãe está ali fora. Ela vai entrar já, já. 

6º encontro

Em um dos plantões besteirológicos, andando pela enfermaria, vimos que o garoto tinha saído da UTI. Estava deitado na cama, com sua mãe ao lado.

O garoto sorriu quando acenamos e nos cumprimentou. Ficamos em silêncio. Esperávamos uma bronca!

A mãe dele sorria. Ela sempre se divertia vendo a gente correndo com medo do R. Talvez já estivesse esperando a saída maluca dos besteirologistas pela porta da enfermaria, mas dessa vez foi diferente.

Diferente dos dias que se passaram. Assim como é na vida. Todo dia um dia. Nos olhamos. O menino olhou pra o Dr. Euzébio:
– O senhor trocou de roupa. Cadê sua camisa amarela?

… 

Dr. Eu_zébio (Fábio Caio) e Dr. Marmelo (Marcelo Oliveira)
Hospital da Restauração – Recife

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Lições de meninas

Tempo de leitura: 1 minuto(s)

- O DOUTOR EU É CARECA!!

O menino gritou, sem cerimônias, num tom bem alto pra todo mundo ouvir.

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Instantes depois, uma paciente puxou o Dr. Marmelo num canto pra ninguém perceber e perguntou-lhe discretamente:
- O Dr. Eu tem câncer? Não, por quê? Ele é tão carequinho! 

O mundo é assim, cheio de diferenças.

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Não estamos aqui pra explicar ou defender esse ou aquele jeito, mas não deixamos de perceber que aquele foi um dia repleto de delicadezas. Sem nenhum juízo de valor, mergulhamos neste mundo delicado, sensitivo, cheio da meiguice das meninas. 

Com outra paciente foi assim, mal chegamos à porta da enfermaria e ela abriu os braços, nos dando abraços de aquecer o coração. 

A V. foi um encontro pra lá de especial. Recebemos um recado para não entrar na enfermaria 404, pois lá havia uma menina que tinha muito medo de palhaço. Um medo que se antecipava, que punha pra fora da enfermaria as crianças que queriam ver os besteirologistas.

- Aqui eles não podem entrar.

Dizer aos palhaços “não faça isso” nem sempre dá certo. Entramos bem de mansinho só pra dizer que entendemos o recado e que naquela enfermaria não iríamos entrar.

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Passamos só pra dar tchau, mas o tonto do Dr. Eu não sabia como fazer. Dr. Marmelo pediu encarecidamente a ajuda da V. pra ensinar aquele paspalho. Acena daqui, acena de lá, a menina foi se soltando a ponto de recebermos outro recado em seguida.

O medo havia sumido. 

Dr. Eu_zébio (Fábio Caio) e Dr. Marmelo (Marcelo Oliveira)
Hospital da Restauração – Recife

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