O luto e o que vem antes

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No final do ano passado, alguns artistas do Doutores da Alegria foram convidados para um grupo de luto de um hospital onde atuamos.

Grupos de luto são espaços de acolhimento para pessoas que perderam entes queridos. São reuniões, muitas vezes conduzidas por voluntários com uma equipe multidisciplinar do hospital, em que se fala sobre morte, sobre luto, sobre saudade, sobre tristeza.

E também sobre vida. Sobre lembranças. Sobre recomeços.

Naquela ocasião, os parentes relataram lembranças que têm de seus filhos com os palhaços, o que nos emocionou muito. “Lembramos de todas as crianças com os relatos e víamos naqueles rostos não pessoas que perderam, que passaram por uma tragédia, mas as pessoas mais fortes que já conhecemos, pessoas que provaram a vida até as últimas consequências e sobreviveram! E que se ajudam mutuamente, com muito carinho!”, conta David Tayiu, um dos artistas-palhaços.

Fotografia dos Doutores da Alegria no Hospital do Campo Limpo/SP.

Falar sobre a morte pode ser difícil para muita gente. Em um artigo desta semana no jornal inglês The Guardian, o terapeuta Johannes Klabbers traz um sensível relato sobre consolar uma pessoa que está próxima da morte. Reproduzimos um trecho:

“Embora eu conheça médicos excepcionais e enfermeiras que podem e falam com os pacientes sobre a sua morte iminente, é algo que muitos não se sentem qualificados para fazer. Aprendi que consolar uma pessoa gravemente doente é algo que quase qualquer um pode fazer, qualquer que seja sua fé – ou falta dela. Você não precisa de uma qualificação especial, ou de um crachá, ou permissão de uma figura de autoridade, sobrenatural ou não, apenas sua humanidade e determinação.

Muitas vezes a nossa ansiedade sobre dizer ou fazer a “coisa errada” nos leva a decidir não visitar alguém. Oferecer estar lá para alguém, mesmo que eles recusem – e eles podem – nunca está errado. Estar lá significa dar a sua atenção à pessoa, não à sua doença, e concentrar-se em ouvir, não em se preocupar com o que dizer.

Você precisará aceitar que a pessoa pode não querer discutir sua tristeza e medos – pelo menos no início. Eles podem querer falar sobre futebol ou o mais recente episódio de uma série. Ou eles podem apenas precisar de alguém para sentar com eles em silêncio. Você pode se sentir desconfortável ou angustiado, mas seu trabalho é aceitar o seu desconforto e pensar além dele. Você pode mostrar tristeza, mas não sobrecarregá-los com sua dor.”

Aqui no Brasil, um grupo de mulheres que viveram o luto se uniu em 2014 para criar, com a ajuda de financiamento coletivo, a plataforma Vamos falar sobre o luto?. O projeto é um convite para quebrar o tabu, com relatos diversos – um canal de inspiração e de informação para quem vive o luto e também para quem deseja ajudar.

Iniciativas como essas abrem caminho para uma reflexão mais consciente sobre a morte.

E trazem um espaço acolhedor, seja ele real ou virtual, para que pessoas se conectem em busca de um recomeço para suas vidas.

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Entre a ciência e o coração

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Em um artigo da Revista Brasileiros, o médico patologista Paulo Saldiva traçou um histórico de como a figura do médico foi retratada pelo olhar das artes visuais e do cinema.

Rockwell ou Kildare representavam médicos humanos, desprovidos de ambição, com total comprometimento aos seus pacientes. Segui com o Dr. Frankenstein, de James Whale, que em 1931 retratou o temor do poder da medicina (coincidindo com as primeiras cirurgias torácicas e cardíacas), onde o médico era punido pela sua própria criatura, ao tentar ousar interferir com a vida e a morte.

Nos anos 1970 e 1980, os médicos descem mais um degrau. Ou fazem parte de corporações inescrupulosas que, ao lançar substâncias tóxicas no esgoto, fazem surgir um jacaré gigante a aterrorizar Nova Iorque (imprudência) ou médicos cínicos, como os que Roger Altman descreveu em Mash, incapazes de se compadecer dos pacientes mesmo em meio a uma guerra pavorosa. Terminei finalmente com o Dr. House, exemplo de médico tecnicamente brilhante, mas incapaz de enxergar o doente que sofre e sim valoriza apenas a doença.” (trecho do artigo)

Pois bem: o médico também foi a nossa inspiração quando iniciamos a atuação nos hospitais, em 1991. Os palhaços faziam uma paródia, vestindo-se com um jaleco cheio de cacarecos e distribuindo exames fictícios pelas alas infantis, sempre sob um pseudônimo engraçado – Dr. Zinho, Dr. Ado, Dra Juca Pinduca… Até uma especialidade foi criada: a Besteirologia.

+ saiba mais sobre a paródia do palhaço

“Entre os profissionais hospitalares, o médico é visto como personagem revestido de muito poder, crítica e racionalidade. Seu poder – consolidado ao longo da história e de difícil revisão – emana justamente das decisões cruciais que toma. O palhaço, por sua vez, é visto como alguém que desafia as evidências dos fatos, a ordem médica instituída e instiga a repensar atitudes”, conta a psicóloga Morgana Masetti no livro “Boas Misturas, A Ética da Alegria no Contexto Hospitalar”.

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É fato que a atuação dos palhaços ganhou outros contornos no hospital, indo além da paródia e se moldando à realidade do novo século.

Nas escolas de Medicina, onde Doutores da Alegria também atua formando estudantes para uma nova atitude, é comum o questionamento apresentado pelo próprio Saldiva: os médicos, ao ganharem em ciência, perdem em coração? E também é evidente a busca por uma combinação entre ambos, ou seja, a formação de médicos altamente capacitados e sensíveis à condição humana.

Hoje, 25 anos depois da primeira intervenção de um besteirologista, nos perguntamos se a paródia ainda é válida e que outras ordens instaladas o palhaço pode subverter nos hospitais.

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Porque hospital também é lugar de arte

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A aproximação entre o universo hospitalar e o campo artístico caminha a passos largos. Parte da ideia de que o corpo humano busca saúde absorvendo diversos estímulos sensoriais.

O palhaço, com sua linguagem própria, é nossa primeira referência. Há 25 anos sabemos que sua atuação reflete na saúde das crianças e na qualidade das relações dentro do hospital.

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Mas também já falamos aqui sobre o Chelsea and Westminster Hospital (o hospital museu, com diversas obras de arte) e sobre a organização Vital Arts, que reúne artistas para pintarem hospitais.

Listamos abaixo algumas outras experiências que aconteceram recentemente e ilustram essa aproximação:

Novos ares

O Instituto da Criança, em São Paulo, recebeu mais de cem reproduções de obras do artista plástico Gustavo Rosa. A ala de diálise do hospital ficou repleta de quadros, em tamanhos grandes, que enchem o olhar de crianças, acompanhantes e profissionais de saúde.

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Todos os dias as crianças comentam algo novo que descobriram nas paredes do hospital! Agora temos um andar colorido e divertido, de onde não param de sair piadas e brincadeiras. E nem preciso dizer que adoramos isso!”, conta Juliana Gontijo, atriz do Doutores da Alegria.

Dou-lhe três…

O Hospital do Mandaqui, em São Paulo, recebeu um leilão de quadros de Mateus Alves, paciente da UTI. Ele pintou, com a boca, os palhaços do Doutores da Alegria. Ele vem aprimorando sua técnica com aulas de pintura oferecidas voluntariamente pelo professor Paulo Ferrari.

Nem só bebês nascem nos hospitais

No Rio de Janeiro, espetáculos nascem nos hospitais. E só depois vão para os palcos – com os artistas e companhias que atuam no projeto Plateias Hospitalares.

Um belo exemplo é “GameShow”, criado pelo grupo Conexão do Bem especialmente para o Hospital Santa Maria, onde pessoas que tratam de tuberculose ficam afastadas em alas de um prédio alto. O espetáculo tem a estrutura de um programa de auditório, no qual a plateia é convidada a participar ativamente, e o desenrolar das cenas e seus desfechos dependem da participação dos pacientes.

Veja outros espetáculos que nasceram nos hospitais.

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Ala cultural

As alas do antigo hospital Vila Anglo Brasileira (1955-90), em São Paulo, deram vida a um espaço cultural. Comprado e reformado recentemente, o local virou sala de ensaio, de criação e palco para apresentações diversas.

“A reforma, porém, não escondeu o histórico do prédio. Os cômodos, alguns com parte dos tijolos aparentes, guardam a cara do antigo hospital, com luzes da sala de cirurgia e alguns objetos antigos (como jarras de medicamentos) expostos”, traz a reportagem do jornal Folha de S.Paulo.

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Sem títulofonte: Folha de S.Paulo 

Que outras aproximações entre arte e saúde seriam possíveis? Seguimos descobrindo.

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Precisamos falar sobre isso

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Há algum tempo escrevemos sobre a ideia de que é preciso parar de dizer a pacientes com câncer o que eles deveriam estar fazendo para se curar.

A inspiração veio do artigo do jornalista Steven Thrasher para o jornal britânico The Guardian. A partir de experiências pessoais, Steven acredita que ao recomendar o que uma pessoa doente deve fazer, “você está dizendo: eu não deixaria isso acontecer comigo do jeito que você está deixando acontecer com você – uma maneira sorrateira e prejudicial de lidar com seu próprio medo da morte”.

+ Leia aqui a matéria Quando não há nada a fazer

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Recentemente o Instituto Oncoguia vem fazendo uma campanha sobre o que os pacientes gostariam de ouvir de familiares e amigos. E, claro, o que também prefeririam não ouvir.

Colhemos algumas respostas:

Quando a água chega no pescoço é que a gente aprende a nadar. Cabelo é o de menos; cabelo cresce, fulana morreu de câncer… Nada disso precisamos ouvir. Se fosse tão insignificante teríamos muitas carecas voluntárias por aí. Uma das alegrias do fim tratamento é quando o cabelo começa a crescer.
por @f_bolzan

Eu estou em tratamento, mas me sinto bem. Vou a festas de família e amigos mas sinto os olhares de pena das pessoas e isso me incomoda muito. Parece que só porque estou com câncer eu não tenho o direito de sorrir, me divertir.
por @rose_boaroli 

Acho que uma das coisas que mais me irritam é quando dizem é só cabelo, ele cresce. Dá vontade de dizer “raspa o seu, então”. É óbvio que cresce, mas nem todo mundo sente da mesma forma, as pessoas deveriam aprender a respeitar o sentimento do outro.
por @parmanhe 

Fico muito triste quando ouço a palavra “câncer” para substituir um grande problema. Por exemplo: falando sobre corrupção, a pessoa diz “isso é um câncer, não tem cura…” RESPEITO, por favor.
por @ariadnarrd 

Depois do tratamento e você sobreviveu, as pessoas acham que você pode ser sobrecarregada com os problemas do mundo, afinal suportou um câncer. Por favor, não coloquem mais cargas nas nossas costas. Superar o trauma às vezes é tão difícil quanto o tratamento em si.
por @ clesiaspl 

E ouvir “Nossa, tá com câncer? Isso é castigo” Não somos premiados e nem castigados com doença alguma, somos seres humanos e todos estamos sujeitos a adoecer.
por @alinedantas940 

(fonte: perfil do Instituto Oncoguia no Instagram / https://www.instagram.com/oncoguia)

Os depoimentos de quem já tratou ou trata o câncer trazem a importância da escuta – não só dos amigos e familiares, mas também de profissionais de saúde e pessoas que desejam se voluntariar em hospitais. É preciso estar atento ao outro e, principalmente, livrar a mente de pré-conceitos sobre a doença.

Com a campanha, o Instituto colhe os depoimentos e cria cartões semanais com as frases, disponibilizando informações qualificadas e incentivando um novo olhar sobre a doença. Muuuuuito bacana!

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Uma área mágica dentro do hospital

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Há nos hospitais um espaço situado entre a fantasia e a realidade, onde tudo pode acontecer. Fica para além dos corredores, longe das portas, um tanto escondido. Corre o boato, nas bocas pequenas, de que só as crianças e os palhaços sabem onde fica…

Estamos falando da “área mágica segura”. Parece fantasia ou brincadeira de besteirologista, mas é um conceito sério, criado pela professora e pesquisadora sueca Lotta Linge (foto), já aplicado em muitas pesquisas mundo afora sobre a intervenção de palhaços em hospitais.

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A área mágica segura é um lugar simbólico estabelecido durante o encontro entre palhaços e crianças. Assim que o artista, munido de técnica, entra em um quarto e tem a permissão da criança para continuar, abre-se uma brecha na relação tempo-espaço e as fronteiras entre o que está doente e o que está saudável se dissolvem, tornando possível o impossível.

É sabido que o tratamento hospitalar afasta a criança de seus principais contextos de vida, como a família, a escola, os amigos; e sua nova rotina pode trazer a percepção de ameaça perante o desconhecido. Essa realidade se impõe de forma dura. Em alguns casos, pode representar obstáculos ao tratamento e até mesmo experiências traumáticas.

Segundo Linge, as possibilidades inesperadas dentro da área mágica segura ajudam as crianças a se distanciar dos problemas, principalmente pela alternância entre diferentes estados emocionais. Quando elas podem brincar e testam suas alternativas, em um lugar onde tudo pode acontecer, em vez de sentir as suas limitações, elas têm a oportunidade de confiar nas possibilidades de seu corpo, o que aumenta a autoconfiança.

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É próprio da linguagem clown inverter os papeis de uma relação de autoridade. A criança dá o tom da relação, é sábia e experiente, e os palhaços são ignorantes e desajeitados, na necessidade de orientação e ajuda. Para Linge, a sensação de ser capaz de assumir o controle sobre o incompreensível dá um efeito duradouro de bem-estar que pode extrapolar dias e circunstâncias difíceis no hospital.

“Uma menina descreveu claramente a área mágica; ela sentiu os palhaços construindo um mundo junto com as crianças, um mundo que não era o real, mas um lugar em que as crianças eram vistas e reconhecidas, em uma atmosfera de alegria. Esta adolescente não se verá como doente, mas como uma pessoa que simplesmente estaria buscando sua forma mais saudável”, conta a pesquisadora.

Mesmo que a realidade da internação não possa ser afastada, ela certamente pode ser enfrentada e superada. Melhor ainda se for em um espaço em que a criança se sinta segura e autoconfiante.

Os palhaços do Doutores da Alegria estão toda semana nos hospitais, se empenhando para que as áreas mágicas criadas com as crianças estejam sempre em movimento. E, por que não, possíveis de serem acessadas aqui e acolá por profissionais de saúde?

(fonte: Magical attachment: Children in magical relations with hospital clowns)

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Memórias de um hospital português

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Durante a Conferência de Palhaços em Portugal, já falada por aqui, eu tive a oportunidade, junto ao artista Marcelo Marcon, de esticar um pouco mais a estadia e fazer um intercâmbio com integrantes do grupo local Operação Nariz Vermelho.

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João Paulo Reis e Joel Oliveira nos receberam na entrada do Instituto Português de Oncologia, em Lisboa.

De lá seguimos para a sala de apoio e conversamos sobre o evento recém-terminado. Enquanto eles se preparavam, relembramos as particularidades entre os grupos pelo mundo e a enorme diversidade de tipos de palhaços que atuam em hospitais.

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Acompanhamos Dr. Bambu e Dr. Fusilli nas alas pediatriátricas. Foi importante observar, pois esse olhar de fora nos ajuda a compreender e entender o jogo da dupla de palhaços, assim como a relação estabelecida por eles e seu grupo dentro do hospital. Esse formato de observar antes de atuar junto faz parte da metodologia da Escola dos Doutores da Alegria. 

A manhã acabou e durante o almoço conversarmos sobre o que vimos: a atuação, o repertório da dupla, a relação com os profissionais de saúde e pacientes. Notamos muita familiaridade com o nosso jeito de atuar! Até porque a fundadora do Operação Nariz Vermelho, Beatriz Quintella, era brasileira e fez várias visitas ao Doutores da Alegria durante a consolidação do grupo. 

Após o almoço, eu já era Dr. Lambada e Marcelo era Dr. Mingal. 

Formaram-se as duplas luso-brasileiras. Mingal e Bambu foram atender os pacientes que aguardavam numa sala de espera com vários consultórios médicos e depois passaram pela brinquedoteca, enquanto Lambada e Fusilli passaram visita na ala de quimioterapia. 

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De cara, Dr. Lambada foi cantar para um garoto internado a música sobre um sapo e uma perereca nadando na beira do rio, e aprendeu que “cueca”, em Portugal, é uma peça íntima do vestuário feminino, e não masculino… Muitas risadas da irmã do paciente com essa gafe… 

Na sequência, Dr. Mingal resolveu dar uma pirueta no estacionamento do hospital e enroscou sua calça numa haste de metal, rasgando os fundilhos de sua calça e deixando sua “cueca” à mostra. Fomos ao balcão da Enfermagem pedir linha para suturar o rasgo e ouvimos mais gargalhadas da equipe médica! 

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Na sequência, todos juntos, seguimos pelos corredores fazendo um cortejo musical até o ambulatório adulto, onde tocamos La cucaracha em um portunhol escalafobético! Nessa caminhada, descobrimos que Dr. Fusilli era o chefe, mas que quem mandava eram os outros três palhaços…

Essa história rendeu boas risadas, o coitadinho do Fusilli quase se esgarçou ao se dividir em três para conter a confusão que se estabeleceu com os três patetas, quer dizer, obstetras… Enfim… Aqueles besteirologistas incansáveis em parir bestices! 

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Foi uma grande farra! Ficamos quase uma hora além do expediente, nem vimos o tempo passar… Mas como escreveu o dramaturgo Samuel Beckett ao esperar Godot, como o tempo passa quando a gente se diverte… 

Voltamos para o Brasil, e quem viu… Viu! Quem não viu… Não riu! 

 

- texto escrito em parceria com Marcelo Marcon -

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O que aprendemos na Conferência de Portugal?

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Participar do Healthcare Clowning International Meeting foi muito significativo. Voltamos com nossa bagagem mais pesada, pois ela trouxe aprendizados e muitas histórias.

Mais de 300 pessoas de organizações que atuam com palhaços em hospitais trocaram conhecimento durante três dias de evento, organizado pela Operação Nariz Vermelho em Portugal. Na programação, grandes debates, oficinas, estudos de casos e pesquisas e apresentações artísticas.

Healthcare Clowning International Meeting

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Partimos do Brasil com uma comissão composta por artistas e parte do corpo diretivo da associação. E voltamos convictos de que Doutores da Alegria é uma organização forte e referenciada mundialmente, com uma enorme responsabilidade em função disso.

“Doutores da Alegria nasceu como associação em um momento de democratização do país, nos anos 90, com um propósito social e em diálogo com uma sociedade que abraçou essa causa. Isso foi muito especial.”, conta Luis Vieira da Rocha, diretor presidente.

“Em sua trajetória, Doutores atendeu a demandas da sociedade e extrapolou as fronteiras do hospital, transformando essa experiência em uma pedagogia de formação, em criações artísticas, em ações para empresas. Essa dinâmica é única e nos diferencia de outras organizações pelo mundo.”, finaliza.

O encontro reuniu diversas organizações que atuam em países mais desenvolvidos e, consequentemente, dentro de um sistema de saúde melhor, como na Holanda. No Brasil, os encontros entre crianças e palhaços muitas vezes têm um pano de fundo dramático. Aqui, a realidade dos hospitais públicos traz questões sociais muito latentes, que envolvem desde a estrutura familiar das crianças e a escassez de direitos básicos até as condições de trabalho dos profissionais de saúde.

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Assim, uma organização que não tenha uma intenção social não é relevante em termos de impacto para a sociedade.

Outro aspecto que torna Doutores da Alegria única é o programa Palhaços em Rede, que integra e orienta grupos de todo o Brasil. Hoje, já são 980 iniciativas mapeadas e cadastradas na rede. São muitos grupos pelo país – dado nosso extenso território, claro – mas também a vontade de muitas pessoas que têm compaixão por aqueles que estão internados.

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Durante o evento também tivemos a oportunidade de mostrar alguns resultados deste programa – que traremos aqui em breve – e um estudo de caso do projeto de extensão MadAlegria, que faz parte da nossa Escola. Wellington Nogueira, fundador do Doutores da Alegria, fez uma aplaudidíssima apresentação sobre a história do palhaço, e ainda pudemos dar uma palinha do Bloco do Miolinho Mole em terras estrangeiras. Emocionante!

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Após o evento, palhaços brasileiros e portugueses trocaram experiências visitando juntos o Instituto Português de Oncologia de Lisboa. “Participar do encontro trouxe uma nova dimensão para o nosso trabalho e reflexos no dia a dia do hospital”, conta Nereu Afonso, artista.

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Por fim, a conferência reafirmou a existência de uma comunidade internacional disposta a manter diálogo constante e a continuar trocando suas experiências. Os próximos passos ainda engatinham, mas têm um potencial enorme. Ainda há muito a ser feito, e com certeza teremos outras boas histórias pra contar na próxima conferência – isso mesmo! – em Viena, na Áustria, em 2018.

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Próxima parada: Lisboa

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Portugal recebe agora em março palhaços de todo o mundo para um encontro muito especial.

Healthcare Clowning International Meeting 2016 acontece de 21 a 23 de março e tem como tema central a construção da comunidade através da partilha, aprendizagem e celebração, reunindo grupos que utilizam a figura do palhaço em ambientes hospitalares.

logoO evento é organizado pela Operação Nariz Vermelho e dá seguimento à reunião de líderes que aconteceu em 2013, em São Paulo, para discutir o futuro da atuação e a criação de um fórum colaborativo de palhaços que atuam em hospital.

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Desta vez a ideia é compartilhar aprendizados, no intuito de encontrar pontos em comum e diferenças entre as organizações por meio de mesas de debate, palestras curtas, grupos de trabalho e espaços para conversas. A programação completa pode ser vista no site www.hcim2016.pt.

Integrantes do Doutores da Alegria, como Wellington Nogueira, Luis Vieira da Rocha, Thais Ferrara e Raul Figueiredo, terão participação no encontro, falando sobre os projetos artísticos e de formação, além de dar um panorama da atividade no Brasil. Será uma nova oportunidade para avaliar o trabalho e trazer referências importantes de países como Estados Unidos, Canadá, Itália, Colômbia, Alemanha, entre outros.

Também será celebrado o aniversário de 30 anos desde que a atividade surgiu de forma sistemática nos hospitais, em 1986, em Nova York. Celebremos!

Como vim parar aqui?!

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Depois de 20 anos atuando no Doutores da Alegria resolvi parar, olhar para trás e fazer uma retrospectiva artística. Senta que lá vem história!

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VINDO DO INTERIOR

Venho de uma família religiosa que trabalhou por muitos anos como voluntária em uma associação que atendia cerca de 150 mulheres em condições de vulnerabilidade social na minha cidade natal, Catanduva, interior do Estado de São Paulo. 

Toda semana, minha mãe ensinava às moças como se deve cuidar de uma casa, dava noções de higiene, dicas sobre alimentação, aulas de bordado e crochê. Meu pai também ajudava, em um domingo por mês, conversando com os maridos das mulheres e regularizando sua situação. Muitos deles eram desempregados, ex-presidiários, sem carteira de trabalho, título de eleitor ou certificado de reservista. 

Aos sábados percorríamos as ruas do bairro recolhendo jornais pela vizinhança, que depois eram estocados na garagem da minha casa para serem vendidos aos comerciantes e feirantes. Esse dinheiro era usado para a manutenção do trabalho voluntário da instituição e para minha mãe comprar tecidos e costurar pijaminhas para as crianças, filhos dos casais assistidos por eles. 

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Vivi essa realidade dos 10 aos 16 anos e sempre que estava de férias ou em casa sem tarefas da escola, ia com a minha mãe à associação e ficava tocando violão para as crianças na creche. Também fui tocar violão em asilos com meus pais e isso foi inspirador para mim. Sempre pensei em fazer o mesmo quando crescesse!

POR QUE RESOLVI SER PALHAÇO

Depois de passar pela música (piano e violão), pelo canto e pelas Artes Cênicas (ator), vi no palhaço a possibilidade de abraçar todas as Artes, pois o palhaço é tragicômico, melodramático, nonsense, lúdico e exige muita habilidade física e mental. Exercitar-se como palhaço é reconhecer-se a cada dia, ampliando os horizontes da imaginação, deixando o impossível cada vez mais possível.

Pergunto-me: será que dava para ser outra coisa?

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CHEGANDO A SÃO PAULO

Em 1992 terminei o curso de Artes Cênicas na UNICAMP e vim morar em São Paulo. Comecei a atuar em algumas companhias paulistanas de teatro e conheci o trabalho dos Doutores da Alegria em 1995 por meio da atriz Alexandra Golik, que atuava comigo e já fazia parte do elenco. 

Nesse mesmo ano fiz teste e fui selecionado para entrar na ONG

NO DOUTORES DA ALEGRIA

Atuei por 11 anos como o besteirologista Dr. Zappata Lambada em todos os hospitais que o programa atende e atendeu em São Paulo, e também em outras unidades da ONG.

Estive nas montagens de espetáculos infantis (“Vamos brincar de médico” e “Senhor Dodói”), ambos premiados e com excelentes críticas e aceitação do público, e atuei como músico substituto no infantil “Poemas esparadrápicos”, produzido pelo elenco da unidade de Recife.

Também estive em outras apresentações como o saudoso “Midnight Clowns”. Em empresas, participei de muitas palestras institucionais, inúmeros RISOs 9000 e outras ações. 

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Durante esse período de atuação comecei a dar algumas oficinas de música e jogos para o elenco de palhaços, em nossos treinamentos às sextas-feiras. Essa experiência rendeu um convite para integrar a equipe de formação da organização. Desde 2007 dou aula na Escola dos Doutores da Alegria, mas lá em 1999 eu já ajudava na construção de conteúdo. 

Atualmente sou professor de música no segundo ano do Programa de Formação de Palhaço para Jovens e auxilio na criação da trilha sonora do exercício cênico. 

Foi em 2007 que também criamos o programa Palhaços em Rede, do qual sou tutor desde o seu início. Nessa função tive o prazer de viajar pelos quatro cantos do país dando oficinas de orientação e formação para grupos de palhaços com diferentes formas de atuação que visitam hospitais. 

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Trocamos ricas experiências em nome de um movimento: a arte estimulando a mudança, promovendo a qualidade das relações humanas e cultivando a saúde.

Quase 21 anos… Doutores da Alegria é uma parte de mim. E já que vim parar aqui, daqui não saio, daqui ninguém me tira!

Obrigado, Sacks

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Foi no domingo que Oliver Sacks nos deixou.

O neurologista e escritor britânico morreu aos 82 anos em Greenwich Village, próximo a seus familiares e amigos. Há alguns meses, ele havia revelado em um artigo para o The New York Times sobre o câncer em sua fase terminal. “Devo decidir como viver os meses que me restam. Tenho de vivê-los da maneira mais rica, intensa e produtiva que conseguir”, disse ele.

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oliver sackssfonte: oliversacks.com

O médico ficou mundialmente conhecido por seu trabalho científico e também por sua desenvoltura como poeta, descrevendo em seus livros experiências pessoais e clínicas que extravasaram para o cinema. O médico recebia mais de 10 mil cartas por ano.

O homem que confundiu sua mulher com um chapéu” (1985) e “Tempo de despertar” (1990) contribuíram com sua fama. O primeiro aborda histórias de pacientes com deficiências cerebrais que preservaram a imaginação e deram vida a uma identidade moral própria. Em “Tempo de despertar”, Sacks conta sua experiência com pacientes que sofriam de encefalite letárgica e da administração de um remédio de uso controverso capaz de tirar brevemente os doentes de seus estados catatônicos.

O médico também escreveu “Enxaqueca” (1970), “A ilha dos daltônicos” (1997), “Vendo vozes” (1998) e “Alucinações musicais” (2007), além de sua autobiografia “Sempre em movimento – Uma vida”, publicada em abril deste ano. Ainda estão previstos artigos dele para esta semana em jornais internacionais.

A obra de Sacks foi inspiração para a peça “O homem que fala, dos Doutores da Alegria, e trouxe aos artistas um terreno fértil para suas inquietações. As esquetes da peça foram baseadas nas histórias reais do livro “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu” dentro da linguagem do palhaço, mas sem a presença do nariz vermelho.

Além de todas as suas contribuições, ele deixa como legado a Oliver Sacks Foundation, organização devotada a contribuir com o desenvolvimento do cérebro humano e da mente por meio da narrativa não-ficcional e de histórias de pacientes.

Vá em paz, Sacks! E obrigado.