Lembrança de uma ala adulta

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Aconteceu mês passado, durante o São Joãozinho. Passávamos pelas alas do Hospital do Campo Limpo em um cortejo musical. Nove palhaços-cangaceiros, instrumentos musicais, forró no pé.

Fomos abordados por uma médica com um pedido: que fôssemos à ala adultaTratava-se de um adolescente que estava com muita dor, em cuidados paliativos. Topamos.

E passamos por áreas nunca antes adentradas, como o PS adulto. O que de início era só uma visita a uma ala desconhecida virou um belo encontro com pessoas diversas!

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Desbravamos grandes enfermarias com muitos leitos e procura daqui, entra ali, chegamos ao leito do adolescente. Estava separado em um quarto pequeno, bem estreito. Eu, Dra Manela, entrei primeiro. Com dificuldade para chegar ao outro lado da cama, me virei de lado e cheguei até a cabeceira da cama.

Lá estava ele. Cheguei até seus olhos. Cumprimentei, me apresentei e disse que estava muito feliz de poder conhecê-lo. Percebi que ele não falava, pois estava com traqueostomia e a mobilidade não era a usual. O menino foi se comunicando à sua maneira, arregalava os olhos.

Fui chamando palhaço por palhaço e aquele quarto minúsculo de repente estava tomado por besteirologistas! E mais sanfona, violino, zabumba, triângulo, viola… Perguntei se ele gostaria de escutar uma música e ele mostrou que sim. Estávamos prontos para começar a cantar quando fui interrompida:

- Cuidado! A Manela pode soltar um pum aqui dentro!

Ele sorriu. Disse a ele que era invenção dos colegas e que não ligasse para o que falavam. Mantendo contato visual, reiniciei a música. E lá veio outro se aproximando do campo de visão do garoto.

- É verdade, a Manela sempre faz isso antes de cantar!

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E foi assim: cada palhaço entrava no campo de visão do rapaz e falava que era a mais pura verdade… E cada vez que outro entrava, piorava a minha situação, dizendo coisas horríveis a meu respeito! Acabou que difamaram a minha vida, e então me despedi dizendo que não era mais possível ficar mais ali. Ele gostou, era nítido.

Ao sairmos do quarto mantive contato sonoro com ele, pois sabia que ele não conseguiria se virar para nos ver, e disse ao grupo que agora estava aliviada pois acabara de soltar meu pum e, ufa, poderíamos cantar! E lá de fora cantamos e saímos ao som do Xodó do mestre Gonzagão. Coisa boa!

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Foi emocionante ver do lado de for a equipe nos agradecendo por mais essa! Coisas que vêm de dentro emocionam mesmo. Não sabia que meu pum emocionava tanto assim!

Dra Manela (Paola Musatti)
Hospital Municipal do Campo Limpo – São Paulo

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A Dercy Gonçalves do Campo Limpo

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Eu e Dr. Valdisney tivemos uma surpresa ao chegar ao pronto socorro infantil.

Devido à superlotação do Hospital Campo Limpo e suas reformas, o local também virou pronto socorro adulto feminino. De um lado crianças e, do outro, mulheres. 

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Atendemos a um público misto, como não é de costume. E conhecemos uma senhora que era atração do pronto socorro adulto: a Dercy Gonçalves do Campo Limpo”.

Palhaços: Olá, bom dia! Somos Sandoval e Valdisney. Já passou algum besteirologista por aqui hoje?
Dercy: Bom dia é o &%$#@&, tá um calor da *&&¨%$# aqui e não tem um ventilador.
Palhaços: Realmente temos que concordar: tá um calor daqueles! Nós somos médicos besteirologistas e cuidamos de bobagens e bobisses. A senhora aceitaria fazer um exame de rotina?
Dercy: Eita *&%$# (risadas)! Tá bom, palhaço. 

Demos um pequeno ferro de passar roupa para Dercy e pedimos para que ela o passasse em umas das mangas do nosso jaleco. Ela passou e devolveu o ferro. 

Palhaços: Examinando sua passada de manga, vimos que a senhora está passando muito bem!
Dercy: Ai &¨%##%¨, só se for a roupa, filho (risadas). E esse violão aí? Toca a música do Pablo pra mim?
Palhaços: Sim, por que não? Vamos passar um ultrassom para a senhora, agora mesmo.
Dercy: Vocês são ¨%$$#%¨&¨… (risadas) 

Cantamos “Homem não chora”, grande sucesso do momento, e agradamos muito a senhora. Ela começou a cantar e dançar em sua cama. No dançar desajeitado e engraçado, ela deixou cair parte do seu avental e seu seio fica à mostra. Prontamente a senhora da cama ao lado a avisou.

Dercy: Vai se &¨%$%¨&! – e rapidamente arrumou seu avental. 

Finalizando o ultrassom e a consulta, nos despedimos. 

Palhaços: Esperamos não encontrá-la mais aqui, e que a sua alta venha rápido! Qualquer coisa é só nos chamar com um palavrão: PARALELEPÍPEDO! É a maior palavra que eu conheço!

Dercy: Só vocês mesmo pra fazer a gente da risada nessa &&%$#&* aqui… Tchau, palhaços… Obrigada! (mais risadas)

E pra lembrar a saudosa Dercy Gonçalves, a verdadeira, uma frase dela: “Palavrão, mesmo que ninguém assuma, é a miséria, a falta de respeito, é a sacanagem que fazem com o povo. Isso que é palavrão”.

Dr. Sandoval (Sandro Fontes)
Hospital do Campo Limpo – São Paulo

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O sorriso de N.

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Quando Sandoval e Valdisney assumiram os plantões besteirológicos no Hospital do Campo Limpo, costumavam ver a mãe de N. acompanhando o garoto em sua estadia. Faz algum tempo que isso não acontece mais.

N. tem problemas de mobilidade e fica em sua cama. Não fala e só se comunica através do olhar e de expressões de seu lindo rosto. Há meses que os palhaços entram no quarto para fazerem suas consultas e ele não manifesta nenhum afeto, apenas observa. 

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Um dia, por obra do destino, Sandoval esqueceu o chapéu de malabarismo na mala e acabou levando-o, sem querer, para o hospital. Valdisney disse a Sandoval com essas doces palavras:
- Já que trouxe, agora usa, né? 

Dito e feito! A dupla passou o dia trabalhando no hospital e usando o chapéu de tudo quanto é jeito. 

Entraram no quarto do N. Sandoval alegou ter esquecido a peruca em casa e precisou comprar um chapéu pra não ficar com sua careca à mostra. Valdisney confirmou o relato. 

sorriso de n

Sandoval começou a mostrar os truques que sabia fazer com seu chapéu. N. e Valdisney apenas observavam. Ele fez um truque de morder o chapéu e arremessá-lo com a boca, seguido de um giro no ar direto para sua careca.

Então aconteceu o que esperávamos há meses: o garoto sorriu. 

Valdisney não acreditou no que viu e pediu que Sandoval repetisse o truque. Mais um lindo sorriso surgiu! Depois que a consulta besteirológica acabou, os palhaços foram até a porta e se despediram de N. E o melhor de tudo: o sorriso continuava em seu rosto.

sorriso de n

Dr. Valdisney (Val Pires)
Hospital do Campo Limpo – São Paulo

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Diário de um pequeno rebelde

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Terça-feira, 10 de março de 2015.

Eu (Dr. Valdisney) e Dr. Sandoval entramos animados. No corredor de camas à direita do Pronto-Socorro Infantil, começamos os nossos atendimentos besteirológicos cama por cama. Perto da metade dos leitos, ouvimos uma voz de um jovem, muito forte:

- Ei, vagabundo!

Continuamos atendendo outra cama. Ele continuou, agressivo:

- Ei, vagabundo! Vagabundo!

Cheguei mais perto do menino e me direcionei ao Sandoval:

- Ô Sandoval, você já arrumou emprego?
- O que foi? Soltei um pum na minha vaga.. bunda! 

Todos riram, inclusive o menino. Nós, palhaços, saímos correndo.

Quinta-feira, 12 de março de 2015.

No corredor da Pediatria, encontramos o menino novamente. Muito agressivo, tentou várias vezes dar chutes. Paramos e falamos com ele.

- Por que você quer bater na gente? Não te fizemos nada, viemos aqui pra brincar. Você não pode machucar as pessoas.

diario de um jovem

O menino olhou pra mim, abriu os braços e disse:

- Palhaço! Carinho! Me pega no colo. 

Peguei o menino nos braços e ele ficou quietinho. Dançamos pelo corredor, dançamos muito… Às vezes, o carinho é o melhor remédio.

Terça-feira, 17 de março de 2015.

Encontramos o menino novamente na Pediatria. Ele continua chutando, mordendo, xingando. Mas também continua pedindo carinho.

Dr. Valdisney (Val Pires)
Hospital do Campo Limpo – São Paulo

Ninguém acreditou

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Rafael, Natan, Guilherme, Gustavo, Vitoria, Alice, Jonathan, David, David, Vitoria, Lauro, Samuel, Gabriel, Miguel, Rafaela, Rafaella, Luiza, Vitoria, Isabela, Isabella, Carlos, Emanuela, Benício, Miguel, Miguel, Miguel, Davi, David, Vitoria, Bruna, Mateus, Matheus, Jonas, nomes, nomes, nomes que às vezes têm apelido de leito 13, 19, 2, nomes solitários, nomes compostos, nomes simples, nomes comuns, nomes criativos, nomes únicos, nomes que se repetem, nomes de criança, nomes de adultos, nomes de velho, nomes de criança adulta, nome de adulto criança, nome de criança criança.

De Derson é filho de Derson, o piolho do Daduvida é Epaminondas, a pulga do De Derson é Mijardina.

A dra Chang é Cheung, a Bia é Beatriz, a diretora Merry Christmas é Cris Mary.

Nome de pressa é emergência, nome de necessidade é urgência.

Nome de atenção é cuidado, nome de cuidado é gentileza, nome de gentileza é carinho, nome de carinho é amor. Todo nome quer amor!

Esta semana o Paulo me disse: nós temos que apreciar o momento! Mesmo que o momento seja difícil de apreciar! E eu acendi! Acender é verbo, verbo não é nome. Eu percebi que a alegria está no estar e também na Esther, no Marcos na Clara, na Melissa.

Nome de besteirologista do Hospital do Campo Limpo é Nina Rosa, Dus’Cuais, Pororoca, Mané, Daduvida e De Derson.

Nome de médico é Roberto, Aparecida, Sheila, Andrea, Polyana, Rochele, Regiane, Marcelo, Monica…

Nesse mês a Andrea trouxe seus filhos que há tempos mandamos vídeos e músicas gravados exclusivamente para eles, seus nomes são Gabriela e Gustavo. A Gabriela nos mandou um recado essa semana: Mãe, fala pros palhaços que já sei ler!

Nome de enfermeira é Shizuko, Mariléia, Luzinete, Deleuza, Cléo….

O Gabriel fez buh! O palhaço se assusta, bate a cara na parede e se esquece do próprio nome.

Nome de delegado é José da lei, Danley, José Darnley.

Descobrimos que todas as bundas, ops, retaguardas, forébis, traseiras, são partidas! E mais: possuem um pequeno orifício com o nome de fiofó! Todos os fiofós soltam pum! Esse leva o nome de pum porque peido é muito feio, por isso nunca digo, o De Derson fala peido, às vezes fico em dúvida se prefiro peido ou pum! Às vezes me escapa. Me escapa a palavra e o próprio pumpeido e temos que sair correndo do quarto!

Bicho também tem nome, descobrimos que as crianças com roupa de bicho não são crianças, são criOnças.

Médico adora perguntar se criança faz cocô, acho que médico não faz, nunca foi visto um médico fazendo cocô, não fazem e têm um pouquinho de inveja das crianças por isso! Besteirologista faz!

Nesse mês, nossas intimidades foram reveladas. Fizemos uma visita de cara limpa, sem maquiagem, sem figurino, sem nariz… O nariz vermelho! Ninguém acreditou que o David era o Daduvida e o Anderson o De Derson.

ninguem acreditou

ninguem acreditou

ninguem acreditou

Dr. Daduvida (David Taiyu)
Hospital do Campo Limpo – São Paulo

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Somos todos humanos

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Estar no Hospital do Campo Limpo é se defrontar com o humano de uma forma quase cruel.

Lá vemos como nós, humanos, nos importamos pouco com os outros humanos. Digo “nós” porque tento incluir os humanos que estão no poder, os humanos que depois de algum tempo ocupando estas posições se esquecem que também são humanos. Para compensar, lá os médicos e enfermeiros são super humanos, trabalham por muitos e se envolvem com cada caso, com cada pessoa, compreendem, respeitam e agradecem a nossa presença. 

Em uma sociedade que falta tudo, principalmente o básico para sobreviver, se sentem frustrados por suas limitações. A impressão que tenho é a de que gostariam não somente de curar a doença, mas a vida daquelas pessoas. 

No Hospital do Campo Limpo somos colocados na posição de parceiros, de quem faz a diferença. 

Nossa parceria com os médicos se nota assim que chegamos na maternidade e encontramos as doutoras mais lindas do universo, para as quais prometemos fazer um programa de entrevistas com questões besteirológicas atuais! Espero que consigamos realizar isso! Depois de nos localizarem da realidade diária, vamos ao trabalho e nos deparamos com bebês e mães quase crianças. 

Antes de chegarmos no pronto socorro infantil, passamos por um corredor surreal – ou real em demasia. Às vezes as macas dos adultos lotam todos os espaços, e lá os médicos e enfermeiros sempre nos recebem com um sorriso transbordante, o que nos enche de energia para fazer um trabalho especial, principalmente porque se misturam crianças com muito medo e crianças com muita vontade de jogar com os besteirologistas. Sempre é necessária a construção cirúrgica de uma grande partitura que inclui profissionais de saúde, mães, crianças e palhaços! Todos nesse pequeno universo em evolução sabem que tudo ali poderia ser muito melhor se vivêssemos num mundo mais humano, onde a política corrupta e o lucro não fossem foco principal. 

Na enfermaria encontramos as enfermeiras mais guerreiras que já vi. Não param um segundo… Ficamos até tontos só de ver! Sempre nos solicitam para casos especiais que só os besteirologistas podem resolver, sempre nos colocam a par da realidade daquelas crianças e sabem que estamos ali não para fazer todos esquecerem seus problemas com a alegria, mas para que possam pensar a vida sendo resolvida de uma forma mais alegre. 

Neste mês tivemos uma grande alegria: o F., que acompanhamos já há alguns meses, conseguiu um transplante de coração! Sua mãe veio muito feliz nos dar a notícia e prometemos visitá-lo e fazer uma grande homenagem. Ao entrarmos na UTI, a um metro de distância, uma mãe velava seu filho que estava em morte encefálica… Os humanos podiam começar a se enxergar como um só organismo, assim seriam mais rápidos os transplantes. 

O M. é cadeirante e um grande amigo. Espera ansioso pela nossa visita todas as terças e quintas. Ele sempre pede a dança maluca do dr. Dadúvida e para que o dr. De Derson cheire o álcool gel para ficar “bêbado”. De tanto lhe perturbar para se alimentar, nos disse rapidamente na última visita:

- Já estou comendo e muito bem!

É sempre nosso assistente e seu quarto se enche com todas as crianças do corredor. 

Todas essas crianças estão chegando – com seus  olhares puros, ainda não contaminado pelas ansiedades egoístas – para abrir os nossos olhos, para sabermos que é possível renovar, recomeçar, virar as páginas equivocadas e tentarmos de novo. E construirmos uma casa nova, onde ver o outro feliz seja o grande sentido de tudo.

Dr. Da Dúvida (Davi Taiu) e dr. Dederson (Anderson Spada)

A tal da realidade

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Desde a metade do mês começamos a atender as crianças, acompanhantes e funcionários que transitam pela nova UTI infantil do Hospital Municipal do Campo Limpo. Ainda estamos testando qual o melhor horário para se passar por lá: antes ou depois do PS? Antes ou depois do sexto andar? Antes ou depois do almoço?

Vale lembrar que o berçário também faz parte desse itinerário. É verdade que no primeiro semestre estivemos ausentes dali por mais de um mês por causa da violenta bactéria KPC. Nos meados de maio voltamos a dar nossas caras aos recém-nascidos. Nosso horário de passagem por lá é mais rigoroso do que o de outros setores. É que lá o “psiu” tem hora certa pra começar. E uma vez começado, nem o mais silencioso dos palhaços tem o direito de entrar ali. 

O número de crianças atendidas por lá também é bastante grande. Raramente abaixo dos 20. A grande maioria delas está recolhida em seus “ninhos de plástico”, e as da UTI, além do “ninho”, estão enlaçadas por cabos, tubos e fios, rodeadas de luzinhas e de um incessante bip-bip. Geralmente estão dormindo, o que não as impede de receberem, mesmo que à distância, a doçura da voz e do violão da Dra Emily. 

Os funcionários do berçário, assim como os acompanhantes, parecem ter outro ritmo, ou pelo menos, uma outra sonoridade: tudo parece mais suave. O tom das vozes é delicado e até o choro dos bebês é um choro miniatura. Então, entre uma música e outra, acabamos por trocar um dedinho de prosa com um pai aqui, uma mãe ali, uma enfermeira acolá. Fato que muito nos agrada. 

E olha que curioso: no meio de tanta paz e tranquilidade, ficamos sabendo que alguns dos bebês do berçário – vários, infelizmente – já são protagonistas de histórias de arrepiar a alma. 

Aquele ali, vejam vocês, é o primeiro filho de uma mulher madura, com ar responsável e tudo… Mas que rejeitou a criança. Do lado dele, aquele todo fofo, é filho de uma mãe viciada em drogas. Pariu e sumiu. Aquele outro foi achado na caçamba…

Na caçamba?, perguntamos estarrecidos. 

É, na caçamba… com a placenta e tudo.  

E de repente, o que era pura poesia foi se transformando em um filme de horror. Antes fosse um filme. 

Ao invés de cinema, vimos uma fenda se abrindo na leveza daquele ambiente para lembrar-nos que a tal da realidade é um chicote arisco: quando você menos espera, ela estala na sua cara. Fica a pergunta: quando atos como esses se repetem incansavelmente numa mesma parcela da cidade durante anos a fio, não está na hora de se perguntar se essa parcela da cidade está sendo bem cuidada, observada e protegida com dignidade pelas autoridades responsáveis? 

A resposta nós já sabemos: é não. 

Então, resta-nos a pergunta “por que não?” Por que uma parcela da cidade é tão menos favorecida social e economicamente do que outra? Porque o país é tão desigual? Também já sabemos que a pergunta é antiga. Mas a busca por soluções tem que ter o mesmo frescor e vitalidade de sempre. 

Enquanto isso, os bebês do berçário do Campo Limpo emitem seus primeiros gritos, esboçam seus primeiros gestos, abrem os olhos, ganham peso e, muito em breve, nos brindarão com seus primeiros sorrisos.

Dr. Zequim Bonito (Nereu Afonso)
Dra. Emily (Vera Abbud)
Hospital Municipal do Campo Limpo
Junho de 2013 

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A experiência

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O que vou contar aqui é o resultado de uma experiência besteirológica inédita. Eu, Dr. Dadúvida, pedi permissão para trabalhar sozinho um dia no hospital. Sozinho, desamparado, carente, abandonado. Talvez você não saiba, mas a base do trabalho dos Doutores da Alegria é o trabalho em dupla.

Lá fui eu para o Hospital do Campo Limpo. E vou te contar… Foi vertiginoso! Tudo fica numa exposição maior, arriscada, iluminada, total. Acho que palhaço é como os animais que andam em bando: quando estamos juntos somos grandes, corajosos, caras de pau; mas sozinhos, vamos pelas beiradas, escutamos mais o que está acontecendo, pedimos ajuda e, o melhor, somos muito ajudados.

© Nina Jacobi

As mães, sem que eu solicitasse, rapidamente se acercavam e logo tínhamos uma dupla de palhaços: um maquiado, outra não. As crianças, ao ouvirem que eu precisava aprender a cantar, logo queriam me ensinar suas músicas preferidas. Em um dos quartos tive que deixar minha caixinha de música e meu chocalho.

Ensaiamos uma música improviso e a H. aprendeu a rimar rapidíssimo. Ficaram de preparar um show para apresentar para o Dr. Pinheiro, besteirologista residente do Hospital do Campo Limpo. O menino R., aproveitando a ausência do Dr. Pistolinha, insistiu para que eu lhe dissesse porque ele tinha esse nome. Ah, eu lhe expliquei que não poderia dizer pois é um problema pessoal masculino do outro besteirologista e eu sou muito ético, jamais falaria… Ele e a sua mãe estão rindo até agora, por que será?

No Pronto Socorro foi absolutamente desafiador. Assim que me viram, já fui anunciado pelas enfermeiras, crianças nos colos, em pé nos berços, os médicos: Ele veio sozinho hoje!

O que me tocou profundamente foi o berçário, até hoje não entendia porque trabalhar ali. É um lugar “casca de ovo”, todo cuidado é pouco. Os bebês eram todos muito pequenos; uma menininha estava inquieta, chorando, há dois dias em jejum.

Tenho uma música alimentícia!, me prontifiquei.

Cantei pra ela “Conto de fraldas” e ela foi se acalmando. As enfermeiras quiseram me contratar por hora, mas ainda tinha muito hospital pra percorrer! Foi uma experiência sensacional, me senti muito corajoso, trabalhando numa delicadeza que as vezes me esqueço e que é, realmente, muito necessária.

Dedico este texto à todas as mães, enfermeiras, profissionais, crianças que encheram meu dia de imagens, emoções e muita cumplicidade!

Dr. Dadúvida
Hospital do Campo Limpo
Outubro de 2012

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Extra, extra!

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Alô, alô, ouvintes da Rádio Campo Limpo, a única rádio do Brasil que não toca no rádio e só pode ser ouvida pedindo para o seu parceiro de trabalho ler em voz alta! Vamos às notícias mais marcantes desse mês.

Extra, extra! O mês de julho terminou e deixou claro que é o mês do inverno, dos cobertores e de muitas bronquiolites e pneumonias.

O borracheiro da região recebeu muitas pessoas procurando uma solução para a pneumonia. A notícia de que a cura para a doença estava na borracharia (e era uma combatida com uma simples calibragem)  se espalhou pelo bairro. Mas o boato já foi desmascarado e os pacientes já estão fazendo suas inalações no complexo hospitalar. Ufa!

A dúvida ficou no ar: quem poderia ter espalhado essa notícia pelo bairro? Pensando bem… Vamos mudar de assunto!

O berçário anda a mil, muitos nenéns nascendo todos os dias, casa cheia sempre. Passar parte da terça-feira lá é sempre um aprendizado, presenciamos muitos  casos diferentes e dividimos com a equipe, que sempre está atenta a tudo.

Acompanhar as trigêmeas por alguns meses ganhando peso e saber que elas já tiveram alta não tem preço! Torcemos por essa linda família e desejamos que a mãe desses pequenos continue amiga dos vizinhos e da sogra porque a missão será longa…

Dra Crica Canaleta (Chris Galvan)
Dr. Pinheiro (Du Circo)
Hospital do Campo Limpo
Julho de 2012

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Rapidinhas de hospital (SP)

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Dr. Charlito

“A tímida J., que acompanhamos por vários meses, aos poucos foi se deixando levar pelas brincadeiras, quer dizer, procedimentos besteirológicos. Dia desses ela descobriu o nosso grande segredo.

Vocês são carecas! - disse ela, que também se encontra nesse estado (sem cabelos) temporariamente.

Lógico que tentamos disfarçar, mas era tarde… J. já havia descoberto tudo! O legal é que a descoberta foi um passo gigantesco para a nossa relação, que durou mais que o mês de São João inteirinho. Diferente do nosso cabelo, o da garotinha já está crescendo livre, leve, solto… E de alta, que é o mais importante!”

Dr. Charlito (Ronaldo Aguiar) e Dr. Sandoval (Sandro Fontes)
Instituto da Criança

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“Ultimamente temos recebido muitos bebês no Hospital do Campo Limpo. Tem de todas as idades, cores e gênios. Tem os que preferem a gente de perto e os que preferem a gente de longe. Tem os que curtem um som e os que curtem um papo… Ou um sapo. Mas todos são uns bochechudos gostosos! Eles chegam a passar 3 ou 5 vezes na fila da bochecha só para nascerem lindos para as mamães não pararem de beijá-los.”

Dra Crica Canaleta (Christiane Galvan)
Hospital do Campo Limpo

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Dr. Pistolinha

“Tivemos um encontro mágico com o K. na UTI do Hospital Universitário. Digo mágico porque descobrimos que o K. era mágico. Aliás, foi o Dr. Pistolinha quem descobriu. Ele estava com dois elásticos, presos um ao outro. A UTI inteira tentou soltar os elásticos e ninguém conseguiu…. Mas o K., com apenas um sopro, conseguiu soltar os elásticos! E não foi só isso: depois ele conseguiu fazer com que um dos elásticos sumisse. Ficamos maravilhados com o poder do menino e a Dra Lola perguntou a ele, discretamente, se ele conseguiria fazer o Dr. Pistolinha desaparecer do mapa.

É que ele é muito chato, fala demais, solta pum no elevador, toma mamadeira até hoje, se acha lindo…, disse a besteirologista.

Nessa hora o Dr. Pistolinha voltou para falar com a Dra Lola e escutou tudo! E não adiantou se justificar, ele ficou bravo e saiu dando golpes de elástico pela UTI. O K. riu tanto com o caso que não teve concentração necessária para fazer com que os três sumissem juntos da sua frente… ”

Dra Lola Brígida (Luciana Viacava)
Hospital Universitário