Um estranho sensor

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Algo de estranho aconteceu em um dos quartos da Pediatria do Hospital do Grajaú. Do lado de fora, os besteirologistas Sandoval e Xaveco tentavam dar um diagnóstico.  

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Assim que Xaveco punha o pé dentro do quarto, um barulho imediatamente aparecia, como um sensor automático de porta.

- BUÁÁÁÁÁÁ!!!

Tirava o pé e o barulho parava. Foi a vez então do Sandoval testar. E o mesmo aconteceu. 

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Havia quatro crianças lá dentro e o som vinha da cama da direita, perto da janela. Resolveram investir em uma tentativa: entrar de costas para aquela cama. Mas o sensor foi acionado imediatamente…

- BUÁÁÁÁÁÁ!!!

Os besteirologistas saíram correndo para fora. Tentaram entrar tocando e cantando, mas o problema continuava. Tiveram uma percepção brilhante: talvez o sensor ligasse porque a cara dos palhaços era muito esquisita. Cobriram as cabeças com um lençol e mais uma vez colocaram os pés para dentro do quarto.

- BUÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ!!!

O sensor tocou ainda mais forte. Xaveco e Sandoval tentaram sair do quarto correndo, mas como suas cabeças estavam cobertas, ficaram batendo a cara na parede até encontrarem a porta certa!

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Foi aí que, estranhamente, o barulho começou a se misturar a outro tipo de som.

- HAHAHA…

Assustados, os besteirologistas avisaram que voltariam outro dia e que pediriam para a manutenção dar uma arrumada naquele sensor. Seguiram para os outros quartos…  

Dra Xaveco Fritza (Val de Carvalho)
Hospital Geral do Grajaú – São Paulo

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Tranca a porta e segura!

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Com o tempo seco e a chegada do frio, as internações aumentaram na Pediatria Infantil do Hospital do Grajaú. 

Os problemas respiratórios e os casos de gripes complicadas foram os principais responsáveis pela lotação das alas infantis. A Rose, que trabalha na ouvidoria do hospital e fica sempre de olho nas doutoras Emily e Xaveco, avisou que os profissionais que ali trabalham com as crianças deveriam tomar a vacina que protege contra a gripe H1N1.

E para garantir que as duas não fugissem da agulhada, Rose as acompanhou até o local da vacinação.

- É vacina de gotinhas? Bem docinhas?, quis se certificar Dra Xaveco.

A enfermeira, mais esperta que as duas juntas, se esquivou da pergunta e Xaveco, meio tonta como sempre, não entendeu e entrou na salinha. Ao perceber que receberia uma agulhada, fez aquele escândalo.

- Tranca a porta e segura!, todos gritaram.

vacina

Dra Emily ajudou na missão de fazer a parceira ser vacinada e, quando chegou sua vez, explicou com muita propriedade:

- Eu não preciso.
- Por quê?, perguntou a enfermeira.
- Porque eu já tomei.
- Ahh… Então tá certo. Quando você tomou?
- Ano passado!, respondeu Emily.

Todos na salinha perceberam o truque e, enfim, tiveram que recorrer à mesma técnica usada com Xaveco.

- TRANCA A PORTA E SEGURA!

É, vida de besteirologista não é fácil.

Dra Xaveco Fritza (Val de Carvalho)
Hospital Geral do Grajaú – São Paulo 

Que te gusta?

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O menino nos estranhou na primeira visita.

Ele estava na ala de cirurgia pediátrica e descobrimos que seus pais eram bolivianos.

Isso levantou o topete do Dr. Zequim, que desembestou a falar castelhano e se declarou boliviano nato. Eu não me fiz de rogada, empreguei o meu melhor portunhol na conversa!

que te gusta

Diante de tanta falação, o menino se colocou como espectador. Ouvia a tudo sem dizer palavras. Num determinado momento, quando a relação com sua família já estava estabelecida, não me lembro mais qual era o assunto, mas quis presentear o menino. Claro que o presente proporcionaria um desconforto ao Zequim, mas era de propósito.

que te gusta

Pedi ao garoto que esperasse um minuto, corri até a enfermaria e peguei uma luva cirúrgica, que aliás, para quem não sabe, é a rainha da transformação: pode virar peixe, galinha, vaca e por aí vai…

Cheguei ao quarto e fui logo preparando o presente: um tubarão! O Dr. Zequim morre de medo, brrr! Enquanto transformava a luva, quis ter certeza de que o menino não teria medo.

- Te gustan los tiburones?, perguntei. Ele fez que não com a cabeça.
- Ah! No? Entonces… Y las gallinas, te gustan las gallinas?

Fez que não com a cabeça.
- Bueno… Las vacas, te gustan las vacas?

O “não” persistia. Diante de tamanho fracasso, eu me rendi. Perguntei ao seu pai: 
- Qué passa que no le gusta nada?

E o pai respondeu em português:
- É que ele não fala espanhol! 

FOOOOOOOOOOMMMMMMMMMMMM!!!!!!!!

que te gusta

Claro que tive que me retirar do quarto sob risos de todos – principalmente do Zequim – indignada por haver gasto todo meu espanhol naquela visita…

Dra. Greta Garboreta
Hospital Geral do Grajaú – São Paulo

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Sem mais tchaus

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O garoto tem aproximadamente dois anos e está há vários meses internado.

Seu estado oscila bastante. Sabemos quando ele está bem (ou menos pior) por meio de uma reação bem precisa do garoto: o berro desenfreado, estridente e descontrolado que ele emite a cada vez que lhe dizemos “tchau”.

tchau

Quando sua reação é o grito, ele está em seus melhores dias. Caso contrário, seu abatimento é visível e desconsolador. O problema é que, nos melhores dias, o tradicional e ensurdecedor berro tira a paciência da mãe e de seus vizinhos de quarto. 

Para evitar o incômodo, nós, palhaços, decidimos não mais dizer “tchau” e nem esboçar qualquer menção à nossa despedida. Assim, cada vez que temos que sair do quarto, acabamos por camuflar nosso “tchau” em uma série de “ois”.

tchau

Conseguimos ir embora como se estivéssemos chegando. Por incrível que pareça, essa astúcia absurda tem dado resultado: os gritos e choros do garoto diminuíram.

Dr. Zequim (Nereu Afonso)
Hospital Geral do Grajaú – São Paulo

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Nada de novo

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Quetamina & Midazolan, nome de dois medicamentos. Foi assim que fomos tratados pela equipe da UTI depois de termos acalmado, ao som de canto e violão, a pequenina e irritadíssima M. 

Não é para menos: ela estava toda furada e conectada com fios ao longo do seu pequeno corpo. Médicos e enfermeiras tentavam concluir um procedimento enquanto a criança se debatia (ou se defendia, se preferirmos) diante de tamanho incômodo e dor.

baila comigo

Nós não fizemos nada de novo. Apenas tocamos e, com isso, talvez tenhamos oferecido um contraste ou uma alternativa dissonante do que reinava no ambiente naquele momento. Como disse, nada de novo.

Mas a cada vez que esse contraste resulta em uma reação positiva, voltamos a concluir que há realmente algo de potente nessa manifestação super antiga do ser humano chamada arte

Em outro quarto, o contraste foi oferecido de uma paciente a outra. G., com seus 11 anos, vendo sua pequena colega de quarto abatida e ressabiada diante da dupla de palhaços, regeu a interação de cabo a rabo.

– Toquem uma música aí, por favor.
(tocamos)
– Não, uma mais animada.
(tocamos outra)
– Mais suave, palhaços.
(mudamos o ritmo)
– Essa tá ótima! 

baila comigo

Então G. puxou a colega de quarto, que tinha a metade de sua altura, e delicadamente fez uma sequência de passos de dança, aos quais a coleguinha respondeu e embarcou com total engajamento. Foram vários minutos de giros, piruetas, abraços, conduções de um extremo bom gosto e cuidado. 

Novamente não fizemos nada de novo… Ou talvez sim.

Reaprendemos a observar, a servir, a simplesmente acompanhar musicalmente o protagonismo de duas crianças que, em profunda solidariedade, transformaram, por alguns instantes, o corredor do hospital em salão de baile sincero, amoroso e comovente para os pais e demais presentes.

Dr. Zequim Bonito (Nereu Afonso)
Hospital Geral do Grajaú – São Paulo

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Equipe musical

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A equipe de saúde do Hospital Geral do Grajaú é bem musical.

Descobrimos uma dupla de estudantes internos, oriundos do Mato Grosso, com um talento especial para o violão e o canto.

Eu, dr. Zequim, passei meu instrumento para eles e, junto com a minha parceira, Greta Garboreta, ficamos uns bons minutos apenas ouvindo e nos deliciando… Trabalho duro esse, não?

equipe musical

Junto conosco uma pequena multidão se formou no balcão de enfermagem da Cirurgia Pediátrica. O tempo deu uma parada. Seus colegas internos não sabiam do talento de seus pares. Os pacientes, adultos e crianças não imaginavam que futuros médicos também podiam se divertir durante o trabalho.

Mal sabem os estudantes-músicos, ou talvez saibam inconscientemente, que aquela quebra na rotina pode ser inibidora de estresse e, consequentemente, geradora de uma melhor relação com pacientes e professores que por lá circulam. 

equipe musical

  1. Equipe musical, mas não tanto.

Na UTI ela já é conhecida como “Tomatinho”. Na verdade, trata-se de uma auxiliar de Enfermagem que se vê como compositora e intérprete.

É só ela começar a cantar que o tempo fecha, as nuvens se carregam e suas colegas fogem de perto dela. Não se sabe o que incomoda mais, se é a melodia descompassada ou a letra estapafúrdia.

Pra resumir, a nobre composição relata a triste história de um pobre tomatinho que virou ketchup. Ninguém aguenta mais. E como ela sabe disso, ela canta, ela canta! E o povo foge, rindo, rindo. 

equipe musical

É, minha gente, a concorrência para nós anda quente por aquelas bandas. Estudantes com talento para o canto, auxiliares de Enfermagem com talento para o humor… Tá tudo certo! Quem ganha são as crianças!

Dr. Zequim Bonito (Nereu Afonso), direto do Hospital Geral do Grajaú, em São Paulo.

Os dois lados da mesma esquina

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Lado 1.

Estávamos Dra. Greta Garboreta e eu, Dr. Zequim Bonito, prestes a encerrar nossa rotina de trabalho. Estávamos virando a esquina do último corredor que nos levaria de volta à salinha onde nos desfazemos de nossas personalidades de palhaço para voltarmos a ser gente normal, se é que gente normal existe.

dois lados

Antes de virar a esquina do último corredor, as moças da recepção pediram uma foto. 

Clique, clique, flash e lá estávamos nós registrados em mais um celular. Ou então em uma página de Facebook, onde seremos uma foto compartilhada, curtida, comentada, criticada, ridicularizada, insultada, venerada, ou simplesmente ignorada. E assim a vida segue seu fluxo. 

Lado 2.

Depois da foto estávamos, agora sim, prestes a encerrar nossa rotina de trabalho. 

- Palhacinho! Palhacinho!, ouvimos de longe.  

Vimos logo de cara que a solicitação era de outro teor. Teria sido tão melhor se fosse apenas mais uma foto. Mas não era. A mulher que nos chamava estava aos prantos. Ela saíra desnorteada do elevador, acompanhada por familiares, todos visivelmente muito abatidos. 

Começava ali um daqueles momentos que nos pegam de calça curta. Não era a primeira vez que acontecia. Já vivemos situações parecidas em outros hospitais, com outros familiares, com outros palhaços e, com mais ou menos traquejo, a cada vez que tal situação aconteceu tivemos que lidar com o vazio que invariavelmente ela nos impõe. O indizível vazio que a finitude nos reserva.

- Palhacinho, o meu neto morreu! 

Houve um silêncio.

- Palhacinho, o meu neto morreu! O meu neto. Vocês conheceram ele, lembra? 

Nós já sabíamos da notícia. Tínhamos estado na UTI no começo de nosso dia de trabalho, antes da chegada dos pais e acompanhantes. Naquela hora, só estavam presentes na UTI os profissionais da equipe de saúde cujos semblantes também estampavam as sequelas do vazio

dois lados

O caso do menino era grave. O nome complicado da doença, sua complexidade e agravantes não tinham a menor importância naquele momento. Para aquela avó, ali, agora, só existia o vazio e o mais que justificado descontrole emocional que ele causa, sobretudo quando esse vazio é deixado pela ausência de uma criança.

- Palhacinho, me dá um abraço! 

Houve outro silêncio, desconcertante. 

De repente, diante dessa solicitação concreta, extraída com inacreditável força e nitidez daquele turbilhão de dor, o vazio foi momentaneamente rompido. Com um gesto simples e sincero nosso abraço foi dado, partilhado com aquela avó. Não falamos nada. Nada de que lembramos, pelo menos. Só ouvimos.

- Obrigado, palhacinho. 

E depois voltaram os prantos, o turbilhão de dor e, se a vida seguir seu fluxo, o começo do luto.

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Dr. Zequim Bonito (Nereu Afonso)
Hospital do Grajaú – São Paulo

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Mas aqui vocês têm de tudo

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Se nós, besteirologistas, fôssemos gênios e pudéssemos conceder três desejos às mães que atendemos, esses seriam:

1º: ALTA
2º: ALTA
e 3º ALTA

Eu, Dra. Greta, já expliquei mil vezes que fui reprovada nesse exame porque meço somente 1,48 cm, mas elas insistem. O Dr Zequim acabou remediando a situação, em pelo menos um dos quartos, utilizando um método bem besteirológico:

Olha, eu vou ajudar vocês! Eu coloco essa escadinha que fica do lado da cama no meio do quarto, a Greta finge que é alta e vocês fingem que vão sair, ok? – ele faz o que disse.Fotografia da dupla dos Doutores da Alegria Sueli Andrade e Henrique Glomer no Hospital do Mandaqui.

Greta (em cima da escadinha): É o seguinte, tá todo mundo liberado, podem ir embora, área pra todo mundo, podem pegar o beco! Via! 

Nesse quarto a metodologia tem funcionado muito bem. Outro método que usamos é o de provar que em casa a vida é muito tediosa, já no hospital é adrenalina o dia todo. A mãe da F. foi a primeira a admitir nossa tese:

Mãe: Vocês têm razão, isso aqui é um vidão, pura emoção, passo a noite matando pernilongo, limpo cocô quatro vezes por noite, choro um monte mesmo não tendo mais lágrimas, brigo com a enfermeira…

Fotografia da dupla dos Doutores da Alegria Sueli Andrade e Henrique Glomer no Hospital do Mandaqui.

Eu vou dizer uma coisa, a gente faz de tudo para conformar essas mulheres. O Zequim usa de toda sua educação quando alguém diz que vai embora:

Mas por que vocês vão embora? Aqui vocês têm tudo, é tudo de graça! Água de graça, luz de graça, comida de graça… 

E uma mãe emenda: Gastrite de graça, nervoso de graça, cansaço de graça, insônia de graça, angústia de graça!

Eu sou mais respeitada nesse quesito, pois quando vejo que alguém está de saída, vou logo dizendo:

- Eu gostaria de fazer as últimas recomendações, desejo que vocês sejam “bem idos” e eu nunca mais quero ver a cara de vocês por aqui!!

E, ufa!, pelo menos por enquanto as recomendações estão sendo imediatamente acatadas.

Dra. Greta Garboreta (Sueli Andrade) e Dr. Zequim Bonito (Nereu Afonso) 
Hospital do Grajaú – São Paulo

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Na escada

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A história seguinte provavelmente já foi vivida mais de uma vez por cada um dos palhaços que trabalham nos Doutores da Alegria. Bastaria mudar alguns detalhes, localizá-la em outro hospital, em uma outra época do ano, com pacientes com outro diagnóstico e lá estaria a repetida história. É que ela acontece sempre! E dessa fez não foi diferente.

Dr. Charlito e Dr. Zequim Bonito saíam de um dos setores da UTI do Hospital do Grajaú quando, no outro setor, um pai muito mal encarado andava de um lado para o outro. Seu olhar desviava do chão para o rodapé e do rodapé para o chão.

na escada - nina jacobi

Como todos os pacientes daquele setor estavam dormindo naquela hora, e aquele homem não parecia querer acolher nada nem ninguém, simplesmente continuamos nosso caminho e saímos da UTI.

Na semana seguinte, mesmo cenário, mas dessa vez conseguimos identificar qual paciente ele acompanhava: uma menina pequena de 18 meses, conhecida nossa, cujo quadro, apesar de estável, parecia bastante grave. Evitamos o encontro mais uma vez. As semanas seguintes não foram diferentes.

É evidente que “cara de poucos amigos” é um julgamento nosso. A pessoa tem o direito de ter ou fazer a cara que bem entender. Às vezes, em uma situação como a que aquele pai enfrentava, aquela cara era a única opção de cara que lhe restara.

Até que um dia, depois de encerrado o trabalho, quando descíamos as escadas internas do hospital, sem o figurino e a maquiagem que nos caracterizam, percebemos a presença dele atrás de nós. Dr. Zequim Bonito (que agora era o ator Nereu Afonso) virou-se e, sem pestanejar, perguntou: 

- Na UTI ainda? 

- Ainda, ele balbuciou nos deixando ouvir pela primeira vez sua voz.

Nereu respondeu com uma banalidade tremenda, do tipo puxa!, uma hora se resolve, né?”.

- É…, disse o homem. E seus caminhos se bifurcaram. Um saindo do hospital, outro ficando.

na escada - nina jacobi

Na semana seguinte, aquele esboço de diálogo deu margem para nosso primeiro encontro com aquele homem, dessa vez como palhaços, na UTI. Perguntamos se podíamos entrar.

- Podem.
– A música incomoda?
Não.

A filha permanecia entubada, e menos agitada do que outras vezes que a vimos sem o pai. O homem deu um beijo na filha, e dali não ergueu mais o rosto. Ficou colado junto à menina, fazendo-lhe um carinho com seu rosto sério. Quando vimos a lágrima escorrer no rosto do homem, nos afastamos. Sabíamos que a música ali, junto com todos os sentimentos que já lhe atravessavam o espírito, traria outras lágrimas ao homem. Nossa intervenção já estava de bom tamanho.

Na outra vez em que nos encontramos, ele estava no corredor conversando com outro pai. Passamos rápido com apenas um “oi” para não interromper. Andamos dois passos e demos meia-volta.

- Incomodo?, perguntou o Dr. Zequim Bonito.
- Incomoda. – respondeu, não o homem, mas o Dr. Charlito - Não está vendo os cavalheiros conversando, sua anta?

na escada - nina jacobi

E Dr. Zequim responde a seu colega besteirologista, bem no meio dos dois homens:

- Foi justamente pra não incomodar que perguntei se eu incomodava. E por que vi que estavam conversando, perguntei se eu incomodava com um tom de voz mais alto do que o deles, para eles poderem ouvir o meu algo grau de educação ao perguntar se incomodava, porque se eu achasse que não incomodava eu já começava a falar sem ter a educação de perguntar primeiro se eu incomodava, entendeu?

Nessa altura, a conversa dos dois homens não existia mais. E, para nossa sorte, eles foram fisgados pelo absurdo de nosso diálogo e passaram a seguir os argumentos estapafúrdios que cada um de nós emitia.

Bom, as visitas seguintes foram cada vez mais conviviais apesar do estado da garota continuar preocupante. Continuamos absurdos em nossas intervenções porque aquilo parecia intrigar e interessar o homem. Depois dessas visitas, podemos dizer que mais um encontro improvável acabou se consumando.

E, como disse antes, isso não é novidade em nosso trabalho. O que talvez seja novidade é pensar que não foi exclusivamente nossa arte palhacesca que conseguiu “dobrar” aquela carranca.

O que nos aproximou foi talvez o fato de termos nos encontrado naquela escada, ele longe da UTI e nós como cidadãos comuns. Naqueles poucos segundos, estávamos todos munidos de nossas indisfarçáveis diferenças. Nós, sabendo que ele está atrelado ao hospital, à doença, e à esperança de cura de sua filha. E ele, sabendo que nós podíamos ir e vir ao hospital em virtude do simples fato de termos um horário de expediente.

Ali, naquele primeiro encontro na escada, éramos apenas seres humanos, atrapalhados apesar de não estarmos de palhaço, frágeis ao não saber muito o que se dizer face à gravidade da doença de outro ser humano, um ser humano que para nós é mais um paciente, e para aquele pai é um ente muito querido, talvez o mais querido de todos naquele momento: sua filha hospitalizada em estado grave.

Dr. Zequim Bonito (Nereu Afonso)
Hospital do Grajaú – São Paulo

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7 passos em falso

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“Dr. Charlito, você deveria riscar o dia 8 de julho de 2014 do seu calendário e fingir que ele nunca existiu.” 

Era uma vez o dia 8 de julho

Essa foi a sugestão do Dr. Zequim Bonito depois de uma série de trapalhadas vividas por seu parceiro. Pra começar, antes mesmo de chegar ao hospital, Charlito já acumulava um punhado de contra-tempos.

1.  Primeiro, uma real pane de despertador o fez sair atrasado de casa.

2.  Como se não bastasse, errou a direção da  linha do metrô. Sonolento e abobalhado dirigiu-se para o Itaci, seu antigo local de trabalho, ao invés de seguir para o Hospital do Grajaú, seu atual local de trabalho.

3.  Quando percebeu o erro, tentou voltar. Quis passar por baixo de uma cancela na estação Paulista-Consolação para ganhar tempo. Passou o pescoço, a cabeça, a primeira perna e, por falta de sorte – ou de habilidade – quando faltava passar a segunda perna, enganchou a alça da mochila na haste da cancela e ficou ali, preso e pendurado por uns bons instantes aos olhos dos passantes apressados.

4.  Bom, acabou se livrando, não sem uma boa dose de constrangimento, e pegou o metrô certo. Chegou ao hospital e, ai ai ai, cadê o crachá? Pois é, ele esqueceu.

5.  Foi liberado graças à autorização do departamento de Humanização. Finalmente poderia entrar na salinha-vestiário. Hé hé hé, poderia, se não tivesse perdido a chave.Era uma vez o dia 8 de julho

6.  Santo Anderson, nosso fiel escudeiro da Humanização, providenciou uma nova chave. Entramos na salinha-vestiário. Nos trocamos, maquiamos, aceleramos e recuperamos o tempo perdido até ali. Agora sim, o trabalho vai começar. As crianças estão esperando. Os pais e funcionários também.

Vamos?, eu pergunto. Vamos!, ele responde.

Giramos a chave e, para completar os pepinos daquela manhã, a chave quebrou-se ao meio, bela e bonita, dentro da fechadura. Estamos presos, socorro! Tirem-nos daqui!

Era uma vez o dia 8 de julho

Charlito desespera-se, corre de um lado para outro. Ajuda, ajuda! E, alguns minutos depois, a equipe de manutenção, após uma breve confabulação, simplesmente decide retirar a porta inteira de seu batente para liberar o pobre Dr. Charlito e seu desamparado parceiro, o Dr. Zequim Bonito. 

Era uma vez o dia 8 de julho

7.  A essa altura, o hospital inteiro já estava sabendo do drama vivido pela dupla.

“Charlito, o dia mal começou e você acumulou um transtorno atrás do outro. E eu que não tinha nada a ver, estou caindo de gaiato nas suas desventuras. Não está achando esquisito esse dia?”

Dr. Charlito não tinha forças para responder ao Dr. Zequim. Só lhe restavam esperanças de que as coisas melhorassem para ele e, por consequência, para seu parceiro. Faltava somente solucionar a questão do almoço, já que sem crachá não se entra no refeitório.

Pronto, excetuando-se esses 7 passos em falso, o dia do Dr. Charlito seria normal dali para frente. 

Ah, claro, um último fato ainda ocorreu naquele dia.

No avançar da tarde, um placar de 7 x 1 brilhou no placar do estádio do Mineirão. Mas, comparado com os atropelos vividos pelos palhaços, aquilo era fichinha.

Dr. Zequim Bonito (Nereu Afonso)
Hospital do Grajaú – Julho de 2014

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