Por uma palhaça

Ela queria ser palhaça. Até já tinha lido muita coisa sobre isso e sempre ia aos circos ou espetáculos, admirar e dar gargalhadas. Essa vontade não era de agora, dessa parte da sua vida. Quando botou sua mente para produzir lembranças, lembrou-se que quando criança sua brincadeira preferida era estender uma tenda no quintal, juntar seus amigos e brincar de circo! A vida foi passando e ela conseguiu chegar perto: tornou-se dançarina e depois de algum tempo escolheu ser atriz.

No emaranhado do teatro vestiu vários personagens, e como toda atriz no início de carreira sonhou com o seu rosto estampado nas capas das revistas. Foi entendendo o teatro no seu lado mais sublime… E quando finalmente entendeu o sentido da arte na sua vida? Quando se deparou com o seu ser palhaça. Como num sonho, onde as coisas são meio anuviadas, começou a enxergar as coisas simples e trazê-las para o absurdo do seu mundo.

Então sonhou acordada e redesenhou a sua vida, assim:

Num grande circo de lona bordada, ela entrou e quando olhou para o picadeiro não acreditou no que via! Numa cadeira estava estendido um vestido bem curto, cor de rosa com listras cinza. Ao lado tinha uma gravata amarela pequena. No chão tinha uns sapatos pretos (observou que ele era maior que o seu pé) com umas meias de cor amarelo. E em cima de uma penteadeira estava uma redinha dessas de embalar laranja, com umas presilhas ao lado. Ali também estavam uns grandes óculos, sem lentes. Ainda estava admirando tudo, quando enxergou uma pequena caixinha do outro lado do picadeiro, que brilhava, e correu para abri-la morrendo de curiosidade. Dentro da pequena caixa tinha um nariz de palhaço! Então entendeu tudo. Era um convite. Escutava vozes que diziam: sua vez!

As arquibancadas estavam vazias, mas as vozes encheram o grande circo e ela sem hesitar, vestiu-se e foi ao espelho. Então colocou o nariz.

Passou horas se olhando no espelho e pensava: “mas como faço para ser engraçada”?
De repente apareceu um outro palhaço. Percebeu que ele já tinha percorrido um longo caminho e que com certeza tinha feito muita gente rir. O palhaço falou:

– Quem é você, palhaça?
– Não sou palhaça. Encontrei essas coisas aqui e…
– Quer aprender a fazer rir? Disse ele.
Ela balançou a cabeça afirmativamente. Então ele falou:
– Você tem que se matar.

As luzes se apagaram e somente o picadeiro estava iluminado. Nesse momento as arquibancadas lotaram, tinha gente de todas as idades. O palhaço pegou o microfone e disse:

– O que você vai fazer?
– Eu vou me matar, respondeu ela.
– Vai o que?
Ela falou:
– Vou me matar!

E tentou várias mortes (como um palhaço se mataria?): se jogar no chão, imaginar uma corda a enforcando, sentir seu coração estrebuchando na mão, mas, nada acontecia! Então ela simplesmente gritou:

– Eu vou se maaaaaaaaatar!

E de novo ele perguntava e ela respondia, e as pessoas começaram a rir, a rir…
Então ela sentiu seu corpo inteiro vibrar, ainda não sabia, mas estava no “estado” de palhaço, o que garantia um passo para o seu divertimento e o dos outros.

A palhaça então, viria a nascer ali, naquele exercício, através de sua forma de morrer e o seu jeito de dizer que vai se matar. A morte foi o seu passaporte para essa outra dimensão. Sentiu vontade de rir também, rir de si mesma, do ridículo que parecia toda aquela situação, rir do seu desespero de tentar fazer rir… Mas os risos vieram e dali por diante tudo ficou mais tranqüilo, e o que queria agora era ficar ali, exposta, divertindo os outros, sendo palhaça.

Então o palhaço disse:

– Agora pode ir.

E de repente todos sumiram, e a grande lona agora era o próprio céu estrelado. Ela, ainda vibrando, continuou o desenho da sua vida e foi fazer rir em outras paragens – precisamente o hospital!

E no seu caminho conheceu muitas pessoas que a ensinaram coisas sobre o sentido da vida. E algumas vezes, a morte, personagem forte, apareceu e lhe disse:

– Eu também sou lúdica. Veja como sou bonita!

De repente sua vista anuviou-se de novo e enxergou a beleza da morte. Ela estava vestida com um manto bordado igualzinho à lona do grande circo. E trazia consigo um vaso com uma plantinha verdinha e pequena.

Lembrou-se então do seu primeiro contato com o óbito de uma criança no hospital, que se deu de uma forma, segundo ela, lúdica. Sim, pois para o palhaço o lúdico está em toda parte, e em qualquer situação, a ludicidade pode se fazer presente.

Observou que no lugar onde deveria estar a criança, havia outra, menor, que acabara de nascer. E pensou: “como a vida circula!” Então começou a encarar a morte de outra forma: “é como uma planta que precisa morrer pra dar lugar a outra.”

E foi percebendo que a morte, senhora que põe medo na gente, faz parte do seu dia-a-dia, e por que não tirar partido dela?

Então um belo dia seus óculos caíram e se quebraram. Resolveu fazer o velório dos óculos e tocou a marcha fúnebre, para o deleite de quem via, que se admirava com a sua coragem. No geral ninguém quer tocar uma marcha fúnebre! Mas depois que resolveu ser palhaça, tudo se tornou possível.

Algum tempo depois, nessa sua nova estrada onde o picadeiro transformou-se em enfermarias, conheceu um menino que disse:

– O que faz aqui? Você não é médica, é palhaça!

E a cada tentativa de comprovar a sua autenticidade de “médica”, fazia uma nova trapalhada, claro… E todos diziam:

– Palhaça, palhaça!

Então, subindo numa escadinha falou:

– Eu vou se mataaaaaaaar!

E as mães bolavam de rir… Outro menino então, se colocou na sua frente e trocando de lugar com ela, subiu na escadinha e disse:

– Eu também vou!

“Ah, que maravilha, ele entendeu a brincadeira!”, pensou. Trocaram de lugar algumas vezes e ao som de música resolveram esquecer as mágoas. Desistiram de morrer. A morte então, como sempre, toda iluminada, acenou num tchau comovente.

Dizer que vai se matar, claro, de uma forma toda especial e engraçada, passou a fazer parte do seu repertório de palhaça e sempre que a ocasião permite tira proveito dessa frase tão demasiadamente absurda.

Um dia ao se despedir do menino que brincara com ela de se matar, começou a chorar, fazendo o maior estardalhaço*, e se pendurou em um porta-sôro vazio e disse:

– Não vai embora não, fica, aiaiai, eu vou se mataaaaar!

Então as mães falaram:

– Agora ele riu!

Então não se conteve, deu altas risadas, nesse momento, olhando pros seus pais, que também riam, riu da sua apelação, riu das risadas dos outros, e resolveu comemorar sua partida mudando de idéia:

-Tá bom, vá embora e não me apareça mais aqui!

Três anos após o primeiro “eu vou se mataaaaaaaar”, ela voltou ao “grande circo” e encontrou lá o menino.

– O que você vai fazer hoje à noite? (essa é uma pergunta de palhaça para um lindo pretendente)

Ele respondeu:

– morrer.

A arquibancada, dessa vez, lotada de mães, respirou junto num suspiro, que se transformou num profundo silêncio. Ela olhou pro menino e disse:

– Ah, posso morrer com você? Podemos fazer Romeu e Julieta**!

Então, as pessoas de novo relaxaram e sorriram. Inclusive ele, que demonstrava: “ai, ela não desiste!”
Continuou então na investida, sem saber muito bem onde isso iria dar. Puxou a sua enorme calçola do bolso e falou:

– Então pegaremos o lenço e diremos – adeus, mundo cruel! Adeus!

O menino caiu na risada. Ela não sabe o que ele pensou, mas teve certeza que não poderia ter feito diferente – havia conseguido ser cúmplice do menino nesse seu devaneio, assim como ele, anos antes, tinha sido, seu.

Olhou ao redor procurando a sua outra cúmplice, a morte. Percebeu então que ela não estava ali para brincar com eles. O palhaço também não estava e num piscar de olhos não estavam nem o menino, nem as arquibancadas, nem o público.

Olhou para cima na esperança de ver a grande lona bordada, mas enxergou no lugar dela, novamente, um manto de estrelas. Então pensou: “O que desenho agora”?

Entendeu, porém, que nessa sua pequena trajetória de palhaça havia acontecido vários milagres. Resolveu continuar seu caminho sem se preocupar muito com o desenho em que a vida ainda se transformaria. Enxergou uma fronteira entre a vida e a morte e decidiu que passaria por ela inúmeras vezes.

Enne Marx
Dra.Mary En:>)

(todos os meninos são pacientes que a Dra. Mary En encontrou no Hospital da Restauração)

*Estar dando uma de palhaço
**Inicialmente, personagens de Shakespeare, dramaturgo inglês. Depois, se transformaram num recheio famoso para pastéis.