Muita coisa aconteceu em novembro, mas vamos lá, tentemos ser justos, senão com tudo o que nos ocorreu, pelo menos com aquilo que mais nos marcou.

E o que nos marca sempre é o óbito.

Como na pediatria do Hospital do Grajaú a morte não é tão frequente (ainda bem!), a cada vez que ela dá suas caras, ela espanta. E, pelo jeito, sua presença não toca somente a nós, mas toca com relativa profundidade outros profissionais que com ela se deparam mais habitualmente.

Diante disso, resolvemos investigar.

Partimos em busca de respostas à seguinte pergunta: “Como você, no seu trabalho, lida com a morte de um paciente?”.

As respostas nos pareceram as mais sinceras possíveis. Ficamos sensibilizados pela disponibilidade de alguns profissionais da saúde dedicarem uns poucos minutos de seus plantões para refletirem junto com uma dupla de palhaços os problemas relativos a esse evento inexorável que nos diz respeito a todos.

Percebemos que, se por um lado, todos os profissionais são altamente treinados a lidar com a morte de um ponto de vista técnico e que estão mais do que familiarizados com os protocolos médicos relativos ao óbito, por outro lado, segundo eles mesmos, pouca – ou nenhuma – reflexão acerca da perda, da partida, do luto e de tudo o que cerca o tema da morte é estimulada nos cursos de Medicina, de Enfermagem… e nem nos hospitais.

Constatamos que cada qual inventa suas estratégias individuais para lidar com as eventuais emoções que a perda de um paciente possa causar.

Médicos, enfermeiros, auxiliares, fisioterapeutas nos disseram comovidamente coisas do tipo: “Estou triste porque tem uma paciente que vai morrer hoje”; “Éramos tão apegados a um paciente que, quando ele morreu, nos aconselharam consultar a psicóloga”; “Por estatística, eu sei que no meu setor perderei 20% dos meus pacientes”; “Sou sensível às perdas, mas tomo cuidado com o assédio dos familiares, caso contrário me arrancam pedaços”; “Quando eu era jovem, só pensávamos em salvar, salvar, salvar, e era uma questão de honra entregar todos pacientes vivos na passagem de plantão”…

Uma coisa é certa: emoções nos atravessam independente da profissão que exercemos, afinal somos todos de carne e osso. Podemos ser mais ou menos resistentes, mais ou menos blindados pela carcaça do tempo, mas no final das contas somos todos humanos, portanto, sensíveis. E é justamente essa sensibilidade que nem sempre parece ser levada em conta no nosso treinamento profissional.

Nós mesmos, artistas dos Doutores da Alegria, nos deparamos com tal lacuna de formação e informação. Então, aos poucos, com nossos meios, tentamos criar em nossas reuniões o tempo e o espaço para que tal sensibilidade viesse à tona. A palavra aberta e a escuta franca sobre o assunto geram certa cumplicidade, amparo e – por que não? - alívio dentro do grupo. Outras vezes encontramos uma solução provisória ao transformarmos artisticamente nossas inquietações sobre a morte em cenas que mostramos nos teatros.

Outras vezes ainda, é através de relatórios como este que dividimos nossas apreensões e descobertas.

Nereu Afonso (Dr. Zequim Bonito)
Vera Abbud (Dra. Emily)
Hospital do Grajaú