Vera Abbud
primeira palhaça e atuante até hoje

Há 21 anos eu estava exatamente no camarim do teatro Itália depois do espetáculo “Uma rapsódia de personagens extravagantes”, com direção de Cristiane Paoli-Quito e Tiche Viana. Era um espetáculo de palhaço e Comédia dell ‘Arte. Naquele tempo pouquíssima gente ligava para essa linguagem. Havia a Cida Almeida, os Parlapatões que iniciavam, o Gabriel Vilela e a Maria Helena Lopes que já trabalhavam com a linguagem – desculpem se esqueço alguém, são 21 anos! – e tinham feito espetáculos belíssimos, mas isolados.  

Pois bem, terminado o espetáculo, rompe pela porta do camarim um camarada de colete verde, alegre e muito entusiasmado falando sobre um programa que ele queria abrir no Brasil de palhaços em hospital. Falou que tinha morado anos em Nova York, trabalhado no Clown Care Unit, como palhaço em hospital e que gostaria de fazer teste com palhaços que estivessem interessados nesse projeto. Ele tinha ideia de remunerar os atores e quem sabe fazer um intercâmbio com o programa americano! 

Nesta época eu estava completamente arrebatada pela linguagem do palhaço, foi uma mudança de rumo sem volta. Queria fazer algum trabalho regularmente como palhaço, mais do que as duas horas de espetáculo por fim de semana. Pensava em ir para uma praça, um zoológico e a ideia de ir para um hospital duas vezes por semana era muito tentadora. 

Se espetáculos de palhaços eram raros, palhaço em hospital inexistia. Nada, nem um referencial. O Wellington foi extremamente pioneiro. Chegou ao nosso espetáculo pois não sabia onde procurar palhaços por aqui. Não havia escolas, cursos específicos estruturados. Achou no jornal a notícia de um espetáculo de palhaço e foi assistir. Fomos fazer o teste prático. Ele disse: preparem uma cena como alguma paródia de rotinas médicas. Preparei: levei jujubas como uma forma de pílula. Ao vê-las ele disse não podíamos dar alimentos para as crianças… E a minha rotina foi por água abaixo! 

Fomos trabalhar em dupla, Wellington e eu, sem nada preparado por mim. O Wellington tinha uma sacola de onde saía de tudo, mas foi na UTI com uma brincadeira com as torneiras automáticas que fui admitida como dupla do Wellington, que já trabalhava sozinho há três meses. O nome Doutores da Alegria ainda não existia. A sede era na casa da Dona Benvinda, mãe do Wellington. Não havia e-mail. Usávamos papel carbono e máquina de escrever. 

Deste dia até hoje mal consigo dimensionar o que na minha vida foi modificado. A proximidade com as crianças, pacientes, profissionais da saúde, pais, palhaços, com a maternidade e com os extremos da vida, modifica a todos que passam por um hospital. Aprendo sempre e não é uma frase de efeito. A sensação é de um mergulho. A arte transforma. É um trabalho pequeno, de pessoa para pessoa. Como quando em roda com outros palhaços de hospital, dividimos nossas histórias, fortes, delicadas, às vezes engraçadas, às vezes não. Por esse trabalho tenho enorme respeito, cuidado e amor. A todos e a tudo, obrigada. 

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