Todo artista tem seus mestres. A arte do palhaço, como tantos outros ofícios, se ensina de pai pra filho, de mestre para discípulo. Desde 1996, os Doutores da Alegria realizam encontros periódicos com artistas de linguagens diversas como forma de oferecer aprimoramento contínuo a seus palhaços.
Michael Christensen, criador do Big Apple Circus’ Clown Care Unit, nos Estados Unidos, foi o primeiro mestre da série. Michael veio aportar sua experiência pioneira, seu conhecimento sobre a arte do palhaço e a besteirologia e o olhar generoso de quem há anos trabalha com palhaços e com crianças, de profundo conhecedor da técnica e da alma.
Logo veio o André Riot-Sarcey. Como bom mestre, começou do início. Nascemos de novo, no ano de 1997, sob a tutela desse palhaço que nos acolheu, nos embalou, ressignificou para nós a máscara de maneira inesquecível. André dizia que o nariz vermelho ressalta os olhos. Ao olharmos um palhaço com nariz vermelho, não é para o nariz que olhamos, mas para seus olhos. E os olhos são espelhos da alma. Não por acaso, os dez dias de imersão propostos pelo mestre tinham como nome “O clown e sua música”. André nos ensinou a escutar o gesto, a dançar com a respiração. E a olhar, sempre.
Mais uma imersão com André em 1999. A importância do retiro como período de hibernação para semear o ano; plantar, antes de colher, não foi jamais questionada. Mas nem sempre era fácil imaginar essa total disponibilidade dos artistas. Foi preciso ser flexível para conceber novos encontros, com outros mestres, outros tempos, outros formatos.
Chacovachi, Leo Bassi, Cristiane Paoli-Quito, Ricardo Pucetti, olhares que contribuíram e contribuirão sempre, que ensinam, revelam, transformam em palavras sábias nossos sentimentos, nossas dúvidas e intuições.
Em 2006, Leris Colombaioni, filho do grande Nani Colombaionni, além de cascatas, bofetadas e trombadas contra parede, ensinou que ouvir histórias, ouvir as suas experiências e compartilhá-las é um modo de pertencer.
Em 2007, foi o momento de reencontrarmos o grande mestre. O pioneiro, o criador da besteirologia. Michael Christensen volta ao Brasil para comemorar seu 60º aniversário ao lado de seu amigo, irmão, parceiro e discípulo Wellington Nogueira e dos palhaços dos Doutores da Alegria. Três dias foram suficientes para que Michael fizesse aquilo que fazem os mestres: ensinar, revelar, transformar em visível o invisível. Dar sentido. Significar. Ressignificar: eis o dom dos mestres poetas. Michael ressignificou o palhaço, o palhaço-besteirólogo, os cruzamentos entre vida e trabalho, o encontro com Wellington. Ofereceu-nos toda sua trajetória, nos incluiu nela, nos fez pertencentes: recriou a nossa tradição, revelou a nossa ruptura.
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