Se pudéssemos tomar uma pílula supersônica que nos transformasse em moscas para que pudéssemos acompanhar o trabalho de uma equipe de besteirologia, eu enquanto cronista estaria demitida…

Mas ainda bem que a medicina ainda não avançou a esse ponto! É uma pena que minhas palavras não sejam imagens, não sejam sorrisos, sustos, olhares enviesados, desconfiados… uma pena que não possam, por exemplo, falar entre os dentes, como a paciente do CCI, que cochichava:

“Mãe, que é isso? Eles te colocaram um nariz vermelho, tão te chamando de palhaça!…”

Um jogo entre observar e ser observado, ser espontâneo mas ter o sensor em relação aos acontecimentos externos ligeiramente dilatado.  Ufa, se o trabalho fosse sempre assim… se a vida fosse sempre assim!

O palhaço é um sedutor. O que queremos com o trabalho não é impor à criança o humor, a alegria, para provar que ela é capaz de rir, de ser saudável etc. O que queremos é muito mais cortejá-la, convidá-la a ser parte de uma dança onde vamos encontrar juntos a pulsação da música.

Se pudermos dançar perfeitamente, com ritmo adequado e passos justos, ótimo. Mas se errarmos, tentaremos não parar a dança, pois temos outras artimanhas para que o erro não tome grandes proporções. Tentamos reverter a fragilidade em força, temos um pacto com nosso parceiro de dança.

Nem sempre é fácil. Criança é criança, e o limite às vezes se perde…

Beatriz Sayad
Dra. Valentina Mosquito
Hospital Jesus
Setembro de 2004