M A R A C A T U – Take me into your world!

Le Rire Mèdecin e Doutores da Alegria viveram a aprendizagem da sensibilidade. Aprendemos coisas uns com os outros, na relação. E com confiança e admiração, trocávamos os nossos tesouros. Uma coisa é certa: nós promovemos boas misturas. Palhaços brasileiros e palhaços franceses: maracatu, samba musete, e enfim, A “garota de Ipanema” iria mesmo cantar “La Vie en Rose” em ritmo de samba!

MIOLINHO MOLE – O humor do palhaço está no coração… No Miolinho nossos batimentos se encontraram.

O carnaval é o espaço apaixonante onde livremente as pessoas se expressam e extravasam. E como fazer o carnaval adentrar o espaço-hospital?

Já fazemos o bloco do “Miolinho mole – o bloco mais bobinho do mundo” há três anos nos hospitais que atuamos. O Miolinho, que surgiu a partir do Bloco do miolo mole – o bloco mais bobo do mundo, uma ação criada para compartilhar o nosso trabalho com toda a sociedade recifense, não podia ficar fora do intercâmbio. Queríamos compartilhar com o Le Rire essa experiência, que tanto reforça a nossa identidade pernambucana. O grupo francês não se fez de rogado e até aprendeu a tocar e cantar algumas marchinhas de carnaval. Então, 25 palhaços chegaram munidos de muita alegria e música para fazer o carnaval no hospital Oswaldo Cruz – carnaval fora de época, diga-se de passagem.

Para nós foi uma dupla surpresa: primeiro ver as crianças e o povo do hospital no clima carnavalesco, mesmo que já não fosse carnaval, e depois ver os franceses suando a camisa, pulando carnaval, cantando “alalaô” e se divertindo como ninguém!

O dia do Miolinho é um dia especial e atípico. O atendimento não é feito pela dupla e individualizado, mas ao contrário, atinge todas as pessoas que estiverem passando, pacientes ou não, dispostas a brincar, com todos os palhaços juntos. O hospital todo se enche de festa e beleza. Aqui, a nossa tão falada “linguagem do palhaço” atinge o seu ápice – sem fronteiras, sem desigualdades ou preconceitos. Ver um paciente segurando o seu soro, cantando, dançando, olhando pra vida e lutando por ela, é algo impagável.

No Miolinho aproveitei para me encher de orgulho e nada falar, mas olhar pros nossos amigos franceses e convidá-los para essa “bagunça gostosa”, onde paralelamente acontecem mil encontros e como num roteiro, uma grande rede dramatúrgica se constrói a partir desses encontros. São tantas trocas de olhares, tantos sorrisos dispensados, abraços, disposição, que por breves instantes me pergunto: “estamos mesmo em um hospital?” e penso “como seria um bloco de carnaval num hospital de Paris?”

CABARÉ SAMBA-MUSETE: Receba as flores que eu te dou…

Ensaiamos o Cabaré em três dias. Patrick e Margot fizeram uma direção artística. Música francesa e brasileira, cenas e números, passagens do “Chaochi”. A fila estava grande fora do teatro e algumas duplas trabalharam no improviso com o público enquanto esperavam para entrar. Os improvisos se deram de forma muito divertida, o público admirado, olhando os franceses e revendo os palhaços brasileiros. Muitas crianças – e com o Cabaré tivemos certeza que o nosso público é fiel, comparece. Eu e Brócoli pudemos trabalhar juntos novamente e foi tranqüilo, a gente já se entendia. O Cabaré foi um lindo presente para o nosso público, mas sobretudo para nós mesmos. O ano da França no Brasil foi rico por essas bandas, e o público recifense ganhou 25 palhaços cantando a música de ninar “Elephanteau”, um dos pontos mais emocionantes do espetáculo. A tônica do espetáculo foi o amor. Regado de amor e poesia, o Cabaré finalizou o nosso intercâmbio com chaves de ouro.

NO HOSPITAL – o lugar máximo da troca. Escuta significada.

Mary En (Doutores da alegria Recife), Lola Brígida (Doutores da alegria São Paulo) e Brócoli (Le Rire Mèdecin): Hospital Imip – HGP

Toda primeira vez implica em: Desafio. Estávamos os três numa ala nova, nos conhecendo e cheios de vontade de jogar. Então tudo era novo. Os palhaços, as pessoas, as enfermarias – triplo desafio.
Duas palhaças brasileiras e um palhaço francês. Bem, as duas falam português, dois falam francês, os três falam inglês. Ok. Mas nem uma das linguagens foi vastamente utilizada. O que aconteceu foi que trabalhamos no campo do “não-verbal”. Esse lugar foi bastante falado nas rodas de conversa, e claro, nos primeiros dias, ainda não tão claro, principalmente para os palhaços anfitriãos, que tinham a preocupação de receber os franceses, de apresentar o hospital, de “cuidar” do todo.

Tivemos alguns atendimentos ainda confusos, principalmente de manhã, mas com o passar do dia, fomos nos entendendo, no campo do comum, onde o palhaço ativa o olhar e a escuta e onde a linguagem, que é universal, é a linguagem do palhaço.

Então percorremos um dia bem surpreendente, com encontros muito bons, com momentos grandes, ampliados, onde havia a participação de toda a enfermaria e momentos pianinho, num leito.
Para citar alguns momentos muito bons desse dia de trabalho:

-Primeiro interagimos com as enfermeiras de plantão, Brócoli conquistou todas de uma vez e Mary En tratou logo de achar a dona da calçola enorme. Alguém apontou que a dona era a Lola e ela fez várias tentativas (sem sucesso) de vestir a calçola. Brócoli foi ajudá-la e voltou todo enroscado com ela e a calçola. Enfim, muitas risadas e braços abertos para o nosso dia de trabalho. O interessante é que no final do dia resgatamos o mesmo jogo.

Ainda nos corredores, pude perceber o quanto o Patrick (Brócoli) lida com o absurdo – garantia de um bom trabalho para o palhaço. Se ele via um ventilador, se deixava “levar pelo vento”, se via uma porta de um armário, abria como se fosse entrar numa sala. E travou um encontro com nada mais nada menos que o hidrante. Então, muito dispostas ao jogo, nós, duas tontas de plantão, embarcávamos nessa loucura artística e os três intensificavam o trio. Fui obrigada a pedir ao Sr.Hidrante que deixasse o Brócoli partir, pois ele tinha muito trabalho pela frente. O jogo foi intenso, corporal. O que foi bom também para o Le Rire, pois é bom em geral para o palhaço não usar o verbal, que escorrega geralmente para o cotidiano. Para acontecer com fluidez precisamos ter muita escuta e respiração no jogo. Usamos muito a porta – produzimos imagens nas entradas.

-Na primeira enfermaria conhecemos um menino que assoviava muito bem e o chamamos de “passarinho”. Ele ficou no jogo todo o tempo, que desencadeou num outro encontro. Brócoli olhou para uma senhora que lhe abriu um farto sorriso então ele falou com o sotaque francês:

-Mi amor!

Imediatamente toquei no kasuo uma música de amor e os dois dançaram como dois pombinhos.

Enquanto isso todas as outras pessoas, adultos e crianças (mais ou menos 20 pessoas estavam nessa enfermaria) se divertiam com a cena. De repente olhei para um menino, sentado ao lado de sua mãe e o mesmo jogo se fez entre nós dois. Lola e Brócoli jogaram todo o foco pro “casamento” entre Mary En e o pequeno paciente. Brócoli propôs uma foto de toda a família e nesse momento, muitas pessoas foram inclusas no jogo, inclusive as enfermeiras. A “foto” foi feita e os três palhaços avistaram uma menina pequena em sua cama do outro lado da enfermaria. Fomos lá e do meio do seu lençol florido, surgiu uma pequena flor, encontrada por Mary En – Aqui trabalhamos no pequeno, no suave. Nessa enfermaria passamos por vários momentos de grande e pequeno e quando saímos, as pessoas nos aplaudiram. Pensei “meu Deus, eles nem imaginam o quanto foi desafiante”.

Na enfermaria seguinte tivemos uma contribuição preciosa de um médico. Enquanto Mary En “dormiu”, Brócoli e Lola encontraram o príncipe encantado dela. E quando ela acordou, lá estava ele, o médico-príncipe, ao eu lado, para casar! Bom ver os pacientes morrendo de rir! E gostoso ouvir do médico, bem baixinho, como que para não quebrar a magia, “infelizmente não vou poder continuar a brincadeira até o casamento, porque tenho agora uma cirurgia”.

Nessa mesma enfermaria, Brócoli fez uma mágica (com a caixa de fósforos), quando ele acabou, eu também fiz a minha mágica (a mamãe ganso que pega o filhote com o bico) e depois eu olhei pra Lola e falei: “agora é a sua vez!”. Ela olhou, gaguejou, olhou de novo, mexeu nos bolsos e para nossa surpresa, tirou um cordão e fez uma mágica! Muito bom, aqui o elemento surpresa, o encadeamento do jogo, a construção dramatúrgica, o foco, o feed-back das crianças, tudo se conectou, tudo funcionou, num começo-meio e fim perfeito.

Lá embaixo encontramos os outros palhaços que estavam atendendo em outra ala, e foi um bom encontro, com música, saímos juntos para a sala. Antes porém, Brocóli, Lola e eu, entramos na salinha do microfone, que tem uma janela de vidro e uma placa: “não bater”. O primeiro a dar cabeçadas (técnicas, claro) foi o Brócoli, que arrancou das moças da sala um sorriso e um convite para entramos. Lá dentro ninguém nos segurou. Lola, sabiamente agarrou o microfone e falou “atenção senhoras e senhores do bloco cirúrgico, venham todos para a saída do bloco do miolo mole”. E pensar que todo o hospital ouviu isso!

Enne Marx
(Dr Mary En)