Semana passada, em nossa sede de Belo Horizonte, fizemos um bate-papo com atores locais sobre o trabalho que os Doutores realizam nos hospitais. O encontro, batizado de Conversa Mole, teve como objetivo apresentar os valores e a filosofia da organização, além de dar início à seleção de um novo artista para o elenco da capital mineira.

Um dos tópicos do encontro foi mostrar o que os Doutores procuram neste novo artista – qual deve ser, de fato, o perfil para o trabalho na organização. Para elucidar este assunto, garimpamos um trecho do livro A experiência de treinar palhaços para o hospital nos Doutores da Alegria, de Soraya Saide, coordenadora de formação dos Doutores. A íntegra do texto pode ser lida no livro Boca Larga Vol. I.

Perfil de um Doutor

“Pra ser palhaço dos Doutores da Alegria é preciso uma dose grande de desejo, para ir duas vezes por semana e ficar 6 horas a cada dia transitando num ambiente adverso, raciocinando sob uma outra lógica. É preciso querer muito estar num hospital, fora do foco das luzes, do cuidado que cerca uma produção teatral e mesmo da proteção que o palco, o picadeiro e a rua nos inspiram – lugares em que a cena, a ficção está delimitada. A proximidade da platéia num hospital é grande e a solicitação, intensa. Ninguém no hospital espera a visita de um palhaço, ninguém está lá para isso.

É preciso estofo pra estar inteiro, não se distanciar do propósito e nem se apiedar – sentimento que serve muito pouco quando se quer estabelecer uma relação de igualdade e de confiança conquistada na graça. O palhaço tem que ter maturidade e uma boa bagagem artística pra acionar.

Basicamente, para ser um Doutor da Alegria, é preciso ter disponibilidade – pro outro, pro jogo –, olhar e escuta pra perceber as situações, as circunstâncias, criatividade pra transformá-las e, mais que tudo, vontade de mergulhar na máscara. Sensibilidade refinada, sentidos ligados pra transformar as dificuldades, criar beleza, valorizar os encontros. Tem que ser artista.

Nosso trabalho é construído na imaginação, frágil à beça, e todo espaço em volta é muito concreto, a solicitação do real é pungente. De uma hora pra outra, tudo é urgente, o soro que acaba, a veia que escapa, a cirurgia marcada, traz a comadre, o coração que pára, toma o suquinho, olha quem chegou!

O hospital é um ambiente de convergência e dispersão, tem muita gente circulando e fazendo coisas, é um desfile de remédios, cuba, rim, carrinho de comida, TV ligada, visita, enfermeira, voluntária, médico, faxineiro, segurança… só a criança e o palhaço estão lá de bobeira, se perguntando: – o que é que estou fazendo aqui?!…

À criança se pede isso mesmo: passividade – seja paciente; por isso que, para um palhaço num hospital, o foco de toda ação é a criança, nossa função é despertar nela o desejo de agir, brincar.

Precisamos cuidar da energia, para poder estar sempre disponíveis, e da alegria, que é a matéria-prima do nosso trabalho. Não que um palhaço não possa ir trabalhar de mau-humor, ou triste, ou com dor… afinal, são 6 horas seguidas na função, e ninguém se ausenta por tanto tempo, mas desde que seja o palhaço – a bendita ficção! – a estar virado, com sono, com dor. Até para ressignificar tanto sentimento.”

Você acha que tem o perfil?

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