Eu, Dr. Eu, e a Dra Baju estávamos em pleno atendimento quando percebemos a E. num cantinho nos observando de longe. Pensei:

Deve ser um caso de “timidus chorosus” ou “gritus alarmanticus”!

Continuamos atendendo, mas pra ter um melhor parecer da paciente que nos aguardava, resolvi ligar o meu detector infalível. Ela continuava lá, encostada na parede, apoiada numa perna, enquanto a outra fazia um semicírculo pr’um lado e pro outro.

Bem, não era gritus alarmanticus, tivemos certeza.

Quando finalmente fomos atendê-la, descartamos a possibilidade de ser o timidus chorosus. Ela olhou pra mim, olhou pra Dra. Baju, fez uma cara de quem esconde um riso no canto da boca e correu. Imediatamente, com a pressa que nos cabia, desatamos atrás na mesma carreira. Vimos quando entrou na Enfermaria e fomos atrás, chegamos no exato momento em que ela entrava no banheiro.

Paramos subitamente próximos do leito, pois algo nos dizia: aí tem coisa! O silêncio reinou por alguns segundos. Estatelados no meio da Enfermaria, não ousamos dar nem mais um passo. Ao perceber nossa presença no quarto, a E., do alto de seus três anos e tantos, saiu do banheiro com uma mão na cintura e a outra com o dedo em riste apontando para os dois Besteirologistas atônitos com o ocorrido. Disse:

SAIAM AGOLA DESSE MEU HOSPITAL, SEUS PALAÇOS! HOJE É DIA DA MINHA CILULGIA! NÃO QUELO SABER DE NADA!

Ainda bem que minha peruca, ops, meu cabelo, estava bem preso na cabeça. A Dra. Baju tentou argumentar enquanto caminhávamos decididos com passos para trás:

Ma… ma… mas…

QUIETOS!  SAIAM DAQUIIIIIIIIIIIIIII!

Recado dado, palhaços estatelados. A E. desatou a correr atrás da gente, ao que descongelamos e fugimos. Esbarramos um no outro, erramos a porta, nos confundimos e saímos correndo pelo corredor, e neste exato momento entendemos o verdadeiro significado da palavra “corredor” e agradecemos fazendo bom uso dele. Nem deu tempo de esperar o elevador, desembestamos escada abaixo com a leve impressão de que a E. se deliciava com a vitória…

Dr. Eu Zébio (Fábio Caio)
Dra. Baju (Juliana Almeida)
Hospital Oswaldo Cruz – Recife
Janeiro de 2012