Dando início aos trabalhos no Hospital do Campo Limpo, fomos recepcionados por Dra. Eliana que, com seus olhos azuis intensos de raio-X, nos apresentou o hospital por dentro, por fora, do avesso, do avesso, do avesso, do povo oprimido, das vias, das vilas, favelas, da força da grana que ergue e destrói coisa belas, da feia fumaça que sobe apagando as estrelas… Como se nos desse óculos, que são indispensáveis para se trabalhar num hospital onde é impraticável se deter na superfície.

A parceria do Hospital Campo Limpo conosco é cada vez mais estonteante: ganhamos crachás invejáveis, livro de ponto que temos que assinar obrigatoriamente todos os dias, na entrada e na saída, sem falar nas mães que saem com a cueca do Dr. De Dérson na cabeça para atender o telefone, e isso é absolutamente normal. Cremos que tudo isso só acontece porque os nossos antecessores (Dr. Mané e Dra. Quinan) fizeram um trabalho muito bom ao desajustar todos os parafusos do hospital.

“Quando eu tinha quatro anos, vi a construção de um grande hospital e disse à minha mãe que queria ter um quando crescesse. Ela me respondeu que para isso eu teria que fazer medicina.”. Esta foi a resposta da Dra. Neide, da Observação Infantil, para a pergunta que não quer calar: “Por que cargas d"água você resolveu ser médico?”.

Além desta questão, presente em nossa enquete, outras novidades são as regras que já se estabeleceram em alguns quartos, como por exemplo, no quarto do Éric, um menino de mais ou menos 9 anos que está sempre em seu trono com rodas e com seus servos à sua volta, e que é, nada mais, nada menos que o rei da Espanha! Isso mesmo, o rei da Espanha no Hospital do Campo Limpo! Dr. De Dérson e Dr. Dadúvida sempre que o encontram tiram o chapéu, invertem o lado e o colocam novamente para parecer um chapéu espanhol, ou sei lá o quê. Esse ritual se repete desde o primeiro encontro: para entrar nos aposentos do rei, é necessário uma anunciação solene com as trombetas “cavaquiáis” do Dr. De Dérson, trombetas “cazooáis” do Dr. Dadúvida e trombetas “improvisáis” da mãe do rei que, juntas, formam a orquestra real tocando músicas contemporâneas. E no final de cada música, o rei, com um leve movimento de cabeça, aprova ou desaprova.

O rei é muito exigente e sempre temos que tocar um longo repertório, até que uma música o agrade os ouvidos. Aí, saímos solenemente dos aposentos. Essa ação se repete sempre com a participação da mãe, da tia ou… de quem estiver presente.

Também temos o quarto do Matheus e da Bruna, onde a comunicação só é possível musicalmente: samba, sertanejo, rap, duetos, solos etc. O conteúdo dessas músicas quase sempre traz informações sobre futebol ou algum acontecimento no quarto, seja a enfermeira que chega, a TV ou os sons dos aparelhos médicos, e assim como entramos… saímos… caminhando, cantando e seguindo o refrão.

Dr. De Dérson (Anderson Spada) e Dr. Dadúvida (Davi Taiu)
Doutores da Alegria São Paulo