O palhaço é um duplo. Tem aquele que você vê, e por trás dele tem um marionetista que espreita tudo. O marionetista é conduzido pelo palhaço, que é conduzido pelo marionetista. É um duplo de mão dupla. A mão que escreve esse relatório é a do marionetista que conta como é que ele é conduzido pelo palhaço.

O Itaci é um hospital especializado em oncologia infantil. Confesso que quando fomos visitar o hospital de cara limpa, sem nos vestirmos de palhaço, achei que, para mim, seria difícil trabalhar neste hospital. O fato de ter filho faz a gente se colocar de fato no lugar da mãe e pensar como deve ser dura esta situação e ao mesmo tempo não conseguimos evitar um deus me defenda. Como é um hospital de uma só enfermidade, sabemos a priori que o estado das crianças que estão ali é grave e isso ficou martelando na cabeça durante a visita. Cheguei a falar para a Cláudia, minha parceira, que achava que seria difícil trabalhar no Itaci. E olha só que impressionante. Novamente comprovado que visitando o hospital de palhaço, esta crise se esvai e vejo novamente crianças. Sem históricos graves, sem julgamentos. Fiquei pensando que a primeira transformação que o palhaço promove é a da gente mesmo. Como é possível, de verdade, meu olhar mudar por causa de uma máscara. Penso que sou eu a primeira palerma a acreditar em palhaços. A realidade se transforma de tal forma quando estou vestida, maquiada e com aquele narizinho vermelho que vejo o mundo diferente. É o primeiro ridículo. De tanto acreditar acabamos levando outras pessoas junto. Isso não é exclusivo de palhaços. Vamos almoçar num restaurante vegetariano onde a dona, nossa amiga, apaixonada por alimentação saudável acredita que certa forma de se alimentar cura. O Chico (o Buarque) diz numa letra Amo tanto e de tanto amar acho que ela é bonita. Às vezes nos envolvemos de tal maneira nas coisas que elas se transformam. E nós juntos.

Voltemos já transformadas para os andares. Creio que temos resgatado nestes meses o contato mais próximo com as crianças e famílias. O estímulo tem vindo sempre delas por duas razões. Somos uma dupla que trabalhou pouquíssimo juntas, temos um repertório novo a criar e tenho vontade de resgatar este começo de Doutores da Alegria onde a criança era centro dos estímulos para o nosso repertório. Isso é muito instigante, pois voltamos ao improviso mais puro onde criamos, com a criança, a graça do dia. Os repertórios prontos também são muito bem vindos, por proporcionarem um riso certo e acho que virão com o tempo não precisamos ter pressa em achá-los.

Têm sido dias muito prazerosos na sala de lazer onde nos sentamos à mesa com crianças, pais e educadores para uma boa refeição, pretexto para algo criado ali na hora. Foi desta mesa que saiu a cena do origami que apresentamos na Roda artística dos Doutores da Alegria no Hospital da Criança e, depois, na Livraria Cultura. Além do esconde-esconde com o Gabriel, das experimentações com perucas, das músicas com o Élio que é deficiente visual. Estamos tateando as particularidades da doença. Na sala de espera, sim, falta uma grande cena pronta. Lá pede algo mais ensaiado, pois o próprio espaço define isto. Quando entramos as pessoas já estão sentadas em cadeiras, todas voltadas para uma grande TV de tela gigantesca. Às vezes contracenamos com super-heróis de tamanho natural. É incrível. E se a temível sala de espera fosse num formato de praça, de encontro, onde conversássemos olhando uns para os outros? Para as crianças há mesas com brinquedos numa disposição propícia para encontros. Por vezes, não ter a grande cena pronta propicia-nos esta praça onde podemos conversar uns com os outros. Em geral falando mal de uma das palhaças. Na QT a arquitetura propõe outros jogos, sempre driblando os enjôos e sonolências. Trabalhamos diretamente com a criança, mas muitas vezes, há uma terceira que assiste indiretamente o que está acontecendo com a criança. A Zuzu tem organizado o sistema de coleta na QT. Temos a enfermeira que aplica o sorinho, a criança que recebe, a mãe que segura a mão e a palhaça que chora. Estamos chegando ao hospital, descobrindo e redescobrindo coisas, tateando, aprendendo. Está muito bom o contato com a equipe do hospital, que é ótima. Muitos já conhecidos do ICr. Nenhum vestígio das angústias pessoais da Vera, olhando de fora aquele hospital. Tchibum, já mergulhamos: que bom. Temos mais o que fazer. Voltando à divagação inicial, lembrei de uma frase que li de um autor (acho que chama Chesterton), que diz que quando uma criança nos pergunta como nascem os pintinhos devemos dar a seguinte explicação: foi mágica. É o que mais se aproximaria de uma realidade.

por Vera Abbud (Dra. Emily)