Esse relatório é referente há um mês, mas vale por três.

Dois Besteirologistas andam pela rua interna do Hospital Santa Marcelina em busca do almoço cedido. No caminho, duas mães os param, os interrompem e apontam para outra mãe, que estava sentada e chorando. Motivo: seu filho que estava internado há alguns dias recebeu a noticia que seu isolamento seria de três meses. A criança não entende bem as coisas. A mãe, que já passou bastante pelo hospital, também não quer entender. As mães amigas tentavam explicar que a melhora dele não dependia só da equipe médica, e que ela tinha que ser forte, para seu filho melhorar.

Após a recepção, a pergunta que veio como um tapa na testa da dupla: Porque vocês não entram no quarto do meu filho?Ahmmm?Heinnnnn??

Fomos pegos de surpresa, nossa resposta não era o suficiente para aquela mãe: que não podíamos entrar lá em primeiro lugar, por estar em isolamento pela defesa das outras crianças que atendemos e, em segundo lugar, achamos melhor não falar. A verdade é que em casos como estes, devemos obter o máximo de informações possíveis pra não corrermos riscos de transmitir ou de contrair alguma coisa. Uma vez esclarecido exatamente o problema, decidimos se é possível ou não entrar, e se iremos ou não entrar.

Inicialmente começamos a trabalhar pela janela, ficando do lado de fora do quarto entre uma porta e a outra. Ficamos aguardando e torcendo por uma melhora. Após alguns dias e algumas tentativas de uma conversa séria(*1) com alguém da equipe médica, tivemos uma boa noticia. As informações vieram por alguém que usa um colete azul de Chefe da Enfermagem, uma parceira de trabalho que confiamos muito e que, por incrível que pareça, confia na gente também.

O quadro clínico da criança estava melhor, o isolamento era só de contato(*2), que podíamos começar a entrar no quarto e de preferência sendo o último quarto do dia.

Uma pulga atrás da orelha ainda coçava, se podíamos entrar porque tinha que ser por último? Naturalmente para não transmitirmos nada às outras crianças. Tínhamos que confiar nas informações, na nossa experiência e na nossa resistência que não podia estar baixa.

Nosso primeiro encontro foi ótimo e um pouco difícil, a mãe não acreditava que estávamos lá dentro, o jogo aconteceu, ela ria de tudo, seus olhos brilhavam, mas a criança só nos observava. A mãe começou a nos esperar no corredor e cobrar nossa presença, evitamos contar para ela que tinha que ser por último. Sabíamos que além do problema de saúde do seu filho ela não era uma pessoa muito fácil de lidar, segundo informações da equipe médica.

Com os encontros começamos a perceber que o jogo era mais para mãe do que para a criança, ela se divertia com tudo, só nossa presença já valia, raramente a criança ria ou respondia a alguma improvisação.

Passando um tempo resolvemos checar com nossa informante se continuava tudo em ordem, se podíamos continuar a freqüentar o quarto, a resposta foi: Sim! Durante esse período nem todos os dias entramos nesse quarto. Às vezes, ambos estavam dormindo, em outros dias não era a mãe que estava acompanhando a criança. Mesmo assim foram muitos encontros e desencontros, conseguimos alguns sorrisos e o mais importante, cumprimos a nossa missão com aquela família que viveu longos dias de espera.

Hoje não estão mais no hospital, a tão esperada alta médica passou por lá. E assim é nossa vida, nem sempre tudo é tão fácil e rotineiro no dia a dia de dois palhaços que freqüentam o hospital duas vezes por semana durante o ano todo.

Dr Pinheiro
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Besteirologista de Plantão

*1 – Conversa séria: muitas vezes a equipe médica acha que não estamos falando sério. Nesses casos os palhaços podem tirar seus narizes de borracha para serem levados mais a sério. Como usamos narizes pintados não podemos usar essa técnica.

* 2 – Isolamento de Contato: não se deve tocar no paciente e em nada, de preferência não é aconselhável lamber e fechadura. Ao sair, as mãos devem tomar banho.