É preciso saber perder uma sala velha

Bom, estamos em novo endereço. Fomos despejados do pavilhão José Ribamar, que está desativado. Agora desfrutamos da presença do Dr. Antônio Figueira em uma sala feita sob medida para Besteirologistas. Temos poltrona para atendimento, negatoscópio e vista para o mato. Antes estávamos “sub-locando” uma sala junto com os cupins do Dr. Ribamar. Convivíamos em harmonia, mas parece que eles, os cupins, de uma hora pra outra se sentiram sufocados com a nossa presença e foram dizer na Direção que precisavam de mais espaço. Eles, os cupins, mexeram seus pauzinhos. Foi aí que a Mabel veio com seus dois mosqueteiros – Saulo e Sérgio – e nos despejou, deixando a sala só para eles, os cupins. Well….é preciso saber ganhar uma sala nova.

Unidade de Talentos Invisíveis

Voltamos à UTI, ou melhor, a UTI voltou para nós. No retorno, houve até um momento “Paparazzi”, quando todas as tapiocas, ops, enfermeiras, piraram na batatinha e vieram fazer fotos conosco. Só pode ser saudade, gente. Antes de fazer a pose, Monalisa perguntava logo: vou precisar pagar? Só tirava a foto se jurassem que não precisaria pagar nada.

A novidade é que descobrimos que a UTI esconde talentos invisíveis. É o caso da Neide, mãe da Vivi, que se revelou uma cantora de primeira linha. Já tem até dois Hits que emplacaram nas paradas de sucesso “Ominubilada” e “Beijinho doce”. A platéia tem direito à coreografia, “bis” e acenos no estilo trio-elétrico.

Outros talentos da UTI descobertos por nossos olhos treinados em Bobowood:
Enfermeira Noêmia: Dublagem musical. Vitória, mãe de Mari: Cantoria ao vivo. Enfermeiras Noemi, Suelene e Madalena: Back vocal e dançarinas – mais sincronizadas do que pato na lagoa. Um sucesso!!!

Quem está rindo à toa é Dra. Patrícia, que agora vai tentar ganhar alguns $$ com sua equipe de artistas.

Casos e Acasos

Quequel começou a chorar assim que entramos na enfermaria. Voltamos pro corredor e fechamos a porta. Entreabrimos uma fresta. Dr. Dud cantou “Cai, cai, bolhão”, enquanto eu fazia bolhas de sabão. Assim, ela não nos veria, mas ouviria. E ainda poderia ver as bolhas entrando pela porta. Pensamos: “ela vai ficar lá no outro canto da sala, e nós no nosso canto aqui, só jogando bolhas pela fresta”. Que nada. A mãe a pegou e trouxe pra bem perto da porta, sem que percebêssemos. De repente, vimos aquela mãozinha pela fresta, pegando as bolhas. Aí, aquele Anjo que ajuda os palhaços passou justo nessa hora e nos deu uma forcinha – não venham nos dizer que Anjos não existem !! Um ventinho de nada soprou e abriu ainda mais a porta, deixando a Quequel bem na nossa frente, cara a cara. (Pausa) Um segundo de medo e desespero. Só que agora éramos NÓS DOIS os apavorados. Ficamos naquela situação de quem foi pego pela mãe fazendo alguma trela. Pequenininhos. Pensamos “Será que ela vai chorar ?? Ai, ela vai chorar!! Tudo perdido!”. Não chorou, sorriu. Talvez para nos acalmar. E ficou mais feliz ainda quando uma bolha se escondeu em seu cabelo e se transformou em uma flor lá dentro de seus cachinhos. E ainda nos prometeu que cuidaria bem da flor, pondo meia gota de água por dia. Tudo aconteceu bem ali, no umbral da porta. A mãe com a Quequel no colo e nós no corredor, no quase-dentro-quase-fora da enfermaria.
Assistindo a tudo isso, estava a LARI. Ela já nos conhecia, mas não conseguia superar o estranhamento que causávamos. Também tinha medo. Naquele momento, sentimos que a Quequel abriu o caminho para chegarmos na Lari. No encontro seguinte, já no corredor, percebemos Lari mais tranqüila e, no fim da manhã, a minha vaquinha Etelvina deixou um beijinho grudado na testa da Quequel e outro na testa da Lari, que desligou o alarme definitivamente. Muito bonito ver como uma única criança corajosa debelou o medo de outras três.

“Da lama ao caos“

Chegamos ao DIP e recebemos uma notícia: “Tem um menino que está precisando sorrir …” Desconfiamos. Falamos que não éramos dentistas, que são os médicos que cuidam dos sorrisos. Nós, Besteirologistas, cuidamos de besteiras, bobagens, bobices, etc. Sacudimos o jaleco e fomos ao seu encontro. Era o Zé. Nos apresentamos e logo ouvimos um “Sai daqui! Sai daqui!”. Argumentamos: “Somos médicos”. Ele bradou: “Não quero saber de palhaço, não”. Demos meia-volta com o jaleco entre as pernas e fomos embora.

Dia seguinte, o Zé continuava arredio. Aceitou, à meia-boca, que cantássemos. Mas, no meio da música, gritou “Polícia ! Vou chamar a Polícia!”. E nós….saímos correndo!

No terceiro dia, o Zé estava todo incomodado com uma mangueirinha em seu nariz (sonda). Pra acalmar um pouco seu ânimo, deixamos uma pílula de Ficarcalmim . Aí ele nos olhou bem, fez cara de sabido, e desafiou: “Se vocês são médicos, autorizem tirar esse negócio aqui” – apontando pra mangueirinha. “Pôxa, tudo a gente !! Já receitamos, já medicamos, mas nada é suficiente!” Quando já estávamos no final do corredor, recebemos um chamado de urgência. Tan, tan, tan, tan. Era a enfermeira Elza do Ó, que estava na porta do quarto do Zé, convocando os Doutores Besteirologistas. Voltamos voando, porque o chamado era em alto e bom tom. “O que poderia ser agora?” Foi aí que a “Enfermelza” nos pediu autorização para retirada da sonda (o bom é que as enfermeiras, nossas parceiras, percebem os bons momentos de cumplicidade). Aproveitando a oportunidade que ela nos deu, olhamos solenemente para o Zé. Olhamos solenemente para ela. Respiramos e autorizamos o procedimento. Imediatamente a sonda foi retirada e com sucesso. Naquele momento, Zé entendeu quem era que mandava ali.

Dia seguinte, Zé estava comendo em sua mesinha quando chegamos. Da porta o que vimos foi o Zé se transformar num touro brabo lá dentro e sair ,pro corredor batendo o casco no chão. Se não fossem as habilidades toureiras do Dr. Dud Grud !! Pra nossa sorte a vaquinha Etelvina tinha vindo à procura de um marido: Encontrou ! Dra. Monalisa serviu de Cupido pro namoro. Era beijo pra lá, beijo pra cá. Quase não se desgrudaram mais. Era, digamos, um amor animal.

Até que um dia, chegamos e a notícia era: “O Zé quer falar com vocês !”, Na verdade, ele estava super ansioso e feliz, porque ia voltar pra casa. Queria dar a notícia e mostrar pra gente (os seus médicos) que já estava bom. Pena que a despedida não foi à altura do nosso histórico com ele. Deixamos para atendê-lo no fim, mas o carro de boi chegou na nossa frente e carregou nosso “touro bandido”. Só nos restou fazer um aceno de longe, enquanto o touro ia sorrindo correr em outros currais.

Dr. Dud Grud (Eduardo Filho) e Dra. MonaLisa (Greyce Braga)

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