Onde estará a gelatina?

Quando encontramos a Alessandra ela estava na UTI, vários encontros, sempre os mesmos olhos perfurantes que parece que querem ver através do que estão vendo. Alessandra deve ter pouco mais de seis meses e já batemos longos papos, na grande maioria sobre o hospital, a amizade, o medo, ela sempre sugere assuntos muito sérios, o que explica o seu olhar tão profundo.

Nicole estava do lado da mãe como se se protegesse de algo desconhecido. Será que é instinto de sobrevivência que já trazemos da fábrica? Seus olhos atentos nos fitavam, ela tem um olho que quase pisca, um quase charme.

Um dia desses uma mãe foi empurrando o filho na nossa direção dizendo:- Vai lá moleque que o palhaço vai te pegar! Que medo dessa mãe! Ela disse que era uma lenda urbana, havia assistido no Gugu! Que medo desse programa!

Mas voltando pra Nicole… Mesmo se protegendo atrás de sua mãe, ela fica totalmente conectada com o que fazemos, e como que prevendo nossos passos, corre para seu quarto, sabendo que começaríamos por ali.

-Dadúvida! diz De Derson, quase numa suspensão… – ela está………! Alessandra olhava o cavaquinho e o ganzá como se fossem coisas absolutamente inusitadas e seu olhar procurava todos os recursos para entender a novidade, olhava para o cavaco… olhava para o pai, olhava para o ganzá… olhava para a mãe… só não olhava para a Mijardina pois ela estava desaparecida!

Procuramos a Mijardina por todo o quarto, Nicole com seu olhar que quase pisca segue cada movimento. Mijardina é a piolha do De Derson que, às vezes, é minha.

“-Palhaços eu fiz a minha mãe me trazer só pra dizer que eu já sei a música!”. Letícia é a sereia séria que não sorria; ela pára no meio da moldura da porta do quarto onde estávamos no meio de uma intervenção e canta: – “Vem pescador, vem para o mar, não meu amor, não sei nadar”!…. Grande composição do dr. Montanha!

Depois de muito pesquisar os novos sons Alessandra pega seu sapatinho vermelho e começa a batucar…..engraçado ninguém tocava pandeiro!

Nicole corre em nossa direção e diz afobada:- “a Gelatina sumiu!”