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Direitos Universais da Criança Hospitalizada

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Feito com muita seriedade e uma pitada de besteirologia pelo Dr. Lui.

1. Toda criança tem o direito de ser atendida e entendida.

seis momentos

2. Toda criança tem o direito de ser impaciente mesmo que seja paciente.

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3. Toda criança tem o direito de tomar chá de cadeira por poucos minutos.

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4. Toda criança hospitalizada tem direito a uma cadeira de rodas para arejar as ideias.

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5. Toda criança tem o direito de tomar injeção com carinho e proteção.

seis momentos

6. Toda criança hospitalizada tem o direito de berrar, chorar e espernear se uma agulha lhe espetar.

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7. Toda criança hospitalizada tem o direito a uma volta médica em menos de 360 dias.

os tempos e as prorrogacoes de cada um

8. Toda criança tem o direito de ser criança sem precisar tomar remédio com validade.

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9. Toda criança hospitalizada tem o direito de ver um sorriso médico mesmo que seja banguelo.

Fotografia da Dupla Du Circo e Ju Gontijo no Instituto da Criança no Hospital das Clínicas.

10. Toda criança tem o direito de escolher o sabor do seu soro preferido.

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11. Toda criança tem o direito de tomar 3x ao dia injeções de ânimo.

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12. Toda criança tem o direito de brincar, mesmo se hospitalizada ter que ficar.

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13. Toda criança tem o direito a uma boa alimentação rica em bobagem e bobisses sem quilos e sem grilos.

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14. Toda criança hospitalizada tem o direito de se alfabetizar e aprender desde pequeno a decifrar letra de médico. 

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15. Toda criança tem o direito de ser ela mesma porque não vem com bula de remédio. 

Fotografia da dupla dos Doutores da Alegria Sueli Andrade e Henrique Glomer no Hospital do Mandaqui.

16. Toda criança hospitalizada tem o direito de receber visitas inesperadas mesmo que não seja a hora marcada. 

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17. Toda criança tem o direito de não fazer as coisas direito e por isso é todo o seu direito.

Fotografia da Dupla Du Circo e Ju Gontijo no Instituto da Criança no Hospital das Clínicas.

* Dr. Lui é o ator Luciano Pontes, diretamente do Recife.

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O mistério da calçola perdida

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Uma calçola no hospital! De quem será tamanho infortúnio? Deixaram a peça de roupa íntima jogada no balcão da UTI. A notícia nadou feito vento e circulou mais que liquidificador.

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Decidimos provar em todas as pessoas que passavam. Na Dra Ana Helena ficou muito folgada. No Dr. Joselito parecia um maiô. A Dra Clarice nem provou, disse que desconhecia a origem e o sotaque dessa peça de roupa.

Provamos a calçola em todas as crianças. No bebê dormindo parecia um cobertor de lã. Não achamos o dono. Pensamos em levar pra casa e transformá-la em toalha de mesa, em uma cortina, ou até mesmo um paraquedas. 

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Mas depois lembramos que faltava uma pessoa provar: DONA MARIA! 

A raiz do seu cabelo era branca, tinha 65 anos, um metro e meio de altura, negra e sempre estava a organizar uma mochila. Enquanto o seu neto, de aproximadamente quatro anos, soltava tímidos sorrisos de canto de boca com a nossa presença, ela gargalhava que espantava os pombos que pousavam na janela. Parados na porta, dissemos:

- Aqui está a calçola. A senhora é a única que não provou.

O neto esperava a reação da avó. Dona Maria foi logo dizendo:
- Não, não vou provar!
- Vai, vó!, disse o neto.

Vendo toda aquela súplica, Dona Maria vestiu a calçola. TAM TAM TAM TAAAAAAAAAAAAAAAAM!! Analisamos, olhamos, tiramos foto dela vestida de frente e verso e fizemos até selfie, é claro. Dr. Marmelo fez um pronunciamento:

– HUM!!! Bem, como o presente, devemos analisar, em decorrência dos relatos dos achados e perdidos, das circunstâncias dadas, do curto-circuito interno de TV e, em detrimento dos fatos estabelecidos com o ocorrente caso que se avariou sobre os latifúndios, as trocas de plantões subversivas e o capitalismo selvagem… A CALÇOLA É DA DONA MARIA!

Ouviu-se um levante geral: ÔÔÔÔÔÔEEEEEEEEEEEE!!! 

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Dona Maria desfilou pela enfermaria com a calçola como se fosse um vestido de noiva! E depois de tudo, já na salinha depois do trabalho, concatenando com os nossos botões, víamos claramente uma criança que se mostrava um adulto sério e Dona Maria uma criança sorridente, disponível para o encontro e a brincadeira.

É normal uma criança confiar no adulto. O adulto tem mais experiência, é seu espelho. Mas bom mesmo é o adulto confiar na criança também e se permitir momentos lúdicos e de transformação. Então, se a criança pede… 

Dr. Dud Grud e Dr. Marmelo (Eduardo Filho e Marcelo Oliveira)
Hospital da Restauração – Recife

Essa vida de besteirologista

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Essa vida de besteirologista é muito louca.

Em um dos quartos, sou um super-heroi com poderes. Em outro, sou um dinossauro mais bravo que tiranossauro, mais rápido que o velociraptor. Também já fui mágico, ilusionista e hipnólogo, que consegue hipnotizar a si mesmo. E no corredor sempre tocamos músicas! Já fui rei do pop, rei do rock, rei do baião, rei da lambaerobica… 

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Com os seguranças do hospital vem sempre um assunto à tona: futebol! Meu time que ganhou desse, perdeu daquele, empatou com o outro roubou e foi roubado. Enfim, caiu na rede é peixe e deixe a mãe do juiz em paz! Com a equipe médica o assunto é mais requintado: sempre demonstro meus conhecimentos linguísticos, falando francês para as residentes. Abajur, sutian, croissant, mon bijou, mon amour, baguete, crepe suzette, tudo com o biquinho francês. Eu sou exibido! Uh lala uh lala! 

Falamos sobre tudo! De assuntos triviais a assuntos mais complexos, como religião. Dizem que esses assuntos não se discutem, mas eu discuto, porque gosto de discutir. 

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Dia desses eu e Dr. Dus’Cuais, minha dupla, perguntamos a uma mãe de onde ela tinha tirado o nome da criança. A resposta: da Bíblia. Dus’Cuais matou a charada:

- Ah, eu conheço! É aquele livro dos nomes, né? Quando tiver filho, vou colocar um nome da Bíblia!
- Qual?, perguntou a mãe.
- Versículo!

Eu interrompi a conversa.
- Eu também vou colocar no meu filho um nome que vem da Bíblia.
- Qual?, perguntou novamente a mãe.
- Corintios. E se for menina, Corinthians! E quando ela estiver atrasada pra escola, eu grito: VAI CORINTHIANS! 

Entre portas e corredores, enfermarias e UTIs, quartos e berçários, a gente vive um mundo novo, a ser explorado com total liberdade de ser quem quisermos ser. Meu trabalho é ter espírito de criança, com liberdade, que acho ser a maior qualidade da infância.

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Ser adulto e poder trabalhar com crianças me ensina muito! E ensina a ser um besteirologista melhor! Obrigado crianças, por serem crianças. 

Dr. Chicô Batavô (Nilson Domingues)
Hospital do Mandaqui – São Paulo

Doutores recomenda: Território do Brincar

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Você sabe como brincam as crianças em aldeias indígenas? E a criançada à beira da praia, no Ceará? Em grandes metrópoles, como se dá a brincadeira?

O documentário Território do Brincar traz algumas respostas sobre o universo lúdico infantil de todo o Brasil. A estreia acontece no Dia Mundial do Brincar, 28 de maio, em São Paulo e no Rio de Janeiro e no dia 4 de junho em Porto Alegre, Curitiba, Brasília, Florianópolis, Belo Horizonte, Salvador, João Pessoa e Santos.

Entre abril de 2012 e dezembro de 2013, os documentaristas Renata Meirelles e David Reeks, acompanhados de seus filhos, visitaram comunidades rurais, indígenas, quilombolas, grandes metrópoles, sertão e litoral, revelando o país através dos olhos de nossas crianças. Nos encontros surgiram intensas trocas e diálogos, por meio de gestos, expressões e saberes que foram cuidadosamente registrados em filmes, fotos, textos e áudios.

O longa-metragem faz parte do Projeto Território do Brincar, uma parceria com o Instituto Alana. Além do filme, a iniciativa conta com exposição itinerante, duas séries infantis para a TV e um livro em produção.

territorio do brincar

Fazendo um paralelo, Doutores da Alegria tem o brincar como seu território de ação. As brincadeiras propostas pelos palhaços estabelecem um mundo de ficção essencial para a efetividade do trabalho. E tudo começa com os adultos e crianças acreditando que estão recebendo a visita de um profissional do hospital: o besteirologista.

Adriana Friedmann, que coordena o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Simbolismo, Infância e Desenvolvimento, acredita que brincar é essencial na vida de qualquer criança desde que nasce. “No ato de brincar, a criança está absolutamente mergulhada em um espaço sagrado, conectada profundamente com o presente de forma orgânica, corpo, sensações, emoções e todos seus sentidos participam destes processos. Brincar é a possibilidade de viver a fantasia, a imaginação, imitar o mundo adulto, o mundo animal e a natureza. Brincando as crianças são desafiadas a se superarem, a descobrirem. Brincar é a forma de as crianças fazerem poesia e nos contarem quem são, o que sentem, o que vivem, seus medos, suas preferências, seus potenciais e suas limitações.”, conta ela em entrevista à Agência Brasil.

Saiba mais sobre o projeto acessando www.territoriodobrincar.com.br.

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E a gente dorme sorrindo?

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No primeiro encontro com a I., ainda na UTI, ela não deu muita conversa para os besteirologistas e foi logo fechando os olhos, fingindo que dormia.

Mantivemos certa distância e, embora conectados com ela, foi assim que percebemos que tudo não passava de um disfarce, na verdade ela apenas queria nos contemplar. Entre as brechinhas de seus dedos, ela nos espiava e acompanhava toda a movimentação que fazíamos dentro da UTI.

e a gente dorme

Em outra visita, encontramos a menina em uma das enfermarias. Apesar de ser outro ambiente, ela continuou mantendo o jogo, e como no nosso caso quem comanda é a criança, respeitamos o jogo estabelecido por elaContinuamos a encontrá-la e ela continuou a “dormir”, mesmo que quase sempre tenha um sorriso no canto da boca.

- Ué, e a gente dorme sorrindo?

Como médicos são sempre desconfiados, e no caso de besteirologistas ainda somos também curiosos, resolvemos nos certificar e perguntar à própria I. se ela estava dormindo, no que prontamente ela respondeu:

- Tô dormindo, sim! 

Uma pergunta foi pouco, era preciso checar a informação.

- Então não está acordada? 

E veio a preciosa resposta que selou o diagnóstico:

- Tô acordada, não! 

Estava então tudo esclarecido! A I., ao nos ver, prefere dormir e sonhar com os besteirologistas. Pelo menos foi o diagnóstico mais simpático a que chegamos. Para nós! No encontro entre um palhaço e uma criança é isso que importa, o respeito mútuo, a confiança e a certeza de que podemos ir até onde o jogo permitir. O “não” de uma criança muitas vezes significa um “sim” e de não em não, de sim em sim, vamos atendendo cada uma delas conforme as regras do jogo. 

Já com as mães, o “fingir” que está dormindo ou dançar e até rebolar quando tocamos uma música faz com que se abra um portal de alegria nas enfermarias. Para a criança, se a mãe se diverte ela também se diverte, e se uma enfermeira se diverte, nossa!, a criança rola de rir na cama. E imaginem quando um médico se diverte! Para a criança isso tudo é muito incrível, e para nós, tirar partido disso é mais do que uma simples diversão, é estreitar as relações dentro do hospital e falar de igual pra igual, todos em prol da mesma causa, que é tornar aqueles dias de internamento da criança mais leves e até divertidos.

Dra Mary En e Dr. Micolino (Enne Marx e Marcelino Dias)
Hospital da Restauração – Recife

Economize no banho ou…

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Tem coisas que acontecem sempre em nosso trabalho, e uma delas é ter pacientes que nos acompanham durante todo o percurso das visitas besteirológicas, muitas vezes observando de longe e comentando cada bobeira observação que fazemos. 

Em um dia de visita aparentemente normal, os doutores Mingal e Chicô conheceram F., um menino de aproximadamente seis anos que de cara chamou a atenção pela disposição. Era só ouvir um barulho diferente que ele corria para ver se eram os besteirologistas. O garoto fazia questão de recebê-los na entrada da Pediatria, pois não queria perder nenhum segundo ao lado deles. 

Foi então que Mingal teve uma brilhante ideia: vesti-lo de besteirologista para poder ter um dia de descanso! Colocou seu chapéu, o jaleco e um belo nariz vermelho no garoto!

economia de agua

Quando Chicô viu o menino vestido de Mingal, nem notou a diferença (como já era esperado), a não ser pelo tamanho. 

- Mingal, você ficou muito tempo no banho? É impressão minha ou você encolheu?! 

O garoto, sem parar de rir, fez um “sim” com a cabeça. Indignado, Chicô foi mostrar para as pessoas o perigo de um banho demorado e do desperdício de água… Ao final do dia todos do hospital já haviam recebido as recomendações besteirológicas:

Economize água e não demore no banho, caso contrário, você encolhe!

Dr. Mingal e Dr. Chicô (Marcelo Marcon e Nilson Domingues)
Hospital Santa Marcelina – São Paulo

Semana Mundial do Brincar começa neste domingo

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De 25 a 31 de maio acontece a Semana Mundial do Brincar em todo o Brasil, com brincadeiras abertas para a comunidade, palestras e ciclos de debates a partir do tema “brincar”. A mobilização é promovida pela Aliança pela Infãncia e tem por objetivo contribuir para o aumento da sensibilização e da consciência sobre a importância do brincar e o respeito que devemos ter por esta ação.

Doutores da Alegria participa da Semana por meio de sua atuação nos hospitais da capital, levando alegria e estimulando a brincadeira com as crianças hospitalizadas. A maior parte das atividades é gratuita e há opções como shows, oficinas, rodas de capoeira, piqueniques e contação de histórias com músicas. programação completa está aqui

Segundo a Aliança pela Infância, a brincadeira é uma atividade essencial de expressão e desenvolvimento da criança, além de ser fonte de aprendizado, transmissão de saberes e de educação. Saiba mais acessando o site sobre a Semana ou ligando no (11) 11 3578-5004.

Daquelas pelas quais a gente se apaixona

Um garotinho miúdo, de palavrinhas enroladas e bem falador. Uma criança marcante, de olhinhos atentos, daquelas pelas quais a gente se apaixona

Eu o conheci no Instituto de Tratamento do Câncer Infantil (Itaci), semestre passado. Ele adorava quando nos interessávamos por seus brinquedos e gostava de explicar como cada um funcionava – carrinhos, joguinhos e bichinhos de pelúcia.  

O semestre passou bem rápido e agora eu, Dra. Greta Garboreta, estou trabalhando no Instituto da Criança com o excelentíssimo Dr. Pistolinha. Dia desses, na ala de internação do convênio, encontramos a brinquedoteca cheia. A não ser pelas crianças que estavam em isolamento, parecia que todas as outras estavam lá, e lá também estava o R., o garotinho que conheci no Itaci. Fiquei feliz em reencontrá-lo. 

Depois, quando chegamos no quarto em frente, lá estava ele, sentadinho na poltrona, a nos esperar. Nem bem entramos e ele se apressou em pegar um sapinho de pelúcia que estava ao seu lado. 

Dr. Pistolinha: Qual o nome do seu sapo?
R.: Isopor!
Pistolinha: Que nome legal! Porque você colocou esse nome nele?
R.: Porque ele precisava ter um nome!

Pistolinha: (ao ver um robozinho que estava no parapeito da janela) E esse, como se chama? 
R.: Esse não tem nome, é brinquedo!
Pistolinha: Ah! O sapo tem nome porque não é brinquedo, né?
R.: É. Ele é meu filho, mas come comida de sapo, mosca!
Dra. Greta: Nossa! Então quando ele crescer, ele vai poder voar, tem tanta asa dentro dele!

O menino parou, como que para refletir sobre o que a Dra. Greta tinha falado, mas não disse nada. 

Pistolinha: Ele vai crescer mais?
R.: Vai, um pouquinho assim (e mostrou a beirada da cama). E vai pular muito! (e olhando para Greta) E voar também! Eu vou dar muita comida de sapo para ele crescer.
Pistolinha: Puxa! Ele pode até ser atleta!
Greta: Ele pode até ser pássaro!
R.: É.
Greta: Você é um ótimo pai!
R.: É. 

Ah! Esqueci de dizer, durante nossa brincadeira na brinquedoteca, diversas vezes trombamos com as paredes e portas na hora de sair. Esse detalhe é importante para entender o que vem a seguir. 

Pistolinha e Greta: Legal R., nós gostamos muito de conhecer o seu filho, agora vamos embora, tá?
R.: Tá!
Greta: Você pode acompanhar a gente. Mas é que toda vez que vamos sair, a gente erra a porta e bate na parede!

Daí aconteceu a coisa mais linda. O menino pegou a mão da Greta, pediu também a mão do dr. Pistolinha e disse: 

R.: Eu vou levar vocês até lá na saída, tá?
Pistolinha e Greta: Ai, muito obrigado! Assim a gente não se machuca, né?
R.: É! (sorriso) 

E a passinhos lentos, na maior delicadeza, essa criaturinha nos levou à porta de saída e ao fim de nossa jornada naquele dia… 

Antes da porta se fechar vimos seu pai, que nos acompanhou calado durante toda a visita, a nos agradecer com os olhos embaçados. Já detrás da porta, eu e Pistolinha somente nos olhamos… 

Dra. Greta Garboreta (Sueli Andrade)
Dr. Pistolinha (Duico Vasconcelos)
Instituto de Tratamento do Câncer Infantil – São Paulo
Agosto de 2013 

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Um olhar recém nascido

Tempo de leitura: 2 minuto(s)

Uma das regras da Besteirologia – se é que ela tem regra – é que nós temos que ter nosso olhar sempre aberto para o novo.

Cada dia, cada momento, cada criança, cada “bom dia”, cada rotina, por mais rotineira que seja, temos que sentir tudo como se fosse a primeira vez. Temos que ter memória de peixinho dourado, que depois de três segundos esquece tudo e tudo fica novo de novo! Mas essa lição nós, besteirologistas, não aprendemos em livros. Onde encontrar?  

Eu (Dr. Marmelo) e a Dra. Mary En estudamos um final de semana inteirinho: ela no sábado e eu, no domingo. Aprendemos que a forma com que as crianças pensam, enfrentam seus problemas, nas suas brincadeiras, nas suas reações, nas mudanças de humor, na ingenuidade, o desejo de ter, de jogar, de experimentar, a ignorância do perigo, o desejo de abarcar tudo, seu imaginário e, especialmente, seu olhar para o mundo, é a maneira com que devemos encarar a Besteirologia!

Em um plantão dia desses, eu e Mary En nos deparamos com uma criança de poucos centímetros. Tinha acabado de nascer, estava no bercinho toda enrolada e toda meladinha… Vestígios do parto! Um ser bem frágil… E na Besteirologia, no palhaço, a fragilidade representa uma grande fortaleza!

Sua pele era seda pura, novinha em folha… Novo, tudo novo, a imagem era maravilhosa! Não sabíamos se era menino ou menina, mas quando questionamos, ops, surpresa! O movimento do bebê fez escapulir seu lençol… Era menina! E era tão inédita que não tinha nem nome fixado no leito.

A partir de agora, por alguns anos, o olhar dessa criança será de descobrimento, de curiosidade, olhar o que nunca foi visto o tempo todo. Enquanto a gente cantarolava uma música quase que em sussurro, o bebê desgrudou um olhinho, olhou para o mundo e… Olhou com bastante curiosidade para nós!

Precisa responder onde encontrar nossa fonte de estudos? O olhar da menina observava as coisas com tanta curiosidade que nos levou à nossa própria história, de quando nos sentimos assim, novinhos, despidos de toda e qualquer impureza, sem nada traçado, tudo por vir. Já dizia o filósofo Jostein Gaarder: A única coisa de que precisamos para nos tornarmos bons filósofos é a capacidade de nos admirarmos com as coisas

Os bebês possuem esta capacidade, mas à medida que crescem, a perdem. Deste modo, podemos comparar um filósofo a uma criança: tanto um quanto o outro ainda não se acostumaram com o mundo e não pretendem se acomodar com as coisas.

Dr. Marmelo (Marcelo Oliveira)
Dra. Mary En (Enne Marx)
IMIP – Recife
Agosto de 2013 

Os olhos mais felizes do mundo!

Dia desses entramos na UTI e  M. estava dormindo. Quando sua mãe nos viu, seus olhos começaram a marejar, marejar, e de repente, transbordaram em um mar de lágrimas.

Por um instante ficamos sem saber o que fazer nem o que dizer, mas ao ver que  o menino apenas dormia, falei: você está emocionada, então vamos aproveitar e aguar a nossa florzinha?.  entregamos a ela uma florzinha de plástico. Como ela continuava chorando, toquei em seu ombro e falei: mas olha, ele está bem… Ao que ela, com a voz embargada, respondeu: ele não está enxergando.

Silêncio.

Difícil escutar uma notícia dessas a respeito de um paciente nosso. Afinal, o M., com seus lindos olhos esverdeados, sempre nos olha com grande curiosidade, é um ótimo jogador, daqueles que nos inspira em nossa jornada de besteirologistas.

Bem, o silêncio não podia durar a vida inteira e eu, meio lá e meio cá, disse: humm, deve ter sido alguma complicação né… mas ele vai ficar bem. Olha, fica com a flor e vai aguando ela, na próxima visita a gente vê se funcionou. Fomos embora.

Na visita seguinte, encontramos a mãe na entrada da pediatria, com os olhos brilhando e muito feliz. Ela nos disse: “O M. está esperando vocês! Na minha cabeça passou um pensamento voando: ah, ele deve ter melhorado. Quando entramos na enfermaria, ele estava sentado e já sorrindo, nos viu!

Uau, M. estava enxergando de novo!! E ainda tinha uma historinha pra contar pra gente. Ele contou que aconteceu uma catástrofe, a florzinha que deixamos tinha caído justo no… seu cocô! A sua mãe até pensou em lavá-la, mas ele não deixou! Ora, para ele, sua mãe e nós, a florzinha acabou cumprindo o seu papel, e o que importava agora era a felicidade enorme nos olhos de sua mãe e a alegria de M. vendo tudo de novo!

Na última visita, ele foi logo avisando: Eu estou de alta. Perguntamos: Ué, quem deu alta, sem a nossa autorização?, O Dr. Pedrosa, respondeu. Então complementamos a alta, colocando um adesivo colorido em sua testa, nos despedimos e fomos embora felizes da vida! 

Dra. Mary En (Enne Marx)

Dr. Marmelo (Marcelo Oliveira)

IMIP – Recife

Julho de 2013