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Aquela sensação

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“Em 1999, ainda com 10 anos, tive leucemia e fui tratado durante quatro anos no Centro Boldrini, em Campinas. Lembro-me até hoje do meu primeiro dia no hospital, cheio de dúvidas e medo, recém-diagnosticado e com uma longa batalha pela frente.

Vi um adesivo informando que naquele hospital havia visitas dos Doutores da Alegria. Ainda não sabia quem eram e o que aquilo significava.

Ao longo do tratamento tive o prazer de conhecer o Dr. Zabobrim e a Dra Zuzu, meus besteirologistas. É emocionante lembrar todos os momentos que passei com eles, que tinham a incrível capacidade de transformar aquela rotina e fazer tudo aquilo valer a pena, afetando também meus pais e todos que frequentavam o hospital.

Campo Limpo 1

Eles eram o meu dia, desde o momento em que os esperava extremamente ansioso e depois, quando contava tudo ao meu pai e aos meus irmãos pelo telefone. Por um bom tempo, me esquecia da doença e via um lado bom naquilo tudo.

Os Doutores da Alegria realmente mudaram a minha vida. Hoje estou no quarto ano de Medicina e almejo me tornar oncologista! Quero devolver um pouco de tudo o que já recebi. Dentro da faculdade, faço parte do grupo Amigos da Alegria e realizo algo semelhante ao trabalho dos besteirologistas – como o Dr. Alceu, Alceu Dispor.

Estou apaixonado pelo trabalho e a cada visita que faço me sinto mais feliz, renovado e realizado. Vou seguir estudando muito, para ser sempre capaz de ajudar, seja como médico ou besteirologista. Em 2015, quase 15 anos depois, tive a oportunidade única de visitar os Doutores em sua sede.

bruno campagnone na sede do doutores

Novamente eles fizeram tudo valer a pena e voltei para casa com a energia renovada! Depois desse longo intervalo, fiquei muito feliz por sentir a mesma sensação que tinha logo que os palhaços saíam do meu quarto no hospital: ansioso pelo próximo encontro! E claro, também teve a tradicional narração da experiência aos meus pais, que desta vez os fez chorar muito.

Hoje acredito finalmente ter resolvido aquela dúvida que tive em meu primeiro dia de hospital: os Doutores da Alegria são aqueles que trabalham na profissão mais bonita, útil e incrível de todas!”

Bruno Campagnone

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Como vim parar aqui?!

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Depois de 20 anos atuando no Doutores da Alegria resolvi parar, olhar para trás e fazer uma retrospectiva artística. Senta que lá vem história!

pai-aços(na foto: Raul Figueiredo e seu filho João Gabriel)

VINDO DO INTERIOR

Venho de uma família religiosa que trabalhou por muitos anos como voluntária em uma associação que atendia cerca de 150 mulheres em condições de vulnerabilidade social na minha cidade natal, Catanduva, interior do Estado de São Paulo. 

Toda semana, minha mãe ensinava às moças como se deve cuidar de uma casa, dava noções de higiene, dicas sobre alimentação, aulas de bordado e crochê. Meu pai também ajudava, em um domingo por mês, conversando com os maridos das mulheres e regularizando sua situação. Muitos deles eram desempregados, ex-presidiários, sem carteira de trabalho, título de eleitor ou certificado de reservista. 

Aos sábados percorríamos as ruas do bairro recolhendo jornais pela vizinhança, que depois eram estocados na garagem da minha casa para serem vendidos aos comerciantes e feirantes. Esse dinheiro era usado para a manutenção do trabalho voluntário da instituição e para minha mãe comprar tecidos e costurar pijaminhas para as crianças, filhos dos casais assistidos por eles. 

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Vivi essa realidade dos 10 aos 16 anos e sempre que estava de férias ou em casa sem tarefas da escola, ia com a minha mãe à associação e ficava tocando violão para as crianças na creche. Também fui tocar violão em asilos com meus pais e isso foi inspirador para mim. Sempre pensei em fazer o mesmo quando crescesse!

POR QUE RESOLVI SER PALHAÇO

Depois de passar pela música (piano e violão), pelo canto e pelas Artes Cênicas (ator), vi no palhaço a possibilidade de abraçar todas as Artes, pois o palhaço é tragicômico, melodramático, nonsense, lúdico e exige muita habilidade física e mental. Exercitar-se como palhaço é reconhecer-se a cada dia, ampliando os horizontes da imaginação, deixando o impossível cada vez mais possível.

Pergunto-me: será que dava para ser outra coisa?

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CHEGANDO A SÃO PAULO

Em 1992 terminei o curso de Artes Cênicas na UNICAMP e vim morar em São Paulo. Comecei a atuar em algumas companhias paulistanas de teatro e conheci o trabalho dos Doutores da Alegria em 1995 por meio da atriz Alexandra Golik, que atuava comigo e já fazia parte do elenco. 

Nesse mesmo ano fiz teste e fui selecionado para entrar na ONG

NO DOUTORES DA ALEGRIA

Atuei por 11 anos como o besteirologista Dr. Zappata Lambada em todos os hospitais que o programa atende e atendeu em São Paulo, e também em outras unidades da ONG.

Estive nas montagens de espetáculos infantis (“Vamos brincar de médico” e “Senhor Dodói”), ambos premiados e com excelentes críticas e aceitação do público, e atuei como músico substituto no infantil “Poemas esparadrápicos”, produzido pelo elenco da unidade de Recife.

Também estive em outras apresentações como o saudoso “Midnight Clowns”. Em empresas, participei de muitas palestras institucionais, inúmeros RISOs 9000 e outras ações. 

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Durante esse período de atuação comecei a dar algumas oficinas de música e jogos para o elenco de palhaços, em nossos treinamentos às sextas-feiras. Essa experiência rendeu um convite para integrar a equipe de formação da organização. Desde 2007 dou aula na Escola dos Doutores da Alegria, mas lá em 1999 eu já ajudava na construção de conteúdo. 

Atualmente sou professor de música no segundo ano do Programa de Formação de Palhaço para Jovens e auxilio na criação da trilha sonora do exercício cênico. 

Foi em 2007 que também criamos o programa Palhaços em Rede, do qual sou tutor desde o seu início. Nessa função tive o prazer de viajar pelos quatro cantos do país dando oficinas de orientação e formação para grupos de palhaços com diferentes formas de atuação que visitam hospitais. 

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Trocamos ricas experiências em nome de um movimento: a arte estimulando a mudança, promovendo a qualidade das relações humanas e cultivando a saúde.

Quase 21 anos… Doutores da Alegria é uma parte de mim. E já que vim parar aqui, daqui não saio, daqui ninguém me tira!

Você pode segurar minha galinha?

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Vez em quando sempre é bom refletir sobre a essência do nosso trabalho. Uma história antiga habita nosso imaginário e faz parte do rol de grandes encontros e momentos que vivenciamos nos hospitais.

O trecho abaixo faz parte do livro “Boas Misturas – A ética da alegria no contexto hospitalar” (Editora Palas Athena – 2003), de Morgana Masetti, seguido de breve consideração da autora. Leia com calma e guarde uns minutinhos depois para pensar sobre o assunto – se quiser deixar um comentário pra gente com seu pensamento, melhor ainda. Vamos compartilhar saberes.

Trata-se de uma história contada pela artista Vera Abbud, a integrante mais antiga dos Doutores da Alegria, ainda em ação como a dra. Emily.

“Quando se aproximava da porta da UTI, depois de cumprir seu trabalho de manhã na enfermaria infantil, a besteirologista dra. Emily viu Maria, a mãe de Denise, uma menina que ficara internada muito anos por causa de um problema renal.

Sabia que seria um encontro difícil… A menina morrera no dia anterior e seu pai, transtornado pela dor, se suicidara ao receber a notícia. Ele e a esposa, de tanto conviver com a equipe do hospital, tinham concentrado seus afetos ali naquele ambiente, dentro da UTI onde a criança era tratada. Tão presentes e íntimos, eles viraram ajudantes de palhaços.

No trajeto que separava uma da outra, a dra. Emily pensava na dor de Maria. Sem tocar no assunto, a mãe informou que precisava falar com o médico. Já tentara contato via interfone, sem sucesso. Pedira, então, para duas enfermeiras e mesmo assim não obteve resposta. A dra. Emily prometeu ajudá-la:

- Eu vou chamar o dr. João.

- Mas você volta – insistiu a mãe – porque eu já pedi para várias pessoas que entraram aí e ninguém me dá retorno.

- Olha, eu vou deixar minha galinha aqui de refém, para provar que eu vou voltar – disse Emily, tirando a ave de plástico de sua “maleta médica”.

Sem saber explicar por que, a dra. Emily sentiu e constatou que o gesto, tão simples e inesperado diante da situação, deixou Maria confiante de seu retorno. Assim, entrou na UTI à procura do dr. João.

Soube que ele estava na sala de descanso e foi até lá. No caminho, pensava no grande carinho que tinha por ele, uma pessoa muito especial, muito ligada a seus pacientes. Ele se envolvia de tal maneira que chegou a adotar uma criança de quem cuidara, abandonada no hospital pela mãe.

Ao chegar à porta do aposento, a Dra. Emily pediu permissão para entrar e o encontrou sentado à mesa, ao lado da bicama, com o semblante de quem está arrasado.

- Dr. João, a mãe da Denise pediu-me para dizer que precisa falar com o senhor.

Ele mal conseguia articular as palavras. Respondeu, com voz triste:
- Mas a criança… ela… morreu.

Dra. Emily compreendeu, naquele exato momento, que ele mesmo ainda estava tentando se apropriar do que tinha acontecido. Mergulhado em sua própria dor, ele não conseguiria olhar para a mãe da pequena paciente. Nem argumentou, apenas se despediu e fez o caminho de volta, pensando em como contaria para Maria o que estava acontecendo. Mas, para sua surpresa, ela já não estava mais ali, fora embora levando a galinha de plástico.

Tempos depois, a dra. Emily a encontrou, pois de vez em quando ela ainda visitava a equipe, com a qual mantinha forte ligação. Maria lhe disse então que, inexplicavelmente, o fato de receber a galinha de plástico como refém fez com que ficasse mais tranquila e decidisse ir embora para casa. Ela sabia o quanto aquela figura era valiosa para a dra. Emily, por ter vivenciado muitas brincadeiras e “rotinas médicas” envolvendo sua filha.

Voce pode segurar minha galinha - Luciana Serra

Como pode uma galinha de plástico desempenhar um papel tão importante nessa situação? Parece incrível, aos olhos da razão, que isso possa ocorrer. Qualquer profissional que tentasse responder à necessidade daquela mãe, procuraria um arsenal de palavras (ainda que mentalmente, sem expressá-las) capazes de acalmar um pouco sua dor. Simples ilusão humana. O gesto de deixar algo de grande valor para Emily gerou de imediato um espaço de confiança. É desse ponto de partida que se constrói o trabalho dos Doutores da Alegria.”

Era uma vez…

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Era uma vez… Na verdade, já foram várias vezes.

Mas dessa vez nosso encontro com a C. foi uma ERA diferente. Ela é uma adolescente e a conhecemos há muito tempo. Quando entramos no seu quarto, vimos que estava deitada e parecia sonolenta. Ao seu lado um livro grande. 

Esses dados ajudarão a compor o cenário da história que vamos contar e que fez a nossa tão conhecida visita ter um outro encanto. Leiam agora a verdadeira história de Cinderela na versão bobonesca:

clauderelaEra uma vez uma linda princesa que vivia em um castelo cercada de vários cuidados. Ela vivia feliz até a chegada de uma bruxa (dra Svenza) que lançou um feitiço e a fez dormir por longos anos.

clauderela

Até que um dia, um lindo príncipe (dr. Lui) chegou na floresta e viu Clauderela adormecida no bosque. Como sempre ouviu essa história, ele já sabia que bastava um beijo apaixonado para despertar Clauderela daquele sono agourento. Mas justo na hora do beijo, a bruxa interrompe e diz: 

- Hahaha! Que príncipe é esse?! Não tem cavalo, nem espada!? 

clauderela

A menina escutava e assistia a tudo com um leve sorriso e interesse no desenrolar da história. Mas deu para ver no seu rosto também qual seria a solução que o desfecho dessa história lhe reservava. Movido pelo sentimento de amor e desafiado pela bruxa Svenza, o príncipe Lui pegou um “porta soro” que estava ao lado da cama e fez com ele o seu cavalo. 

Viu um guarda-chuva ao lado da cama da sua acompanhante e, apoderando-se dele, fez uma espada e enfrentou os tantos desafios para provar sua realeza. E nem foi preciso tanto, que ao dar o beijo apaixonado, Clauderela sorri e diz:

- E foram felizes para sempre!

A história poderia acabar aqui, mas na semana seguinte, já com a dra Baju do lado, visitamos a garota novamente e a vimos com uma peruca e uma coroa de princesa na cabeça. 

Não deu tempo da Baju saber da história que contamos com a menina mas fiquei “de cara”, encantado de verdade quando a vi daquele jeito. Será que ela estava brincando com a gente, dando continuidade à história? Será que era uma tentativa de encantar sua vaidade e ter de volta o que se foi? Ou será que era mais um desses acasos que surpreendem a gente e fazem a vida no hospital ter o encanto que tem? 

clauderela

Não sei responder e talvez nem precise, basta acreditar que os sonhos podem ser reais, que a magia faz nosso dia a dia ter a realeza dos príncipes e princesas que se encantam e se desencantam como na velha e linda história do Era uma vez…

Dr. Lui (Luciano Pontes) e dra Baju (Juliana de Almeida)
Hospital Oswaldo Cruz – Recife 

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No princípio era uma palavra

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Você já parou pra pensar de onde surgiu o seu nome?

Você já deve ter feito essa pergunta para os seus pais ou avós. E eles possivelmente te contaram que seu nome tem algum significado especial, que foi cuidadosamente pensado enquanto você ainda nem tinha chegado ao mundo. Ou então que ele surgiu em um susto, em um tropeço! – igual àquelas ideias brilhantes que nos tiram o fôlego de vez em quando.

Layla. Tamara. Arilson. Ou seus nomes de palhaço: Pororoca, Tan Tan e Dr. Ado.
Bonitos, né?

E o nome Doutores da Alegria? De onde surgiu?
- “Foi numa madrugada de maio de 1991. Eu tinha que apresentar o projeto a um possível patrocinador.”

Quem conta a história é o próprio pai: Wellington Nogueira, nosso fundador.

“Estava tudo escrito, menos o nome do dito cujo… Foi quando li a declaração de uma mãe atendida pelos palhaços do Clown Care Unit, em Nova York, que dizia que eles eram verdadeiros “doctors of delight”. Em português: doutores da alegria.

E ele pensou: o que é que um palhaço tem que garantir no hospital?

- “Alegria! Doutores da Alegria… Acho que é legal…”

“Escrevi o nome no papel e li em voz alta… Ficou claro que não seria Doutores do Riso, ou do Sorriso, porque essas eram formas de manifestar a alegria, algo simples que não necessariamente tem que desembocar em uma explosão de gargalhadas. Sutil, marcante e delicado.” 

Pegou! Vinte e dois depois, ainda faz sentido? E o seu nome, faz sentido pra você?

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Daquelas pelas quais a gente se apaixona

Um garotinho miúdo, de palavrinhas enroladas e bem falador. Uma criança marcante, de olhinhos atentos, daquelas pelas quais a gente se apaixona

Eu o conheci no Instituto de Tratamento do Câncer Infantil (Itaci), semestre passado. Ele adorava quando nos interessávamos por seus brinquedos e gostava de explicar como cada um funcionava – carrinhos, joguinhos e bichinhos de pelúcia.  

O semestre passou bem rápido e agora eu, Dra. Greta Garboreta, estou trabalhando no Instituto da Criança com o excelentíssimo Dr. Pistolinha. Dia desses, na ala de internação do convênio, encontramos a brinquedoteca cheia. A não ser pelas crianças que estavam em isolamento, parecia que todas as outras estavam lá, e lá também estava o R., o garotinho que conheci no Itaci. Fiquei feliz em reencontrá-lo. 

Depois, quando chegamos no quarto em frente, lá estava ele, sentadinho na poltrona, a nos esperar. Nem bem entramos e ele se apressou em pegar um sapinho de pelúcia que estava ao seu lado. 

Dr. Pistolinha: Qual o nome do seu sapo?
R.: Isopor!
Pistolinha: Que nome legal! Porque você colocou esse nome nele?
R.: Porque ele precisava ter um nome!

Pistolinha: (ao ver um robozinho que estava no parapeito da janela) E esse, como se chama? 
R.: Esse não tem nome, é brinquedo!
Pistolinha: Ah! O sapo tem nome porque não é brinquedo, né?
R.: É. Ele é meu filho, mas come comida de sapo, mosca!
Dra. Greta: Nossa! Então quando ele crescer, ele vai poder voar, tem tanta asa dentro dele!

O menino parou, como que para refletir sobre o que a Dra. Greta tinha falado, mas não disse nada. 

Pistolinha: Ele vai crescer mais?
R.: Vai, um pouquinho assim (e mostrou a beirada da cama). E vai pular muito! (e olhando para Greta) E voar também! Eu vou dar muita comida de sapo para ele crescer.
Pistolinha: Puxa! Ele pode até ser atleta!
Greta: Ele pode até ser pássaro!
R.: É.
Greta: Você é um ótimo pai!
R.: É. 

Ah! Esqueci de dizer, durante nossa brincadeira na brinquedoteca, diversas vezes trombamos com as paredes e portas na hora de sair. Esse detalhe é importante para entender o que vem a seguir. 

Pistolinha e Greta: Legal R., nós gostamos muito de conhecer o seu filho, agora vamos embora, tá?
R.: Tá!
Greta: Você pode acompanhar a gente. Mas é que toda vez que vamos sair, a gente erra a porta e bate na parede!

Daí aconteceu a coisa mais linda. O menino pegou a mão da Greta, pediu também a mão do dr. Pistolinha e disse: 

R.: Eu vou levar vocês até lá na saída, tá?
Pistolinha e Greta: Ai, muito obrigado! Assim a gente não se machuca, né?
R.: É! (sorriso) 

E a passinhos lentos, na maior delicadeza, essa criaturinha nos levou à porta de saída e ao fim de nossa jornada naquele dia… 

Antes da porta se fechar vimos seu pai, que nos acompanhou calado durante toda a visita, a nos agradecer com os olhos embaçados. Já detrás da porta, eu e Pistolinha somente nos olhamos… 

Dra. Greta Garboreta (Sueli Andrade)
Dr. Pistolinha (Duico Vasconcelos)
Instituto de Tratamento do Câncer Infantil – São Paulo
Agosto de 2013 

Quem nos ouve

Não é simples começar um relacionamento. Alguns pelo olhar, por serem apresentados por amigos, tantos pela porta da frente, outros pela porta dos fundos. E para casar, namorar ou até mesmo paquerar é preciso que ambas as partes estejam interessadas. Se permitam deixar entrar um na vida do outro. 

Foi assim e é assim que até hoje vem acontecendo conosco, besteirologistas. E também foi assim que se deu nosso namoro com a UTI Neo Externa. Paqueramos e conversamos em nosso café da manhã desse ano – que é uma ação dos Doutores da Alegria para falar sobre o trabalho no hospital – e finalmente recebemos um ok! 

Vamos fazer uma experiência, disse a Margarida. 

Ficamos bem felizes pois aumentamos por conta própria o nosso itinerário de trabalho e ampliamos a área de atuação da Besteirologia em outro setor do Barão de Lucena. 

Certa vez na fila, ou melhor, na fiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiila do almoço, conversávamos com nossos botões em voz alta: 

Pois é, Dr. Eu, agora temos mais bebês pra atender. 
É mesmo, Dr. Lui… Tem uns tão pequenininhos, não é?. 
Ah Dr. Eu, bebê é assim mesmo! Tem de todo tamanho… Principalmente, na UTI Neo Externa. 

Aí uma funcionária que também estava na fiiiiiiiiiiiiiiiiiila ouviu a conversa e disse: 

Ôxe! O que é que palhaços vão fazer lá? Esses bebês nem olham pra vocês! 

Não sei se por desinformação ou por estar com o miolo mole prejudicado por causa da fome ou mesmo por algum outro despropósito qualquer não diagnosticado na hora, mas não conseguimos responder direito àquela criatura que confundiu Besteirologista com palhaço e nem sabe ao certo sobre nossos encontros no hospital. Como nos relacionamentos, a gente só vê o que se passa por fora e nem sempre por dentro. 

Como contar para ela da alegria de todos que trabalham na UTI Neo com a nossa chegada?  Como detalhar cada exame besteirológico que fazemos com as mães e pais? Como descrever o Y. com sua dança acrobática ao ritmo do nosso ultrassom? 

Há coisas que transcendem o corpo e o olhar e só mesmo estando presente pra perceber que os bebês, seja lá qual for o tamanho, estão conectados com tudo à sua volta e é justamente aí que o palhaço atua. Às vezes atuamos miudinho como pede a ocasião e os resultados nos surpreendem. 

Foi o que aconteceu com a menina M. 

Ela estava toda mole, sem querer muita conversa. O Dr. Lui apresentou o Tobias, um boneco em formato de girafa que dançou, dançou e dançou. Ela? Apenas olhou, acompanhou na sua. Vendo que havia certo encanto da M. por ver Tobias requebrando tanto daquele jeito, perguntou o Dr. Lui: 

M., você quer tomar conta do Tobias pra mim? Tenho compromisso e não queria deixá-lo só! 

Ela balançou a cabeça dizendo “sim”. Lá ficou o boneco acompanhado de todas as recomendações intermináveis que o paspalho do Dr. Lui fez. 

Na visita seguinte, M. continuava quietinha e o Tobias descansava na janela olhando o tempo passar. Na outra semana chegamos bem empolgados pra cantar uma música para ela, mas o abestalhado do Dr. Lui inventou de dormir. Acordou num solavanco, assustado com a violãozada que o Dr. Eu deu bem no meio da sua bun… (eita! quase que eu dizia “bunda”!). 

Nunca pensamos que ela, na sua quietude, pudesse reagir daquela forma a um jogo físico tão bobo. Tentando ver se aquele era um bom efeito, Lui dormiu e acordou mais três vezes para a felicidade da garota, que ria mais a cada violãozada. 

No encontro seguinte avistamos uma menina correndo pela Enfermaria… E para a nossa surpresa era a M.! Talvez aquela risada arrancada de surpresa tenha quebrado o encanto e arrancado a menina da cama… 

Esperamos que de alguma forma que este relatório responda à moça que nos indagou sobre visitar bebezinhos. As bobagens podem fazer a nossa vida ser uma porta aberta para amores inesperados, é só bater! 

Toc, toc, toc! Podemos entrar?

Dr. Eu Zébio (Fábio Caio)
Dr. Lui (Luciano Pontes)
Hospital Barão de Lucena – Recife
Maio de 2013 

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Um hospital que marca

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E depois da emocionante carta da Dra Guadalupe sobre o ano de trabalho no Itaci*, aproveitamos pra relembrar uma história deste hospital que passou por aqui há exatamente um ano! E olha só, foi um relato dos Drs Dadúvida e Sandoval também sobre o trabalho no Itaci. Até música eles fizeram e compartilharam com o público na Roda Besteirológica.

Se você não viu, não perca esta oportunidade, veja aqui.

Vem ano, passa ano e de uma coisa a gente tem certeza: o Itaci marca o trabalho dos Doutores da Alegria.

* O Itaci, ou Instituto de Tratamento de Câncer Infantil, abriga crianças sob tratamento de câncer

 

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Qual a voz dele?

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Dra. Tan Tan e Dr. Cavaco

Durante um atendimento na Enfermaria do Hospital Barão de Lucena (Recife) conhecemos o J., de 6 anos. A Dra. Ana pediu que fôssemos falar com ele pois o menino estava triste. Sua mãe havia o deixado sozinho no hospital e ele não falava com ninguém.

Fizemos uma aproximação, tentamos estabelecer contato e depois de muito tentar, conseguimos alguns sorrisos. No outro dia estávamos passando pelo corredor e ouvimos bem de longe:

OOOOOOOOO!

A enfermeira disse:

Nossa, o “caladinho” falou!

Quando olhamos pra trás estava o J. sorrindo. Fomos correndo atendê-lo. Ele estava tímido, mas acabou brincando conosco. Percebemos que ele se divertia mais quando ficava como espectador de uma palhaçada, mas nada de falar.

Em outra visita besteirológica, lá estava ele nos chamando no corredor.

Palhaço! Vem aqui!

E como ele falou! Fizemos a maior bagunça e finalmente conhecemos a voz dele.

Dr. Cavaco (Anderson Machado)
Dra. Tan Tan (Tamara Lima)
Hospital Barão de Lucena
Outubro de 2012

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Do que é que não se pode rir?

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É bem possível que, nos anos anteriores, outras duplas dos Doutores da Alegria já tenham dedicado um relatório inteiro ao M., nosso velho conhecido da UTI do Hospital do Mandaqui (SP). Nós mesmos, nesse ano, já falamos dele um pouco aqui e um pouco ali. É inevitável. Afinal, ele, assim como a G., sua vizinha de leito na UTI, vivem no hospital dia e noite, 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano, e tudo isso já há alguns anos.

Num dia desses a Dra. Crica Canaleta deu os ares de sua graça por lá. Mal entrou na UTI e o M. já foi gritando:

Oi, Dra. Guadalupe!

A Dra. Crica retrucou dizendo que não era a Guadalupe.

Oi, Dra. Manela!, revidou o menino.

Crica enfureceu-se.

Calma, Dra. Pororoca…

E assim foi: M. desembestou a falar o nome de todas as palhaças dos Doutores da Alegria, exceto o da própria Crica. Foi quando eu, Dr. Zequim Bonito, cheio de boas intenções, resolvi intervir:

Poxa, M., isso não se faz; imagina se eu olho pra você e, em vez de dizer “oi, M.”, digo “oi, G.”?

Ele parou na hora. Esboçou um leve sorriso e sem hesitar nos disse:

Eu não posso ser a G. E sabem por quê? Porque eu não babo!

…………………………………………… . . .

Essas linhas aí em cima são para dar tempo para você reagir.

Todos aqueles a quem contamos a frase do M. reagiram com um sorriso, meio franco, meio amarelo.

E é isso mesmo. Vejam vocês! Ele parecia saber que a ‘crueldade" dele poderia provocar o riso. Se arriscou e foi cruel. E nos revelou o que já é explícito: ele, do ‘alto" de sua condição de tetraplégico, se permite fazer humor com a fragilidade alheia, uma das poucas fragilidades que ele não possui. Isso é humano? Compreensível? Quem afirmará e quem negará?

Ainda esse mês, num desses conversês que às vezes se instala entre os palhaços e o M., falamos que tínhamos assistido a um filme cujo protagonista, tetraplégico, se locomovia, escrevia, pintava, tudo controlando seus equipamentos somente com a boca.

Sabíamos que o tema era ousado, mas como o abordamos de uma maneira tão despretensiosa, e a nosso ver, sincera, não o evitamos.

Que filme é esse? Tem no YouTube? Quero ver!, disse-nos M.imediatamente.

E lá foi ele assistir ao trailer de “Intocáveis”, filme francês baseado em fatos reais sobre a relação entre um tetraplégico e seu assistente. Se você ainda não assistiu, tente assistir. É um filme cheio de humor e delicadeza. M. riu ao ver o assistente, distraído, enfiar a colher de comida no olho do paciente. Riu também ao ver o paciente caindo da cadeira porque o assistente simplesmente esqueceu de colocar-lhe o cinto de segurança. E por aí vai.

Pois é, quem somos nós para saber do que se pode rir e do que não se pode rir?

Dr. Zequim Bonito (Nereu Afonso)
Dra. Emily (Vera Abbud)
Setembro de 2012
Hospital do Mandaqui

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