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O nosso caldeirão de emoções

“Ninguém no hospital espera a visita de um palhaço, ninguém está lá para isso. Uma pessoa hospitalizada está distanciada de seu cotidiano e de tudo que a cerca – objetos, cheiros, hábitos, bichos de estimação, familiares. Intimidade, identidade, controle sobre a vida, quase tudo vai pro espaço.”
 

A frase acima, de Soraya Saide para o livro Boca Larga, ilustra o sentimento que muitas crianças vivenciam quando estão internadas ou passam um longo período hospitalizadas. O brincar fica de lado e exames, avaliações, injeções e conversas sérias tomam seu cotidiano. Dependendo do tempo de internação, as visitas se tornam raras e os acompanhantes, cansados e preocupados com a situação, não têm paciência – ou cabeça – para dar a atenção devida à criança. 

Lugar de urgências, emergências, contingências, o hospital quase que exige que a imaginação seja deixada de lado. Os profissionais precisam dar conta da demanda como podem; as pessoas, fragilizadas e desacreditadas do sistema de saúde público, exigem esforços da equipe. Apesar de parecer um ambiente frio e sisudo, o hospital é um caldeirão de emoções.

E daí surge o palhaço, montado no semblante de médico besteirologista, e ocupa espaços absolutamente esquecidos: o espaço do erro, o espaço do humanidade, o espaço da imaginação, o espaço da dúvida. Ele desperta na criança, que ali recebe a outorga de paciente (e não de agente!), o desejo genuíno de brincar, sempre apoiado na sua permissão para seguir adiante. Sim, é ela quem decide!

Apesar de comprovar empiricamente ali, no dia a dia de trabalho, descobrimos por meio de pesquisas que as visitas influenciam muito na relação das crianças com o próprio tratamento. Dá uma olhada:

Pesquisa Instituto Fonte | 2008

Brincar e sair das nossas zonas de conforto – de atitude e de pensamento! – modificam não só o nosso comportamento como também todo o ambiente. Não é preciso ser sisudo pra ser sério, não é mesmo?

Durante as visitas, acompanhantes, médicos, enfermeiros, seguranças também entram no jogo. Esses encontros dão potência para seguir o dia com mais leveza, com mais alegria, e provam que apesar da situação, é preciso encontrar o lado saudável da vida, o lado que nos conecta com o outro, que nos potencializa para fazer melhores escolhas. E essas escolhas podem ser um sorriso, uma escuta mais presente, uma decisão em conjunto.

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Você sabia? IDH mede expectativa de vida

A Organização das Nações Unidas divulgou ontem o novo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) que engloba 187 países. O Brasil subiu uma posição no ranking, ficando em 79º lugar, próximo a países como Jordânia, Sérvia, Georgia e Granada.

Um dos pilares que medem o desenvolvimento de um país é a saúde. Segundo a organização, uma vida longa e saudável é medida pela expectativa de vida ao nascer, cuja média brasileira é de 73,9 anos. Em comparação, a média latino-americana é de 74,9 anos, a da Noruega (melhor) é de 81,5 anos e a de Serra Leoa (pior) é de 45,6 anos.

Plateias Hospitalares no Hospital Geral de Pedreira

Em geral, a expectativa de vida mundial cresceu, graças à queda na mortalidade infantil, um número menor de mortes causados pelo HIV/Aids e melhora da nutrição.

Segundo a Rádio ONU, “de acordo com o relatório, os esforços do Brasil para reduzir a desigualdade, promovendo a distribuição de renda e acesso universal à educação e saúde, entre outros, tem melhorado a nutrição infantil, resultando na maior redução do nanismo entre os 20% mais pobres da população.”

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3G ou palhaço?

Neste mês nos dedicamos a uma pesquisa muito útil e alarmante. Perguntamos aos pacientes de diferentes alas se eles preferiam a visita de um palhaço besteirologista ou a de um celular com internet de graça.

Sabe qual foi a resposta unânime? Todo mundo respondeu que preferia o celular! 

Embora um pouco arrasadas, as doutoras Pororoca e Guadalupe foram mais a fundo e descobriram que as crianças – e adultos – estão viciados e hipopotizados por redes sociais, fotos curtidas e compartilhadas e joguinhos de todos os tipos. Muitas das nossas visitas são fotografadas e filmadas com o argumento de que depois as crianças poderão assistir tudo novamente, quando formos embora. Com algum custo, Pororoca e Guadalupe pegaram no tranco e formularam algumas questões: 

- Filmar e registrar pensando no futuro modifica o encontro no presente?

- O passado não é mais como o futuro do presente?

- A Besteirologia está fardada ao ostracismo?

- A Besteirologista está demodê?

- Será que nossa atuação terá que ser também via internet, com consultas on-line e dicas de saúde e beleza via tutoriais de Besteirologia?

Novos tempos, novas abordagens… Parece piada, mas é sério.

#raxitegue
#eagorajose
#pororocaeguadalupeversusfacebook
#querovirarviral 

Faça você também sua # a respeito desta questão!

Dra. Pororoca (Layla Ruiz) e dra. Guadalupe (Tereza Gontijo)
Hospital Universitário – São Paulo 

Conferência internacional recebe trabalhos científicos

Em outubro acontece na Itália a primeira Conferência Internacional Sobre o Palhaço em Hospital Pediátrico com a ideia de promover a reflexão na pesquisa e no treinamento.

Doutores da Alegria estará representado no evento pela psicóloga Morgana Masetti, que trabalha junto à organização e desenvolve pesquisas relacionadas a este trabalho. Além de integrar a comissão organizadora, ela fará uma apresentação sobre a ONG e sobre as pesquisas que vem conduzindo por meio do Healthcare Clown Research International Network (HCRIN)*.

No encontro de dois dias serão debatidos temas como o treinamento contínuo e a supervisão, os limites entre o papel artístico e o papel terapêutico, evidências clínicas que as pesquisas mundiais trouxeram até o momento, entre outros. A programação completa do evento será disponibilizada em breve no site da conferência.

Apresentação de trabalhos científicos

O comitê organizador convida para o envio de propostas de apresentações orais e pôsteres. É preciso enviar trabalhos científicos até o dia 8 de junho de 2014. As instruções de envio e demais contatos estão no link a seguir: http://www.meyer.it/lay_not.php?IDNotizia=8554&IDCategoria=919. 

* O HCRIN é uma união de projetos de vários hospitais europeus que tem por objetivo gerar conhecimento (por meio de publicações acadêmicas, principalmente) que colabore com a atuação artística do palhaço no hospital e que construa pontes com a área da saúde.

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Bom humor é bom

Nem todo mundo sabe, mas o foco do trabalho dos Doutores da Alegria é artístico e não possui fins terapêuticos. Apesar disso, alguns resultados atestam a transformação do ambiente hospitalar a partir do encontro da criança com o besteirologista. Mas como a gente percebe o impacto do bom humor na recuperação de pacientes?

De duas maneiras principais: na observação diária e por meio de pesquisas (veja mais abaixo).

Entre outros resultados, já comprovamos que:

- uma criança mais alegre e animada colabora e responde melhor ao tratamento;
- o bom humor pode ajudar o paciente a se relacionar com o tratamento, com os profissionais e com os desafios da doença de uma maneira mais rica em possibilidades;
- ao passar por uma situação de internação, o bom humor traz a oportunidade de reflexão acerca de novas formas de viver a vida a partir da cura.

Para Wellington Nogueira, fundador dos Doutores da Alegria, “o bom humor pode nos lembrar que existe vida ANTES da morte”.

E fora dos hospitais? Qual a importância do humor no dia a dia?

Ah, ele influencia em nossas escolhas! Você escolhe o que te tira ou não do sério e não se deixa abater facilmente, demonstrando uma atitude mais otimista e esperançosa frente aos obstáculos. Para nos ajudar a manter o bom humor, Wellington dá algumas dicas:

“Em primeiro lugar, respirar, sempre, porque esse simples ato já nos relaxa e oxigena; respirar fundo e expelir o ar devagar é uma ótima forma de relaxamento. Nos hospitais, aprendi a enxergar que além da doença existe um lado saudável na criança que pode ser estimulado. Podemos fazer a mesma coisa e nos agarrar ao que está bom: posso estar no trânsito e escolher ficar amargurado ou ouvir uma música agradável, pensar em algo bom que me aconteceu e até mesmo planejar algo para fazer quando sair do trânsito!

Enquanto existe vida, existe sempre a oportunidade para pensarmos nesse lado mais saudável. Ter consciência de que temos essa escolha já nos faz mais fortes! Se nos posicionarmos como vítimas do tempo e do mundo, assim seremos; se fizermos a escolha pela saúde e pela alegria genuína, colheremos os frutos também.”

Como você faz para manter o bom humor no seu cotidiano?

* Sobre as pesquisas: Doutores da Alegria tem a pesquisa em seu DNA. Como organização da sociedade civil, tem a responsabilidade de prestar contas do impacto social de seu trabalho. O primeiro registro com os resultados do impacto do programa de visitas foi realizado com a publicação “Soluções de Palhaços”, de Morgana Masetti, que apresenta, dentre contos que misturam ficção e realidade, resultados da pesquisa qualitativa aplicada junto às crianças hospitalizadas, seus pais e profissionais de saúde. Em 2008 apresentamos resultados de uma pesquisa realizada junto ao Instituto Fonte com profissionais de saúde de hospitais de São Paulo e do Rio de Janeiro. Em 2013 uma nova pesquisa realizada no Recife trouxe resultados semelhantes.

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Um espaço para acolher sentidos

por Morgana Masetti, coordenadora de pesquisa dos Doutores da Alegria

Morgana Masetti

Em 1998 Doutores da Alegria começou a trabalhar em parceria com profissionais de saúde também em sala de aula. Desde então nos perguntamos: o que temos para compartilhar com esse público?

Ao longo do tempo fomos percebendo que nosso trabalho de formação estava cada vez mais a serviço das coisas sutis, acontecimentos que são descartados no dia a dia ou dados como certos. Fomos descobrindo a importância dos espaços que privam a linguagem verbal e que instalam espaços de silêncio, de ações simples, do prazer de brincar.

Este ano, por meio da Escola dos Doutores da Alegria, estamos entrando formalmente na universidade em conjunto com o MadAlegria,  grupo de estudantes de diversas áreas da Faculdade de Medicina da USP que vão para o hospital de palhaços.

De uma maneira ou de outra, esses e outros vários grupos de estudantes da área da saúde no Brasil estão fincando bandeira em um desejo importante: atravessar a universidade por uma outra experiência de aprendizado, diversa da que encontram, em geral,  em sala de aula: uma experiência de sentidos. Sentidos físicos (olhar, ouvir, tocar) e também sentidos imaginários para a vivência de doença e cura.

A Medicina é, antes de tudo, um espaço através do qual podemos tecer nosso imaginário sobre  experiências ligadas à vida, à morte, ao sofrimento e às perdas. Olhar, escuta e tocar fazem circular este imaginário e também o dom da cura, um processo que envolve técnica e magia, que jamais se revela por mais que a ciência construa modelos para isso.

A estrutura de funcionamento atual da Medicina dificulta a circulação deste imaginário social. A formação médica valoriza prioritariamente a técnica, a relação de sintomas e saberes. Tudo o que não pode ser nomeado dentro desta estrutura de funcionamento não diz respeito à formação deste profissional.

Um curso de palhaço dentro da universidade de Medicina insere a possibilidade de fazer circular afetos e sentidos sobre este universo. É um espaço que trabalha na contramão do que estes jovens irão aprender, recoloca a magia no processo do imaginário médico. Isto não é pouco, pode ser um passo importante para a Medicina do futuro.

Mais belo ainda: parte do desejo destes jovens , talvez um desejo difícil de nomear, que aparece através da máscara do palhaço, mas que fala da possibilidade de colocá-los em contato com um futuro profissional  mais próximo do imaginário deles sobre a arte de cuidar.