Doutor 1: E o que você diria?

Doutor 2: É possível que seja a moléstia de Crohn.

Doutor 1: Sei.

Doutor 2: De qualquer modo, sugiro que se peça um biópsia quando se fizer a endoscopia.

Doutor 1: Sim.

Doutor 2: Verifiquem com os pais se não há possibilidade de corpo estranho.

Doutor 1: Claro.

Doutor 2: Pode haver também pseudomonas.

Doutor 1: É verdade.

Doutor 2: Ou citomegalovírus.

Doutor 1: Também.

O diálogo acima, real, foi ouvido recentemente nos corredores do ICr entre dois doutores de áreas distintas. O Doutor 1 é médico-professor na UTI do ICr. O Doutor 2, por incrível que pareça, é o Dr. Zequim Bonito, besteirologista dos Doutores da Alegria.

Dr. Zequim Bonito (à esquerda) e seus colegas besteirologistas

Doutor Zequim Bonito, ao contrário do que se possa intuir, não é médico e não tem nenhuma formação em Medicina. Mas, como bom xereta, vem frequentando informalmente as rodas de visitas entre professores e residentes que ocorrem em vários setores do Hospital das Clínicas.

Da primeira vez, chegou discreto e apenas pediu para ouvir a visita. Foi aceito. Permaneceu calado o tempo todo. Não procurou e nem gerou a menor graça para quem participava da roda. Se despediu como chegou: discreto.

Soube depois, através de sua parceira que ficara do lado de fora, que o simples fato de um Doutor da Alegria assistir séria e sinceramente a uma aula causava um enorme efeito para quem observava de fora. A graça talvez estivesse ali. Aproveitou as aulas que se sucederam para se habituar ao jargão medicinal e, aos poucos, passou a reproduzi-lo com o maior discernimento possível dentro de cada roda.

A partir daí começou a causar efeito entre os professores e residentes de cada roda. E muito aos poucos começou a ser convidado a participar e até mesmo a destilar seu mais novo saber entre seus pares. O efeito é realmente surpreendente. Não se espera que um Doutor de nariz vermelho, caixinha de música e bolhas de sabão, manipule com tanto… atrevimento – talvez seja a palavra mais adequada –  o linguajar médico. E tudo feito como no princípio: discreto, sempre discreto.

Dr. Zequim, Dr. D. Pendy e Dra. Zuzu
Hospital da Criança
outubro de 2010