Um trapalhão no hospital

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Dedé não é um dos trapalhões, mas gosta de aprontar umas atrapalhadas divertidas conosco.

Sua mãe, sempre ao lado, ria de tudo. Era só a gente abrir a porta que ela nos recebia com riso largo, mesmo vendo a evolução do quadro clínico do Dedé. Isso nos falava sobre confiança, sobre acreditar, perseverar na crença de que uma reviravolta fizesse a mudança certa. Não tinha cara feia. Para a dor que agravava, a cara era sempre boa, para não dar gosto à tristeza.

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A cada encontro nossa intimidade aumentava. E teve até dia que o Dedé inventou que estava dormindo só para não falar conosco. A sua mãe ria, pois ele levava a sério a brincadeira de nos enganar. O Dedé revelava também que além de um grande trapalhão era um grande ator, capaz de nos convencer e gerar dúvidas.

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Até que encontramos com ele na UTI. O caso era “grávido”, mas parecia que a gente agora não tinha mais segredos e ele até ria com as nossas tentativas de fazê-lo rir um pouco. Acho que também teve aquela insistência na dose certa de querer ganhar sua atenção e poder mostrar por que existimos e estamos ali. 

Com ele tivemos que lidar com outra verdade, não o faz de conta, mas a conta que faz. Suamos, erramos e por isso acertamos. Dedé teve alta e não soubemos de mais notícias. Quem sabe um dia desses ele chega de surpresa e dá um susto na gente! Enquanto esse dia não chega, continuamos nossa atrapalhada. 

Dr. Lui (Luciano Pontes)
Instituto Materno Infantil Professor Fernando Figueira (IMIP) – Recife

Amor líquido

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A morte nos ensina a amar. Quem vai tem que ir e quem fica tem que deixar ir.

Muitas pessoas perguntam como é conviver com a morte de crianças na nossa rotina de trabalho. É uma resposta bem pessoal, cada besteirologista vê de uma forma. O que é comum entre a gente é a ressignificação que damos à morte: a criança vira flor, borboleta, estrela, ar, fogo, água, terra, pássaro… 

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C. tem 10 anos, seus olhos engolem tudo o que vê. Também, quanta novidade! Tinha acabado de chegar à UTI e seu pai esperava do lado de fora.

- Tem algum recado para ela?, perguntamos. Ele deu uma lágrima, amor líquido.

Contamos para ela todas as fofocas do hospital, até a paquera do Dr. Dud Grud com o porta soro… A prosa na beira do leito rolava solta. Ela morava na mesma cidade em que passei toda minha infância e estudava no mesmo colégio que estudei quando criança! Puxa, trocamos várias figurinhas!

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Disse pra ela que adorava a hora do recreio, tinha cheiro de coxinha frita no ar. Disse que mudaria a cor da batina do padre e que colocaria mais água dentro da piscina do pátio. C. nos engolia com seus olhos… 

Certa manhã, encontramos com sua mãe e seu pai em frente à UTI.

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Não tinha muita gente transitando no local e estavam os dois em silêncio. Na metade do corredor eles nos perceberam. A mãe olhou pra gente e começou a chorar. Na mesma hora tiramos uma flor, de plástico mesmo, do jaleco e entregamos a ela. Falamos que ela poderia regar a flor com sua lágrima. 

Nesse mesmo dia, fomos até o leito de C., que estava dormindo. Embalamos seu sono com uma canção. Durante o final de semana, recebemos a notícia da sua morte. A vida deu oportunidade a quem rodeia C. de aprender a amar. Aprender a deixar ir, soltar.

Dr. Marmelo (Marcelo Oliveira)
Hospital da Restauração – Recife

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Lembrança de uma ala adulta

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Aconteceu mês passado, durante o São Joãozinho. Passávamos pelas alas do Hospital do Campo Limpo em um cortejo musical. Nove palhaços-cangaceiros, instrumentos musicais, forró no pé.

Fomos abordados por uma médica com um pedido: que fôssemos à ala adultaTratava-se de um adolescente que estava com muita dor, em cuidados paliativos. Topamos.

E passamos por áreas nunca antes adentradas, como o PS adulto. O que de início era só uma visita a uma ala desconhecida virou um belo encontro com pessoas diversas!

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Desbravamos grandes enfermarias com muitos leitos e procura daqui, entra ali, chegamos ao leito do adolescente. Estava separado em um quarto pequeno, bem estreito. Eu, Dra Manela, entrei primeiro. Com dificuldade para chegar ao outro lado da cama, me virei de lado e cheguei até a cabeceira da cama.

Lá estava ele. Cheguei até seus olhos. Cumprimentei, me apresentei e disse que estava muito feliz de poder conhecê-lo. Percebi que ele não falava, pois estava com traqueostomia e a mobilidade não era a usual. O menino foi se comunicando à sua maneira, arregalava os olhos.

Fui chamando palhaço por palhaço e aquele quarto minúsculo de repente estava tomado por besteirologistas! E mais sanfona, violino, zabumba, triângulo, viola… Perguntei se ele gostaria de escutar uma música e ele mostrou que sim. Estávamos prontos para começar a cantar quando fui interrompida:

- Cuidado! A Manela pode soltar um pum aqui dentro!

Ele sorriu. Disse a ele que era invenção dos colegas e que não ligasse para o que falavam. Mantendo contato visual, reiniciei a música. E lá veio outro se aproximando do campo de visão do garoto.

- É verdade, a Manela sempre faz isso antes de cantar!

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E foi assim: cada palhaço entrava no campo de visão do rapaz e falava que era a mais pura verdade… E cada vez que outro entrava, piorava a minha situação, dizendo coisas horríveis a meu respeito! Acabou que difamaram a minha vida, e então me despedi dizendo que não era mais possível ficar mais ali. Ele gostou, era nítido.

Ao sairmos do quarto mantive contato sonoro com ele, pois sabia que ele não conseguiria se virar para nos ver, e disse ao grupo que agora estava aliviada pois acabara de soltar meu pum e, ufa, poderíamos cantar! E lá de fora cantamos e saímos ao som do Xodó do mestre Gonzagão. Coisa boa!

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Foi emocionante ver do lado de for a equipe nos agradecendo por mais essa! Coisas que vêm de dentro emocionam mesmo. Não sabia que meu pum emocionava tanto assim!

Dra Manela (Paola Musatti)
Hospital Municipal do Campo Limpo – São Paulo

Nem só bebês nascem nos hospitais

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A experiência vivida nos hospitais tem influenciado artistas que por lá passam.

As relações humanas, a saúde e a doença, os diálogos, as emoções… Tudo é fonte de inspiração para quem trabalha com arte e, através dela, atribui novos significados para a vida.

No projeto Plateias Hospitalares, desde 2009 no Rio de Janeiro, os espetáculos saem dos teatros para serem apreciados por pacientes, profissionais de saúde e acompanhantes. Agora, devagarzinho, vem acontecendo um caminho inverso: espetáculos nascem nos hospitais. E depois vão para os palcos. Veja três exemplos recentes:

O grupo Conexão do Bem criou “GameShow” especialmente para o Hospital Santa Maria, onde pessoas que tratam de tuberculose ficam afastadas em alas de um prédio alto. O espetáculo tem a estrutura de um programa de auditório, no qual a plateia é convidada a participar ativamente, e o desenrolar das cenas e seus desfechos dependem da participação dos pacientes.

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A Cia de Teatro Íntimo, que costuma levar poesias aos hospitais, criou “A balada do amor através das idades”. O espetáculo conta a saga entre duas pessoas em seus desencontros amorosos através das idades, até que, na velhice, descobrem que são almas que se buscam há muitas vidas. No roteiro, poesias de Carlos Drummond, Vinicius de Moraes, Adélia Prado, entre outros.

A Cia Teatral Milongas criou o espetáculo musical “Os bambas”, explorando a comédia existente no universo do samba, a partir de composições de Noel Rosa, Adoniran Barbosa, entre outros.

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Percebemos a participação dos pacientes, acompanhantes e servidores nas apresentações. Isso proporciona momentos de alegria e descontração e possibilita o acesso à cultura no ambiente hospitalar”, conta Eliane Fernandes, da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro.

Em anos anteriores, a atriz Ilana Pogrebinschi e o Milongas também tiveram no ambiente hospitalar a sua inspiração, criando “A montanha das três perguntas e outras histórias misteriosas” e “Contos fadados”.   

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Agradecemos aos artistas por aceitarem o desafio e irem além, criando novos espaços de interação entre a saúde e a cultura. Ver espetáculos nascerem nos hospitais, como bebês pequeninos e sensíveis a estímulos, é muito especial…

E, assim como aqueles, traz uma brisa genuína e renovada sobre o futuro dos hospitais.

Doutores recomenda: Seu Rei Mandou e Mostra Las Cabaças 10 anos

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Doutores da Alegria traz duas dicas culturais para aproveitar as férias em São Paulo:

Seu Rei Mandou, para curtir com a criançada, e a Mostra Las Cabaças 10 Anos, com um repertório incrível de duas palhaças que exploraram a Amazônia.

Seu Rei Mandou

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O espetáculo Seu Rei Mandou, da Cia Meias Palavras, traz para o palco histórias que tratam do universo fabuloso dos reis através de releituras cômicas e poéticas, ora críticas, mas sempre lúdicas.

A montagem tem texto, direção, figurinos e atuação de Luciano Pontes – conhecido nos hospitais pernambucanos como Dr. Lui –, acompanhado no palco pela flauta e tambor do músico Gustavo Vilar.

A peça promove um diálogo entre a contação de histórias, a música e o teatro de formas animadas em três contos: A Lavadeira Real, O Rato que roeu a Roupa do Rei de Roma e O Rei chinês Reinaldo Reis.

Quando e onde?

Somente nos dias 9 e 10 de julho (sábado e domingo) às 16h no Instituto Itaú Cultural. Ingressos gratuitos distribuídos com uma hora de antecedência.

veja aqui mais informações sobre Seu Rei Mandou

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MOSTRA LAS CABAÇAS 10 ANOS 

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Las Cabaças é um grupo formado em 2006 pelas palhaças Juliana Balsalobre (Bifi) e Marina Quinan (Quinan), ex-integrantes do Doutores da Alegria. Naquele ano, a dupla embarcou em uma viagem pelo Norte e Nordeste do Brasil, pesquisando e coletando materiais em seus encontros com o público e outros palhaços. Em 2009, fixaram residência em Alter do Chão, no Pará.

A dupla foi descobrindo o que há de universal no riso e o que há de mais genuíno na relação com o outro. E as experiências vividas nas pequenas comunidades se transformaram em roteiros teatrais através da linguagem do palhaço. 

Quando e onde?

Até 21 de agosto, a Mostra Las Cabaças 10 anos traz três espetáculos do seu repertório, com a estreia do terceiro, ao Sesc Pompeia, em São Paulo. Sábados e domingos, com ingressos entre R$ 5 e R$ 17 reais.

veja aqui a programação da Mostra Las Cabaças 10 Anos

As férias estão só começando… Traremos mais sugestões culturais em breve! :)

Flores e beija-flores

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Tem coisas que ouvimos que tocam tão fundo que parece que foi a gente que pensou!

Os hospitais que tratam crianças com câncer não podem ser percebidos somente pela crueldade da doença, pela dor que a perda nos gera com cada criança que vira estrela, cada criança que se cura; mas também pela poesia que permeia toda essa realidade e nos dá cada vez mais ganas de continuar.

Fotografia dos Doutores da Alegria no Hospital do Campo Limpo/SP.

Poesia que vemos na importância consciente de cada pessoa que cruzamos nos corredores do hospital, nos escritórios, na cozinha, nos consultórios, nas portarias. O olhar dessas pessoas está lotado de poesia!

Tem poesia também num parceiro de trabalho que se emociona quando uma mãe chora na UTI pelo simples fato de estarmos ali. Ele, mais do que ninguém, sabe que a nossa cirurgia é poética.

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Palavras têm que fazer sentido e, cotidianamente, ficamos presos na obrigação do sentido das palavras e atropelamos o silêncio que fala muito.

Crianças são passarinhos! Crianças somos flores!

A pequena C. desabrocha como a flor mais linda quando nos vê, viramos clorofila! M. me poetizou num fato lindo, um acontecimento histórico, mas ainda é segredo e não posso dizer, se você olhar nos meus olhos e nos do Dr. De Derson você descobre… Palavras estimulam a curiosidade. O silêncio revela.

Às vezes passamos montados em cavalos de nuvens, às vezes como uma bateria de escola de samba. Temos que perceber com muita delicadeza esse universo poético.

“O mundo está um caos” ouvimos, lemos e assistimos num barulho ensurdecedor, diariamente. Precisamos descobrir silêncios ativos para transformar a nossa vontade e realidade de um mundo mais poético e simples!

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Precisamos aprender a ver a vida como a K., que desafia todas as dores quando se abre para sorrir, e contagia sua mãe, que jamais vai desistir de lutar, mesmo sem o uso das palavras.

O mundo está triste com terrorismos, doenças, ganâncias políticas…

Sejamos o antídoto, sejamos mais poesia!

Dr. Daduvida (David Tayiu) 
Instituto de Tratamento do Câncer Infantil – São Paulo

Precisamos falar sobre isso

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Há algum tempo escrevemos sobre a ideia de que é preciso parar de dizer a pacientes com câncer o que eles deveriam estar fazendo para se curar.

A inspiração veio do artigo do jornalista Steven Thrasher para o jornal britânico The Guardian. A partir de experiências pessoais, Steven acredita que ao recomendar o que uma pessoa doente deve fazer, “você está dizendo: eu não deixaria isso acontecer comigo do jeito que você está deixando acontecer com você – uma maneira sorrateira e prejudicial de lidar com seu próprio medo da morte”.

+ Leia aqui a matéria Quando não há nada a fazer

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Recentemente o Instituto Oncoguia vem fazendo uma campanha sobre o que os pacientes gostariam de ouvir de familiares e amigos. E, claro, o que também prefeririam não ouvir.

Colhemos algumas respostas:

Quando a água chega no pescoço é que a gente aprende a nadar. Cabelo é o de menos; cabelo cresce, fulana morreu de câncer… Nada disso precisamos ouvir. Se fosse tão insignificante teríamos muitas carecas voluntárias por aí. Uma das alegrias do fim tratamento é quando o cabelo começa a crescer.
por @f_bolzan

Eu estou em tratamento, mas me sinto bem. Vou a festas de família e amigos mas sinto os olhares de pena das pessoas e isso me incomoda muito. Parece que só porque estou com câncer eu não tenho o direito de sorrir, me divertir.
por @rose_boaroli 

Acho que uma das coisas que mais me irritam é quando dizem é só cabelo, ele cresce. Dá vontade de dizer “raspa o seu, então”. É óbvio que cresce, mas nem todo mundo sente da mesma forma, as pessoas deveriam aprender a respeitar o sentimento do outro.
por @parmanhe 

Fico muito triste quando ouço a palavra “câncer” para substituir um grande problema. Por exemplo: falando sobre corrupção, a pessoa diz “isso é um câncer, não tem cura…” RESPEITO, por favor.
por @ariadnarrd 

Depois do tratamento e você sobreviveu, as pessoas acham que você pode ser sobrecarregada com os problemas do mundo, afinal suportou um câncer. Por favor, não coloquem mais cargas nas nossas costas. Superar o trauma às vezes é tão difícil quanto o tratamento em si.
por @ clesiaspl 

E ouvir “Nossa, tá com câncer? Isso é castigo” Não somos premiados e nem castigados com doença alguma, somos seres humanos e todos estamos sujeitos a adoecer.
por @alinedantas940 

(fonte: perfil do Instituto Oncoguia no Instagram / https://www.instagram.com/oncoguia)

Os depoimentos de quem já tratou ou trata o câncer trazem a importância da escuta – não só dos amigos e familiares, mas também de profissionais de saúde e pessoas que desejam se voluntariar em hospitais. É preciso estar atento ao outro e, principalmente, livrar a mente de pré-conceitos sobre a doença.

Com a campanha, o Instituto colhe os depoimentos e cria cartões semanais com as frases, disponibilizando informações qualificadas e incentivando um novo olhar sobre a doença. Muuuuuito bacana!

oncoguia

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