Doutores recomenda: Maratona Angu, em Recife

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A recomendação cultural desta semana traz um ator e palhaço que integra o Doutores da Alegria desde 2006.

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Arilson Lopes é coordenador artístico da unidade Recife e atua nos hospitais da cidade como Dr. Ado. Mas além da Besteirologia, Arilson também comemora os 15 anos do Coletivo Angu de Teatro, grupo atuante da cena teatral recifense que leva para o palco questões sociais, psicológicas e políticas, questionando valores de uma sociedade conservadora. Entre suas criações está Angu de Sangue, uma adaptação do premiado escritor Marcelino Freire.

De 29 de junho a 15 de julho, o grupo traz a Maratona Angu, uma mostra de seu repertório, ao teatro da Caixa Cultural Recife. O repertório inclui os espetáculos Angu de Sangue, Ossos e Ópera, além de oficinas gratuitas sobre técnica e pensamento teatrais que orientaram a trajetória do coletivo.

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A Caixa Cultural fica na Avenida Alfredo Lisboa, 505, no Recife Antigo. Os ingressos custam R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia entrada) e podem ser retirados na bilheteria (telefone (81) 3425-1900).

MOSTRA DE ESPETÁCULOS

Angu de Sangue – 29 e 30/06 às 20h e 1/07 às 17h e às 20h
(sessão das 17h com tradução em libras)
Multimídia, o espetáculo Angu de Sangue nasceu em 2004. De lá até aqui, a companhia já realizou dezenas de apresentações pelo país, sempre com o forte tom dramático que marca a produção literária do escritor pernambucano Marcelino Freire. As dez histórias que ganham o palco despertam emoções fortes na plateia, sugerindo questionamentos sobre solidão, desigualdade social, descaso e preconceito no cotidiano das grandes cidades.

Ossos – 6 e 7/07 às 20h e 8/07 às 17h e às 20h
(sessão das 17h com tradução em libras)
A obra de Marcelino mereceu mais um espetáculo do Angu (2016). Em Ossos, o espectador vivencia uma história de amor, exílio e morte, a partir da viagem do dramaturgo Heleno de Gusmão, que sob o pretexto de entregar os restos mortais de seu amante aos familiares, percorre um caminho tortuoso de lembranças e reencontro com suas origens.

Ópera – 13 e 14/07 às 20h e 15/07 às 17h e às 20h
(sessão das 17h com tradução em libras)

Quatro histórias do autor e dramaturgo pernambucano Newton Moreno, marcadas por uma crítica social contundente e que estimulam o questionamento de valores e dificuldades do nosso tempo, ganham o palco com Ópera. Estreado em 2007, o espetáculo investiga as possibilidades de cruzamento estético entre homoerotismo/sexualidade e teatro, a partir do compromisso com a dramaturgia e com a linguagem contemporânea. O conto que empresta o nome ao espetáculo, por exemplo, trata de um caso de submissão amorosa mantida entre um cantor de ópera e um garoto de programa. É encenado como um melodrama, uma micro ópera pós-moderna, fragmentada e com recursos de metalinguagem.

OFICINAS

Os interessados devem enviar currículo e carta de intenção para o e-mail infos.angu@gmail.com.

Mexendo com o pós-dramático – 1/07 das 9h às 13h
inscrições encerradas
Sob a orientação do diretor e cenógrafo do grupo, Marcondes Lima, e do ator Ivo Barreto, a oficina está estruturada nas dinâmicas de trabalho desenvolvidas pelo Coletivo, a partir de textos não escritos para teatro. A atividade de caráter prático, com abertura para reflexões e estudos teóricos, é voltada para atrizes, atores, diretoras e diretores iniciantes. 

O pensamento dos elementos visuais na cena – 8/07 das 9h às 13h
inscrições até 4/07 – divulgação dos selecionados em 6/07
Ministrado por Marcondes Lima, o minicurso vai compartilhar as sistemáticas de concepção dos elementos visuais (cenário, caracterização visual de personagens e iluminação) nos espetáculos do Coletivo, com enfoque maior sobre o trabalho em Ossos. Desafios criativos serão experimentados pelos participantes.

Operando sobre a arte da trucagem – 15/07 das 9h às 13h
inscrições até 12/07 – divulgação dos selecionados em 13/07
Exercícios práticos e estudos reflexivos sobre aspectos da cena queer, com foco no domínio de técnicas da arte transformista. É a proposta da oficina, que será facilitada por Marcondes Lima e pelo ator Arilson Lopes. Performers, estudantes de teatro, atores e atrizes profissionais, drag queens e simpatizantes do transformismo são o público-alvo da atividade.

Quem tem medo de palhaço?

De vez em quando encontramos com alguém que tem medo de palhaço. 

N., uma adolescente de 13 anos internada no Hospital M"boi Mirim, tem medo de palhaço. Quando isso acontece, levamos em consideração a coulrofobia (sim, esse é o termo para quem tem um medo irracional de palhaço) e nos afastamos imediatamente.

Em boa parte dos casos, esse afastamento nos impede de interagir com os demais pacientes do quarto. Mas o caso dela foi levemente diferente. Vendo ou intuindo que os demais pacientes estavam, ao contrário dela, atraídos por nossas figuras, N. solucionou momentaneamente a questão escondendo-se inteiramente debaixo das camadas de lençóis e cobertores de sua cama.

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Não tivemos, portanto, que abandonar o quarto. Imaginamos que essa tolerância parcial dela em relação à nossa presença abriria caminho para que, em nossa segunda visita, pudéssemos incluí-la em nossa intervenção. Nada feito. Eu e Dr. Pistolinha aplicamos nossa besteirologia em toda a criançada do quarto, menos nela, que novamente parecia melhor acolhida – e protegida – sob as cobertas.

Na terceira visita, algo mudaria. Após nosso bate-papo de “cara limpa” com a equipe de saúde, vimos N. na brinquedoteca, acompanhada de sua mãe e das brinquedistas. Como sempre, ali da porta cumprimentamos a todos, e por todos fomos cumprimentados. Todos nos disseram “bom dia”, inclusive a menina. Será que ela não nos reconheceu?, nos perguntamos. 

– Eu sei quem são vocês, disse ela.
– Sabe? E não tem medo?
– Assim de cara limpa, não.
– Podemos entrar, então?
– Claro.

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E os quinze minutos seguintes se desenrolaram pacificamente sem que a sombra da fobia de N. pairasse no ar. A adolescente nos explicou que tem medo quando estamos maquiados, mesmo reconhecendo que as maquiagens são mínimas. Ela conseguiu abordar o tema do medo sem constrangimento. Disse que às vezes até ria embaixo das cobertas, mas que era impossível nos encarar como palhaços. 

Acontece que aquela visita, de cara limpa na brinquedoteca, aos poucos foi se tornando uma intervenção palhacesca. Mesmo vestidos “à paisana”, nossa interação tornou-se cômica e, a partir das reações da menina e dos demais presentes, nos comportamos como verdadeiros palhaços… Sem maquiagem… Sem nariz vermelho… E sem jaleco branco. Tudo isso foi tacitamente aceito e retribuído por risos e provocações. Saímos com uma sensação de “missão cumprida”, ou ao menos de “missão bem contornada”. 

Evidentemente, pensávamos com afinco em como seriam os encontros dali a pouco com a menina agora que já tínhamos quebrado o gelo e, mais do que isso, nos aproximado com certa profundidade de suas fobias. A única diferença é que agora estávamos como palhaços “oficiais”, maquiados e vestidos como tais. Enfim, um detalhe, concordam?

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Não sei como vocês imaginam que foi nosso encontro dessa vez. Um encontro entre coulrofóbicos e palhaços. Inusitado? Tenso? Descontraído? Indiferente? Hilário? Bem, não houve encontro. 

Assim que ouviu nossas vozes, nossos instrumentos musicais e nossas figuras de palhaço despontando no corredor, N. foi para debaixo das cobertas. Nos perguntamos, com certa decepção, se nosso contato prévio, de cara limpa, de nada tinha adiantado. Certamente adiantou para aquele momento franco e saudável na brinquedoteca. Provavelmente não se estendeu, como imaginávamos em um cenário ideal, para o momento posterior, de palhaço. 

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Da decepção passamos à resignação e, quem sabe, até mesmo à motivação. Afinal, estamos longe de atuar em cenários ideais. E mais uma vez aprendemos ao constatar que a fobia dos outros, por mais estranha que nos possa parecer, deve ser encarada com respeito e observação apurada. Não estamos tratando de questões racionais, lógicas e previsíveis. A menina nos ensinou isso. 

Nosso papel, se não é o de diminuir tal sofrimento, é, ao menos, o de não aumentá-lo. Ficamos longe delas. E de longe pensamos em como somos complexos, todos: ela, nós, você e eu.

Nereu Afonso, mais conhecido como Dr. Zequim Bonito,
atua no Hospital M"boi Mirim, em São Paulo.

Doutores recomenda: “Se fosse fácil, não teria graça”, de Nando Bolognesi

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Nando Bolognesi, ou Palhaço Comendador Nelson, integrou o elenco do Doutores da Alegria há alguns anos.

Aos 21 anos, ele descobriu ser portador de esclerose múltipla. Hoje, aos 47 anos, ele traz mais uma vez para o Teatro Tucarena, em São Paulo, o espetáculo Se fosse fácil não teria graça, em que relata como superou as dificuldades da doença degenerativa e incurável. A temporada corre de 1 a 30 de julho, às sextas, sábados e domingos.

Nando usa a experiência como palhaço na vida real para contar, de maneira emocionante e divertida, como tem enfrentado as situações mais corriqueiras. Nesta tragicomédia, já assistida por mais de 20 mil pessoas, ele provoca risos e emoção ao mostrar como dificuldades podem ser transformadas em alegrias, desafios e realizações, e convida a refletir sobre a vida, a morte e a existência humana.

E com a intenção de realizar uma temporada da peça totalmente independente, foi criada uma campanha colaborativa neste site.

Onde, quando?

De 1 a 30 de julho de 2017
Sextas e sábados às 21h e domingos às 18h

Teatro Tucarena – Rua Monte Alegre, 1024 – Perdizes, São Paulo
Duração: 80 minutos
Indicação de faixa etária: 14 anos
Capacidade: 176 lugares
Ingressos: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia entrada) e R$ 15 (estudantes, professores e funcionários da PUC)
bilheteria: terça-feira a domingo das 14h às 20h
www.ingressorapido.com.br 
(11) 4003-1212

Cinco coisas que você não sabia sobre Doutores da Alegria

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Está lançado o desafio: você sabia de todas essas particularidades do nosso trabalho?

1. Os palhaços não são médicos, são artistas.

A figura do médico foi a nossa inspiração, mas os artistas são formados em áreas das Artes Cênicas, com especialização na linguagem do palhaço. 

Fazemos uma paródia do médico, a figura de maior autoridade nos hospitais, justamente para criar um contraponto na relação com as crianças. Os palhaços se apresentam como besteirologistas e a diferença também se dá na disposição de cada um – o médico se prepara para o acerto; o palhaço, para o erro. 

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2. O trabalho é gratuito para os hospitais, mas não é voluntário.

Doutores da Alegria nasceu com uma vocação artística; estamos comprometidos com a linguagem do palhaço.

Nos hospitais, atuamos em quase todos os setores que dizem respeito à pediatria, do Pronto Socorro à UTI, por 12 horas semanais. Além das intervenções nos hospitais duas vezes durante a semana, os artistas participam de treinamentos todas as sextas-feiras na sede e fazem ensaios para espetáculos. Exigimos comprometimento e profissionalismo.

A maneira como optamos por nos estabelecer, valorizando o trabalho profissional, foi para gerar conhecimento e legado para futuras gerações. Assim, todos os artistas que atuam na associação são remunerados, mas o trabalho é oferecido de forma gratuita para os hospitais e o público beneficiado. 

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3. Nossa inspiração não foi Patch Adams.

Apesar de aparentes semelhanças entre a associação Doutores da Alegria e o ativista Patch Adams, há muitas diferenças na sua forma de atuação.

Ambos beberam da mesma fonte, que é a arte do palhaço. Patch Adams é formado em Medicina e utilizou a linguagem do palhaço para qualificar a sua atuação junto a crianças hospitalizadas. Seu método é terapêutico, ou seja, ele se propõe a levar amor às crianças e se utiliza da comicidade para promover a cura e o bem estar.

Doutores da Alegria, fundada pelo ator Wellington Nogueira em 1991, foi inspirada na iniciativa Clown Care Unit, de Nova York (EUA), que entendia o hospital como um palco possível para o palhaço. Temos um grupo de artistas especialmente treinados que realizam intervenções cênicas em leitos pediátricos de hospitais públicos, mas sem fins terapêuticos. O objetivo é inspirar relações humanas.

São joãozinho - Restauração -   Lana pinho-33

4. Temos uma Escola.

A Escola dos Doutores da Alegria surgiu em 2007 como uma escola de arte, com pedagogia própria no ensino da máscara do palhaço. Ela atua na formação de públicos diversos – desde voluntários de grupos semelhantes a profissionais que queiram exercitar a criatividade – e também de artistas para intervir em palcos diversos, improváveis, onde as escolhas os levarem, como o hospital.

Entre as iniciativas da Escola destaca-se o Programa de Formação de Palhaço para Jovens que oferece a jovens de 17 a 23 anos, em situação de vulnerabilidade social, uma iniciação na carreira artística voltada à linguagem do palhaço.

oficina doutores - Lana Pinho-10

5. Somos uma associação, não um grupo.

Com sede em São Paulo e unidades em Recife e Rio de Janeiro, a associação Doutores da Alegria conta hoje com 64 colaboradores, entre artistas e equipe técnica. Todos são remunerados e trabalham de forma não voluntária.

Como uma associação da sociedade civil sem fins lucrativos, Doutores da Alegria possui certificações próprias de entidades civis e prêmios de reconhecimento, além de parcerias com os setores público e privado.

DOUTORES DA ALEGRIA_2017 - DNG

E aí, ficou surpreso? Se tiver alguma dúvida sobre o nosso trabalho, acesse as perguntas frequentes ou mande um sinal de fumaça ;)

A peleja do noivo que tentou enganar a noiva na Festa de São João ou vice-versa

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Em pleno mês de São João e com a inspiração em alta, depois do cordel de despedida dos profissionais de saúde, os palhaços levaram aos hospitais do Recife uma criação inusitada.

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Trata-se de “A peleja do noivo que tentou enganar a noiva na Festa de São João ou vice-versa”. Criado por Arilson Lopes e encenado pelo elenco pernambucano do Doutores da Alegria, o cordel tem sido motivo de aplausos e gargalhadas nos hospitais. Pra quem não sabe, a literatura de cordel é um gênero literário popular que se dá na forma de rimas cadenciadas. Olha só um trecho com a Dra. Baju e o Dr. Marmelo e acompanhe, abaixo, o cordel inteiro. 

 

Cordel São Joãoilustração: Luciano Pontes | produção: Nice Vasconcelos

 

Bom dia, meninada
Meu sinhô, minha sinhora!
Puxe o banco e sente logo
Se avexe, sem demora
Porque tô aqui doidinho
Pra contar essa história

Tanto tempo encalhado
Marmelo se aperriô
Fez promessa pra Antônio
O santinho protetô
Pra arranjar casamento
E acabar com sua dor

Em troca daria ao Santo
Na festa de São João
Uma peruca novinha
Coisa fina, de barão
Contanto que em sua busca
Não houvesse confusão

É que Marmelo era frouxo
Feito chapa sem Corega
Tinha medo de injeção
De barata, de pereba
Mas dizia que com ele
Não tinha choro nem vela

Amuntô em Dud Grud
Seu jumento Alazão
Partiu no mundo sem rumo
Seu guia era o coração
Encontrou três faladeiras
Fuxiquinha, Fuxiqueira e Fuxicão

Contou ao trio seu dilema
Que se apressou a falar
Entoou o seu refrão
Ô ô xá lá lá lá lá
E disse: “Quem tu procura
Mora na casa acolá”

Marmelo avistou de longe
A casinha de Baju
Imendaram as fuxiqueira
“Uma flor de mandacaru
É uma moça aprumada
Dava certinho mais tu”

Ele arriô de Alazão
Se aproximou de fininho
E ao chegar no pé da porta
Se assustou com um passarinho
Que fugia da donzela
Ía depressa pro ninho

Caiu de bunda no chão
Bem na frente de Baju
Que apontou o estilingue
Pra ele, não pro anum
O coitado atrapalhado gritou
“Vim casar com tu”

Ela nem contou conversa
Aceitou o compromisso
Se afeiçoara a Marmelo
Seu cabelo de ouriço
O seu nariz engraçado
E seu ar de pouco juízo

Nasceram um para o outro
Como o sapo é pra jia
Como o leão pra leoa
Como a torneira é pra pia
A baleia pra baleia
O Tonico pro Tinoco
E o riso pra alegria

Baju correu lá pra dentro
Voltou trazendo um vestido
Branco, já amarelando
De mofo um pouco fedido
Pendurou pra levar sol
Tudo certo pro casório
Só faltava o pedido

“Ôxe, outro?” – Ele indagou
Ela explicou então:
“Oficialize o pedido
Peça a meu pai minha mão
Ele saiu, volta já
Dele já ouviste falar
É Mircolino Lampião”

Ouvindo o nome do sogro
Marmelo pôs-se a tremer
Seu cabelo arrupiô
Se preparou pra correr
Fingindo pediu: “Tem água?
Queria tanto beber…”

Ela atendeu seu pedido
E foi lá dentro buscar
Marmelo desesperado
Não parava de suar
Se aproveitou do momento
Amuntô-se em seu jumento
E fugiu pro Arraiá

Atrapalhado, Marmelo
Se enganchou no vestido
Pendurado no varal
Na pressa o levou consigo
Pensou: “Me visto de noiva
pra escapar do perigo”

Baju voltou com a água
E tudo se apresentou
O noivo tinha fugido
Feito o anum que voou
Pro pai contou num bilhete
E partiu feito foguete
No rastro do seu amor

No Arraiá era dia
De fogueira de São João
Tudo pronto pra festança
Era certa a animação
Marmelo, agora de noiva,
Se escondeu no salão

Baju chegou em seguida
Reconheceu Alazão
Pensou “Tô pertinho dele
Esse sujeito cagão
Que tem medo do meu pai
Mircolino Lampião”

Parou no meio da praça
Conteve a respiração
Não sabia o que fazer
Qual seria a solução
Encontrou com as faladeiras
Fuxiquinha, Fuxiqueira e Fuxicão      

- “Mulé, que foi? Fale logo!”
- “Adoro uma confusão”
- “Tô procurando um sujeito!”
- “Sujeito tem de montão”
- “Tem gordo, baixo, comprido”
- “Tem até um de vestido”
- “De noiva, num visse não?”

Ouvindo isso correu
Deixou o trio sem ação
Procurou o Rei do Milho
Que tava na ocasião
Era amigo de infância
Quase irmão de criação

Pediu a ele emprestado
Camisa, calça, gibão
Ela se vestiu de noivo
Tinha achado a solução
Casava com a noiva Marmelo
E acabava a confusão 

 

O Rei do Milho cedeu
Aos caprichos de Baju
Emprestou a melhor roupa
“Óia, foi feita pra tu!”
Lui é o nome dele
Vibrava com o buruçú

Ela foi de um em um
E nada de encontrar
Perguntou pras fofoqueira
As espiãs do lugar
Que foram logo apontando:
“Ô ô xá lá lá lá lá
Aquele que tu procura
Correu pro lado de lá”

De repente, ouviu-se um grito
De voz conhecida por lá
Mircolino Lampião
Chegava pra clarear
Ía encontrar o danado
No escuro que tivesse
Pra fazer ele casar

Mircolino assim cantava:
“Ói eu aqui de novo xaxando
Ói eu aqui de novo para xaxar”
Todo mundo acompanhava
Cantava e procurava
Ninguém podia parar

O pai escutara a fofoca
Tinha lido o bilhete
Já sabia a trama toda
Da palha ao alfinete
Praquele que o ajudasse
Ele pagava um sorvete

Esse era um homem bom
Brincalhão, era um ator
Ía gritar a quadrilha
Foi pra isso que chegou
Aí entrou na esparrela
Pra ajudar sua flô

Baju foi até seu pai
Disfarçada de menino
Se revelou só pra ele:
“Tenho um plano, segue o tino,
Sei onde tá Marmelo
Vou selar nosso destino”

Arrudiaram o salão
Até num canto encontrar
Uma noivinha amuada
Nem sabia disfarçar
Baju falou para o pai:
“Olha o que eu achei aqui!”
Ele pôs-se a interrogar

- “Como é teu nome?”
- “É Marmela, mas isso só pro sinhô”
- “Mulé de bigode, Marmela?”
- “É buço! Faça o favor!”
- “E esses cabelos na perna?
Faz tempo que depilou!”
- “Eu sou assim cabeluda!
É de família, um horror!”

- “Não adianta enganar
Eu já sei quem é você!”
- “E quem sou eu? Diga não!
Tenho medo de morrer!”
- “Pois se seu medo for esse
Vamo logo resolver!”

Baju se jogou no meio
Entre o pai e o seu amor
Tava tudo combinado
Só pra fazer o caô
Ela rogou pela vida
Daquele que a enganou

Marmelo se emocionou
Com a coragem de Baju
Disse: “Êpa, corri com medo
Do teu pai, num foi de tu!
Caso contigo agorinha
Te procurei norte a sul”

“Se ele poupar minha vida
E aceitar nosso amor
Pago a promessa pro Santo
Num sou de dever favor
E a festa acontece
Com alegria e fervor”

Santo Antônio apareceu
Na festa de São João
Trouxe São Pedro consigo
Cobrou peruca e quentão
Marmelo pagou a dívida
E acabou-se a discussão

“Solta o rojão!” – gritou Lui
“E bota esse trio pra tocar”
As fuxiqueiras gritaram:
“Ô ô xá lá lá lá lá
Forró só se for agora
Pegue seu par, vem dançar!”

Dud Grud entrou na roda
Já não era mais jumento
Agora ele era fogueira
Um bom papel pro momento
Se acendeu tocando fogo
Nos cabelo que trazia
No sovaco fedorento

Esse causo assim contado
Dá até pra encenar
Eita, tive uma ideia!
Vamo levar pro hospitá
Vai ser bonita essa peça
As criança vão gostar

Nós é Dotô da Alegria
Tu já ouvisse falar?
Sim! Da besteirologia
Uma ciência arretada
Depois te conto, ôto dia
Hoje o assunto é São João
São Joãozim, como eu diria

Vixe, o traque estourô
Tenho que subir agora
Até logo, meninada!
Meu sinhô, minha sinhora!
Já demorei o bastante
Desenrolando essa história
É tudo coisa inventada
Mas tá no sangue, é memória

Cresci menino com isso
Com a festa de São João
Colheita, comida de milho,
Quadrilha, forró, tradição
Vi tudinho aqui de cima
Prazer, me chamo Balão!

Eita, tá ouvindo?!

“O Balão vai subindo
Vai caindo a garoa
O céu é tão lindo
A noite é tão boa
São João, São João
Acende a fogueira
Do meu coração
São João, São João
Acende a fogueira
Do meu coração”

 

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Todo dia ela faz tudo sempre… Igual?

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Toda segunda e quarta trabalhamos no Instituto da Criança, em São Paulo.

Como este hospital é muito grande e complexo, temos dois itinerários diferentes, com duas duplas de palhaços. Ou seja, somos quatro palhaços dentro das veias pulsantes deste hospital no coração da cidade.

Meio pessoa, meio palhaço 

Pela manhã, chegamos e cumprimentamos as moças que ficam na recepção e vamos para uma salinha onde ficam nosso figurino, maquiagem e utensílios médicos besteirológicos. Entenda-se por isso instrumentos musicais, bolhas de sabão e outros objetos inusitados como galinha de plástico, máquina fotográfica de brinquedo, flores de tecido e até uma calçola tamanho GG furada.

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Fotografia dos Doutores da Alegria no Hospital do Campo Limpo/SP.

Já neste meio tempo, que leva em média meia hora, encontramos muitas pessoas e nos relacionamos com cada uma delas, seja por um aceno ou um bom papo matinal com os mais chegados. E isso ainda em processo, meio “pessoa gente”, meio palhaços. 

PS, enfermaria, UTI…

Depois, já totalmente caracterizados como Dr. Dadúvida e Dra. Pororoca, partimos rumo ao Pronto Socorro. Muitos amigos por lá, equipe calorosa. Em alguns dias cheio de pacientes, médicos, residentes, enfermeiros e outros profissionais; em outros o movimento e a intensidade estão mais brandos e até certa tranquilidade paira no ar. A verdade é que, na maioria das vezes, até o corredor vira lugar para maca e paciente

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De lá, seguimos de elevador para o terceiro andar, na ala destinada aos convênios. Outro ambiente, outra arquitetura, outra disposição de quartos e pacientes. Outros parceiros, parceiras. Começamos com nossa conversa sobre o número de pacientes no dia, o que se repete em cada novo ambiente que chegamos, e especificidades sobre os quartos. Logo partimos para uma prosa mais pessoal, um comentário sobre o penteado novo de uma enfermeira, uma brincadeira com a moça da limpeza, e assim começamos os atendimentos. 

Subimos um lance de escada e no quarto andar temos a Enfermaria. Farra garantida com os profissionais de lá… Encontramos enfermeira que samba, enfermeiro sorridente e cantor, pacientes que ficam bastante tempo no hospital e, por conta disso, acabamos construindo muitas e muitas histórias juntos. São sempre 21 crianças internadas, o máximo que pode acontecer é terem 20, mas sempre com alguém por chegar. 

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De lá, no mesmo quarto andar, partimos para a temida e gelada (sim, lá é muito frio!) UTI. Ali soam apitos e outros sons, deixando uma música permanente no ar. Mas por baixo da seriedade e gravidade do ambiente, encontramos espaço para o olhar e a delicadeza, e até por que não dizer, para a bobeira. Saindo da UTI pegamos carona no elevador e voltamos para a salinha onde tudo começou. 

Toda segunda e quarta

Uma jornada diária, como tantos outros profissionais fazem naquele complexo-complexo-hospitalar. Risadas, lágrimas, tristeza, esperança, cansaço, mal humor, amor, dor, espanto, desdém, compaixão, afeto, raiva, doença, saúde, vida e morte.

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Toda segunda e quarta o mesmo itinerário, toda segunda e quarta conhecemos pessoas novas, toda segunda e quarta reencontramos pessoas. Toda segunda e quarta. Ou quarta e segunda, como bem gostamos de lembrar. Tudo sempre igual, mas cada dia, um dia diferente.

Dra. Pororoca, mais conhecida como Layla Ruiz,
escreve do Instituto da Criança, em São Paulo.

A solidão e as lembranças que carregamos

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Nesta semana uma senhorinha internada me perguntou: Como é uma UTI? Eu nunca vi”.

A pergunta transparecia o medo de em breve precisar ir a esse lugar. A UTI nunca vista e, provavelmente, imaginada como um lugar frio e silencioso. Sobretudo, a senhorinha tinha medo da solidão, de ficar sem a família. Medo de não ter quem segure sua mão, como dizia Clarice Lispector. 

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Tentei acalmá-la: falei dos profissionais que sempre estão lá, monitorando os pacientes. Falei que a todo tempo passa um médico pra lá, uma enfermeira pra cá, uma auxiliar de limpeza que recolhe coisas enquanto canta uma música. Não sei se essa informação confortou aquele coração amedrontado, porque apesar de todas as pessoas que circulam por lá, o que ela queria mesmo era saber se ao acordar na UTI veria um rosto conhecido, que ajudasse a lembrar do quintal de sua casa, do baile que frequentou na adolescência, do cheiro do bolo assado dos sábados, do aconchego dos amigos, do carinho de sua mãe. 

Coisas boas de lembrar. Lembranças que também curam.

Eu não pude falar para aquela senhorinha, naquele momento, de duas crianças que por hora moram na UTI do Hospital Barão de Lucena. Dois bebês de alguns meses de vida. Estão na UTI, mas não há quem venha lembrá-los de outros dias mais propícios, porque não há ninguém que os acompanhe. Eles não têm família.

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Com apenas alguns meses de vida, já estão naquele lugar onde a senhorinha de cabelo branco tem medo de ir. Um berço ao lado do outro. Dois bebês de origens distintas, que se encontraram nesse ponto de interseção da vida: companheiros da mesma UTI pediátrica. Sozinhos. 

Colocamos o nariz vermelho, vestimos o jaleco branco onde se lê “Doutores da Alegria”, entramos na UTI, cantamos e dançamos para aquelas duas pessoinhas. Será que se sentem sozinhos? Automaticamente, por reflexo, seguro a mão de um deles por um momento. Enquanto cantamos, seus olhos seguem nossos movimentos, vemos uma mãozinha se erguer no berço tentando agarrar um instrumento percussivo, depois ao lado uma cabecinha se vira para seguir o som da música – percebe quando vamos mais pra longe, quando chegamos mais pra perto.

Eles também têm medo? Procuro olhá-los nos olhos.

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Nesse momento alguém começa a filmar a reação dos pequenos. Médicos e enfermeiras se acercam e os chamam pelos nomes – há muita afetividade ali. Sentimos o tempo sobrelevar e parar, para que duas palhaças sejam os “rostos conhecidos” daqueles pequenos.

Nós, duas palhaças, desejamos com nosso ofício, lembrá-los dos muitos dias propícios, que ainda virão.

Desejamos que eles não sintam medo, nem solidão, nem tristeza, ou qualquer dessas coisas-de-gente-grande-que-não-são-coisas-de-criança. Desejamos tanto que eles lembrem o quintal da casa que terão, o baile que ainda frequentarão, o aconchego dos futuros amigos e os bolos quentes nos dias de chuva. Nós somos apenas duas bobas e não sabemos se tudo que desejamos acontece. É por isso que seguimos desejando até agora.  

“Receba o mundo sem medo,
pois para esse mundo incompreensível nós fomos criados
e nós mesmos também incompreensíveis”
Clarice Lispector 

Dra. Monalisa, mais conhecida como Greyce Braga,
escreve do Hospital Barão de Lucena, no Recife.
 

Da cura para o cuidado: precisamos falar sobre isso

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Depois de anos trabalhando como psicóloga em unidades pediátricas de cuidados intensivos, a americana Kathy Hull se deparou com uma enorme frustração. 

Durante sua carreira, viu muitas mortes indignas de crianças e tudo o que seus familiares tinham que suportar. Em 2004, Kathy fundou nos Estados Unidos o George Mark Children"s House, primeiro centro de repouso e cuidados paliativos para crianças.

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A área da Medicina que trabalha com cuidados paliativos vem pouco a pouco ganhando relevância no mundo. Trata-se de uma abordagem ou tratamento que melhora a qualidade de vida de pacientes e familiares diante de doenças que ameacem a continuidade da vida.

A origem do cuidado é antiga: na Idade Média os hospices (hospedarias) eram comuns em monastérios, abrigando doentes, famintos, mulheres em trabalho de parto, pobres, órfãos e leprosos. Mais do que a busca pela cura, o objetivo era o acolhimento e o alívio do sofrimento.

O Reino Unido é referência na área. Em 1967, foi fundado o St Christopher"s Hospice, primeiro lugar a oferecer cuidado integral ao paciente, desde o controle de sintomas ao alívio da dor e do sofrimento psicológico. Hoje, há muitos centros como este na Inglaterra.

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Em um emocionante vídeo para o TED Talks, Kathy Hull conta algumas histórias de crianças que passaram pelo centro de repouso.

“Essas famílias estavam passando por alguns dos momentos mais dolorosos de suas vidas. Com certeza, pensei, deve haver um lugar melhor que a unidade de terapia intensiva de um hospital para as crianças no fim de suas vidas. Em vez de quartos luminosos e barulhentos de hospital, os quartos são silenciosos e confortáveis, com áreas de moradia para as famílias, jardins que são refúgios, e um maravilhoso playground externo feito especialmente para crianças com limitações físicas.”, conta ela.

 (clique para assistir e selecione, no canto da tela, a legenda em português)

É sabido que os cuidados paliativos diminuem custos dos serviços de saúde e trazem enormes benefícios aos pacientes e seus familiares. Aqui no Brasil, os primeiros serviços organizados, ainda de forma experimental, surgiram na década de 80. Segundo a Academia Nacional de Cuidados Paliativos, ainda há uma lacuna na formação de profissionais de saúde e um enorme desconhecimento sobre o tema. O atendimento paliativo é confundido com eutanásia e há uma barreira em relação ao uso de opioides, como a morfina, para alívio da dor. 

Em 2013, o Brasil ganhou seu primeiro hospice pediátrico, localizado em Itaquera, na zona leste de São Paulo. Fundado pela Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer (TUCCA), o Hospice Francesco Leonardo Beira atende à Oncologia Pediátrica do Hospital Santa Marcelina.

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São direcionados para lá os pequenos pacientes em estado terminal e que não possuem condições sociais e médicas de ficar em sua própria casa, necessitando de auxílio e cuidados especiais, em um ambiente com todos os recursos necessários e na companhia de seus familiares. O atendimento é gratuito.

“Poucas pessoas querem falar sobre a morte, e menos pessoas ainda sobre a morte de crianças.”, afirma Kathy Hull, enfática sobre a importância da abordagem dos cuidados paliativos. E finaliza: “A transição da cura para o cuidado é ainda muito desafiadora para muitos médicos, cujo preparo tem sido para salvar vidas, e não para gentilmente levar o paciente até o fim da vida. O que podemos controlar é como vivemos nossos dias, os espaços que criamos, o sentido e a alegria que causamos. Não podemos mudar o desfecho, mas podemos mudar a jornada.”

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